As Casas de Armas de Isher
Hedrock subia a avenida da sorte, calmamente,…
CAPÍTULO VIGÉSIMO SEXTO
Hedrock subia a avenida da sorte, calmamente, saboreando a novidade do espetáculo. Não se lembrava mais de quando passeara pela última vez na famosa artéria. Há muito tempo, sem dúvida. Muitíssimo tempo. A proliferação dos salões de jogo, principalmente, o espantava. Quanto à estrutura dos edifícios, obrigada a se sujeitar a normas arquitetônicas muito estritas, pouco variara em um século e o plano de urbanismo da Cidade Imperial em nada evoluíra no seu conjunto. Só a decoração se havia modernizado. Para onde quer que olhasse, o coordenador só via fachadas brilhantes, concebidas para chamar a atenção.
Quando entrou no Palácio dos Tostões, não tinha ainda um programa de ação definido. Subitamente, quando ia entrar na Câmara do Tesouro, sentiu o picar de seu anel avisador: um aparelho de transparência ia sondá-lo. Continuou tranquilamente seu caminho e só se voltou depois de alguns metros para observar os dois homens pelos quais passara. Eram empregados do estabelecimento ou... independentes? Hedrock tinha uns cinqenta mil créditos. Sorriu ligeiramente.
- Olhem, rapazes, acho melhor vocês desistirem do que estão planejando.
Um dos personagens sacudiu os ombros e mergulhou a mão no bolso.
- O senhor não tem uma superarma. Nem mesmo uma clássica.
Hedrock olhou-o no fundo dos olhos.
- Se quiser experimentar, estou às ordens. Foi o outro quem desviou o olhar.
- Vamos cair fora, Jay. Não é o trabalho que eu imaginava.
Mas Hedrock parou-os antes que se fossem.
- Trabalham aqui?
- Não... se o senhor for contra.
A sinceridade da resposta arrancou um sorriso do coordenador.
- Quero ver o patrão de vocês.
- Era o que eu imaginava. Enfim, foi um trabalho bacana enquanto durou.
Desta vez, Hedrock deixou os bandidos irem embora. A reação deles não o surpreendia. A autoconfiança era o segredo do poder. Nunca um ser humano dispusera de defesas mentais, físicas, emocionais, nervosas e moleculares como as que possuía Hedrock e fora suficiente a Jay mergulhar seu olhar no dele, seguro e tranqilo, para se convencer disso.
Sem hesitar, o homem da liga, que tinha na memória a descrição dos interiores feita por Lucy, dirigiu-se para o corredor que começava por trás da sala das máquinas de apostar. Mas no momento em que fechava a porta, uma rede caiu sobre ele, que sentiu-se bruscamente elevado nos ares.
Nada fez para se libertar. Na penumbra, via o assoalho a cinco pés abaixo dele, mas a indignidade de sua posição não o afetava em absoluto. Harj Martin tornara-se prudente e desconfiava das visitas inesperadas! Indicação interessante! Logo, ouviram-se passos. Uma porta abriu-se e Martin apareceu. Acendeu a luz e, com ar gozador contemplou seu prisioneiro.
- Então, quem é a presa do dia?
Mas quando enfrentou o olhar do cativo, sua alegria desapareceu.
- Quem é o senhor? Hedrock ignorou a pergunta.
- Na noite do dia 5 de outubro o senhor recebeu a visita de um rapaz chamado Cayle Clark. Que aconteceu?
- Quem faz as perguntas sou eu! Repito! Quem é o senhor?
Com um gesto, Hedrock fez girar um dos anéis que ornavam seus dedos: a rede fendeu-se, abriu-se sob ele com a facilidade de uma janela e o coordenador voltou a estar no chão.
- Trate de responder logo, meu caro, estou com pressa.
Ignorando a pistola que Martin empunhava, ele soube encontrar as palavras apropriadas, que levaram o proprietário do antro de jogo a capitular.
- Se são só informações o que quer, está bem. É verdade. Esse Clark veio cá no dia 5 de outubro pela meia-noite. Estava com o gêmeo dele.
Hedrock não deu atenção ao fim da frase. Não estava lá para discutir.
- Era uma dupla gozada, sabe? Um dos dois devia ter sido do exército: ele se empertigava... enfim, o senhor conhece a postura hipnótica que ensinam a eles. O cabeça era ele. Um cara duro, garanto-lhe! Eu quis protestar mas ele bateu-me com o explosor nas patas. Quando abri o cofre pra dar-lhe a gaita, fiz um gesto inesperado e o resultado é que ele me escalpou pela metade.
Com o dedo, Martin mostrou a linha clara no meio dos cabelos. Um atirador de primeira, sem dúvida. E o tiro fora dado por uma arma clássica, uma arma do exército.
- Ah! - gemeu Martin - a vida torna-se muito difícil. Se eu imaginasse que as defesas normais pudessem ser tão facilmente neutralizadas!
Hedrock já sabia o bastante. Deixou o barrigudo e saiu do estabelecimento. A existência de dois Cayle estava agora demonstrada. E no dia 5 de outubro, na manhã seguinte da volta do que estivera em Marte, o outro havia estado há bastante tempo no exército para ter recebido mais que uma formação preliminar. Ora, os relatórios assinalavam que Clark só pusera o uniforme no dia 6 e que possuía quinhentos mil créditos.
Uma quantia bastante interessante para uma rapaz que começa. Mas isso não bastava para explicar os acontecimentos. Levando em conta o capital calistênico de Clark, quinhentos mil créditos só representam um poder irrisório.
Hedrock interrompeu suas reflexões sem ter chegado a resolver esse problema. Seu autoplano chegou. Tinha que ver ainda alguém: o Coronel Medlon.