As Casas de Armas de Isher

A. E. Van Vogt · Capítulo 20 de 32

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As Casas de Armas de Isher

Fara e seu companheiro seguiam por um…

CAPÍTULO DÉCIMO OITAVO

 

 

Fara e seu companheiro seguiam por um vasto corredor de paredes cintilantes.

- Há um corredor lateral praticamente vazio - notou seu companheiro.

Fara tremia ao entrar nele. No fim da passagem, uma dezena de moças sentadas diante de uma longa mesa, recebiam os visitantes. Vista de perto, a moça diante da qual parou não parecia tão jovem. Dirigiu-lhe um sorriso impessoal.

- Seu nome, por favor.

Fara declinou sua identidade, acrescentando com uma voz insegura que era originário de Glay.

- Obrigado. Vou pedir-lhe que espere um momento, o tempo de apanhar sua pasta. Apenas alguns minutos. Sente-se.

Deixou-se cair numa poltrona sem sequer reparar, com o coração batendo desabaladamente, a respiração faltando, os nervos esticados como cordas de violino; não conseguia concatenar dois pensamentos coerentes. Constatou, através da sua vertigem, que a recepcionista lhe falava e esforçou-se em concentrar a atenção, mas apenas palavras esparsas conseguiam perfurar aquela espécie de tela perturbadora que o envolvia.

- O Centro de Informações... serviço de estatística... Todos os nascimentos... registrados... nível de educação, mudança de endereço... profissão... momentos cruciais da existência. A organização... para entrega de... ligação oficiosa e discreta... Câmara imperial da Estatística... por intermédio de agentes... cada comunidade...

Fara tinha a desconfiança de que as informações principais lhe haviam escapado, que lhe era preciso disciplinar os pensamentos... Mas seus nervos não obedeciam mais ao seu controle. Quis interromper a moça, mas antes que uma palavra saísse de seus lábios exangues, um objeto chato e preto caiu sobre a mesa da recepcionista com um ruído seco. Depois de estudá-lo com ar impassível, levantou os olhos.

- Talvez lhe interesse saber que seu filho Cayle está em Marte?

- O quê?

Fara soergueu-se, mas sua interlocutora prosseguiu com voz firme:

- Devo informá-lo de que a liga tem por norma nunca intervir em conflitos particulares. Seu único objetivo é promover uma reforma da moral. Cabe às pessoas, às massas, agir nesse sentido, sem solicitações exteriores. Assim, peço-lhe agora que nos exponha brevemente seu problema.

Fara, que transpirava abundantemente, enterrou-se mais ainda na poltrona. Antes de mais nada, queria freneticamente ter notícias de Cayle. Mas, controlando-se, contou com voz trêmula o que lhe tinha acontecido.

- O senhor irá imediatamente para a Câmara de Identidade - disse a moça, quando ele terminou. - Assim que vir aparecer seu nome, dirija-se à sala 474. Não esqueça: 474. O seguinte, por favor.

Fara levantou-se quase sem ter consciência disso. Quando voltou-se, um homem idoso tomara seu lugar na poltrona.

Andou pelo longo corredor que lhe foi indicado. Um ruído confuso, que lhe chegava a intervalos, aumentava à medida em que ele progredia. O corredor terminava numa porta. Quando a empurrou, o barulho assaltou-o brutalmente, como um soco em pleno rosto. Um barulho monstruoso, titânico, que o pregou na soleira. E o espetáculo oferecido ao seu olhar era também tão incrível, tão surpreendente quanto aquele maelström.

Era um anfiteatro colossal, onde formigavam milhares de homens, amontoados em bancos, de pé, andando de um lado para outro, com uma febril impaciência. E todos pregavam o olhar no quadro dividido em casas que ocupava todo o fundo do auditório. Cada casa levava uma letra do alfabeto. Fara sentou-se depois de ter achado a casa dos C. Tinha a impressão de se ter metido num jogo de pôquer sem limite. Era vertiginoso, fascinante, esgotante. Era terrível.

As casas se iluminavam, uma a uma, compondo nomes. Pessoas berravam, outras se sentiam mal. O berreiro fazia tremer as paredes incessantemente, sem descanso, indescritivelmente. De minuto a minuto, um aviso brilhava em letras de fogo: VIGIE SUAS INICIAIS.

Fara não tirava os olhos do painel. Não agentaria muito tempo. A cada segundo era mais intolerável. Tinha vontade de gritar pedindo silêncio, levantar, caminhar como um urso na jaula, ele também. Mas os que cediam a esse impulso eram atacados por insultos histéricos.

Bruscamente, aquela loucura o apavorou. "Não vou bancar o idiota, eu... "

Clark, Fara... Clark, Fara.

Seu nome. Era seu nome, o nome dele que piscava no painel.

- Sou eu - urrou. Mas ninguém se virou. Ninguém prestou-lhe a menor atenção.

Envergonhado, atravessou o anfiteatro furtivamente para atingir um novo corredor, onde incorporou-se a uma interminável fila de pessoas. Ali, tudo era silêncio. Um silêncio quase tão insuportável quanto o sabá de há pouco.

474. Era difícil concentrar a atenção em um número! 474. Iria enfrentar o quê, quando empurrasse a porta do número 474?

Era um escritório exíguo, sumariamente mobiliado com um par de cadeiras e uma mesa sobre a qual folhas de papel estavam regularmente dispostas em pilhas e no meio da qual imperava um globo feito de uma substância opalina e luminosa.

Uma voz ergueu-se.

"Fara Clark?"

- Sou eu.

"Antes de ser dado o veredito, queira apanhar uma folha azul. "

Era apenas a lista de todas as sociedades dependentes do Banco Interplanetário n° 5. Cerca de quinhentos nomes, colocados por ordem alfabética, sem um comentário. Fara colocou a folha no bolso.

"Todas as explicações lhe serão dadas em tempo útil", continuou a voz. "Foi constatado que o Banco Interplanetário n.° 5 cometeu uma patifaria indiscutível com o senhor. Além disso, é culpado de fraude, de violência, de chantagem e, paralelamente, de conspiração criminosa. Um agente do banco, cujo papel é entrar em contato com rapazes e moças de boas famílias em dificuldades financeiras, travou conhecimento com seu filho. O cúmplice recebe 8 por cento do empréstimo concedido e a comissão é paga pelo solicitante. O banco declarou que seu filho recebeu dez mil créditos, quando lhe entregou apenas mil, e isso depois que o senhor assinou o reconhecimento de dívida. Disseram-lhe que seu filho corria o risco de ser preso por ter fraudulentamente pedido um empréstimo em seu nome e a ameaça foi feita antes que o dinheiro tenha mudado de mão. A transferência do seu crédito ao seu concorrente constitui, enfim, um delito de conspiração. Em conseqência, o banco foi condenado a uma multa igual ao triplo da soma extorquida, ou seja, 36.300 créditos. Não nos interessa dizer-lhe que meios usamos para obrigá-lo a pagar. Basta-lhe que saiba que a multa foi paga. A liga fica com a metade... quanto à outra... " Um maço de notas caiu sobre a mesa com um ruído surdo... "É sua". Com mãos trêmulas, Fara pegou o dinheiro. Foi com dificuldade que entendeu o resto do discurso.

"Suas dificuldades não terminaram ainda. Vai precisar de muita perseverança e coragem para refazer seu negócio. Seja discreto, bravo, resoluto e conseguirá. Não hesite em usar o revólver que adquiriu para defender seus direitos. Chegado o momento, lhe explicaremos nosso plano. Pode ir. Saia pela porta à sua frente. "

Fara precisou de um grande esforço de vontade para abri-la e sair.

Sem transição, estava outra vez no local familiar da Casa de Armas. O velho de cabelos de prata levantou-se da poltrona para ir ao seu encontro, com um sorriso cheio de gravidade nos lábios.

A inimaginável aventura tinha findado. Fara estava de volta a Glay.