As Casas de Armas de Isher
Capítulo I
PRÓLOGO
MÁGICO ACREDITA TER HIPNOTIZADO A MULTIDÃO
I
Junho 11 - A polícia e a imprensa de Middle City foram avisadas da próxima chegada de um mágico e estão dispostas a fazer-lhe uma entusiástica acolhida se ele consentir em revelar-lhes como levou centenas de pessoas a acreditarem ter visto uma construção estranha, aparentemente uma espécie de loja de vender armas.
O edifício pareceu surgir no espaço ocupado antigamente e ainda agora pela Aunt Sally’s Lunch e pela alfaiataria Patterson. Havia somente empregados nas citadas lojas e nenhum notou nada. Uma enorme e brilhante tabuleta encimava a loja, tão miraculosamente saída do nada; e essa tabuleta indicava claramente que tudo não passava de uma habilíssima cena de ilusionismo. De qualquer lado que se olhasse, lia-se claramente as palavras:
ARMAS DE QUALIDADE
O DIREITO DE COMPRAR ARMAS É
O DIREITO DE SER LIVRE
A vitrine estava arrumada com uma quantidade de armas curiosas, fuzis e revólveres, e um letreiro luminoso dizia:
AS MELHORES ARMAS ENERGÉTICAS DO UNIVERSO CONHECIDO
O Inspetor Clayton, do Departamento de Investigações, tentou entrar na loja mas a porta parecia estar fechada. Alguns momentos depois, C. J. (Chris) McAllister, repórter do Gazette-Bulletin, empurrou a porta e, encontrando-a aberta, entrou.
O Inspetor Clayton tentou segui-lo mas verificou que a porta estava fechada outra vez. Parece que McAllister saiu pelos fundos, como vários espectadores afirmaram. Imediatamente após sua reaparição, o estranho edifício esfumou-se tão abruptamente quanto tinha aparecido.
A Polícia declarou não saber explicar como o mágico conseguiu criar uma ilusão com tantos detalhes e por tão longo tempo diante de tanta gente. Eles estão dispostos a recomendar a exibição do mágico calorosamente.
(NOTA DO AUTOR: A notícia acima não diz que a polícia, descontente com, o caso, procurou contatar McAllister para um interrogatório, mas não conseguiu localizá-lo. Passaram-se semanas; até agora ele não foi achado.
Que terá acontecido a McAllister desde o momento em que encontrou aberta a porta da loja de armas?)
Havia algo de estranho na porta da loja de armas. Bastara-lhe encostar a mão nela para que se abrisse. E quando a empurrou, parecia não ter peso. Era isso o que mais o espantava.
Ficou paralisado pela estupefação. Pouco antes, quando Clayton a sacudira, aquela porta estava trancada. Aquilo parecia uma advertência...
- Deixe comigo, McAllister - gritou o policial, atrás dele.
O interior da loja estava escuro e McAllister não conseguia enxergar além das trevas que reinavam na parte de dentro. Seu instinto profissional foi mais forte: deu um passo para dentro da escuridão. Com, o rabo do olho, via a mão do inspetor avançando para a maçaneta que ele acabara de largar. Se dependesse de Clayton, tinha certeza, nenhum jornalista entraria naquela loja. Sem perder o policial de vista, ia penetrar na escuridão da loja de armas quando aconteceu uma coisa incrível: a maçaneta esquivou-se da mão do inspetor.
Deformou-se curiosamente e desfez-se como se fosse, não de matéria, mas de energia. E a porta chocou-se com, o calcanhar de McAllister, num contato quase imaterial. Antes que pudesse refletir ou reagir, levado por seu próprio impulso, havia entrado. Assim que respirou na escuridão, teve a agoniante impressão de que seus nervos arrebentavam. A porta fechou-se. O mal-estar dissipou-se. À sua frente aparecia a decoração brilhantemente iluminada da loja. Atrás, coisas incríveis!
Incapaz de pensar, ficou imóvel, o corpo paralisado numa atitude desajeitada. Embora só tivesse uma vaga idéia do que o cercava, tinha, em compensação, uma exata consciência do instante em que se produziria a rutura: numa fração de segundo, no momento em que franqueara a soleira da porta, fora como que seccionado, isolado, do mundo exterior.
Não havia mais trevas impenetráveis, nem Inspetor Clayton. Ou a multidão embasbacada e barulhenta. Também haviam desaparecido as fachadas em mal estado das lojas existentes na rua. Na verdade, não havia mesmo mais a rim, mas um aprazível parque e, por trás dele, no luminoso sol do entardecer, o perfil de uma imensa cidade. Nas suas costas, uma voz cheia e musical de mulher disse:
- Vai querer uma arma?
McAllister virou-se. Seu movimento foi a reação automática a um som. E porque tudo ainda lhe parecia um sonho, a visão da cidade dissolveu-se quase instantaneamente; a sua mente focalizou-se na moça que vinha lentamente do fundo da loja. Por alguns instantes, não conseguiu pensar claramente. A convicção de que deveria dizer alguma coisa misturava-se com a primeira impressão causada pela aparência da moça. O corpo era esguio e bem feito e ela sorria agradavelmente. Os olhos eram castanhos e o cabelo ondulado também. Seu vestido e as sandálias simples pareciam tão normais à primeira vista, que ele não lhes deu maior atenção. Conseguiu dizer:
- O que eu não posso compreender é por que o policial que tentou me seguir não conseguiu entrar. E onde está ele agora?
Para surpresa sua, o sorriso da moça tomou um ar de desculpa:
- Sabemos que as pessoas acham ridículo nós ainda insistirmos neste feudo antigo.
Sua voz tornou-se mais firme.
- Sabemos até o quanto é inteligente a propaganda que sublinha a tolice da nossa posição. Enquanto isso, nunca permitimos a entrada de um dos homens dela aqui, Continuamos a levar nossos princípios muito a sério.
Fez uma pausa, como se esperasse compreensão de sua parte. Mas McAllister percebeu pela, expressão do rosto dela que sua aparência devia ser tão estupefata quanto os seus pensamentos. Os homens dela! A moça tinha pronunciado aquelas palavras como se se referisse a um personagem e em resposta direta à sua menção do policial. Isto significava que os homens dela, quem quer que ela fosse, eram policiais; e não era permitida a sua entrada nesta loja. Assim a porta era hostil e não os deixava penetrar. Fez-se um vazio na mente de McAllister, semelhante ao vazio que estava sentindo na boca do estômago, a sensação de uma profundidade insondável, a primeira convicção estonteante de que não estava tudo como deveria ser. A moça passou a falar com um tom mais duro:
- O senhor quer dizer que não sabe nada disto, que não sabe que durante gerações, nesta época de energias devastadoras, existiu a liga dos Fabricantes de Armas, como única proteção contra a escravidão? O direito de comprar armas - parou, observando-o, depois continuou: - Pensando bem, há algo de muito peculiar no senhor. Essas roupas estranhas, o senhor não é um granjeiro das planícies agrícolas do Norte?
Ele sacudiu u cabeça silenciosamente e, a cada minuto que passava, ficava mais irritado com suas reações. A moça continuou mais vivamente:
- E pensando bem, é espantoso que o policial tivesse tentado abrir a porta sem que tenha havido alarma.
Sua mão moveu-se. Metal brilhou dentro dela, como alumínio na intensa luz do sol. Não havia mais um tom de desculpa na sua voz, quando disse:
- Fique exatamente onde está, senhor, até que eu chame meu pai. No nosso negócio, com as nossas responsabilidades, não podemos nos arriscar. Existe algo de muito errado nisto tudo.
Curiosamente, nesse momento, a mente de McAllister começou a funcionar com clareza. Seus pensamentos chegavam paralelos aos dela. Como havia penetrado naquele mundo fantástico? Existia realmente algo de errado naquilo tudo.
Era a arma que prendia sua atenção. Tratava-se de um objeto pequeno, com o formato de uma pistola. Mas uma pistola em miniatura, cuja culatra ligeiramente bulbosa estava ornada com três cubos alinhados em semicírculo. Ele começou a se sentir abalado, olhando a arma, porque aquele pequeno instrumento perigoso brilhando na sua mão morena era tão real quanto ela mesma. - Pelo amor de Deus - murmurou. - Que diabo de arma é esta? Abaixe essa coisa e vamos tentar esclarecer a situação.
Ela parecia não estar ouvindo. McAllister percebeu que ela estava fixando um ponto na parede, um pouco à sua esquerda. Seguindo seu olhar, chegou a ver acenderem-se sete pequenas luzes. Luzes estranhas. Ficou fascinado pelo jogo de luz e sombra, o aumento e diminuição da luz de um globo minúsculo para o outro, um movimento ondulado de variação de intensidade infinitesimal, um efeito incrivelmente delicado de reação a um barômetro super sensível. As luzes estabilizaram-se; voltou a olhar a moça. Para surpresa sua, estava guardando a arma. Ela devia ter notado sua expressão.
- Está bem - disse calmamente. - Os automáticos o estão vigiando. Se estivermos enganados a seu respeito, pediremos desculpas. Enquanto isso, se ainda está interessado em comprar uma arma, terei muito prazer em demonstrá-la.
Então os automáticos o estavam vigiando, pensou McAllister. Esta informação não lhe trouxe nenhum alívio. De qualquer maneira, aqueles automáticos não estariam do seu lado. O fato de a moça guardar a arma, apesar do seu tom de suspeita, dizia muito da eficiência dos novos cães de guarda.
- Sim, por favor, gostaria de ver. - Acrescentou: - Não duvido de que seu pai esteja aqui perto, fazendo uma espécie de estudo da minha pessoa.
A jovem não fez menção de mostrar armas. Em vez disso, olhava-o perplexa.
- Talvez o senhor não esteja percebendo - disse lentamente - mas já abalou toda a nossa instituição. As luzes dos automáticos deveriam ter-se acendido no momento em que meu pai pressionou os botões, como fez quando eu o chamei. E isto não aconteceu! Não é natural e no entanto - franziu as sobrancelhas - se o senhor é um deles, como conseguiu passar por aquela porta? É possível que os cientistas dela tenham descoberto seres humanos que não afetem as energias sensitivas? E que o senhor é apenas um de muitos, enviado para ver se é possível entrar ou não? Mas isto também não faz sentido. Se tivessem a menor esperança de sucesso não jogariam fora a possibilidade de uma surpresa esmagadora. Neste caso, o senhor seria a cunha que permitiria um ataque em grande escala. Ela é implacável, brilhante e tem um poder absoluto sobre pobres ingênuos como o senhor, que só pensam em adorar o esplendor de sua Corte Imperial.
Havia uma cadeira no canto. McAllister queria sentar-se. Sua mente estava mais calma.
- Olhe - começou - não sei de que está falando. Nem sei como entrei nesta loja. Concordo que tudo isto pede uma explicação, diferente da que eu possa dar.
Sua voz foi diminuindo. Estava sentando-se, mas em vez de se deixar cair na cadeira, levantou-se, lentamente, como uma pessoa muito idosa. Seus olhos fixaram-se num letreiro luminoso, situado em cima do mostruário de armas, atrás dela. Sua voz estava rouca:
- Isto é... um calendário?
Ela acompanhou seu olhar intrigada:
- Sim, é 3 de junho. Vejo errado?
- Não é isso, é... - teve que fazer um esforço - são os números em cima, é... que ano é este?
A moça parecia surpresa. Ia dizer alguma coisa, mas parou. Finalmente disse:
- Não tem nada errado, é o ano 4.784 da Casa Imperial de Isher.
II
McAllister sentou-sese muito lentamente, enquanto o espanto se concretizava. Os
acontecimentos começaram a adquirir uma forma distorcida. A fachada do edifício superposta às das duas lojas; a maneira da porta agir. O grande anúncio luminoso exterior, estabelecendo uma estranha conexão entre a liberdade e o direito de comprar armas. As armas expostas na vitrine, as melhores armas energéticas do universo conhecido!... Percebeu que a moça estava falando com um senhor alto e grisalho que tinha entrado pela mesma porta por onde ela entrara anteriormente. Havia algo de muito tenso na sua conversa. As palavras, ditas em tom baixo, lhe chegavam indistintas, um som estranho e inquietante. McAllister não podia captar o seu sentido até que a moça perguntou:
- Como é o seu nome?
McAllister disse-lhe.
A moça hesitou e depois falou:
- Senhor McAllister, meu pai deseja saber de que ano o senhor é!
O senhor grisalho aproximou-se.
- Sinto muito, mas não há tempo para explicar. Aconteceu o que nós, os Fabrican- tes de Armas, tememos há muitas gerações: que mais uma vez alguém viria, cobiçando um poder ilimitado e que, para alcançá-lo, teria necessariamente que nos destruir primeiro. A sua presença aqui é a manifestação da força energética que ela desencadeou contra nós - algo tão novo que nós nem suspeitávamos que estivesse sendo usado. Mas não tenho tempo a perder. Consiga todas as informações possíveis, Lystra, e previna-o do perigo pessoal que corre.
O homem se retirou e a porta fechou-se atrás dele silenciosamente.
McAllister perguntou:
- Que quis ele dizer com - perigo pessoal?
- É difícil explicar - começou ela constrangida. - Antes de mais nada chegue até a janela e eu vou tentar esclarecer tudo. Imagino que tudo isto deve ser muito confuso para o senhor.
McAllister respirou fundo.
- Agora estamos fazendo algum progresso.
Não estava mais alarmado. O homem grisalho parecia saber do que estava falando. Isso significava que não devia haver problemas para a sua volta. Quanto ao perigo para a liga dos Fabricantes de Armas, isso era problema deles e não seu. Andou em direção à moça. Para seu espanto ela recuou como se a estivesse ameaçando. Quando ele a encarou, ela respondeu com um sorriso triste; finalmente disse:
- Não pense que estou sendo tola; não fique ofendido... mas pelo amor que tem à sua vida não toque em nenhum corpo humano.
McAllister sentiu um calafrio. Depois, repentinamente, sentiu uma onda de impaciência invadi-lo, diante do medo estampado na face da jovem.
- Olhe - disse - quero esclarecer este negócio. Podemos conversar aqui, sem perigo, contanto que eu não a toque ou chegue perto de você. Está certo ?
Ela fez que sim com a cabeça.
- O chão, as paredes, cada peça do mobiliário, a loja toda é feita de material não condutor.
McAllister tinha a sensação de estar se equilibrando numa corda em cima de um abismo sem fim.
- Vamos começar pelo começo - disse. - Como foi que seu pai e você souberam que eu não era... - fez uma pausa antes de terminar a estranha frase - deste tempo ?
- Meu pai o fotografou - disse a jovem. - Fotografou o conteúdo dos seus bolsos. Foi aí que descobriu o que estava errado. Veja, as energias sensitivas se tornam condutoras das energias com as quais o senhor está carregado. Era isto que estava errado. Foi por isso que os automáticos não o focalizaram, e...
- Energia... carregado? - perguntou McAllister. A moça olhou espantada.
- Não está compreendendo? - perguntou ofegante. - O senhor atravessou um pe- ríodo de sete mil anos no tempo. E de todas as energias do mundo, o tempo é a mais potente. Se der um passo fora desta loja, o senhor fará explodir a Cidade Imperial e mais de uma centena de quilômetros de terras em volta. O senhor - sua voz tornou-se hesitante - o senhor poderia, provavelmente, destruir a Terra!
III
Não havia notado o espelho antes. Engraçado, também, porque era bastante
grande, com mais de dois metros de altura e bem na sua frente, na parede que um minuto antes (poderia jurar) era de metal sólido.
- Olhe-se - disse a moça para tranquilizá-lo - nada acalma mais do que a nossa própria imagem. Para dizer a verdade, o seu corpo está suportando muito bem o choque mental.
Ele olhou fixamente a própria imagem. Seu rosto estava muito pálido. Mas o corpo não estava tremendo como sugerira o redemoinho em sua mente. Teve consciência novamente da presença da moça. Estava mexendo em diversos interruptores na parede.
- Muito obrigado - disse ele - eu estava mesmo precisando disto.
A jovem sorriu para lhe dar mais coragem. Agora ele estava em condições de ver o quanto era contraditória a personalidade dela. Por um lado, sua, incapacidade de mostrar o perigo, sua dificuldade de encontrar palavras para explicar a situação. No entanto, o detalhe do espelho demonstrava um profundo conhecimento da psicologia humana. Disse:
- O problema agora, do seu ponto de vista, é lograr essa mulher de Isher e conseguir me enviar de volta antes que eu faça explodir a Terra do ano... seja que ano for.
A moça aquiesceu.
- Meu pai diz que o senhor pode ser enviado de volta mas, quanto ao resto, veja!
Não teve tempo para sentir o alívio por saber que poderia voltar ao seu tempo. Ela apertou outro botão. O espelho desapareceu na parede metálica. Mais um botão e a parede desapareceu. À sua frente, estendia-se um parque igual ao que tinha visto através da porta de entrada, obviamente uma continuação da mesma paisagem.
O horizonte era dominado por um enorme edifício, tão alto quanto largo. Estava a meio quilômetro de distância e, inacreditavelmente, parecia ter essa mesma altura e comprimento. Em toda parte, havia evidência de trabalho dinâmico mas não se via ninguém nem havia o menor movimento. Mesmo as árvores estavam imóveis.
- Veja! - disse a moça em tom mais baixo. Desta vez não houve nenhum som. Ela ajustou um dos botões e a visão não era mais tão nítida. Não era a intensidade da luz solar que tinha diminuído. Ou que houvesse um vidro visível onde antes não havia nada. Não havia nenhuma substância aparente entre eles e o maravilhoso parque. Mas este não estava mais deserto.
Havia uma. multidão de homens e máquinas. McAllister olhava assombrado. A sensação de ilusão se diluiu mostrando a real ameaça que representavam estes homens e a sua emoção se transformou em temor.
Finalmente disse:
- Mas estes homens são soldados, e as máquinas são...
- Armas energéticas - disse ela. - Este sempre foi o problema deles: como conseguir aproximar suas armas de nossas lojas, para nos destruir. Não que suas armas não sejam potentes e de longo alcance. Mesmo os nossos rifles podem matar seres vivos sem proteção especial a quilômetros de distância. Mas as nossas lojas estão tão protegidas que, para nos destruir, têm que usar as armas mais potentes à queima roupa. No passado isto nunca foi possível porque o parque em volta da loja nos pertence e o sistema de alarme era perfeito... até agora. Esta nova energia que estão usando não afeta nenhum dos nossos instrumentos protetores; e, o que é infinitamente pior, propicia-lhes um perfeito escudo contra nossas armas. Naturalmente que se conhece a invisibilidade há muito tempo, mas se o senhor não tivesse vindo, nós teríamos sido destruídos sem nem saber o que estava acontecendo.
-Mas - exclamou McAllister - o que é que vocês vão fazer? Eles ainda estão lá fora, trabalhando... Os olhos dela tinham um brilho intenso.
- Meu pai preveniu a liga. E diversos membros descobriram que as mesmas armas invisíveis estavam sendo montadas por soldados invisíveis em volta de suas lojas. O conselho se reunirá em breve para discutir as possibilidades de defesa.
McAllister observou em silêncio os soldados ligando o que deveriam ser cabos invisíveis e que vinham do imenso edifício. Cabos com mais de trinta centímetros de espessura atestando o poder titânico que deveria ser desencadeado contra a pequena loja de armas. Não havia nada a dizer. A realidade do que estava acontecendo lá fora dispensava palavras. De todos, ele era o mais desnecessário, a sua opinião a menos importante. Ele deve ter dito alto o que estava pensando, mas só percebeu quando a voz familiar do pai da moça soou ao seu lado.
- O senhor está muito enganado, Sr. McAllister. De todos aqui, o senhor é o mais importante. Foi por seu intermédio que descobrimos que Isher estava nos atacando. Além disso, nossos inimigos não sabem de sua existência e consequentemente ainda não sabem do efeito real produzido pela nova energia que estão empregando. O senhor, portanto, constitui o fator desconhecido. Devemos fazer uso imediato do senhor.
McAllister achou que o pai da moça subitamente lhe parecia mais velho. Havia profundas rugas em seu rosto e sua voz, quando se dirigiu à filha, era cortante:
- Lystra, n. ° 7l
Enquanto a moça apertava o sétimo botão, seu pai explicou rapidamente a McAllister:
- O Conselho supremo da liga está realizando agora uma sessão de emergência. Precisamos escolher o método mais conveniente para atacar o problema e nos concentrar, individual e coletivamente, nesse método... Debates regionais estão sendo efetuados mas, até agora, apenas uma idéia foi sugerida... ah! Senhores!
McAllister virou-se assustado. Homens estavam passando pela parede sólida como se estivessem entrando por uma porta. Um, dois, três... trinta.
Eram homens austeros e todos, menos um que olhou para McAllister, passaram direto e então pararam sorrindo levemente.
- Não fique tão assustado. Como acha que poderíamos sobreviver durante todos estes anos se não fôssemos capazes de transmitir objetos materiais através do espaço? A polícia de Isher está sempre ansiosa por bloquear nossas fontes de abastecimento. O meu nome é Cadron... Peter Cadron!
McAllister respondeu mecanicamente com a cabeça. Não estava mais verdadeiramente impressionado pelas novas máquinas. Elas eram o resultado da era das máquinas; a ciência e a invenção estavam tão avançadas que o homem mal podia dar um passo que não afetasse ou não fosse afetado por uma máquina. Um homem ao seu lado disse:
- Estamos reunidos aqui porque é óbvio que a fonte desta nova energia é o edifício grande bem ao lado desta loja...
Fez um gesto em direção à parede, onde antes havia o espelho, e depois a janela pela qual McAllister havia visto a monstruosa estrutura em questão. O homem continuou:
- Nós sabíamos, desde que terminaram a construção, há uns cinco anos, que era um edifício poderoso e dirigido contra nós. E agora emana dele uma nova energia para subjugar o mundo todo, uma energia tão imensamente potente que conseguiu quebrar a própria tensão do tempo, felizmente porém, só aqui nesta loja de armas mais próxima. Aparentemente, ela enfraquece quando transmitida mais longe.
- Escute Dresley - interrompeu um homem pequeno e muito magro - para que todo este preâmbulo? Você já esteve examinando os diversos planos sugeridos pelos grupos regionais. Existe ou não um plano decente entre eles?
Dresley hesitou. Para surpresa de McAllister, os olhos do homem pousaram, indecisos, nele; depois de uma pausa, disse com voz dura:
- Sim, existe um método, mas implica em convencer este nosso amigo do passado a enfrentar um grande risco. Todos sabem a que estou me referindo. Nos faria ganhar o tempo de que necessitamos.
- Hein! - disse McAllister e ficou parado sentindo todos os olhares voltados para ele.
IV
McAllister descobriu, espantado, que necessitava do espelho novamente para ver
como seu corpo estava reagindo, se estava dando uma boa impressão. Observou os rostos dos homens. Os Fabricantes de Armas davam uma estranha impressão pela maneira como estavam sentados ou de pé, encostados nas vitrines de armas; parecia haver menos pessoas do que havia contado previamente. Um, dois... vinte e oito, incluindo a moça. Ele poderia jurar que havia contado trinta e dois. Seus olhos se moveram mesmo a tempo de ver a porta dos fundos fechar. Quatro dos homens tinham saído por aquela porta.
McAllister balançou a cabeça, intrigado. E depois, conscientemente, prestando atenção, começou a estudar os rostos dos homens que tinha à sua frente. Disse:
- Não entendo como algum dos senhores pode falar em convencer. De acordo com o que disseram, estou carregado de energia. Posso estar enganado, mas se qualquer um dos senhores tentar me enviar de volta no espaço, ou mesmo apenas tocar em minha pessoa, esta energia que existe no meu corpo provocaria uma devastação incalculável...
- O senhor tem toda razão - concordou um dos mais jovens, e depois, dirigindo-se a Dresley com irritação: - Como o senhor cometeu um tão grande erro psicológico? O senhor sabe muito bem que McAllister fará o que nós pedirmos para salvar a própria pele; e vai ter que fazê-lo depressa!
Dresley resmungou.
- Que diabo - disse - a verdade é que não temos tempo a perder com explicações e eu estava pensando que ele fosse ficar logo amedrontado. Mas vejo agora que estamos lidando com um homem inteligente.
McAllister encarou o grupo. Parecia um embuste. Disse com rispidez:
- Não me venham com esta história de que sou inteligente. Os senhores estão suando sangue. Seriam capazes de matar a própria avó e usariam qualquer artifício para me obrigar a agir porque acham que o mundo que consideram o tal, está em perigo. Qual é este plano no qual os senhores querem me convencer a participar?
Foi o mais jovem quem respondeu:
- O senhor vestirá uma combinação isolante e o enviaremos de volta no seu tempo...
Fez uma pausa. McAllister disse:
- Até agora tudo bem. Mas qual é o galho?
- Nenhum!
McAllister olhou para o homem.
- Escute - começou - não me venha com esta conversa. Se é tudo tão simples, como é que eu estarei ajudando os senhores contra a energia de Isher?
O jovem disse zangado a Dresley:
- O senhor está vendo? Ele ficou desconfiado com essa história de convencer.
Virando-se para McAllister:
- O que nós temos em mente é uma aplicação do principio de um ponto de apoio e de uma espécie de alavanca de energia. O senhor seria o peso na extremidade de uma espécie de alavanca de energia que levantaria um peso bem maior na extremidade mais curta. O senhor regressará no tempo cinco mil anos; a máquina no edifício grande com a qual o seu corpo está afinado e que está nos causando todos estes problemas adiantar-se-á vários meses no tempo.
- Desta forma - interrompeu um dos outros, antes que McAllister pudesse dizer uma palavra - nós teríamos tempo de encontrar uma outra solução. Tem que haver uma solução, porque senão os nossos inimigos não teriam agido tão secretamente. Bem, o que ê que o senhor pensa?
McAllister dirigiu-se lentamente para a cadeira que havia ocupado antes. Sua mente estava girando furiosamente, mas sabia, por um pressentimento sombrio, que não tinha conhecimento técnico suficiente para se proteger. Disse lentamente:
- Pelo que eu entendo, isto deve funcionar como uma alavanca. O princípio da alavanca, a velha idéia de que tendo uma alavanca longa bastante, e um ponto de apoio conveniente, poder-se-ia deslocar a Terra de sua órbita.
- Exatamente! - disse Dresley. - Só que desta vez trabalha com o tempo. O senhor viaja cinco mil anos e o prédio...
Interrompeu-se ao ver a expressão do rosto de McAllister.
- Olhe! - disse este - não há nada mais deprimente do que ver um grupo de homens honestos cometendo um ato desonesto. Os senhores são homens corajosos, do tipo intelectual, e levaram a vida toda impondo uma concepção idealista. Sempre acharam que se chegasse a ocasião não hesitariam em fazer sacrifícios drásticos. Mas não estão enganando a ninguém. O que é que há por trás disto tudo?
Subitamente, atiraram-lhe a combinação. Tinha notado os homens surgindo do fundo da sala; e sentiu um choque ao perceber que tinham ido preparar a roupa isolante antes de poder saber se ele a queria usar. McAllister encarou Peter Cadron com um ar sombrio, enquanto este lhe estendia a combinação cinzenta e disforme, dizendo tensamente:
- Vista isto, depressa! Agora é uma questão de minutos, homem! Quando esses canhões aí fora começarem a disparar energia, o senhor não estará vivo para discutir a nossa honestidade.
Ele ainda hesitou. 0 suor escorria-lhe pela face e sentia-se mal com a dúvida. No fundo da sala alguém dizia:
- Nossa primeira preocupação tem que ser ganhar tempo, por isso temos que instalar novas lojas em comunidades em que os ataques deles sejam mais difíceis. Simultaneamente, temos que entrar em contato com todos os imperiais, aliados em potencial, que possam nos ajudar direta ou indiretamente, e finalmente temos que...
A voz continuou, mas McAllister não estava escutando mais. Desvairado, o seu olhar encontrou a moça parada perto da porta de entrada, silenciosa e apagada. Andou em sua direção; seu olhar ou a sua presença eram assustadores porque ela empalideceu e encolheu-se.
- Olhe! - disse ele. - Estou metido nisto até a raiz dos cabelos. Qual é o risco? Tenho que saber quais são as minhas oportunidades. Diga-me exatamente: qual é o galho?
- É o atrito - murmurou finalmente. - Talvez não consiga fazer todo o percurso de volta no tempo. Veja, o senhor será uma espécie de "peso" e...
McAllister afastou-se dela violentamente. Vestiu a combinação, macia e muito fina, colocando-a, como um macacão, em cima de sua roupa.
- Envolve a cabeça também, não é? - perguntou.
- Sim - era o pai de Lystra que estava respondendo. - Assim que o senhor puxar o fecho, a combinação se tornará completamente invisível. Para os outros, parecerá que está com as suas roupas normais. A combinação é totalmente equipada. Com ela o senhor poderia viver na Lua.
- 0 que eu não estou compreendendo - queixou-se McAllister - é por que tenho de usar este traje. Cheguei aqui muito bem sem ele.
Franziu a testa. Tinha dito aquelas palavras automaticamente mas, abruptamente, teve um pensamento.
- Um momento - disse - o que vai acontecer à energia de que estou carregado, agora que estou dentro deste traje isolante?
Pela expressão dos presentes percebeu que tinha tocado num ponto crítico.
- Então é isso! - exclamou. - O isolamento é para impedir que eu perca qualquer parcela dessa energia. É isto que constitui o "peso". Não tenho mais dúvidas de que existe uma conexão entre este traje e aquela máquina. Bom, ainda não é tarde demais.
Com um movimento desesperado tentou fugir às mãos dos quatro homens que o agarravam. Mas eles o seguraram firmemente, de forma que ele não podia escapar. Peter Cadron Druion puxou o fecho e disse:
- Sinto muito mas, quando saímos daqui, também vestimos trajes isolantes. É por isso que o senhor não pode nos fazer mal. E lembre-se disto: não existe certeza de que o senhor esteja sendo sacrificado. O fato de não existir uma cratera em nossa Terra prova que o senhor não explodiu no passado, e que o problema foi resolvido de alguma maneira. Agora, alguém abra a porta, rápido!
Sem poder oferecer resistência, foi empurrado para fora. E então...
- Esperem!
Era a moça. Seus olhos faiscavam e na sua mão estava a pequena arma brilhante que anteriormente tinha apontado contra McAllister. O pequeno grupo que segurava McAllister parou imediatamente. Ele mal percebia. Para ele, existia apenas a moça e a maneira pela qual os músculos de seus lábios estavam trabalhando e como a sua voz surgiu de repente:
- Isto é o cúmulo do ultraje. Somos tão covardes... é possível que o espírito da liberdade só possa sobreviver por meio de um ato infame de assassinato e um grosseiro desafio aos direitos do indivíduo? Eu digo que não! O Sr. McAllister tem que ter a proteção do tratamento hipnótico; certamente uma tão pequena demora não será fatal.
- Lystra!
Era o pai e McAllister percebeu pelos seus movimentos rápidos que ele tinha apreendido todos os aspectos da situação. Adiantou-se e tirou a arma da mão de sua filha - era a única pessoa na sala, pensou McAllister, que podia ousar aproximar-se dela com a certeza de que ela não dispararia a arma.
Percebeu que Peter Cadron largara seu braço, afastando-se.
Seus olhos estavam calmos, a cabeça orgulhosamente erguida. Disse:
- Sua filha tem razão. Devemos nos colocar acima de nossas apreensões e dizermos a este infeliz rapaz: tenha coragem. Nunca será esquecido. Não podemos garantir nada, nem mesmo lhe dizer exatamente o que vai acontecer. Mas podemos dizer que, se depender de nós, tudo será feito para ajudá-lo! E agora, precisamos protegê-lo das pressões psicológicas devastadoras que de outra forma o destruiriam, simples mas efetivamente.
Tarde demais, McAllister percebeu que os outros tinham se desviado daquela parede fantástica, aquela que já tinha demonstrado a mais estranha versatilidade. Nem chegou a ver quem apertou os botões para o que devia se passar depois.
Primeiro, viu uma luz ofuscante; por um momento teve a impressão de que sua mente estava sendo dissecada e nesta sensação ouviu a voz de Peter Cadron, penetrante:
- Manter o seu autocontrole e a sua sanidade, esta é a nossa esperança; conseguiremos apesar de tudo! E, para sua própria segurança, só fale de sua experiência a cientistas ou àqueles investidos de autoridade em que possa confiar e que possam compreender e ajudar! Felicidades!
O efeito da luz ainda era tão intenso que mal percebeu que o empurravam para fora.
Sentiu que estava caindo.