As Casas de Armas de Isher
Robert Hedrock voltou para o Hotel Royal…
CAPÍTULO VIGÉSIMO SÉTIMO
Robert Hedrock voltou para o Hotel Royal pouco depois do meio-dia. Após ter examinado os relatórios que se tinham acumulado sobre a mesa, na sua ausência, teve, durante duas horas, uma conversa telestática secreta com um especialista em finanças do Centro de Informações da liga. Terminada a longa conversa, entrou em contato com o Conselho dos Armeiros.
Dez minutos mais, tarde, Dresley abria a reunião plenária do Conselho, solicitada com urgência pelo coordenador:
- Tenho a impressão, senhores, de que Robert Hedrock levantou uma pista muito recente. Não estou enganado, não é?
Hedrock sorriu. Quando da precedente reunião, dois problemas o afligiam: o do pêndulo temporal e o da Imperatriz. O primeiro ainda não estava resolvido e cada hora que passava a situação se agravava. Mas desta vez tinha uma solução.
- Senhores - começou, sem preliminares inúteis - em 27 de novembro, quer dizer, daqui a 12 dias, mandaremos um ultimato à Imperatriz de Isher, para intimá-la a acabar com a guerra. Os fatos e os números que lhe apresentaremos vão convencê-la de que não tem outra escolha.
Essas palavras provocaram a emoção com que ele contava. Os conselheiros sabiam que o coordenador não era homem de fazer brilharem falsas esperanças.
- Não nos mate de ansiedade! - exclamou Peter Cadron, impetuosamente. - Que foi que descobriu?
- Vou recapitular os acontecimentos, se me permitem. Na manhã de 3 de junho de 4.784, era de Isher, um homem vindo de 1973, segundo o calendário cristão, surgiu na nossa loja de Greenway. Sua chegada nos permitiu saber que a Imperatriz estava de posse de uma arma energética desconhecida e acabava de lançar uma ofensiva contra as Casas de Armas. A geradora fora instalada num edifício recentemente terminado na Avenida Capital. O efeito sobre a loja de Greenway foi particular. Teoricamente, todo o elemento material da loja deveria ter sido instantaneamente destruído. Apenas nossos adversários ignoravam uma coisa: as Casas de Armas não são edificadas a partir do que se chama comumente matéria. Por isso as forças gigantescas que haviam sido libertadas, localizaram-se não no espaço mas no tempo. Foi assim que um homem pôde ser literalmente aspirado e atravessou um abismo de sete mil anos.
Depois de ter exposto em expressões puramente matemáticas as leis do movimento pendular ao qual o homem e a geradora estavam sujeitos desde que os Armeiros haviam projetado McAllister fora do presente, Hedrock continuou nestes termos:
- Há ainda pessoas que não conseguem entender essa pulsação temporal. No entanto, temos um exemplo desse fenômeno em escala macrocósmica: estou me referindo ao sistema solar. Os planetas se deslocam no espaço-tempo a mais de vinte quilômetros por segundo; ao mesmo tempo, cada um tem movimento orbital próprio. Por isso, a lógica nos diz que se somos atirados no passado ou no futuro, nos encontraremos num ponto do espaço afastado da Terra. É difícil de conceber que o espaço não passa de ficção, um resíduo da energia temporal fundamental e que uma tensão material, um planeta por exemplo, em vez de influir nos fenômenos ligados ao escoar do tempo, obedece às leis da energia temporal. Por que o período de pulsação é de duas horas e quarenta minutos? Não sabemos. Alguns emitiram a hipótese de que a natureza procura obrigatoriamente a instauração de um estado de equilíbrio. Quando a geradora desliza no passado, ocupa o mesmo "espaço" que no seu tempo normal, mas não há repercussões pelo fato de a similaridade ser uma função do tempo e não o produto de uma tensão. Na origem, McAllister era deslocado sete mil anos e a geradora, dois segundos. Hoje McAllister acha-se a vários quatrilhões de anos e o edifício a pouco menos de três meses. Com o eixo se deslocando positivamente em relação a nós, a geradora não pode retrogradar além de 3 de junho. Peço-lhes que conservem esses dados presentes no espírito enquanto expuser-lhes um outro aspecto deste assunto que, a despeito de sua complexidade aparente, é fundamentalmente simples.
Os homens ali reunidos eram pessoas de espírito atilado. No entanto, tudo em suas fisionomias, voltadas para Hedrock, refletia o desejo impaciente de conhecer a palavra-chave do enigma. E agora, que conhecia a verdade, o coordenador espantava-se de que eles ainda não a tivessem percebido.
- O Departamento de Coordenação detectou, há alguns meses, numa aldeia chamada Glay, um prodígio calistênico. Demos um jeito para que viesse à Cidade Imperial. Não houve maiores dificuldades, uma vez desencadeados nele certos impulsos profundos. Achávamos que ele poderia influenciar os acontecimentos de maneira apreciável, mas esquecemos de levar em conta um fator neutralizante: sua ignorância das realidades do mundo de Isher. Não entrarei em detalhes. Basta que saibam que ele foi deportado para Marte, condenado a trabalhos forçados. Mas ele pôde voltar para a Terra muito rapidamente.
Continuando sua exposição, Hedrock informou aos conselheiros que Lucy Rall havia casado com Cayle Clark poucas horas antes que este aterrissasse; explicou-lhes como os dois Clark tinham abocanhado a quantia de quinhentos mil créditos, como um deles visitara o Coronel Medlon, o que fora uma vantagem para este, uma vez que a Imperatriz lhe exigira exatamente a presença do rapaz por quem se interessara, sob pena de morte. Clark obteve na hora os galões de capitão e foi imediatamente submetido ao treino hipnótico reservado aos oficiais. Na manhã seguinte, ele foi apresentado à Imperatriz.
- Ela o colocou no seu estado-maior pessoal pensando ter obedecido a um simples impulso: na realidade, Clark usou sua capacidade calistênica para criar aquele impulso. Depois de ter sido nomeado, sua influência não cessou de crescer; ele se atribuiu o encargo de lutar sem cessar contra a corrupção que envergonha o regime, iniciativa que Innelda recebeu de maneira favorável. Mesmo se Clark não tivesse outros trunfos, estava desde o começo destinado a um brilhante futuro no serviço da Imperatriz. Na verdade - acrescentou Hedrock, sorrindo - na verdade, não é esse Cayle Clark que devemos vigiar, mas o outro, o que se esconde na cidade, pois é o segundo Clark que age na sombra desde 7 de agosto. E creiam, senhores conselheiros, o que ele fez é verdadeiramente incrível. Os senhores julgarão.
Depois que Hedrock descreveu minuciosamente a atividade do misterioso Clark, os conselheiros não se continham mais, de tal forma estavam excitados.
- Mas por que ele casou com Lucy Rall? - perguntou um deles.
- Em parte porque a amava, em parte... Hesitou, pensando em certa pergunta franca que fizera a Lucy.
- Ele tornou-se extremamente prudente e começou a pensar no futuro. Suas tendências profundas vieram à tona. Suponha que aconteça alguma coisa ao homem que realizou essa façanha milagrosa no espaço de algumas semanas? Ele queria um herdeiro. E Lucy era a única moça direita que ele conhecia. Sua união era definitiva? Não posso saber. A despeito de ser um revoltado contra a própria família, Clark é um rapaz de princípios e, seja como for, não creio que Lucy vá sofrer com isso. Ela terá um filho e a maternidade é uma experiência indispensável para uma mulher. Além disso, como esposa, é sua herdeira universal.
Peter Cadron levantou-se.
- Senhores, proponho que votemos uma moção de agradecimentos a Robert Hedrock pelos serviços prestados à liga. Proponho, ainda - acrescentou, quando os aplausos diminuíram - que ele tenha os mesmos direitos que nós na organização.
Ninguém opôs-se. Era mais que uma honra o que estavam dando ao coordenador. A partir desse instante, só a máquina Pp seria autorizada a examiná-lo. Não teria jamais que dar conta dos seus atos e gestos, teria o direito de utilizar todos os recursos das Casas de Armas como bens pessoais. É verdade que ele sempre os utilizara, mas agora não precisava temer que suspeitassem.
- Agora - continuou Cadron - peço respeitosamente ao Sr. Hedrock que tenha a bondade de se retirar. O Conselho vai discutir o problema do pêndulo temporal.
Hedrock saiu da sala. Estava carrancudo: esquecera momentaneamente que o perigo maior não tinha sido conjurado.