As Casas de Armas de Isher

A. E. Van Vogt · Capítulo 26 de 32

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As Casas de Armas de Isher

Relatório de Lucy ao Departamento de Coordenação.

CAPÍTULO VIGÉSIMO QUARTO

 

Relatório de Lucy ao Departamento de Coordenação.

"Casamos pouco antes do meio-dia, no mesmo dia da volta dele de Marte, sexta-feira. Sei que uma verificação ulterior revelou que ele só pisou o chão da Terra às 14 horas. Não sei como o fato pode ser explicado. Não comuniquei a ele essa informação e nem o farei, a menos que me seja dada ordem expressa.

"Entretanto, não tenho qualquer dúvida. O homem com quem casei é efetivamente Cayle Clark. A hipótese de um sósia que me tenha mistificado é inteiramente insustentável. Cayle acaba de me telestatar, como costuma fazer diariamente, mas não sabe que estou começando a redigir um relatório sobre ele e começo a pensar se não deveria recusar. No entanto, as coisas sendo como são, vou tratar de me lembrar de todos os detalhes dos acontecimentos, como me pediram. Como este relatório do momento em que recebi seu primeiro chamado.

"Eram quase dez e trinta da manhã. Nossa conversa foi brevíssima: depois de um rápido bom-dia, pediu-me para casar com ele. O chefe do Departamento de Coordenação conhece meus sentimentos com relação a Cayle, por isso o Sr. Hedrock não ficará surpreso ao saber que eu imediatamente aceitei a proposta. Assinamos os papéis e os registramos alguns minutos antes do meio-dia daquele mesmo dia.

"Em seguida, fomos para minha casa; só saímos na manhã seguinte. Todavia, ausentei-me às treze e quarenta e cinco a pedido de Cayle, que queria utilizar meu telestate. Embora nada me tenha dito a respeito, notei ao voltar que não tinha sido ele quem chamara: o telestatômetro indicava uma chamada de origem externa.

"Não lamento tê-lo obedecido: estava no meu estado normal. Ele nada me disse sobre esse chamado mas contou-me detalhadamente tudo o que lhe aconteceu desde nosso último encontro na Casa de Ilusões. Sua exposição, reconheço-o, era bastante confusa e mais de uma vez tive a impressão de que ele lembrava acontecimentos muito antigos.

"Na manhã seguinte, ele acordou cedo. Tinha muito o que fazer, disse-me, e como eu tinha pressa de falar com o Sr. Hedrock, não fiz nenhuma objeção. A declaração do nosso agente, que afirma tê-lo visto entrar num luxuoso autoplano estacionado nas proximidades, espantou-me. Sinceramente, não compreendo.

"Depois disso, Cayle não voltou mais para minha casa. Comunica-se comigo todas as manhãs. Não pode ainda falar-me de suas atividades, diz-me, mas garante que me ama da mesma maneira. E creio nele até prova em contrário. Não tenho o menor conhecimento de que ele seria, há um mês, capitão do exército de Sua Majestade. Ignoro como possa ter obtido esse posto. Se é verdade, como afirmam, que ele já está adido ao estado maior da Imperatriz, nada mais posso fazer além de exprimir minha surpresa.

"Concluindo, declaro que tenho confiança em Cayle. É-me impossível explicar seus atos, mas creio que seus resultados estarão de acordo com o seu senso de honra.

(a) LUCY RALL CLARK

14 de novembro de 4.784"

CAPÍTULO VIGÉSIMO QUINTO

 

Chegara a hora decisiva. Hedrock havia contemporizado durante um mês, esperando fatos novos. Depois de ter lido o relatório de Lucy, tinha finalmente certeza de uma coisa. Como previa, a situação tomara um aspecto inesperado. Mas ele não conseguia pegar o significado dos acontecimentos. A angústia o torturava; temia que elementos de importância vital lhe escapassem. Mas não tinha mais dúvida.

Releu o documento. Lucy parecia ter adotado uma atitude reservada em relação às Casas de Armas. Ela não havia, é verdade, agido contra os interesses delas, mas sentia-se, nas entrelinhas, que ela temia que sua atitude fosse mal interpretada e colocava-se na defensiva. O que, em si, era nefasto. A ascendência que a liga exercia sobre seus membros era de natureza psicológica. Em geral, quando um deles queria sair, apagavam-se certas lembranças de sua memória, dava-se-lhe um prêmio calculado sobre seu tempo de serviço e a porta lhe era escancarada. Mas Lucy desempenhara um papel determinante no decorrer de uma crise capital. Era preciso evitar que o conflito entre seu dever e sua vida particular se tornasse muito grave.

Hedrock discou o número da moça.

- Acabo de ler seu relatório, Lucy, e quero agradecer sua colaboração. Temos absoluta consciência da situação em que está metida. Encarregaram-me (era muito deliberadamente que ele empregava aquela fórmula, deixando supor que uma Comissão Diretora lhe havia ditado aquelas palavras), encarregaram-me de pedir-lhe que continue em ação, dia e noite, até o fim deste período. Em troca, a liga fará tudo o que estiver a seu alcance para proteger seu marido das conseqências que puderem advir de sua atuação presente.

Não era uma promessa vã. Ele já havia alertado a brigada de proteção e, na medida em que um homem, gravitando na órbita da corte, era suscetível de ser protegido, a missão seria cumprida. Examinou discretamente a fisionomia de Lucy. Não obstante ser uma moça inteligente, jamais ela compreenderia totalmente a guerra entre as Casas de Armas e o poder. Era uma guerra secreta. Os canhões não haviam dado um só tiro. Ninguém fora morto. Supondo que as lojas de armas fossem destruídas, Lucy não perceberia imediatamente. Sua vida poderia não ser afetada e o próprio Hedrock, o imortal, era incapaz de prever o curso que a história tomaria, uma vez eliminada uma das forças constitutivas da cultura isheriana.

Suas garantias não tinham, visivelmente, satisfeito a moça.

- Senhora Clark, no dia do seu casamento, a senhora tomou as medidas calistênicas do seu marido e no-las transmitiu. Nunca lhe demos o resultado integral para não perturbá-la. Todavia, creio que ele é mais de natureza a interessá-la que a alarmá-la.

- São particulares?

- Particulares? As faculdades calistênicas de Cayle Clark eram naquele momento superiores a tudo o que o Centro de Informações registrara desde sua criação. Ignoramos que forma tomará o seu poder, mas de uma coisa ninguém pode duvidar: o universo inteiro de Isher vai ser afetado.

Lia-se a confusão nos olhos de Lucy. O que era terrível é que Cayle não fazia nada. Uma nuvem de espiões vigiava seus menores movimentos - enfim, quase todos. Por duas vezes ele havia ludibriado a vigilância dos seus anjos da guarda. Mas isso era coisa sem importância. O grande acontecimento, fosse ele qual fosse, estava a caminho. E ninguém, mesmo entre os homens da liga, era capaz de prever como evoluiria.

- Garante não ter esquecido nada, Lucy? Creia-me, é uma questão de vida ou de morte. E é sobretudo pensando nele que digo isto.

Ela disse não com a cabeça. Nada havia mudado em seu olhar, a não ser seus olhos, que haviam aumentado. A boca não tremera. Era bom sinal. Claro, as reações físicas são enganadoras. Mas Lucy Rall não aprendera as técnicas de dissimulação. Robert Hedrock podia mentir sem que qualquer reação nervosa o traísse. - Lucy ignorava como se controlam os músculos para reprimir os sinais inconscientes que eles exteriorizam.

- Sr. Hedrock, o senhor sabe que pode contar inteiramente comigo.

Era uma vitória. Não obstante, Hedrock estava descontente. Descontente com ele mesmo. Alguma coisa lhe escapava, seu espírito não tinha a sutileza necessária para penetrar fundo na realidade. Como no problema do pêndulo, um dado que devia ser ostensivo desafiava sua perspicácia. Não era mais a hora de remoer os fatos e os números na solidão da sua sala. Era a hora de lutar com o real. No campo de batalha.