As Casas de Armas de Isher
Fara trabalhava. Nada mais havia a fazer.…
CAPÍTULO DÉCIMO QUINTO
Fara trabalhava. Nada mais havia a fazer. E seria assim até a morte, pensava freqentemente. Como um imbecil, continuava a esperar que, um dia, Cayle aparecesse no ateliê. "Aprendi a lição, papai, diria. Se me perdoares, se me ensinares o trabalho, poderás te aposentar e descansar. Tu o mereceste. "
Naquele dia - 26 de agosto - no fim do almoço, a voz mecânica de um telestate cantarolou de repente:
"Dívida a pagar... Dívida a pagar... "
O casal se entreolhou. O rosto de Creel endureceu.
- Patife - rosnou Fara.
Mas ele se sentia curiosamente aliviado. Cayle finalmente percebeu que os pais têm, às vezes, certa utilidade. Ligou a imagem.
Apareceu na tela a figura enrugada de um personagem bochechudo.
- Falando o caixa do Banco Número Cinco, sucursal de Ferd. Temos aqui um título de dez mil créditos emitido contra o senhor. Com as despesas, sua dívida se eleva a doze mil e cem créditos. Quando vai liquidá-la? Agora ou esta tarde?
- Mas... mas... quem?
Pelas explicações do estranho, ele compreendeu vagamente que os dez mil créditos tinham sido entregues naquela manhã a Cayle Clark.
Ele explodiu:
- O banco não tem o direito de debitar minha conta sem minha expressa autorização.
- Se o senhor quiser, avisaremos nossa sede de que se trata de uma falsificação. Nesse caso, é claro, uma ordem de prisão será emitida contra seu filho.
- Espere... espere...
Creel sacudiu a testa negativamente. Estava trêmula.
- Não te preocupes, Fara - murmurou com voz quebrada. - Devemos ser tão impiedosos quanto ele deixa correr.
Fara tinha a impressão de estar vivendo um sonho absurdo.
- Eu... eu não... Posso liquidar... mais tarde?
- O senhor tem, naturalmente, a possibilidade de pedir um empréstimo. Ficaremos felizes em atendê-lo. Quando o título chegou, consideramos essa possibilidade e estamos dispostos a emprestar-lhe onze mil créditos a longo prazo, com a garantia de seus bens. Os documentos estão prontos. Se o senhor quiser, podemos registrá-los imediatamente e o senhor poderá assiná-los agora mesmo.
- Não, Fara! Não!
- Quanto aos mil e cem créditos restantes, o senhor os pagará em dinheiro. Está de acordo?
- Sim, claro. Tenho dois mil e quinhentos créditos... De acordo - reafirmou rapidamente. - De acordo.
Acertado o assunto, ele virou-se para Creel.
- Que querias dizer me pedindo para não pagar? - disse, com violência. - Quantas vezes me repetiste que sou responsável por ele ser como é? Aliás, sabes por que ele precisa de dinheiro?
- No espaço de uma hora ele liquidou as nossas economias. Friamente. Porque sabia que nós não podíamos fazer outra coisa, grandes imbecis que somos.
- Só sei de uma coisa: a honra do nosso nome está salva.
Seu sentimento de ter agido de acordo com seu dever durou até o meio da tarde. Exatamente até o momento em que um oficial de justiça da Ferd apresentou-se no ateliê para interditá-lo.
- A Sociedade de Reparação e Manutenção de Motores Atômicos pagou ao banco o seu empréstimo e ficou com seus títulos. Por ordem dela, suas instalações ficam sob seqestro.
- O quê? Mas é a vigarice mais deslavada! Vou imediatamente me queixar! Ah! Se a Imperatriz souber... ela... ela...
Perdido nos cinzentos corredores do Palácio da Justiça, Fara sentia-se enregelado até os ossos. Tinha preferido não chamar um homem da lei. Essa decisão, quando a tomara na aldeia, lhe havia parecido a mais prudente. Mas agora, perdido no meio daquelas salas colossais, tinha a impressão de ter agido como o último dos imbecis.
Todavia, fez o que pôde para explicar seu caso à corte, denunciando o complô criminoso do banco e a ligação deste com seu principal concorrente.
- Estou convencido de que a Imperatriz desaprovaria essas manobras contra cidadãos honestos - disse, encerrando sua exposição.
- Como se atreve a cobrir a defesa de seus sórdidos interesses com o nome de Sua Graciosa Majestade? - exclamou uma voz seca e fustigante.
Fara estremeceu. Havia em Isher milhares de tribunais impessoais, semelhantes àquele, milhões de patifes, milhões de homens sem entranhas, postados entre a Imperatriz e seu bom povo. Se ela soubesse o que se passava, se ela fosse avisada da injustiça de que ele, Fara, era vítima, ela... ela...
Bom, que faria mesmo ela?
Desembaraçou-se da horrível dúvida que assolou seu espírito e estremeceu quando o escrivão pronunciou o veredicto:
- A queixa foi recusada e o queixoso condenado a pagar as custas. Não poderá deixar o recinto antes de pagar sua dívida para com a justiça, ou seja, quinhentos créditos para a corte e duzentos para o advogado da parte contrária. Caso seguinte.
Na manhã seguinte, Fara foi ao Restaurante do Granjeiro, de propriedade de sua sogra.
A sala já estava meio cheia, embora ainda não fosse meio-dia. Um bom negócio... A mãe de Creel estava na despensa, vigiando a pesagem dos sacos de trigo. Em silêncio, ouviu o genro.
- Não posso, Fara - disse secamente. - Eu mesmo tenho ido ao banco freqentemente pedir dinheiro e, se ajudar vocês, breve terei a Sociedade de Manutenção nas minhas costas. Aliás, era preciso ser muito inocente para emprestar dinheiro a um homem que se deixou enganar pelo próprio filho! Isso prova que você não sabe defender seus interesses. E não lhe darei trabalho: tenho por princípio não empregar parentes. Gostaria muito que Creel viesse morar aqui. Mas nem penso em sustentar um homem.
Ao deixar a despensa, virou-se bruscamente:
- Por que não vai à loja de armas? Você nada tem a perder e não pode continuar como está.
Fara saiu. Estava um pouco tonto. Comprar uma arma e se suicidar? Era uma sugestão absurda, mas doía-lhe ser a sogra a fazê-la. Matar-se? Ridículo. Aos cinqenta anos ainda se é jovem. Com um pouco de sorte, podia ainda ganhar corretamente a vida nesse mundo onde o automatismo era rei. Havia sempre um lugar ao sol para um homem consciencioso, com uma boa profissão, a qual conhece a fundo. Fara baseara toda a sua existência nesse credo.
Creel empacotava as coisas.
- A solução mais prudente é alugar a casa e viver num apartamento mobiliado - murmurou.
Ele contou-lhe o oferecimento da sogra. Ela sacudiu os ombros:
- Eu já tinha recusado ontem. Nem sei mesmo porque ela te falou nisso.
Fara aproximou-se da sacada e olhou o jardim, tentando imaginar Creel longe das suas moitas, do seu tanque, das pedras, arrancada do ambiente que ela amava, banida do seu lar. Creel num apartamento mobiliado. Agora ele compreendia o que a sogra queria dizer. Ficava-lhe um última esperança.
Assim que Creel subiu, ele chamou Mel Dale. O rosto do prefeito teve uma expressão de enfado quando viu quem o chamava, mas nem por isso deixou de ouvir com ar solene o pedido de Fara.
- Lamento, mas o conselho municipal não empresta dinheiro. E devo dizer-lhe uma coisa, Clark, embora, note bem, eu não tenha nada com isso, não lhe será dada licença para montar um novo negócio.
- Como?
- Lamento. Quer um conselho? Vá à loja de armas. Esses estabelecimentos têm, às vezes, sua utilidade.
Houve um clique e a tela ficou branca. Fara continuou a olhar fixamente. Não havia solução. Só lhe restava morrer.