As Casas de Armas de Isher

A. E. Van Vogt · Capítulo 17 de 32

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As Casas de Armas de Isher

Fara trabalhava. Nada mais havia a fazer.…

CAPÍTULO DÉCIMO QUINTO

 

Fara trabalhava. Nada mais havia a fazer. E seria assim até a morte, pensava freqentemente. Como um imbecil, continuava a esperar que, um dia, Cayle aparecesse no ateliê. "Aprendi a lição, papai, diria. Se me perdoares, se me ensinares o trabalho, poderás te aposentar e descansar. Tu o mereceste. "

Naquele dia - 26 de agosto - no fim do almoço, a voz mecânica de um telestate cantarolou de repente:

"Dívida a pagar... Dívida a pagar... "

O casal se entreolhou. O rosto de Creel endureceu.

- Patife - rosnou Fara.

Mas ele se sentia curiosamente aliviado. Cayle finalmente percebeu que os pais têm, às vezes, certa utilidade. Ligou a imagem.

Apareceu na tela a figura enrugada de um personagem bochechudo.

- Falando o caixa do Banco Número Cinco, sucursal de Ferd. Temos aqui um título de dez mil créditos emitido contra o senhor. Com as despesas, sua dívida se eleva a doze mil e cem créditos. Quando vai liquidá-la? Agora ou esta tarde?

- Mas... mas... quem?

Pelas explicações do estranho, ele compreendeu vagamente que os dez mil créditos tinham sido entregues naquela manhã a Cayle Clark.

Ele explodiu:

- O banco não tem o direito de debitar minha conta sem minha expressa autorização.

- Se o senhor quiser, avisaremos nossa sede de que se trata de uma falsificação. Nesse caso, é claro, uma ordem de prisão será emitida contra seu filho.

- Espere... espere...

Creel sacudiu a testa negativamente. Estava trêmula.

- Não te preocupes, Fara - murmurou com voz quebrada. - Devemos ser tão impiedosos quanto ele deixa correr.

Fara tinha a impressão de estar vivendo um sonho absurdo.

- Eu... eu não... Posso liquidar... mais tarde?

- O senhor tem, naturalmente, a possibilidade de pedir um empréstimo. Ficaremos felizes em atendê-lo. Quando o título chegou, consideramos essa possibilidade e estamos dispostos a emprestar-lhe onze mil créditos a longo prazo, com a garantia de seus bens. Os documentos estão prontos. Se o senhor quiser, podemos registrá-los imediatamente e o senhor poderá assiná-los agora mesmo.

- Não, Fara! Não!

- Quanto aos mil e cem créditos restantes, o senhor os pagará em dinheiro. Está de acordo?

- Sim, claro. Tenho dois mil e quinhentos créditos... De acordo - reafirmou rapidamente. - De acordo.

Acertado o assunto, ele virou-se para Creel.

- Que querias dizer me pedindo para não pagar? - disse, com violência. - Quantas vezes me repetiste que sou responsável por ele ser como é? Aliás, sabes por que ele precisa de dinheiro?

- No espaço de uma hora ele liquidou as nossas economias. Friamente. Porque sabia que nós não podíamos fazer outra coisa, grandes imbecis que somos.

- Só sei de uma coisa: a honra do nosso nome está salva.

Seu sentimento de ter agido de acordo com seu dever durou até o meio da tarde. Exatamente até o momento em que um oficial de justiça da Ferd apresentou-se no ateliê para interditá-lo.

- A Sociedade de Reparação e Manutenção de Motores Atômicos pagou ao banco o seu empréstimo e ficou com seus títulos. Por ordem dela, suas instalações ficam sob seqestro.

- O quê? Mas é a vigarice mais deslavada! Vou imediatamente me queixar! Ah! Se a Imperatriz souber... ela... ela...

 

Perdido nos cinzentos corredores do Palácio da Justiça, Fara sentia-se enregelado até os ossos. Tinha preferido não chamar um homem da lei. Essa decisão, quando a tomara na aldeia, lhe havia parecido a mais prudente. Mas agora, perdido no meio daquelas salas colossais, tinha a impressão de ter agido como o último dos imbecis.

Todavia, fez o que pôde para explicar seu caso à corte, denunciando o complô criminoso do banco e a ligação deste com seu principal concorrente.

- Estou convencido de que a Imperatriz desaprovaria essas manobras contra cidadãos honestos - disse, encerrando sua exposição.

- Como se atreve a cobrir a defesa de seus sórdidos interesses com o nome de Sua Graciosa Majestade? - exclamou uma voz seca e fustigante.

Fara estremeceu. Havia em Isher milhares de tribunais impessoais, semelhantes àquele, milhões de patifes, milhões de homens sem entranhas, postados entre a Imperatriz e seu bom povo. Se ela soubesse o que se passava, se ela fosse avisada da injustiça de que ele, Fara, era vítima, ela... ela...

Bom, que faria mesmo ela?

Desembaraçou-se da horrível dúvida que assolou seu espírito e estremeceu quando o escrivão pronunciou o veredicto:

- A queixa foi recusada e o queixoso condenado a pagar as custas. Não poderá deixar o recinto antes de pagar sua dívida para com a justiça, ou seja, quinhentos créditos para a corte e duzentos para o advogado da parte contrária. Caso seguinte.

Na manhã seguinte, Fara foi ao Restaurante do Granjeiro, de propriedade de sua sogra.

A sala já estava meio cheia, embora ainda não fosse meio-dia. Um bom negócio... A mãe de Creel estava na despensa, vigiando a pesagem dos sacos de trigo. Em silêncio, ouviu o genro.

- Não posso, Fara - disse secamente. - Eu mesmo tenho ido ao banco freqentemente pedir dinheiro e, se ajudar vocês, breve terei a Sociedade de Manutenção nas minhas costas. Aliás, era preciso ser muito inocente para emprestar dinheiro a um homem que se deixou enganar pelo próprio filho! Isso prova que você não sabe defender seus interesses. E não lhe darei trabalho: tenho por princípio não empregar parentes. Gostaria muito que Creel viesse morar aqui. Mas nem penso em sustentar um homem.

Ao deixar a despensa, virou-se bruscamente:

- Por que não vai à loja de armas? Você nada tem a perder e não pode continuar como está.

Fara saiu. Estava um pouco tonto. Comprar uma arma e se suicidar? Era uma sugestão absurda, mas doía-lhe ser a sogra a fazê-la. Matar-se? Ridículo. Aos cinqenta anos ainda se é jovem. Com um pouco de sorte, podia ainda ganhar corretamente a vida nesse mundo onde o automatismo era rei. Havia sempre um lugar ao sol para um homem consciencioso, com uma boa profissão, a qual conhece a fundo. Fara baseara toda a sua existência nesse credo.

Creel empacotava as coisas.

- A solução mais prudente é alugar a casa e viver num apartamento mobiliado - murmurou.

Ele contou-lhe o oferecimento da sogra. Ela sacudiu os ombros:

- Eu já tinha recusado ontem. Nem sei mesmo porque ela te falou nisso.

Fara aproximou-se da sacada e olhou o jardim, tentando imaginar Creel longe das suas moitas, do seu tanque, das pedras, arrancada do ambiente que ela amava, banida do seu lar. Creel num apartamento mobiliado. Agora ele compreendia o que a sogra queria dizer. Ficava-lhe um última esperança.

Assim que Creel subiu, ele chamou Mel Dale. O rosto do prefeito teve uma expressão de enfado quando viu quem o chamava, mas nem por isso deixou de ouvir com ar solene o pedido de Fara.

- Lamento, mas o conselho municipal não empresta dinheiro. E devo dizer-lhe uma coisa, Clark, embora, note bem, eu não tenha nada com isso, não lhe será dada licença para montar um novo negócio.

- Como?

- Lamento. Quer um conselho? Vá à loja de armas. Esses estabelecimentos têm, às vezes, sua utilidade.

Houve um clique e a tela ficou branca. Fara continuou a olhar fixamente. Não havia solução. Só lhe restava morrer.