As Casas de Armas de Isher
McAllister percebeu que estava deitado numa calçada.…
INTERLÚDIO
McAllister percebeu que estava deitado numa calçada. Via um grupo de pessoas à sua volta olhando com curiosidade. Pôs-se de pé. Não via mais a cidade mágica, nem o parque do futuro. Em vez disso, uma fileira de casas de um andar, feias, de cada lado da rua.
Percebeu uma voz, no meio do murmúrio geral, dizendo:
- Tenho certeza de que é o repórter que entrou naquela loja de armas.
Então havia voltado ao seu próprio tempo. Talvez até ao mesmo dia. Enquanto se afastava lentamente ouviu a mesma voz dizendo:
- Parece doente. Gostaria de saber...
Não escutou mais nada. Mas estava pensando: "Doente!" Eles nunca saberiam o quanto estava. Mas em algum lugar do mundo devia haver um cientista que pudesse ajudá-lo. O importante era que não tinha explodido.
Agora estava andando mais depressa, longe da multidão. Olhando para trás viu o grupo dispersar como faz uma multidão quando perde o centro de interesse. McAllister virou uma esquina e os esqueceu.
- Tenho que me decidir.
As palavras soaram altas, muito perto. Precisou de um momento até perceber que as tinha dito.
Decidir? Não tinha pensado que sua situação requeria uma decisão. Ele tinha voltado. Agora, achar um cientista... Se isto era uma decisão, já estava tomada. A pergunta era, quem? Lembrou-se de seu velho professor de física. Automaticamente, procurou uma cabine telestática e pegou numa moeda. Então lembrou-se, com um profunda mal-estar, que estava vestido com a roupa invisível, e que o dinheiro estava dentro. Recuou, abalado. O que estava acontecendo?
Era de noite, numa cidade iluminada. Estava numa avenida larga, que se perdia na distância. O asfalto da avenida brilhava suavemente - uma estrada de luz, como um rio fluindo em direção de um sol invisível, um rio reto e suave.
Caminhou sem compreender, por alguns minutos, lutando para conter uma esperança vã. Finalmente, um pensamento forçou o caminho através de sua mente: Estaria novamente na época de Isher e dos fabricantes de armas? Podia ser. Pelo menos era o que parecia. E significaria que eles o trouxeram de volta. Apesar de tudo, não eram maus e o salvariam se fosse possível. Pelo que podia perceber já haviam passado semanas do tempo deles.
Começou a correr. Tinha que achar uma loja de armas. Passou por um homem e o chamou. O homem parou, curioso, depois prosseguiu seu caminho. McAllister teve a breve visão de olhos intensos, escuros e a visualização de alguém a caminho de um maravilhoso lar do futuro. Foi isto que suprimiu o seu impulso de correr atrás do homem.
Mais tarde achou que devia tê-lo feito. Foi a última pessoa que viu em todas estas ruas quietas e desertas. Era talvez a hora do amanhecer, quando ninguém está na rua. O que estranhou mais do que não encontrar ninguém na rua, foi a ausência de lojas de armas.
Apesar disso, a esperança não o abandonava. Breve seria de manhã. Homens sairiam dessas casas estranhas e luminosas. Grandes cientistas, sábios de outras eras, o examinariam, não às pressas e com medo, mas calmamente, em superlaboratórios.
O pensamento terminou. Sentiu a mudança.
Agora estava no centro de uma tempestade de neve. Cambaleou, golpeado pela violência do vento. Lutava por manter a calma física e mental.
A cidade maravilhosa havia desaparecido. Também desaparecera a avenida luminosa. Tudo transformado naquele mundo selvagem e mortal. Era de dia. Através da nevasca, podia distinguir algumas árvores a uma pequena distância. Instintivamente, procurou caminhar na direção delas, em busca de abrigo. Pensava: "Um minuto no futuro distante; o próximo - onde?"
Não havia nenhuma cidade. Só árvores, uma floresta hostil e o rigoroso inverno. Não sabia quanto tempo ficara ali enquanto rugia a tempestade. Teve tempo para alguns pensamentos; por exemplo, que a roupa invisível o protegia do frio, que não estava sentindo o frio; e depois...
Desaparecera a tempestade. E as árvores. Estava numa praia, de pé na areia e à sua frente via o mar azul iluminado de sol, encrespando-se entre edifícios brancos, destruídos. Por toda parte, dentro do mar, na praia, nas encostas das colinas, estavam, as ruínas de uma cidade enorme. Sobre tudo isso estendia-se uma aura de idade incrível, e o silêncio milenar só era quebrado pelo marulhar das ondas.
De novo a transposição instantânea. Mais preparado desta vez, mesmo assim afundou duas vezes nas águas do caudaloso rio que o carregava. Era difícil nadar, mas a roupa invisível estava cheia do ar que fabricava, a cada minuto que passava. Depois de um momento, resolveu nadar em direção da margem à sua direita. Ocorreu-lhe um pensamento e parou de nadar. "Para quê?" A verdade era tão simples quanto terrível. Ele estava sendo jogado do passado para o futuro. Ele era o "peso" na extremidade mais longa de uma alavanca energética; e de certa forma estava sendo arremessado cada vez mais longe no tempo. Só isso podia explicar as catastróficas mudanças que já havia presenciado. Dentro de uma hora haveria outra mudança.
E veio. Estava deitado num gramado verde. Quando olhou em volta, viu meia dúzia de casas baixas no horizonte. Pareciam estranhas, pouco humanas. Uma pergunta o consumia: Gostaria de saber quanto tempo ficaria em cada uma dessas épocas.
Passou a controlar no relógio. A demora era de duas horas e quarenta minutos. Parou de se perguntar. Período após período, a gangorra o fazia dançar no tempo, porém ele mantinha uma só posição, na água ou em terra firme, era-lhe indiferente. Não lutava mais. Não andava, corria, nadava ou mesmo se sentava... Passado - futuro - passado - futuro...
Sua mente estava voltada para dentro. Tinha a sensação vaga de que devia fazer alguma coisa, dentro de si, não fora. Como uma decisão que devesse tomar. Estranho, não conseguia lembrar qual era.
Sem dúvida, os Fabricantes de Armas conseguiram a prorrogação de que necessitavam. Porque na outra extremidade desta alavanca, estava a máquina usada pelos soldados de Isher como força ativadora. Também ela dançava no passado, no futuro, nesta gangorra infernal.
Mas havia a decisão. Tinha que tentar, tinha que se lembrar...
CAPÍTULO DÉCIMO
16 de julho de 4784. Era de Isher, 23h50m - Hotel Royal Ganeel.
Robert Hedrock saiu do Departamento de Coordenação e andou pelo corredor feericamente iluminado que se estendia a perder de vista. Seu andar tinha a leveza vigilante do de um felino mas, na realidade, seus pensamentos estavam bem longe do hotel onde estava instalado o quartel-general da liga dos Armeiros.
Há mais de um ano, ele pedira para ficar ali, argumentando que acreditava num iminente conflito com o governo e queria ficar ao lado dos Fabricantes de Armas quando a crise explodisse. Seus documentos estavam em ordem, o índice mental, físico e moral que a máquina Pp lhe atribuiu era tão elevado que seu dossiê foi imediatamente enviado à comissão executiva, que lhe confiou sem vacilar uma missão excepcional.
Hedrock não ignorava que muitos membros do conselho e inúmeras personalidades altamente colocadas, achavam que a rapidez de sua ascensão era contrária aos interesses superiores da organização. Alguns o achavam mesmo um tanto misterioso. Todavia, essas reservas não eram maldosas. Ninguém, na verdade, pensava em discutir o veredito da máquina Pp, o que fazia Hedrock ficar às vezes espantado. Um dia ele examinaria mais cuidadosamente a máquina para saber por que indivíduos normalmente desconfiados aceitavam suas decisões sem reclamar.
Enganar o mecanismo com uma história cuidadosamente elaborada, revelou-se de uma simplicidade infantil. Claro, ele possuía capacidade de controle psíquico fora do comum e seu conhecimento das reações das máquinas de processo biológico era excepcional. Além disso, as relações de amizade que ele mantinha com os Armeiros tinham desempenhado um papel preponderante na sua promoção. A máquina Pp, concluiu, era equipada com os mesmos circuitos de sensibilidade que permitiam às portas das lojas de armas perceber a hostilidade oculta. Além disso, ela dividia com as superarmas a faculdade de decisão, contida na sua estrutura: elas só matavam em legítima defesa; seus sentidos eletrônicos, incrivelmente afinados, estavam aptos a detectar as diferenças de reação mais tênues, manifestadas pelas pessoas submetidas ao seu exame. Esse aperfeiçoamento ainda não existia na época em que Hedrock juntou-se à liga, há uma centena de anos. Na medida em que a segurança dos Armeiros dependia exclusivamente da máquina, era indispensável que o coordenador, o único humano dotado do privilégio da imortalidade, tivesse a certeza de que a confiança dos Fabricantes de Armas, seus amigos, era justificada.
Mas cuidaria disso mais tarde. No momento, problemas mais urgentes o assaltavam. Precisaria determinar uma linha de ação num futuro ainda impreciso, sem dúvida, embora próximo - próximo demais para seu gosto.
A primeira ofensiva em grande estilo lançada pela Imperatriz obrigara a organização a fechar suas lojas nas grandes cidades. Mas isso não passava de coisa secundária em relação ao problema do "pêndulo" temporal. E Robert Hedrock era o único indivíduo qualificado para tomar uma decisão a esse respeito. Ora, por enquanto não tinha a menor idéia da maneira pela qual abordaria o assunto.
Parou diante de uma porta onde havia uma tabuleta: "PARTICULAR – ENTRADA RESERVADA AOS DIRETORES". Bateu, esperou alguns segundos e, sem mais formalidades, entrou numa sala estranha. Não muito grande, segundo as normas isherianas, mas notavelmente ampla e cuja porta era o elemento mais insólito, pois achava-se exatamente a trinta metros do chão e a trinta metros do teto. A soleira era uma espécie de plataforma, prolongada por um campo de energia. Bastava colocar os pés em dois isoladores, o que Hedrock não deixou de fazer, para ser imediatamente "carregado" pelo campo luminoso, que depositava o visitante no centro da curiosa sala.
Os sete conselheiros presentes, que rodeavam uma máquina engastada num estojo de plástico transparente, apenas o cumprimentaram, sem desviar a atenção. Hedrock olhou-os um instante. Pareciam anormalmente deprimidos.
- A próxima oscilação não vai demorar - murmurou Peter Cadron.
Hedrock fixou os olhos no estranho objeto que flutuava na sua bolha de vazio.
Era um cronograma, estriado por um montão de linhas misturadas, tão finas que pareciam vibrar como ondas calóricas no ar tórrido de verão.
Teoricamente, as estrias, que emergiam de um ponto comum, expandiam-se até o infinito no passado e no futuro, com a ressalva de que, no espaço geométrico utilizado, o infinito tinha um valor vizinho a zero. Mas quando se tratava de muitos milhares de bilhões de anos, a imagem se toldava e ficava difícil de observar. Nesse oceano de tempo, distinguiam-se duas sombras confusas, uma relativamente volumosa perto do centro e outra, não maior que a ponta de um alfinete. Esta última, sabia Hedrock, era uma imagem incrivelmente aumentada de um objeto real. 0 amplificador que revelava cada pulsação da mancha era ligado a separadores sensitivos de energia que se ajustavam automaticamente a cada novo observador.
Penalizado, Hedrock acompanhou aquelas palpitações, aqueles estremecimentos estranhos que não tinham paralelo no espaço macrocósmico. Embora o movimento não fosse especialmente rápido, as duas manchas desapareceram. Para onde? Mesmo os cientistas que estavam a serviço da liga não o sabiam. Desapareceram, pois, e pouco a pouco voltaram a se materializar. Mas, desta vez, haviam mudado de posição uma em relação a outra e a distância que as separava aumentou. A maior das duas tremia no ponto menos trinta e quatro dias do centro, no passado, e a outra achava-se a um mês, três dias e algumas horas no futuro. A pontinha de alfinete, depois de ter estado a 97 bilhões de anos no futuro, estava agora a cerca de 106 bilhões de anos no passado.
Aqueles números eram tão fantásticos, que Hedrock teve um estremecimento.
- Calcularam o potencial de energia?
Cadron, a quem fizera a pergunta, sacudiu a cabeça, com ar fatigado.
- Tem bastante para fazer explodir o planeta. Onde pois, vamos libertá-la?
Hedrock não estava entre os que haviam falado com McAllister, o homem do século XX. Suas informações sobre aquela entrevista eram fragmentárias e era, aliás, para saber mais que ele fora encontrar a comissão na sala da Temporal. Chamou Cadron para o lado e o interrogou copiosamente. O jovem conselheiro encarou-o com um pálido sorriso.
- Quer saber a verdade? Ei-la: todos nós temos vergonha da maneira pela qual agimos.
- Se não me engano, os senhores acham que McAllister não devia ser sacrificado.
- Não é isso o que quero dizer. Acho melhor contar-lhe a história toda. Nosso agente em Greenway viu entrar na loja um tipo estranho, com uma roupa esquisita. Resumindo, tratava-se de um jornalista vindo do século XX. Uma loja, afirmou ele, materializou-se na cidadezinha onde morava. Entrou nela facilmente. Evidentemente, não pertencia à polícia nem ao governo. No momento em que atravessou a porta, declarou, sentiu uma espécie de choque. Havia, na realidade, naquele instante, absorvido uma dose de energia temporal equivalente a mais ou menos sete mil anos. Imediatamente posto ao corrente, o agente fez os exames habituais e constatou que a Casa de Armas estava submetida a tensões energéticas colossais, cuja fonte localizou imediatamente: um edifício governamental instalado defronte da oficina. Convocou imediatamente o conselho. Era preciso tomar uma decisão urgente. McAllister estava recheado de energia. O bastante para explodir a cidade se saísse da loja sem estar isolado. Por outro lado, a geradora continuava a energizar a loja que, de um momento para outro, poderia ser projetada no espaço-tempo. Tínhamos igualmente boas razões para acreditar que outras lojas estavam sob a ameaça de um ataque iminente. Quem poderia prever o caminho que as coisas iam tomar? Em suma, o primeiro objetivo devia ser ganhar tempo. Para isso, era necessário concentrar sobre McAllister as ondas de energia derramadas pela geradora e devolvê-lo a sua época de origem. Fechamo-lo numa combinação isolada, que o impediria provisoriamente de explodir. Posteriormente, acertaríamos um sistema, para libertar aquela energia de maneira inofensiva. Sabíamos que, até lá, ele oscilaria para a frente e para trás no tempo, levando a geradora a reboque.
Prosseguiu, sacudindo a cabeça com ar sombrio:
- Mesmo agora não vejo o que poderíamos ter feito de melhor. Era preciso agir sem demora e num terreno onde nossos conhecimentos são poucos. Na verdade, pulamos da frigideira para a panela! Pessoalmente, não estou muito orgulhoso de mim mesmo.
- Acha que ele ainda está vivo?
- Está. Sua combinação é uma das mais perfeitas de que dispomos: auto-alimentação integrada, sintetizador de água, etc. Tudo automático - sorriu tristemente - achamos que ele próprio conseguirá se salvar.
Hedrock sentia-se deprimido. Tudo acontecera antes que ele fosse avisado do perigo. O jornalista era um apocalipse ambulante. Aquela energia que, a cada oscilação, acumulava-se nele... Nunca tinha havido nada igual no Universo. Se ele explodisse, o choque abalaria a própria textura do espaço. O eco ressoaria em todos os tempos e os tensores energéticos que criavam a ilusão da matéria, corriam o risco de serem pulverizados pelo choque.
- E a geradora?
O rosto de Cadron iluminou-se.
- Ela ainda está nos limites da zona crítica. É preciso tomar uma decisão antes que o ponto perigoso seja atingido.
"É", pensou Hedrock amargamente. "Mas que decisão?"
- Em que pé estão os trabalhos sobre o amortecimento das oscilações, a fim de trazer o pêndulo de volta?
Desta vez, um outro conselheiro respondeu.
- As pesquisas foram abandonadas. A ciência do ano 4.784 não tem resposta para isso. Ainda temos sorte de poder fazer uma de nossas lojas de eixo. Estamos em condições de provocar a explosão a qualquer momento do passado ou do futuro. Mas qual escolher?
No mapa do tempo, as duas manchas estavam absolutamente imóveis.
CAPÍTULO DÉCIMO PRIMEIRO
Os homens afastaram-se da Temporal conversando baixinho. Alguém notou que agora ou nunca era a ocasião de se documentarem sobre as possibilidades de exploração do tempo. A isso o conselheiro Kendlon retorquiu que, a se julgar por aquela acumulação de energia no corpo do viajante, a viagem no tempo tinha pouca possibilidade de se tornar popular.
- Senhores - disse finalmente Dresley, com sua voz nítida e precisa - senhores, o conselho nos deu a incumbência de tomar conhecimento do relatório do Sr. Hedrock sobre a ofensiva das forças imperiais. O Sr. Hedrock colocou-nos a par, numa comunicação datada de há algumas semanas, de um certo número de detalhes de ordem técnica e administrativa. Se bem me lembro, consideramos seu plano de organização de uma perfeita eficácia. Se seu autor quiser nos informar agora sobre o estado atual da situação...
Hedrock olhou-os um a um. O auditório estava atento e isso o estimulou. O problema estava claro: tomar uma decisão no que se referia às oscilações. Depois, tirar todas as conseqências sem levar em conta a opinião de seus supostos superiores. Isso seria difícil.
- Assim que fui devidamente instruído - começou - procedemos à implantação de mil duzentas e quarenta e sete novas casas de armas, principalmente nas pequenas aglomerações, e três mil oitocentos e nove contatos foram estabelecidos com membros da administração imperial, tanto militar como civil. Contatos em certos casos muito sólidos.
Expôs sucintamente seu sistema de classificação: cada contato era destinado a uma categoria, em função da vocação do indivíduo, de sua importância hierárquica e de seu entusiasmo pela aventura na qual a Imperatriz atirava seus partidários.
- Graças aos cientistas que consideram as lojas de armas como um elemento inerente à civilização de Isher, recolhemos no espaço de dez dias todos os segredos concernentes à domesticação da energia temporal do conhecimento do governo. Descobrimos que, dos quatro generais encarregados de dirigir as operações, dois eram, desde o começo, francamente hostis à campanha. Um terceiro foi convencido quando viu a loja de armas desaparecer. O último, todavia, Doocar, que infelizmente é o comandante supremo, só desistirá se a Imperatriz lhe der ordem expressa. Seu senso de lealdade é mais forte que seus sentimentos pessoais ou suas opiniões.
Hedrock fez uma pausa, aguardando um comentário que não veio, o que era a melhor resposta.
- Milhares de oficiais desertaram - continuou - mas apenas um membro do Conselho Imperial opôs-se abertamente à ofensiva após a execução de Banton Vickers que, como sabem, havia criticado aquele plano de combate. Foi o Príncipe Del Curtin que, para manifestar sua desaprovação, deixou o palácio. O que nos leva novamente à Imperatriz.
Hedrock esboçou o retrato psicológico da soberana. Órfã aos onze anos, coroada aos dezoito. Está hoje com vinte e cinco.
- A idade crítica - acentuou amargamente - a idade onde se passa do animal ao humano.
A exposição de todos esses fatos do seu conhecimento espantava os conselheiros. Mas não estava nos planos de Hedrock abrir o jogo. Tinha seu ponto de vista sobre a maneira de vencer a Imperatriz e só queria torná-lo público no momento e na forma que julgasse mais adequados para servir seus desígnios.
- Innelda é uma emotiva, uma instável. Brilhante e implacável, suporta mal que alguém se levante contra sua vontade. No fundo, não gostaria de se ter tornado adulta. Depois de ter examinado milhares de relatórios, cheguei à conclusão de que o melhor método é deixar-lhe um porta, a fim de permitir-lhe uma saída honrosa no instante crítico.
Examinou seu auditório com ar interrogativo. Com aqueles homens não era prudente revelar seus pensamentos.
- Sou de opinião que o Conselho não deve levar a mal a tática que recomendo. Ela foi feita baseada num conjunto de circunstâncias que nos dará vantagem e bloqueará a máquina de guerra. Segundo penso, uma vez esta emperrada, a Imperatriz se ocupará de outra coisa e se apressará a esquecer as razões pelas quais o conflito começou.
Após um silêncio destinado a reforçar essas palavras, continuou:
- Meu serviço está à espreita dessa ocasião favorável. Eu os colocarei a par de qualquer fato novo. Agora, se querem fazer perguntas, estou à disposição.
A primeira foi sem importância. Depois, alguém levantou a mão:
- Tem alguma idéia sobre a forma de que se revestirá a ocasião a que acabou de se referir?
- É difícil examinar aqui todos os caminhos que exploramos - respondeu Hedrock, circunspectamente. - A jovem pessoa em causa é vulnerável por muitos lados. O recrutamento do corpo de oficiais causa-lhe sérias preocupações. Ela se debate no meio de uma rede de intrigas urdida pelos velhos que a rodeiam, os quais lhe escondem sistematicamente as informações que possuem Sem recursos, está presa na armadilha. Uma armadilha tão velha quanto a humanidade. Ela está separada do mundo real. Nossa tarefa é tirar partido desses pontos fracos.
- Isso é apenas uma fórmula!
- Tem razão. Mas uma fórmula que se apóia na análise, a que pessoalmente me dediquei, do caráter da Imperatriz.
- Não acha que seria preferível confiar essa espécie de estudos aos técnicos da máquina Pp e aos.. .
- Examinei minuciosamente a pasta Innelda antes de fazer esta proposta, falo da pasta que a própria liga organizou.
- Cuidado! Compete ao Conselho tomar decisões nesse terreno.
- Só fiz apresentar sugestões. Não tomei decisões. O outro não replicou. Hedrock tinha o sentimento de que o conselho havia descoberto sua verdadeira face. Uma assembléia de indivíduos humanos, tão humanos! Tão ciumentos de suas prerrogativas. Custariam a avaliar as decisões que o coordenador seria finalmente levado a tomar para resolver o problema do "pêndulo".
O auditório se agitava. Involuntariamente, todos os olhos estavam atraídos pela Temporal. Cada um consultava a hora com inquietação. Hedrock não demorou mais.
As oscilações daquele pêndulo pouco comum agiam como uma droga. Vigiar um aparelho registrando o movimento espasmódico de corpos reais no tempo, criava uma tensão perigosa para o equilíbrio mental. Bastava a Hedrock saber que o homem e o edifício oscilavam com um movimento regular no continuum.
Voltou ao seu escritório na hora exata de ouvir o relatório que Lucy lhe enviava pelo telestate.
"... Apesar de todos os meus esforços, fui expulsa do Palácio dos Tostões. Quando eles tornaram a fechar as portas, percebi o que ia acontecer. Temo que o tenham enviado a uma Casa de Ilusões. E o senhor sabe o que isso quer dizer!"
Hedrock sacudiu lentamente a cabeça. A moça parecia emocionada:
- As energias de ilusão têm, entre outros, efeitos nefastos sobre as faculdades calistênicas. Não se pode saber previamente a natureza da modificação, mas é lícito pensar que ele nunca mais terá oportunidade nos jogos de azar.
- É uma pena que esse Clark se tenha deixado prender com tanta facilidade nas ciladas da cidade - disse ele examinando com atenção a expressão de sua interlocutora. - Enfim... nós nunca o consideramos mais que um trunfo eventual. Não há portanto razão para sentimentos muito intensos. Aliás - e nunca é demais insistir neste ponto - a mais ínfima interferência de nossa parte no curso de sua existência arriscará fazer nascer mais tarde suspeitas que anularão todos os benefícios que poderíamos esperar de sua ação. Em conseqência, você pode se considerar isenta de toda a responsabilidade a respeito dele. Oportunamente, dar-lhe-emos novas instruções.
Esperou um pouco, antes de continuar:
- Então, Lucy, que está acontecendo? Uma fixação emocional?
Bastou olhá-la para não ter dúvida.
- Quando percebeu? - perguntou com fleugma.
Todas as resistências, todos os temores que ela poderia ter tido ao descobrir essa reação psicológica, desapareceram.
- Quando as outras mulheres o beijaram. Não que isso me tenha perturbado - apressou-se a acentuar. - Isso vai acontecer-lhe ainda muitas vezes antes que ele recupere o equilíbrio.
Hedrock olhou-a gravemente.
- Não tenho certeza. De acordo com minha experiência da vida e dos homens, posso assegurar-lhe que uma boa porcentagem dos que passaram pela Casas de Ilusões são tão duros como o aço, mas muito desligados das alegrias deste mundo.
Falara bastante. As atividades futuras de Lucy estavam, dai por diante, fixadas em suas linhas gerais. Bastava deixar os acontecimentos seguirem seu curso. Exibiu um sorriso cordial.
- Agora, Lucy, você está livre. Não se deixe abater. A tela tornou-se outra vez leitosa.
Na hora seguinte, Robert Hedrock, fechado em sua sala, atirou vários olhares impacientes para o outro lado da porta. Os corredores, a princípio fervilhantes de idas e vindas, voltaram pouco a pouco a ser calmos e depois tornaram-se desertos.
Chegara o momento de agir. O coordenador abriu o cofre embutido na parede e apanhou planos microfilmados da Temporal. O Centro de Informações, quando ele pedira esses documentos, não fizera nenhuma objeção, o que era, aliás, muito normal: responsável pelo Departamento de Coordenação, Hedrock tinha acesso a todos os arquivos da organização. Aliás, ele tinha uma explicação na ponta da língua para o caso de lhe fazerem perguntas. Não lhe era preciso estudar esses planos para achar uma solução para o problema do pêndulo? Quanto ao verdadeiro motivo de sua solicitação, isso não interessava a ninguém.
Meteu os microfilmes no bolso, caminhou para o primeiro lance de escadas, desceu cinco andares e entrou na parte do hotel ocupada só pelas Casas de Armas. Lá chegando, entrou num apartamento, fechando cuidadosamente a porta.
Encontrava-se numa suíte importante, exatamente o que convinha a um membro do estado-maior da liga: cinco peças e uma biblioteca enorme para onde se dirigiu sem hesitar e a qual inspecionou minuciosamente. Não. Não havia nenhum microfone clandestino, o que em nada o espantou: que soubesse, ninguém alimentava suspeitas a seu respeito. Mas Hedrock não era homem de deixar coisas ao acaso.
Com um gesto vivo, inseriu um de seus anéis num instrumento que poderia ser confundido com uma vulgar tomada elétrica. Surgiu um aro de metal, no qual enfiou o dedo. Puxou. Instantaneamente, o transmissor de matéria atirou-o a uns dois mil quilômetros de distância, num de seus inúmeros laboratórios particulares. O acontecimento, em si, nada tinha de extraordinário: o transmissor fazia parte do equipamento padronizado das Casas de Armas. Apesar disso - e isso sim era insólito - o conselho ignorava a existência da instalação de Hedrock. O laboratório fazia parte dos retiros arqui-secretos que ele preparara para seu uso pessoal.
Podia passar ali uma hora sem temer por sua segurança em perigo. Mas a única coisa que importava era reproduzir os planos. Para montar uma Temporal, precisava fazer outras visitas semelhantes. De fato, teve tempo de fazer uma cópia das plantas, que acondicionou num classificador blindado, junto com diagramas e desenhos que reunira por milhares de anos afora.
Quando findou a hora que se concedera, Hedrock, o único imortal que havia na Terra, o criador das Casas de Armas, o guardião de segredos ignorados pelos outros humanos, voltou à biblioteca do apartamento que lhe estava reservado no Hotel Royal Ganeel.
Alguns minutos mais tarde, entrava novamente na sua sala do quinto andar.