As Casas de Armas de Isher

A. E. Van Vogt · Capítulo 4 de 32

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As Casas de Armas de Isher

Capítulo Primeiro · De noite, a aldeia tinha um ar…

 

De noite, a aldeia tinha um ar curiosamente fora do tempo. Fara passeava

satisfeito ao lado de sua mulher. O ar parecia vinho; estava pensando vagamente no artista que tinha vindo da Cidade Imperial, e tinha feito o que os telestates chamaram - ele se lembrava nitidamente - "uma pintura simbólica reminiscente de uma cena da idade elétrica de sete mil anos atrás. "

Enquanto andavam pela rua, Fara observou sua mulher de lado. À luz fraca do poste de iluminação mais próximo, o rosto ainda jovem e bondoso de sua mulher estava quase na sombra. Falou em voz baixa, em harmonia com os tons pastéis da noite:

- Ela disse, nossa Imperatriz disse, que a nossa aldeia de Glay parecia ter a integridade e a bondade que constituem as melhores qualidades do seu povo. Não é um pensamento maravilhoso, Creel? Ela deve ser uma mulher maravilhosamente compreensiva.

Chegaram a uma rua lateral, e o que ele viu uns cinquenta metros adiante o fez parar.

- Olhe! - disse com voz rouca.

Mostrou a tabuleta luminosa que brilhava dentro da noite, uma tabuleta que trazia os seguintes dizeres:

ARMAS DE QUALIDADE

O DIREITO DE COMPRAR ARMAS É

O DIREITO DE SER LIVRE

Fara sentiu um estranho vazio dentro dele, enquanto olhava os dizeres luminosos. viu que outros habitantes da cidade estavam se aproximando. Disse bruscamente:

- Já ouvi falar destas lojas. São lugares infames, contra os quais o governo da Imperatriz agirá um destes dias. São construídas em fábricas secretas e depois transportadas inteiras para cidades como a nossa e instaladas, desafiando grosseiramente os direitos de propriedade. Esta não estava aí uma hora atrás.

Seu rosto tornou-se duro, e sua voz tinha um tom áspero quando disse:

- Creel, vá para casa.

Ficou surpreendido porque Creel não se afastou imediatamente. Durante toda sua vida de casados, ela tivera o agradável hábito de obedecer e, por isto, a vida era maravilhosa. Viu que ela o olhava espantada e que era o medo o que a mantinha ali.

- Vá para casa! - o medo dela trouxe à tona toda a determinação de sua natureza. - Não deixaremos esta coisa monstruosa profanar nossa cidade. Pense nisto - sua voz tremia só de imaginar o que poderia acontecer - esta comunidade maravilhosa, tradicional, que nós resolvemos manter exatamente como a Imperatriz a tem em sua galeria de quadros, depravada, arruinada por esta... esta coisa. Mas nós não o toleraremos!

A voz de Creel soou suave, agora sem medo:

- Não faça nada apressadamente, Fara. Lembre-se de que não é o primeiro prédio novo na cidade desde que foi pintado o quadro.

Fara não disse nada. Esta era uma faceta de sua mulher que não aprovava, lembrá-lo desnecessariamente de fatos desagradáveis. Ele sabia exatamente a que ela estava se referindo. A gigantesca, tentacular, corporação Oficinas Automáticas de Manutenção de Motores Atômicos S. A., montada pelo Estado num edifício suntuoso contra a vontade do conselho da aldeia e que tinha já tirado metade do trabalho de sua própria oficina.

- É diferente! - disse finalmente. - Em primeiro lugar, descobrirão logo que estas oficinas automáticas novas não fazem um bom trabalho. Em segundo lugar, é competição franca. Mas esta loja de armas é um desafio a todas as qualidades que tornam a vida sob a Casa de Isher tão boa. Olhe só os dizeres da tabuleta: "O direito comprar armas... Aaaah!

Interrompeu a frase para dizer:

- Vá para casa, Creel. Vamos providenciar para que eles não vendam armas nesta cidade.

Ficou observando a delgada silhueta da mulher desaparecer nas sombras da noite. Ela já tinha atravessado a rua quando a chamou: - E se encontrar nosso filho pelo caminho, leve-o para casa. Ele tem que aprender a não ficar fora de casa a estas horas da noite.

A mulher não se virou. Fara ainda ficou observando-a por algum tempo e depois se dirigiu com decisão para a loja. A multidão estava aumentando a cada minuto e a noite vibrava com o som de suas vozes excitadas.

O letreiro luminoso da loja pareceu-lhe um caso simples de ilusionismo. De qualquer posição que se olhasse parecia estar sempre de frente. Quando parou diante da vitrine, viu que o letreiro estava novamente bem em cima da loja e lhe dava a impressão de o estar olhando sem piscar. Voltou sua atenção para um letreiro dentro da vitrine. Este dizia:

AS MELHORES ARMAS ENERGÉTICAS

DO UNIVERSO CONHECIDO

Acendeu-se a fagulha do interesse dentro de Fara. Olhava, fascinado, as armas expostas na vitrine; fascinado contra sua própria vontade. Havia armas de todos os tamanhos, desde pequenas pistolas de gatilho até rifles automáticos. Fara sentiu um calafrio ao ver a quantidade de armas mortíferas em exposição. Tantas armas para a pequena cidade de Glay, onde só duas pessoas, ao que ele sabia, tinham armas, e estas somente para caçar.

Alguém atrás dele disse:

- Está bem no terreno de Lan Harris. Uma boa lição para o velho tratante. Ele vai armar um barulho!

Vários homens riram. Fara viu que o homem tinha falado a verdade. A loja de armas tinha doze metros de frente. Ocupava o centro do lote ajardinado do velho pão-duro Harris. Fara franziu a testa. Inteligentes, estes donos das lojas de armas, escolhendo a propriedade da pessoa mais detestada da cidade, divertindo assim os outros. Mas o importante era não deixar o truque ser bem sucedido. Foi nesse momento que notou a presença gorda do Prefeito Mel Dale. Fara conseguiu chegar perto dele e, tocando respeitosamente o chapéu, perguntou:

- Onde está Jor?

- Estou aqui - o chefe de polícia aproximou-se, atravessando a pequena multidão.

- Algum plano? - perguntou.

Os dois homens se olharam e depois olharam para o chão. Foi o grande policial que respondeu logo:

- A porta está trancada. E ninguém atende. Estava sugerindo justamente deixar as coisas como estão até amanhã de manhã.

- Não concordo! - Fara ficou impaciente. - Apanhe um machado e derrubaremos a porta. A demora só irá encorajar esta corja a resistir.

Todos os que estavam perto concordaram imediatamente. Talvez depressa demais. Fara olhou em volta intrigado e todos baixaram a cabeça diante do seu olhar decidido. "Eles estão com medo e não querem fazer nada!", pensou. Antes que pudesse dizer alguma coisa, o policial Jor replicou:

- Parece que você ainda não ouviu falar a respeito destas lojas. Pelo que se sabe, não podem ser arrombadas.

Fara percebeu com súbita angústia que era ele quem tinha de agir. Disse:

- Vou apanhar meu maçarico atômico na oficina. Ele dará um jeito na porta. Tenho sua autorização, senhor prefeito?

Iluminado pelo reflexo das luzes da vitrine, via-se que o prefeito estava suando. Disse:

- Talvez fosse melhor telefonar para o comandante da guarnição de Ferd e chamá-los.

- Não! - Fara percebeu a indecisão. - Devemos agir nós mesmos. As outras comunidades deixaram esta gente se estabelecer porque nenhuma ação decisiva foi tomada contra eles. Precisamos resistir ao máximo. A partir deste momento. Que é que vocês acham?

O "Sim!" do prefeito foi pouco mais que um suspiro. Mas era tudo o que Fara necessitava. Transmitiu em voz alta as suas intenções e, ao atravessar a multidão, avistou o filho, com alguns outros rapazes, examinando o que estava na vitrine. Fara chamou o filho:

- Cayle, venha ajudar-me com o maçarico.

Cayle não se moveu, nem se virou. Fara parou um instante, apressando-se em seguida, aborrecido mas evitando discutir.

A energia não tinha som e fluía, suavemente, sem faíscas e sem espocar. Brilhava com uma luz branca pura, quase acariciando o painel metálico da porta. Contudo, após um minuto, o metal não tinha sido afetado. Fara recusava-se a aceitar o fato e aplicava com insistência aquela energia potente e ilimitada à porta resistente. Quando, finalmente, desligou a máquina, estava suando por todos os poros.

- Não entendo - arquejava. - Mas como? Afinal, nenhum metal pode resistir a um fluxo constante de força atômica.

- Como Jor lhe disse, estas casas de armas são... poderosas. Estão se espalhando por todo o império, e não reconhecem a Imperatriz - disse o prefeito.

Fara ficou perturbado. Não estava gostando daquela conversa. Antes que pudesse falar, um homem na multidão disse:

- Ouvi dizer que a porta só se abrirá àqueles que não possam prejudicar os de dentro.

Fara impacientava-se. Disse com voz cortante:

- Isto é ridículo! Se existissem portas como esta, nós todos as teríamos. Nós...

O que fez com que parasse foi a súbita percepção de que não tinha visto ninguém tentar abrir a porta; com toda aquela agitação à sua volta, era bem possível que ninguém o tivesse feito. Adiantando-se, segurou a maçaneta e empurrou a porta. Esta abriu-se, com uma ausência de peso pouco natural, dando-lhe a impressão de que a maçaneta teria se soltado na sua mão. Firmemente, Fara empurrou a porta, que se abriu completamente.

- Jor, entre! - gritou Fara.

O policial fez um movimento indeciso, talvez por precaução, mas logo percebeu que não podia hesitar diante de todos. Constrangido, pulou em direção ã porta, mas esta fechou-se na sua cara.

Estupefato, Fara olhou a mão ainda agarrada à maçaneta. Sentiu um calafrio. A maçaneta se contraía, torcendo-se e fugia, viscosa, de sua empunhadura. Sentiu sobre ele o peso da atenção da multidão, que o observava silenciosamente. Tentou, outra vez, agarrar a maçaneta e torcê-la; desta vez, ela não cedeu. Este obstáculo despertou sua teimosia. Fez um gesto ao policial.

- Recue, Jor, enquanto eu abro.

O homem afastou-se mas não adiantou nada. Apesar de todo o esforço a porta não se abriu. Da multidão, alguém disse sombriamente:

- A porta decidiu deixar que você entrasse e depois mudou de idéia.

- Que tolice você está dizendo! Uma porta não tem vontade. Imagine, mudar de idéia! - disse ele, violentamente.

Fara olhou a loja, tristemente desanimado. O edifício, claro como o dia, erguia-se sob o céu noturno, alheio e ameaçador e não mais facilmente conquistável. Indagava-se o que fariam os soldados da Imperatriz se fossem chamados a agir. E, subitamente, compreendeu que mesmo os soldados seriam incapazes de fazer alguma coisa.

- A porta abriu para mim uma vez; abrirá novamente - disse, com raiva.

E abriu. Suavemente, sem resistência, com, a mesma sensação de ausência de peso, a estranha e sensível porta obedeceu à pressão de seus dedos. Lá dentro, um recinto grande e semi-escuro. Às suas costas o prefeito dizia:

- Fara, não seja louco. O que vai fazer aí dentro? Fara, admirado, percebeu que tinha entrado. Virou-se, encarando a massa de rostos indistintos:

- Ora... - começou indeciso.

Depois exclamou, excitado: - Vou comprar uma arma, claro!