As Casas de Armas de Isher

A. E. Van Vogt · Capítulo 22 de 32

Páginas do PDF

As Casas de Armas de Isher

Capítulo Vigésimo · A maioria das Casas de Ilusões estava…

 

 

A maioria das Casas de Ilusões estava fichada na polícia. Mas uma lei não escrita estava em vigor: cada vez que uma batida era dada, o proprietário era avisado. Todavia, o nome dos que tinham sido seqestrados devia ser facilmente encontrado na gaveta de qualquer mesa. Nas semanas seguintes, as listas de emigrantes, inclusive os indigentes e os criminosos enviados para Marte, Vênus e as Luas, estavam controladas. Os empreiteiros do governo tinham sempre necessidade de mão-de-obra para os planetas. E as Casas, freqentadas por mulheres abastadas, que não se podiam permitir escândalos, forneciam um contingente regular de trabalhadores.

O argumento de que somente os mortos não falam não era, porém, aceito pela polícia. Os proprietários que infringiam essa regra inexorável, eram impiedosamente perseguidos. Há milhares de anos o sistema provara sua eficácia: o vício podia ter curso livre desde que suas vítimas sobrevivessem à sinistra experiência.

Cayle fez instintivamente alto junto da passarela. O chão estava duro como pedra. O frio que se insinuava pelas solas penetrava-lhe até os ossos. Então isso é que era Marte? Olhou o triste aspecto da cidade e estremeceu. Não de frio: de raiva. Uma raiva em estado bruto, tão violenta que teve a impressão de estar habitado por uma vontade de aço.

- Tu, caminha um pouco - resmungou um dos guardas que vigiavam o desembarque. E sua voz era cava no ar rarefeito.

A ponta de um bastão cutucou o ombro de Cayle, que nem se virou, desprezando a ofensa. Acompanhou a lúgubre fila que se estendia interminavelmente. A cada passo, o frio invadia mais um pouco seu corpo. Agora ele o sentia até o fundo dos pulmões. Homens começaram a correr na frente dele. Outros o ultrapassaram, com a respiração rouca, os olhos fora das órbitas, gesticulando canhestramente; a débil gravidade à qual não estavam habituados, fazia-os tropeçar. Vários caíram gemendo, com o corpos dilacerados pelas pontas dos chuços. O chão gelado, o chão de ferro de Marte, estava tinto pelo sangue dos homens.

Cayle obrigou-se a conservar um ar normal. Sentia um enorme desprezo pelos que perdiam o sangue frio. Tinham sido avisados! E a vasta cúpula de plástico só estava a quatrocentos ou quinhentos metros dali. Por mais penosa que fosse a temperatura, era possível suportá-la durante o percurso de tão pequena distância. Quando chegou à cerca, seus pés estavam dormentes e todo seu corpo formigava. Mas sob a cúpula estava morno. Lentamente, o rapaz caminhou para a parte do edifício que dava para a cidade.

Shardl era uma cidade de mineiros, erguida no meio de uma planície pontilhada cá e lá de massas verdes: os jardins atômicos, densos, luxuriantes, cujo espetáculo in-congruente só fazia acentuar a desolação da paisagem.

Um grupo se amontoara diante de um painel de informações. Ele aproximou-se e conseguiu ler o título do cartaz:

NÃO DEIXE PASSAR A OCASIÃO

Intrigado, abriu caminho através da pequena multidão, leu o texto e afastou-se, com um sorriso. Faziam recrutamento para as fazendas marcianas!

"Aceite um contrato de quinze anos e Sua Graciosa Majestade, Innelda de Isher, lhe fornecerá uma fazenda inteiramente equipada com um termogerador atômico. Nenhum pagamento a vista. Reembolso em quarenta anos.

E o apelo acabava com este conselho insidioso: "Apresente sua candidatura, agora no serviço de divisão de terras - e não terá que trabalhar nas minas nem um minuto".

A tentadora proposta deixou Cayle insensível. Ele ouvira falar do sistema engendrado para colonizar o planeta frio e o planeta quente, Marte e Vênus. Cada hectare seria um dia loteado e ocupado e os planetas conheceriam, então, os benefícios da energia atômica. À medida em que os milênios fossem passando, os homens conseguiriam degelar todos os mundos glaciais do Sistema solar, esfriar os tórridos desertos de Vênus e de Mercúrio. Homens se esfalfando até o fim de seus dias, acabariam por criar cópias aceitáveis da Terra longínqua, do verde planeta de onde tinham vindo.

Era a doutrina. Quando ele estava na escola, ao evocarem diante dele o problema da colonização, nunca viera à idéia de Cayle que ele estaria, um dia, mergulhado na penumbra de Marte, vítima de uma implacável maquinação contra a qual a educação que recebera não o imunizara. Deixara de detestar o pai. Seu ódio ficara lá embaixo, nas brumas do passado, naquele mundo de nada onde se tinham dissolvido suas ilusões. Um pobre imbecil, só isso! No fundo, talvez fosse melhor que houvesse gente como ele, incapaz de compreender as realidades do império.

Seu problema pessoal seria, daí por diante, resolvido de maneira tão simples quanto eficaz. Antigamente tivera medo; seu medo estava morto. Por estranho que fosse, tinha sido honesto; sua honestidade estava morta. Embora, num certo sentido, ainda fosse honesto. Tudo dependia da maneira de encarar a vida: deveria adotar a teoria que afirmava que um ser humano devia ser bastante forte para enfrentar as exigências do momento?

Cayle estava disposto a enfrentá-las. O homem que ele havia sido não amoleceria em Marte! Em primeiro lugar, nada assinar que pudesse entravar seus movimentos. Precisaria ser prudente, mas saber apanhar instantaneamente todas as oportunidades que se apresentassem - e então se empregar a fundo, apostar tudo sem hesitação.

Uma voz cautelosa tirou-o do devaneio.

- É de fato a Cayle Clark, da aldeia de Glay, a quem estou me dirigindo?

Cayle não esperava que a ocasião se apresentasse com tanta rapidez. Voltou-se lentamente e viu-se frente a frente com um homem de pequena estatura, metido num sobretudo de suntuosa elegância. A despeito de seu rosto insignificante e sua pele endurecida, via-se que não era o gênero de pessoa a ter feito parte de um transporte de deportados.

- Represento o Banco Interplanetário n.°5. Talvez estejamos em condições de ajudá-lo a sair desta situação... insólita.

Com seu rosto descarnado e seu colarinho folgado, parecia um sapo. Seus olhos inquiridores luziam com um brilho sombrio como duas pérolas negras.

Cayle não pôde reprimir um estremecimento de nojo. Quando era garotinho, uma mulher ia muito à casa dele. Vivia coberta de jóias e peles. Tinha os mesmos traços, os mesmos olhos. Palmadas de nada adiantaram: ele não queria saber dela.

- Isso pode interessá-lo?

Cayle ia recusar a oferta quando uma palavra, na qual não prestara atenção, aflorou sua consciência.

- Qual é o banco, mesmo?

A caricatura sorriu com um sorriso confiante de quem se sabe portador de um dom precioso.

- O Banco Interplanetário n.°5. O senhor abriu uma conta na nossa sede há um mês. No decorrer da investigação que fazemos obrigatoriamente sobre os novos clientes, soubemos que o senhor havia partido para Marte em condições desagradáveis. Então tomamos a iniciativa de pôr à sua disposição nosso serviço de empréstimos.

- Estou vendo.

Cayle examinou com atenção seu interlocutor mas esse novo exame não lhe permitiu achar o menor detalhe capaz de lhe inspirar confiança. No entanto, a conversa devia prosseguir.

- O que é, exatamente, que o banco pode fazer por mim?

O outro pigarreou.

- O senhor é mesmo filho de Fara e Creel Clark? - perguntou, destacando as palavras.

Cayle hesitou um momento antes de aquiescer.

- Quer voltar para a Terra? Desta vez não hesitou.

- O preço básico da viagem é 600 créditos, quando a distância Marte-Terra permite realizá-la em vinte e quatro dias. Se a distância é maior, há um acréscimo de dez créditos por dia suplementar. Suponho que sabe disso.

Na verdade, Cayle ignorava esse regulamento, mas duvidava que o salário semanal de vinte e cinco créditos dado aos mineiros lhe deixasse alguma esperança de um repatriamento rápido. Um homem sem recursos estava de pés e mãos amarrados. Redobrou a atenção, adivinhando o que se seguiria.

- O banco - continuou o outro com grandiloqência - o banco está em condições de lhe adiantar mil créditos se seu pai aceitar ser seu avalista e se o senhor assinar um reconhecimento de dívida de dez mil créditos.

Cayle sentou-se pesadamente. A esperança esfumou-se mais cedo ainda do que previra.

- Jamais ele avalisará um título de dez mil créditos - disse com desgosto.

- Nós lhe pediremos avalisar apenas até mil créditos. O senhor pagará o saldo com seus lucros futuros.

Cayle examinou o representante entrefechando os olhos.

- Sob que modalidade essa quantia me será entregue?

O outro sorriu.

- O senhor assina. Nós lhe damos a importância líquida. Quanto ao seu pai, não se preocupe. É o departamento de psicologia quem se incumbe de obter a assinatura dos avalistas e dos emitentes dos títulos. Para uns, usamos maneiras fortes, para outros...

Mas Cayle interrompeu:

- Quero o dinheiro antes de assinar qualquer coisa. O homem de cara de sapo deu uma risada e sacudiu os ombros.

- O senhor é duro nos negócios, estou vendo. Mas será feito como quer. Acompanhe-me até a sala do diretor.

Cayle, pensativo, seguiu-o. Tudo parecia fácil demais. Desconfiado, tinha a impressão de uma encenação muito bem arranjada. Diminuindo o passo, deu uma olhada ao redor. Havia uma completa série de salas onde homens bem vestidos conversavam com deportados.

Começou a compreender. Primeiro, o cartaz. Se não desse certo, se ninguém quisesse se tornar fazendeiro, o agenciador do banco entrava em cena. Se alguém assinasse, de duas uma: não recebia um tostão ou a importância entregue lhe seria imediatamente roubada. Então, com todos os recursos esgotados, presentes e futuros, uma pessoa era condenada a ficar em Marte pelo resto da vida.

"A pequena transação é feita diante de testemunhas", pensou. "Dois gorilas com suas armas, para garantir que ninguém fuja com a gaita. "

Bom meio de colonizar um planeta inóspito! O único, talvez, pois os terrenos não sentiam a menor vocação para pioneiros.

De fato, os dois homens estavam no escritório. Dois homens com roupas elegantes. Sorridentes. Verdadeiramente cordiais. O sapo apresentou-os a Clark como o diretor da mina e o empregado do banco, respectivamente. Quantos "diretores" estavam sendo apresentados nos escritórios vizinhos a outros ingênuos? Ter a possibilidade de conversar em particular com tão alto personagem, verificar que, apesar de tudo, também era um ser humano, devia ser extremamente impressionante.

Cayle apertou as mãos que se estendiam, refletindo sobre a situação. Em primeiro lugar, obter o dinheiro de maneira legal. Isto é, assinar um documento e ficar com uma cópia. Talvez isso, em si, não tivesse uma grande importância mas, apesar de tudo, era preciso não subestimar o valor da legalidade. O que era preciso evitar, a qualquer preço, era não pegar num tostão e se ver diante de um tribunal em presença de testemunhas que negariam friamente sua história.

O escritório, pequeno mas mobiliado agradavelmente, poderia perfeitamente ser de um diretor. Tinha duas portas, a por onde Cayle entrara e uma segunda em frente dela. Por onde, sem dúvida, desapareceria a vítima, depois de depenada, para que não pudesse contar sua aventura aos companheiros. Clark foi abri-la. Dava para uma esplanada. Viu dezenas e dezenas de barracas e, espalhados, grupos de soldados. Espetáculo que fazia pensar: supondo que conseguisse embolsar aquele dinheiro, nada de sair por ali.

Fechou a porta e voltou para o centro da sala.

- Brrr! Faz frio, lá fora! Quero voltar logo para a Terra!

Os três compadres responderam-lhe com um sorriso compreensivo e o personagem reptiliano estendeu-lhe um documento ao qual estava apenso um maço de notas de cem créditos que Cayle enfiou no bolso, não sem ter tido antes o cuidado de contar. Após, dedicou-se a ler o contrato que, muito claro, era feito aparentemente para infundir confiança nos espíritos que se perturbavam com a solenidade complicada de peças desse gênero. Havia três cópias: uma destinada à Terra, outra à agência marciana do banco e a terceira para ele. Todas estavam devidamente assinadas. Faltava só a sua assinatura. Cayle separou a cópia que lhe pertencia e os dois exemplares restantes foram inseridos no circuito de registro. Fez na primeira uma assinatura cheia de ornamentos, recuou um passo... e atirou a caneta, de ponta para a frente, na cara do "diretor", que deu um grito, levando a mão à face machucada.

Clark não esperou. Com um salto, aterrissou perto do sapo, agarrou-o pelo pescoço e apertou com toda a força. Com a boca aberta, o infeliz sacudia debilmente os braços no ar.

Por um breve momento, Cayle perguntou-se com angústia se seu plano iria ter sucesso. Ele partira, na verdade, da hipótese de que sua vítima tinha uma arma e que ele iria tentar pegá-la. Tudo dependia disso.

A mão de dedos finos penetrou no volumoso casacão e logo saiu apertando um pequeno explosor que foi logo empunhado pelo rapaz.

O "empregado" havia, também, sacado sua arma e girava para achar um meio de atirar sem ferir seu cúmplice. Clark atirou a queima-roupa, visando o pé do seu adversário. Um fino e cegante raio de energia jorrou do explosor. Um cheiro de couro carbonizado invadiu a sala, ao mesmo tempo em que volutas de fumaça azul espalhavam-se preguiçosamente no ar. O tipo berrou, largou a arma e caiu, torcido de dor. A uma ordem de Clark, o "diretor", completamente confuso, ergueu os braços. Cayle tirou-lhe o explosor, apanhou o do colega dele e caminhou, de costas, para a porta. Explicou rapidamente ao sapo o que esperava dele: ele o acompanharia, seria seu refém. Os dois iriam para a base mais próxima e voariam na direção de Mare Cimmerium, onde Cayle passaria para o primeiro navio de partida para a Terra.

- E se alguma coisa pifar - concluiu - haverá pelo menos um pilantra que morrerá antes de mim!

Nada pifou.

Isto aconteceu no dia 26 de agosto de 4784, era de Isher, dois meses e vinte e três dias depois que Innelda lançou sua ofensiva contra as Casas de Armas.