As Casas de Armas de Isher
Seis de outubro. Uma lembrança aflora a…
CAPÍTULO VIGÉSIMO SEGUNDO
Seis de outubro. Uma lembrança aflora a memória da Imperatriz, enquanto ela se vira no leito: decidira na véspera, tomar uma decisão ao acordar. Mas ao sair do sono, percebeu que continuava na mesma indecisão. Abriu os olhos, sentou-se e procurou compor o rosto para esconder o mau-humor à meia dúzia de camareiras que, de plantão atrás de um biombo contra ruídos, apressaram-se a atender sua patroa. Innelda pegou a taça de energia que lhe foi estendida; os projetores acenderam-se, inundando a vasta câmara com sua onda de luz. Uma nova manhã começava. Em seguida, a massagem, a ducha; a maquiladora apossou-se dela. Logo depois, a penteadora substituiu-a... A rotina diária.
"É preciso agir", pensou ela, abandonando seu corpo às camareiras, "é preciso agir. Senão, a ofensiva vai abortar e como suportar a humilhação de um fracasso? Depois de quatro meses, eles não vão certamente demorar".
Assim que se vestiu, começaram as audiências. Primeiro, teve que receber Gerritt, o mordomo sempre assoberbado por um mundo de problemas. Problemas quase sempre de uma mediocridade impressionante. No fundo, era um pouco culpa de Innelda. Ela sempre exigira que todas as queixas referentes ao pessoal do palácio lhe fossem submetidas e que nenhum castigo fosse efetuado sem seu acordo. A insolência é hoje a falta de que são mais freqentemente culpados os servidores. Desafiavam seus superiores e resistiam ao trabalho. Isso se tornara verdadeiramente um hábito.
- Mas se não agentam o peso do trabalho, por que não se demitem? - exclamou a Imperatriz, com irritação. - Bons empregados não custam a achar trabalho, quando mais não seja porque supõem-se que conheçam minha vida privada...
- Por que Vossa Majestade não me deixa acertar essas coisas?
O eterno estribilho de Gerritt! Com o tempo, ela o sabia, o mordomo acabaria por ter razão nessa insistência. Mas certamente não no sentido em que ele pensava. Jamais um desses velhos conservadores teimosos dirigiria o incontável pessoal do palácio! Seriam eles e seus iguais, esses vestígios da regência, que teriam um dia que deixar seus lugares.
Innelda suspirou e dispensou o mordomo. Novamente o grande problema voltou a ocupar seu espírito. Que fazer? Dar ordem de atacar, sempre que fosse possível? Ou aguardar, na esperança de que um fato novo modificasse a situação? Mas esperava já há tanto tempo!
Um homem de elevada estatura, de olhos cinzentos, entrou e cumprimentou com cerimônia. Era o General Doocar.
- O edifício reapareceu na noite passada durante duas horas e quarenta minutos, senhora. Só houve um minuto de diferença para o tempo calculado.
Innelda sacudiu a cabeça. Agora não havia mais nenhuma surpresa a esperar daquele lado. O ritmo das materializações fora estabelecido na semana seguinte à primeira aparição. No entanto, a Imperatriz queria ser mantida ao corrente das flutuações do edifício, sem que soubesse, aliás, bem por que. "Estou me conduzindo como uma criança incapaz que quer se meter em tudo. " Novamente de mau-humor, fez alguns comentários pouco amáveis sobre a competência dos cientistas militares e voltou ao problema que a interessava, o da ofensiva.
- Não se deve nem pensar em lançar um ataque imediato, senhora - declarou firmemente o general. - Em cada uma das grandes cidades do planeta onde existe uma Casa de Armas, os geradores estão nos seus lugares, apontados para o objetivo. Mas onze mil oficiais desertaram em dois meses e meio e os guardas ignoram o funcionamento da arma.
- E os hipnotizadores? Em uma hora podem fazer com que aprendam.
- Podem, Majestade - disse o oficial, cujos lábios tornaram-se mais finos ainda, embora seu timbre não tenha mudado. - Compete a Vossa Majestade decidir se convém tornar pública essa informação. Basta ordenar. Será obedecida.
Innelda mordeu os lábios. Doocar levara vantagem.
- Os chamados simples soldados são aparentemente mais leais que meus oficiais. E mais bravos.
Ele sacudiu os ombros.
- A senhora deu aos recrutadores o privilégio de vender patentes. Com esse método, não se pode esperar que haja muitas pessoas instruídas. Além disso, um capitão que pagou dez mil créditos por seu galões não se arriscará. Não tem nenhuma vontade de se fazer matar.
Sempre aquele velho argumento! Quantas vezes não o ouvira repetir com palavras diferentes! No entanto, só há poucas semanas aludiam abertamente àquele problema. Não podia haver assunto mais desagradável! Uma lembrança quase esquecida veio-lhe à memória.
- Na última vez em que falamos desse assunto, pedi-lhe que investigasse junto ao Coronel Medlon sobre o que aconteceu a um rapaz que estava a ponto de obter uma patente. É raro que eu entre em contato direto com subalternos.
A cólera inflamou-a bruscamente.
- Já estou cheia dessa horda de velhotes incapazes de treinar uma tropa.
Dominou-se e continuou, mais calma:
- Então? E esse rapaz?
- O coronel me informou de que o candidato em questão não compareceu ao encontro marcado. Para Medlon, ele desconfiou de alguma coisa e mudou de idéia.
A explicação não pareceu convincente à Imperatriz.
Aquela atitude não combinava com o rapaz! Innelda conhecia todo o valor dos contatos pessoais. Seus encantos e a espécie de aura sobrenatural que envolvia o trono que ela personificava, agiam infalivelmente sobre todos os que ela encontrava. Era preciso mais que a palavra de um Medlon, indivíduo dúbio, suspeito de embriagues, para abalar tal certeza.
- General, queira informar o coronel de que se ele não me apresenta, hoje mesmo, aquele rapaz, enfrentará um Lambeth amanhã de manhã.
Doocar inclinou-se, mas um sorriso cínico encrespou seus lábios:
- Se Vossa Majestade pretende lutar contra a corrupção eliminando os desonestos, uns após outros, sua vida inteira não chegará para levar a cabo essa tarefa.
Essa linguagem, que não media palavras, feriu-a profundamente.
- É preciso começar de alguma forma, general - replicou ela num tom ao mesmo tempo ameaçador e triste. - Não compreendo mais nada. Antigamente o senhor também pensava que era preciso tomar medidas.
- Não lhe cabe tomá-las, Majestade. A família imperial deve encorajar a limpeza, mas não deve dirigi-la diretamente. E depois... e depois, acabei por admitir mais ou menos o princípio dos Fabricantes de Armas. Quando se impede os instintos aventureiros de se exprimir normalmente, os homens caem na corrupção.
Os olhos verdes de Innelda lançaram faíscas.
- A filosofia dos Fabricantes de Armas não me interessa em nada.
Estava estupefata de ouvir tais coisas na boca de um velho oficial. Mas suas reclamações não o comoveram.
- No dia em que eu chegar a me desinteressar da ideologia de um poder que existe há já três mil e setecentos anos, a senhora poderá pedir minha demissão, Majestade.
Para onde se virasse, a Imperatriz encontrava o mesmo respeito inconfesso pelos Armeiros. Quase um culto. Pior ainda: consideravam que sua organização era intrínseca à civilização de Isher, da qual era legitimamente um aspecto. "É preciso que eu me livre de todos esses velhos", pensou ela pela centésima vez. "Eles sempre me trataram e sempre me tratarão como menininha".
- Não me preocupo com a ética de um grupo responsável pela imoralidade que reina em todo o sistema solar, general - disse ela, glacialmente. - Na era em que vivemos, a produtividade é tal que ninguém mais passa fome. O homicídio, na medida em que é ditado pela necessidade, cessou de existir. Quanto ao crime psiquiátrico, é um problema fácil de resolver, com um tratamento apropriado. Mas que constatamos? O neurótico está em poder de uma superarma! E o proprietário da Casa de Ilusões tem uma, também ele. É verdade que neste último caso há um acordo com a polícia, que permite às forças da ordem fazer buscas. Mas se o possuidor de uma superarma decide resistir, é preciso um canhão de trinta mil ciclos para levá-lo ao arrependimento. É ridículo. E criminoso! Impossível por termo à perversidade de milhões de indivíduos que desprezam a lei sob o pretexto de que têm uma superarma nas mãos. Ah! Se a liga ao menos só vendesse suas armas a pessoas respeitáveis, seria diferente! Mas quando não importa que patife pode...
- São armas puramente defensivas.
- Precisamente: assassina-se o próximo... e depois nos defendemos da justiça! Não sei por que estou discutindo, general! Estamos em condições de destruir essas Casas de Armas, de uma vez por todas. Não se trata de aniquilar os membros da liga, mas de acabar com as lojas. Quando o senhor estará preparado para o ataque? Em três dias? Numa semana?
- Dê-me até o ano próximo, senhora. A atual onda de deserções atrapalhou tudo.
Era verdade.
- Capturou os desertores?
- Alguns.
- Quero interrogar um já.
O general concordou em silêncio. Innelda continuou:
- Estou esperando que a polícia militar pegue os outros. Assim que tivermos saído desse cipoal, instalarei tribunais especiais e os traidores aprenderão à própria custa o valor do juramento de fidelidade à Imperatriz.
- E se eles possuírem superarmas?
Innelda conseguiu controlar a fúria que a objeção fez ferver nela:
- Quando a disciplina militar é pulverizada por uma organização clandestina, os próprios generais deveriam compreender que é mais do que tempo de jugular a subversão, meu caro. - Fez um gesto pleno de autoridade. - Esta tarde irei visitar as instalações do Olympia Field para saber pessoalmente em que estado estão as pesquisas. Quero saber se os laboratórios descobriram como os Fabricantes de Armas fizeram para esconder a geradora. Torno a lembrar-lhe que o Coronel Medlon deve apresentar-me, amanhã de manhã o mais tardar, o rapaz sobre quem falamos. Se não for capaz, cairá mais uma cabeça de traidor. Talvez o senhor ache que meu interesse por um indivíduo é pueril. Já lhe disse, general: é preciso partir de alguma coisa e conheço esse rapaz, sei que posso controlá-lo. E agora o senhor, o admirador dos Armeiros, suma antes que eu faça alguma coisa terrível.
- Sou leal com a casa de Isher - retorquiu suavemente Doocar.
- Fico feliz ao ouvi-lo dizer isso.
E com essas palavras sarcásticas, Innelda saiu da sala sem um olhar para trás.