As Casas de Armas de Isher

A. E. Van Vogt · Capítulo 7 de 32

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As Casas de Armas de Isher

Capítulo Quarto · Cayle não pensou em sua partida de…

 

 

Cayle não pensou em sua partida de Glay como no resultado de uma decisão. Há tanto tempo desejava ir embora que aquele propósito lhe parecia parte de suas necessidades corporais, tais como beber ou comer. Mas o impulso foi crescendo, obscura e indistintamente. Frustrado por seu pai, tinha uma atitude hostil para tudo que fizesse parte da aldeia. E o seu desafio obstinado esbarrava a cada momento nas características indestrutíveis de sua prisão - isto até agora.

Não sabia exatamente por que se havia aberto sua prisão. Havia a garota da loja de armas, é claro. Esbelta, com olhos cinza-verdes inteligentes, rosto bem talhado, sua aura de pessoa que já tomou muitas decisões certas - havia dito, ele recordava as palavras como se ela as estivesse proferindo naquele momento: "Sim, mas claro, sou da Cidade Imperial. E voltarei para lá na terça de tarde. "

Nesta terça-feira ela estaria indo para a grande cidade, enquanto ele tinha que ficar em Glay. Não podia suportar esta idéia. Foi isso, mais do que sua desinteligência com o pai, que o fez pressionar a mãe no sentido de conseguir o dinheiro. Agora, estava sentado no aerônibus para Ferd, e estava apavorado por não encontrar a moça a bordo.

No Aeroporto Central de Ferd, esperando o transporte para a Cidade Imperial, procurara intensamente por Lucy Rall. Mas a multidão compacta que se concentrava em direção à constante torrente de aviões interestaduais tornou vãos os esforços de seus olhos atentos. E, logo, seu próprio transporte aéreo imenso surgiu, preparando-se para pousar.

Cayle foi tomado de uma tremenda excitação. A lembrança da jovem se apagou. Subiu a bordo febrilmente. Não pensou mais em Lucy até que o avião já estava planando sobre as terras verdes lá embaixo. Recostou-se então em sua confortável poltrona e pôs-se a tecer conjecturas: que tipo de pessoa era ela, essa garota da loja de armas. Onde viveria. Que tipo de vivência adquirira como membro dessa organização quase rebelde?... Havia um homem sentado uns três metros à sua frente. Cayle reprimiu um impulso de fazer-lhe todas as perguntas que ferviam dentro dele. Outras pessoas talvez não se apercebessem tão bem quanto ele de que, apesar de ter vivido toda a sua vida em Glay, não era um matuto. Era melhor portanto, não arriscar uma mancada. Um homem riu. Uma mulher disse:

- Mas meu querido, você tem certeza de que teremos recursos para um passeio pelos planetas?

Os dois passaram ao longo do corredor e Cayle reparou na grande naturalidade com que encaravam a viagem.

Sentiu-se muito autoconsciente a princípio mas também, gradualmente, foi se sentindo mais espontâneo. Viu as notícias no estate que encontrou em sua poltrona. Depois, preguiçosamente, estudou a paisagem que corria. vertiginosamente lá embaixo, ajustando a lente de aproximação de seu visor. Quando os três homens se sentaram à sua frente e começaram a jogar cartas, ele já estava se sentindo bem à vontade.

Era um jogo pequeno, de apostas baixas. E durante todo o jogo dois dos participantes nunca foram chamados pelo nome. O terceiro chamava-se Seal. Cayle achou o nome muito pouco comum. E o homem era tão pouco comum quanto o nome. Parecia ter trinta anos. Tinha os olhos amarelos como os de um gato. Seu cabelo era ondulado e estava displicentemente despenteado. O rosto era pálido, ainda que não parecesse doentio. Vários anéis dardejavam fogos coloridos de seus dedos. Quando falava, ele o fazia com tranqila segurança. E foi ele quem finalmente se dirigiu a Cayle, dizendo:

- Vejo que está nos observando. Quer jogar conosco ?

Cayle havia estado atento, percebendo automaticamente em Seal o jogador profissional, mas ainda não se havia decidido quanto aos outros dois. O problema era saber qual deles era o "pato".

- O jogo ficaria mais interessante - acrescentou Seal.

Cayle empalideceu repentinamente. Compreendeu, agora, que os três formavam uma equipe. E que ele havia sido escolhido como vítima. Instintivamente, olhou em torno para ver se alguém havia notado sua reação. Para seu alívio, ninguém estava olhando. Não viu mais o homem que antes estava sentado a uns três metros de distância e uma mulher corpulenta e bem vestida que parará na entrada da seção virou-se e foi embora. Gradualmente, as cores voltaram ao rosto de Cayle. Então eles estão pensando que encontraram uma presa fácil, não é? Levantou-se sorrindo.

- Não se importam se eu entrar? - perguntou. Sentou-se na cadeira vazia em frente ao homem de olhos amarelos. Coube a ele dar as primeiras cartas. Em rápida sucessão, e honestamente, deu a si próprio um rei fechado e dois abertos. Jogou com aquela mão até o fim, e ainda que as apostas fossem baixas, eventualmente acabou empilhando quatro créditos, em moedas.

Das próximas oito rodadas, Cayle ganhou três, o que estava abaixo de sua média. Ele era um calistênico, embora nunca tivesse ouvido aquela palavra, com temporária habilidade com as cartas. Certa vez, há uns cinco anos, ele tinha, naquela época, dezessete anos, jogando com um grupo de quatro rapazes à base de vinte partidas por crédito, ele ganhara dezenove das vinte. Depois disso, sua sorte no jogo, que poderia ter-lhe dado os meios para sair de Glay, foi tão grande que ninguém mais da cidade queria jogar com ele.

A despeito de sua série de êxitos agora, não sentiu qualquer sensação de superioridade. Seal dominava o jogo. Havia um ar de comando que emanava dele, uma impressão de força incomum, não física. Cayle começou a ficar fascinado.

- Espero não ofendê-lo - disse finalmente - mas o senhor é um tipo de pessoa que me interessa.

Os olhos amarelos do homem o observavam atentamente, mas não disse nada.

- Deve ter rodado um bocado por aí, suponho - disse Cayle.

Sentiu-se pouco satisfeito com a pergunta. Não era assim que ele a queria. Tinha soado pouco madura. Seal, ainda que fosse um mero jogador, encarou com altivez uma abertura de diálogo tão primária. Mas desta vez respondeu.

- Um pouco - disse.

Seus companheiros pareciam achar aquilo muito divertido. Ambos caíram na gargalhada. Cayle corou, mas tinha um desejo muito grande de saber as coisas.

- Esteve em algum planeta? - perguntou. Nenhuma resposta. Seal estudou cuidadosamente as cartas descobertas, e apostou um quarto de crédito. Cayle lutou contra a sensação de estar-se fazendo de idiota. Então disse:

- Nós todos ouvimos muita coisa, e às vezes é difícil saber-se o que é verdade e o que não é. Vale a pena ir até algum dos planetas?

Os olhos amarelos o perscrutaram, agora divertidos.

- Ouça rapazinho - disse Seal de modo taxativo - não chegue perto deles. A Terra é o paraíso deste sistema, e se alguém lhe disser que Vênus está se tornando uma maravilha, mande-o para o inferno... que fica em Vênus. O inferno, estou lhe dizendo. Tempestades de areia sem fim. Um dia, quando eu estava em Venusburgo, a temperatura chegou a oitenta e quatro graus centígrados.. . - e concluiu: - Nada disso aparece nos anúncios, hein?

Cayle concordou a contragosto. A resposta o desiludiu. Pareceu-lhe muito volúvel, e um tanto jactanciosa. O homem parecia-lhe repentinamente menos interessante. Tinha ainda uma pergunta a fazer:

- O senhor é casado? Seal riu.

- Casado! Ouça meu amigo. Eu me caso em cada lugar aonde vou. Não legalmente é claro - riu novamente, de modo significativo. - Acho que vou acabar por influenciá-lo com estas idéias.

- Ora, são idéias que qualquer um pode ter sozinho - respondeu Cayle.

Sua resposta fora automática. Não esperava uma revelação assim de seu caráter. Sem dúvida alguma, Seal era um homem de coragem. Mas o encanto havia se quebrado. Cayle reconheceu que estava sendo inspirado pela moral de sua pequena cidade, pela ética de sua mãe.

Seal estava falando de novo, animadamente:

- Este rapaz vai ser alguém na sempre gloriosa Isher, hein, amigos? - interrompeu-se e depois disse:

- Como todas essas cartas boas?

Cayle ganhara novamente. Tinha ganho um monte de dinheiro e hesitara. Havia ganho quarenta e cinco créditos, e achou melhor parar, para não causar animosidade.

- Sinto ter que deixá-los - disse - mas ainda tenho algumas coisas que gostaria de fazer. Foi um pra...

A última sílaba morreu-lhe na garganta. Um revólver, minúsculo e brilhante, o espreitava por sobre a borda da mesa. O homem de olhos amarelos falou, com uma expressão monótona:

- Então você acha melhor parar, hein?

Sem voltar a cabeça, dirigiu-se aos companheiros:

- Ele pensa que já é hora de se despedir, rapazes. Vamos deixá-lo ir?

A pergunta deve ter sido feita por mera questão de retórica, pois os seus asseclas limitaram-se a fazer uma careta.

- Pessoalmente - continuou o líder - sou completamente a favor de que ele se vá. Mas deixem-me ver - rosnou. - Pelo meu aparelho de transparência, vejo que sua carteira de notas está no bolso superior direito e há algumas notas de cinqenta créditos pregadas com alfinete no bolso da camisa. E ainda há, é claro, o dinheiro que ele ganhou de nós, no bolso da calça.

Ele inclinou-se para a frente, seus estranhos olhos irônicos e escancarados.

- E então você pensou que nós éramos jogadores e que estávamos pretendendo limpá-lo, não foi? Não meu amigo, não é assim que trabalhamos. Nosso sistema é muito mais simples. Se você tivesse recusado colaborar, ou se tentasse atrair a atenção de alguém, eu dispararia esta pistola energética direta ao seu coração. Ela produz um feixe tão estreito que ninguém jamais perceberia o pequeno furo em sua roupa. E você continuaria a ficar sentado aí, parecendo um pouco sonolento, talvez, mas quem iria se incomodar com isto, nesta grande nave, com todos os passageiros atarefados e ensimesmados?

Sua voz tornou-se mais forte.

- Passe o dinheiro! E depressa! Que não estou brincando! Dou-lhe dez segundos!

A entrega do dinheiro levou mais de dez segundos mas, aparentemente, o que importava era a continuidade da obediência. Foi-lhe permitido recolocar a carteira vazia no bolso e várias moedas foram ignoradas.

- Você vai ter que comer algo antes de chegarmos. - disse Seal, generosamente.

O revólver desapareceu por baixo da mesa e Seal recostou-se novamente na poltrona, relaxando os músculos.

- Apenas no caso de você resolver se queixar ao comandante, deixe-me avisá-lo de que nós o mataríamos imediatamente, sem nos preocupar com as conseqências. Nossa história é bem simples. Diremos que você bancou o idiota e perdeu todo seu dinheiro no jogo.

Riu e depois, levantando-se da poltrona, novamente misterioso e imperturbável, disse:

- Até a vista, companheiro. Desejo-lhe mais sorte da próxima vez.

Os outros homens já estavam se levantando. Os três caminharam lentamente em direção à saída e Cayle os viu entrar no bar que havia em frente. Cayle permaneceu sentado em seu lugar, inteiramente arrasado.

Procurou o relógio com os olhos - 15 de julho de 4784 da era de Isher, duas horas e quinze minutos após a partida de Ferd e ainda faltava uma hora para chegar à Cidade Imperial.

Com os olhos fechados, Cayle imaginou-se chegando à velha cidade, ao anoitecer. Sua primeira noite ali, que deveria ter sido tão excitante, ele ia ter que passá-la na rua.