As Casas de Armas de Isher

A. E. Van Vogt · Capítulo 12 de 32

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As Casas de Armas de Isher

Capítulo Nono · Cayle teve que forçar seu caminho através…

 

Cayle teve que forçar seu caminho através da multidão para conseguir entrar no Palácio dos Tostões. O tamanho da multidão o encorajava. Ele podia passar despercebido naquela massa de humanidade sedenta de dinheiro.

Cayle não hesitou. Havia examinado, antes, todos os jogos, por isso se dirigiu diretamente ao que ele queria para obter fortuna. O importante, pensou, é conquistar o lugar para jogar e mantê-lo.

Este novo jogo tinha possibilidade de até cem para um, sendo que a mais baixa era de cinco para um. Funcionava de uma forma relativamente simples, se bem que Cayle, que sabia um pouco sobre energia, tendo se distraído desde os quinze anos na oficina do pai, percebeu que havia um sistema complicado escondido atrás da aparência de simplicidade do esquema. O alvo era uma bola de energia. Tinha aproximadamente uma polegada de diâmetro e rolava dentro de uma esfera de plástico. Rolava cada vez mais depressa até que sua velocidade transcendia a resistência da matéria. Nesse momento, sendo energia pura, quebrava as barreiras de sua prisão. Mergulhava através do plástico como se não fosse nada, como se fosse um raio de luz prisioneiro por uma lei física antinatural numa prisão quase invisível.

No entanto, no momento em que se via livre, parecia ter medo. Mudava de cor, sutilmente, e diminuía a velocidade. E, apesar de sua imensa velocidade no momento da liberação, o medo era tão grande que poucos segundos depois diminuía tanto que começava a cair.

Enquanto caía, dava a ilusão de estar em toda parte. Uma ilusão que se formava na mente dos jogadores, produto da enorme velocidade e de alucinação mental. Cada jogador tinha a convicção que a bola voava em sua direção, que cairia no canal que ele atirava com um número. Inevitavelmente, ficavam decepcionados quando a bola, missão cumprida, caía num dos canais, acionando o mecanismo.

O primeiro jogo deu a Cayle um lucro de trinta e sete créditos. Queria aparentar calma mas o choque da vitória inundou seus nervos com espasmos de excitação. Colocou um crédito em quadro canais, perdeu e, depois, jogando os mesmos números de novo, ganhou noventa créditos. Durante a hora seguinte, ganhou numa média de um em cada cinco jogos. Tinha que reconhecer que era uma sorte fenomenal, até para ele e, mesmo antes de terminar aquela hora, já estava arriscando dez créditos em cada canal que escolhia.

Não chegou a contar o lucro. De vez em quando, jogava um monte de moedas numa trocadora automática e recebia notas grandes que guardava no bolso. Nem uma vez teve que jogar com a reserva. Depois de um certo tempo, sentiu um pânico estranho. "Devo ter uns três ou quatro mil créditos. É hora de parar. Não preciso ganhar o dinheiro todo numa só noite. Posso voltar amanhã e depois de amanhã e assim por diante. "

O que o confundia era a velocidade do jogo. Cada vez que o impulso de parar chegava, o jogo recomeçava e ele, apressadamente, fazia as apostas. Quando perdia, sentia-se irritado e surgia dentro dele a determinação avara de não deixar para trás nem um tostão de seu lucro.

Se ganhava, achava ridículo interromper no momento em que a sorte o favorecia tanto. Espere, dizia-se, espere até perder dez vezes seguidas... dez vezes seguidas... Teve a impressão vaga de quarenta ou cinqenta mil créditos num bolso. E havia dinheiro nos outros bolsos também. Sem se dar conta, conscientemente, começou a jogar com notas de valor elevado. Não tinha importância, a máquina pagava os ganhos com toda honestidade.

Já estava cambaleando como um homem bêbado. O corpo parecia estar flutuando. Continuava jogando, como que envolvido numa névoa emocional, sem perceber os outros. Não reparou que muitos estavam acompanhando suas jogadas, ganhando com ele. Mas isto não era importante para ele. Só despertou de seu torpor quando a bola caiu, como uma coisa morta, no fundo de sua prisão. Ele ficou parado, esperando o jogo recomeçar, sem a menor consciência de que aquela parada tinha algo que ver com ele, até que um homem gordo, moreno, caminhou em sua direção.

O estranho falou, com um sorriso oleoso:

- Parabéns, rapaz. Agradecemos a preferência e estamos muito felizes com sua sorte. Mas para os outros jogadores temos más notícias. As regras desta casa, que estão afixadas na entrada de nosso magnífico estabelecimento, não permitem que se acompanhe a sorte evidente de outro jogador. É fora de dúvida que este afortunado rapaz está jogando de mãos dadas com a sorte, por isso todas as outras apostas devem ser feitas antes da sua. A máquina foi regulada nesse sentido e pedimos não nos obrigar a desapontá-los se fizerem apostas de última hora. Não dará certo. E agora, boa sorte senhores e senhoras, e sobretudo a você, meu rapaz.

Afastou-se sorrindo. Um momento depois a bola estava dançando novamente.

Foi durante a terceira jogada que Cayle percebeu: "Mas eu sou o centro de atenção". Ficou espantado. Tinha saído de sua letargia semiconsciente, mantida para poder continuar seguro de si no jogo. Pensou: "É melhor eu sair daqui e sem despertar atenção".

Quando tentou afastar-se, uma garota bonita abraçou-o e deu-lhe um beijo.

A garota dizia:

- Oh, por favor, deixe eu ter um pouco da sua sorte. Por favor, por favor, sim?

Conseguiu soltar-se, mas esqueceu sua intenção. Continuou jogando enquanto tentava lembrar-se: "Mas eu ia fazer alguma coisa". Percebia que cada vez chegava mais gente querendo jogar na mesma mesa, empurrando-se uns aos outros e mesmo brigando por um lugar. Ao escutar as discussões, novamente sentiu como que um aviso, a sua mesa era o centro de atenção de mil olhos ávidos.

Mas não conseguia lembrar-se do que queria fazer. Tinha a sensação de estar virtualmente cercado de mulheres que o tocavam, beijavam-lhe o rosto quando virava a cabeça, e sentia o excesso de perfume.

Não podia mover as mãos sem esbarrar com elas em braços nus, costas nuas e vestidos tão decotados que a sua cabeça mergulhava num mar de seios macios e perfumados. Quando, naturalmente, inclinava a cabeça um pouco, as mãos sempre presentes o puxavam o resto do caminho.

E ainda não tinha terminado sua noite de sorte. Sentia que era prazer demais, aplauso demais a cada nova vitória. E também quando perdia, era excessivo o consolo oferecido pelas mulheres que o abraçavam e beijavam. Até a música de fundo era animada demais. Quando havia ganho incontáveis milhares de créditos, fecharam-se as portas do Palácio dos Tostões e o mesmo homem gordo aproximou-se e disse secamente:

- Muito bem. Agora chega. Os clientes já saíram, podem acabar com esta idiotice.

Cayle olhava o homem espantado. Sentiu o alarme de perigo pulsando em seu corpo. Disse:

- Acho que vou para casa.

Alguém golpeou-o no rosto, com violência.

- De novo, ele ainda não voltou a si.

O segundo golpe foi ainda mais violento. Cayle finalmente percebeu claramente que estava em perigo. Gaguejou:

- Mas o que está acontecendo?

Seus olhos apelavam para aqueles que, minutos antes, estavam tão entusiasmados com ele... Impossível que algo de ruim pudesse lhe acontecer enquanto eles estivessem ali.

Virou-se para atacar o homem gordo. Mas foi imobilizado por mãos fortes que o seguravam, que esvaziavam os seus bolsos, tirando tudo o que tinha ganho. Como de muito longe, ouviu o homem falar novamente:

- Não seja ingênuo. Não há nada especial acontecendo. Os clientes foram empurrados para fora, não só os daqui de sua mesa como também os do salão de jogo. Os que estão aqui agora são contratados para estas ocasiões e nos custam dez créditos cada. Isto nos custará só dez mil, enquanto que você ganhou de cinqenta a cem vezes esta cifra.

Encolheu os ombros e continuou:

- As pessoas não entendem o mecanismo econômico destas coisas. Na próxima vez não seja tão ambicioso. Se houver uma próxima vez.

Cayle recuperou a fala:

- E o que vão fazer?

- Você verá. Muito bem, levem-no para o caminhão aéreo e podemos reabrir o estabelecimento!

Cayle sentiu que o arrastavam através de um corredor escuro. Desesperado, pensava que, mais uma vez, estava numa situação em que os outros decidiam o seu destino.