As Casas de Armas de Isher

A. E. Van Vogt · Capítulo 15 de 32

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As Casas de Armas de Isher

Assim que ficou de posse do endereço,…

CAPÍTULO DÉCIMO TERCEIRO

 

Assim que ficou de posse do endereço, entrou em contato com Hedrock, que escutou seu relatório em silêncio.

- Trabalho excelente - disse ele, quando ela acabou - excelente. Vamos protegê-la. Um cruzador patrulhará o local, a grande altitude. Espero - continuou depois de uma hesitação - espero que compreenda que só há uma forma de justificar tal medida: Clark não deve duvidar um instante sequer de que só motivos pessoais a animam. Sente-se capaz de ir até o fim?

Pergunta inútil: bastava olhar a expressão desvairada de Lucy para conhecer seus sentimentos. Ela estava emocionalmente a zero. Hedrock sentiu o aguilhoar do remorso. Apesar disso, não era responsável pelos sentimentos de Lucy. Seu papel se limitara a tirar partido do conhecimento dos meandros psicológicos do ser humano. Cayle Clark podia ter importância para Isher; poderia infletir o curso da guerra existente entre o governo imperial e as Casas de Armas. Uma vez as faculdades calistênicas de Cayle orientadas no bom sentido, elas se ampliariam numa progressão geométrica. Que aconteceria então? Nenhum espírito humano era capaz de adivinhar.

Se somente se conseguisse prever sob que forma se revestiria sua ação? Hedrock reprimiu esses pensamentos. Não era homem de se abandonar a especulações. Seu papel era observar os fatos e os gestos de Clark, com a esperança de que chegariam a descobrir o instante crítico da mutação.

- Seu encontro é a que horas?

- Esta noite, às vinte e trinta. - Teve um sorriso sem alegria. - A recepcionista me recomendou chegar na hora. Eles parecem estar lotados!

- Imaginemos que ele não esteja... disponível naquela hora? Que fará?

- Imagino que haverá, nesse caso, ruptura de ilusão e que há então o direito de escolher seu par. Mas supondo que ele não esteja disponível, bem, eu também não estarei. Bancarei a esperta.

- Ele a reconhecerá?

Ela não compreendeu o que ele queria dizer.

- As ilusões deixam imagens alucinatórias residuais que alteram a percepção visual.

- Darei um jeito para que me reconheça, fique tranqilo. - E ela empenhou-se em expor-lhe os diversos métodos que havia imaginado.

- Vê-se bem que você não tem o hábito de freqentar esses estabelecimentos! Vai ter que enfrentar grandes dificuldades. Gente que está vigilante vinte e quatro horas por dia. Enquanto não estiver verdadeiramente em estado de ilusão, haverá poucas oportunidades para que uma só de suas palavras lhes escape. Eles só se desinteressam das coisas e gestos dos clientes a partir do momento em que estes estão sob a influência de neuroestimulantes. Você precisa lembrar sempre disto.

Lucy se reanimou. Lembrando-se da tarde que passara em companhia de Cayle, sentiu-se confiante.

- Ele me reconhecerá - disse, com voz firme.

Hedrock não insistiu mais. Quis apenas que os dados do problema que Lucy deveria resolver ficassem claramente expostos. Três dias e três noites de ilusões, era muito. Mesmo abstraindo as imagens residuais, sequelas do tratamento, sai-se com o espírito perturbado; a energia vital atinge seu ponto mais baixo e não se tem mais o apoio necessário para reagir.

Agora queria me preparar, Senhor Hedrock.

- Desejo-lhe toda a sorte possível, minha menina. Mas só peça ajuda em caso de necessidade absoluta.

Hedrock não saiu da central depois desta conversa. Em período de crise, ele transportava suas coisas para um apartamento ao lado do seu escritório. Seu trabalho era sua vida e ele passava praticamente todas as horas de folga no escritório. Chamou imediatamente o estado-maior da frota das Casas de Armas, para pedir que preparassem um protetor para Lucy. Mas esta medida era bastante insuficiente. Com as sobrancelhas contraídas, procurou avaliar as oportunidades teóricas da moça e pediu aos arquivos secretos que lhe enviassem sua pasta. Ainda não haviam passado dois minutos quando a pasta pousou na sua mesa.

Compreensão: 110. Horizonte: 118. Pletora: 105. Domínio: 151. Ego: 120. Coeficiente emocional: 150.

Em outras palavras, uma moça inteligente, com uma emotividade superior à normal. Fora precisamente aquela qualidade que decidira os responsáveis a confiar a missão a Lucy. Quando, em conseqência de uma sondagem de rotina à qual normalmente são submetidos os basbaques que se amontoam em frente às lojas recentemente abertas, identificaram em Cayle Clark um gigante calistênico, fora decidido estabelecer contato com ele através de uma mulher solteira, possuidora de forte índice afetivo. O conselho havia previsto que Lucy sofreria uma fixação emocional. Outros elementos, aliás, haviam desempenhado um papel na seleção - entre eles as defesas e o equilíbrio possuídos por Lucy - e que seriam indispensáveis, pois ela seria submetida a tensões pouco habituais. Era desejável, no interesse do próprio agente Rall, que a atração fosse mútua, pelo menos no começo. Num mundo em movimento, não seria possível, é claro, garantir a permanência...

Hedrock examinou, um a um, cada fator suscetível de modificar a situação. Deu um suspiro de resignação. Tinha pena de Lucy. Em princípio, a Organização nunca se metia na vida particular dos seus membros nem na de ninguém. Mas o caráter excepcional da situação atual, dessa crise sem precedentes, autorizava alterar a regra, justificava o fato de utilizar um ser humano como um pião. Hedrock devolveu a pasta ao Centro de Informações e começou a manipular seu telestate com uma atenção deliberada. Após ter eliminado inúmeras imagens, conseguiu o que procurava: a Temporal. A maior das duas manchas achava-se a seis semanas e um dia do futuro, mas a pequena foi mais difícil de localizar. Finalmente achou-a, ínfima pontuação perdida em alguma parte no meio do oceano do tempo. Estava aproximadamente a um bilhão de anos no passado. Hedrock fechou os olhos, tentando imaginar o que aquilo representava, mas a energia da qual McAllister era atualmente portador ultrapassava a imaginação.

Cortou o contato do aparelho. Sentiu-se invadido por súbito cansaço. Não tinha ainda a menor idéia da maneira pela qual seria possível resolver o problema da explosão, remediar a ameaça mortal que pesava sobre o sistema solar inteiro.

Consagrou a hora seguinte a examinar os relatórios do dia. Os agentes que não tinham o raro privilégio dado a Lucy de se comunicar diretamente com o coordenador a qualquer hora do dia ou da noite - os privilegiados eram apenas um punhado e ignoravam o favor a eles feito - ditavam seus relatórios a máquinas registradoras ou aos colaboradores de Hedrock, que se revezavam de oito em oito horas. De tempos em tempos, Hedrock encontrava um relatório sucinto que exigia uma pesquisa mais acurada. Trabalhava sem mau-humor, sem pressa, consagrando a cada relatório o tempo que considerava necessário.

Às dez horas e meia chamou o cruzador que vigiava no céu verticalmente sobre a Casa onde Lucy já devia ter entrado. Durante um instante, contemplou a imagem telescópica que lhe enviava seu interlocutor: uma casinha de boneca perdida na verdura.

E voltou a seu trabalho.