As Casas de Armas de Isher
Ele não conseguia eliminar sua perturbação. Aquela…
CAPÍTULO DÉCIMO NONO
Ele não conseguia eliminar sua perturbação. Aquela vasta, fascinante organização, implantada no próprio coração da impiedosa sociedade que, no espaço de algumas semanas, havia despojado a ele, Fara, de tudo o que possuía...
- O... juiz - acabou por dizer, dominando sua febre (e por falta de uma palavra mais apropriada) - o juiz me disse que para recuperar minha situação, preciso...
- Antes de abordarmos esse problema, gostaria que o senhor examinasse a lista que lhe foi entregue.
- A lista?
Precisou de um momento para entender o que o velho queria. Havia esquecido completamente a folha azul. Depois de tê-la tirado do bolso, examinou-a com cuidado. A Sociedade de Manutenção figurava nela em lugar de destaque.
- Não entendo - murmurou espantado. - São as sociedades contra as quais os senhores lutam?
Seu interlocutor sacudiu a cabeça.
- Essas firmas só representam uma fração das oito milhões de empresas cujas atividades vigiamos sem parar. - Sorriu sem alegria. - Eles sabem perfeitamente que é por nossa causa que seus lucros teóricos não têm nenhuma relação com suas receitas, mas ignoram quanto a margem representa. Preferimos deixá-los nessa ignorância. Nossa finalidade é promover uma melhoria da moral comercial, e não encorajar o excesso em matéria de fraude.
Fez uma pausa, antes de continuar, fixando em Fara um olhar escrutador:
- As companhias que figuram nessa lista têm um ponto em comum: todas pertencem à Imperatriz. Considerando tudo em que o senhor acredita, não espero que me creia.
Fara não se mexeu. E apesar disso, contrariando toda a expectativa, ele acreditava nas palavras do velho. Totalmente. Sem restrições. O espantoso, o imperdoável, era que durante toda sua vida vira homens levados à ruína, que soçobravam na miséria e no esquecimento e era neles que ele punha a culpa!
- Como eu fui insensato! Dizendo amem a tudo o que a Imperatriz e seus funcionários faziam... Eu recusava ter relações com quem não pensasse como eu. Suponho que, se começo a criticar a Imperatriz, não tardarei a ser despachado.
- O senhor não deve de maneira alguma falar mal de Sua Majestade. A liga opõe-se formalmente a tal atitude e deixa de dar seu apoio aos que praticam esse gênero de imprudência. A responsabilidade da Imperatriz na realidade, é atenuada. Da mesma maneira que o senhor, ela é, numa certa medida, levada pela corrente da civilização isheriana. Mas este não é o momento de dar-lhe um curso minucioso sobre a política dos Fabricantes de Armas. O período mais crítico das nossas relações com o poder situa-se há quarenta anos. Naquela época, todos os que estavam convencidos de que nossa ajuda era um benefício eram assassinados. Vou dizer-lhe uma coisa que o espantará: seu sogro foi uma das vítimas da repressão.
- O pai de Creel! Mas... Eu sempre pensei que ele havia fugido com outra mulher!
- Cada vez que um era liquidado, faziam correr boatos desse tipo. Para pôr um fim a essa situação, nós mesmos executamos os três notáveis responsáveis pela hecatombe. Mas não queremos mais saber de novos banhos de sangue. Acusam-nos de aliança com os maus: isso nos deixa insensíveis. Recusamo-nos a criar obstáculos à evolução profunda da existência: é isso que precisam compreender. Nós reparamos as injustiças, agimos como um pára-choque entre os povos e seus cruéis exploradores. Em regra geral, só damos nossa ajuda às pessoas honestas, o que não quer dizer que recusemos sistematicamente nossa assistência aos que são menos escrupulosos. No entanto, nunca chegamos ao ponto de vender armas aos últimos. Ora, nossas armas são extremamente preciosas e é em parte por causa delas que o governo é obrigado a se reduzir a espertezas de ordem econômica para estabelecer sua ditadura. Há quatro mil anos, um brilhante gênio, Walter S. de Lany, inventou o processo vibratório que tornou possíveis as Casas de Armas e estabeleceu os princípios básicos de nossa filosofia política. E há quatro mil anos vemos o regime oscilar entre uma monarquia democratizada e a tirania absoluta. E compreendemos uma coisa: os povos têm invariavelmente o tipo de regime que desejam. Quando querem mudar, cabe-lhes meter a mão na massa. Nós somos um núcleo incorruptível (incorruptível no sentido literal: dispomos de uma máquina para a qual o caráter de um homem não tem segredos), um núcleo incorruptível de idealismo, tendo por tarefa atenuar os males que o governo inevitavelmente engendra, qualquer que seja a forma de que se reveste. Mas estamos nos afastando do seu problema pessoal. Ele é de uma extrema simplicidade: o senhor deve se bater como, milenarmente, os homens resolutos se bateram para defender o que há de valor aos seus olhos, para salvaguardar seus legítimos direitos. O truste Manutenção de Motores mudou sua oficina na hora em que houve o embargo e o material foi recolhido a um armazém longínquo. Nós o recuperamos e o colocamos no devido lugar. O senhor vai, portanto, retomar posse de suas coisas e...
Fara, com os dentes cerrados, ouviu atentamente as instruções. Finalmente concordou.
- Conte comigo - disse. - Sempre fui cabeçudo. Já não tenho as mesmas opiniões de antes mas continuo sempre obstinado.