As Casas de Armas de Isher
Lucy Rall deixou rapidamente a cabine do…
CAPÍTULO DÉCIMO SEGUNDO
Lucy Rall deixou rapidamente a cabine do telestate e parou subitamente diante de um espelho de energia que captava sua imagem. As luzes palpitavam, as calçadas luminosas pareciam desafiar a escuridão. Mas Lucy só via sua imagem desfeita, seus olhos queimando de febre. "Foi este o espetáculo que dei ao Senhor Hedrock!"
Deu alguns passos vacilantes. A Avenida da Sorte nada perdera do seu brilho. Grupos iam e vinham, como enxames de borboletas, na luz mágica das ruas. Mas à medida em que o céu clareasse, a multidão pouco a pouco se dissolveria. Estava na hora de ir para casa. Lucy, apesar disso, não conseguia se decidir, embora sabendo que nada podia fazer. Nada. O conflito que a dilacerava era esgotador. Duas vezes, no espaço de uma hora, ela havia interrompido seu passeio para engolir um copo de energia.
Um sentimento penoso de derrota pessoal unia-se nela às preocupações que a atormentavam. Sempre tivera como certo que, um dia, acabaria por casar com um membro da liga. Na escola, na universidade, na época em que a sua candidatura já fora devidamente aprovada, os outros, as pessoas comuns, eram a seus olhos estrangeiros. "Foi no avião que aconteceu", pensou, num lampejo de compreensão. "E fiquei consternada. "
Clark estava naquela hora numa situação infinitamente mais grave que antes. Se conseguisse localizar o lugar para onde ele fora levado, ela... A idéia que jorrara em seu espírito tinha uma força tal que ela ficou arquejante. Era ridículo! Mesmo supondo que ela entrasse numa dessas casas, era preciso vencer uma ilusão, não apenas física mas também mental.
O simples fato de encarar uma coisa semelhante fazia com que corresse o risco de ser expulsa da organização, pensou, pouco à vontade. No entanto, pensando bem, o documento que havia assinado não continha nenhuma interdição formal. Na verdade, o parágrafo em letras miúdas do qual se lembrava, era bastante espantoso, à luz da situação atual:
".. -os membros da liga podem casar à vontade... participar, em caráter pessoal, de todos os deboches, conhecer todos os prazeres de Isher-... A Organização permite a seus membros ocupar seu tempo livre como bem entenderem... "
"A liga considera como evidente que nenhum, de seus colaboradores poderá se entregar a atividades de natureza a desvalorizar sua desclassificação Pp. Os membros da Organização ficam advertidos de que sua filiação pode ser cancelada a qualquer momento se os exames Pp, aos quais são periodicamente submetidos, revelarem uma incompatibilidade com o fato de pertencerem à Organização. Se for descoberto que um filiado não mais satisfaz às exigências requeridas, a Organização apagará em sua memória todas as informações cuja posse por uma pessoa não responsável sejam de molde a prejudicar a liga.
"A experiência mostrou que entregar-se com excessivo ardor aos vícios e deboches cuja lista se segue, é o primeiro passo para a exclusão da liga... "
As mulheres, em particular, eram avisadas com relação às Casas de Ilusões. Uma chamada ao pé da página precisava que o perigo não residia no prazer em si, mas no fato de saber que os comparsas masculinos que eram encontrados nesses estabelecimentos estavam lá contra a vontade, na maioria das vezes. O que, no começo, nãc passava da procura de uma experiência sensual relativamente normal, acabava por exigir a participação do ego inteiro.
Lucy saiu do seu devaneio tomando bruscamente consciência de que se dirigia apressadamente para o anúncio piscante de uma estação de telestate. Assim que meteu-se na cabine, ligou para o Centro de Informações. Alguns minutos mais tarde, tinha na bolsa a cópia da lista de endereços de duas mil e dezoito Casas de Ilusões da cidade. "Agora", murmurou, "para o Palácio dos Tostões. "
Cayle, na sua inocência, não pôde ver o que lhe saltava aos olhos quando entrou no antro de jogatina, que retomara um aspecto quase normal: os aliciadores manejavam ostensivamente os aparelhos, prontos a se eclipsar discretamente assim que conseguiam juntar em torno deles um número suficiente de apostadores eventuais. Lucy caminhou para o fundo do vasto hall, parando freqentemente, fingindo se interessar pelas diversas partidas em curso. Tinha um anulador na bolsa: por isso pôde se introduzir na sala do diretor sem desencadear os sinais de alarme que impediam a entrada. Seu anel indicador a avisaria da aproximação de quem quer que fosse. Antes de iniciar uma busca sistemática, ligou a automáquina. Mas por mais que apertasse o botão ilusão e depois o casa, a tela continuava branca.
Insucesso idêntico com o catálogo do telestate. O homem a quem pertencia a sala - um certo Martin, a julgar pelos documentos que havia examinado - tinha ligação apenas com algumas daquelas casas, das quais conhecia os endereços de cor? Era muito possível. E nesse caso, a tarefa de Lucy não ia ser muito facilitada.
Mas a moça não tinha a intenção de capitular tão depressa. Depois de ter dado uma olhada rápida no conteúdo da mesa, que só tinha coisas comuns, instalou-se confortavelmente numa poltrona e esperou.
Não por muito tempo. Seu anel de alerta não tardou picar-lhe o dedo. Ela o orientou sucessivamente para cada um das duas portas que davam acesso à sala. O detector indicou aquela por onde entrara um quarto de hora antes.
O personagem obeso que apareceu cantarolando não viu imediatamente sua visitante. Assim que a percebeu, seus olhos de um azul-claro piscaram quando pousaram na arma que brilhava entre as mãos de Lucy. Calmamente, examinou a desconhecida com curiosidade. Aquele homem há muito tempo havia esquecido o que era medo.
- Encantadora - murmurou.
Lucy esperou a continuação.
- Que deseja?
Havia um traço de impaciência na sua voz.
- Meu marido.
Era, afinal de contas, a melhor maneira de se apresentar. A existência de uma Senhora Cayle Clark nada tinha de absurdo.
- Seu marido? Seu espanto não parecia fingido.
- Ele estava jogando e ganhando. Eu esperava, olhando para ele. Aí a multidão me separou dele. Fui parar lá fora. As portas se fecharam. Quando consegui voltar, ele tinha desaparecido. Como sei que dois e dois são quatro, vim aqui ver o senhor.
O discurso, feito num tom monótono, era um pouco longo, mas Lucy dera vida a um personagem de esposa amorosa e sofredora, mas decidida, e que era bastante convincente. A menos que Martin desconfiasse de que as Casas de Armas se interessavam por Cayle Clark. E ela percebeu que a dúvida surgiu na cabeça do homenzinho de cara porcina.
- Sei de que está falando!
Teve um riso rápido, mas seu olhar vigilante continuava pregado ao de Lucy.
- Lamento muito, cara senhora. Apenas avisei um serviço aéreo de transporte com o qual tenho negócios. O que eles fazem das pessoas de quem se encarregam, ignoro completamente.
- Se entendi bem, o senhor não conhece o lugar para onde levaram meu marido, mas sabe de que tipo de lugar se trata?
Ele a olhou com ar pensativo, como se estivesse formando uma opinião a seu respeito. Depois, sacudiu os ombros e deixou cair:
- As Casas de Ilusões.
A resposta, embora só fizesse confirmar a conclusão a que Lucy chegara, era interessante. Todavia, a aparente franqueza de Martin não significava que ele estivesse dizendo a verdade.
- Quer aproximar o Lambeth?
Ele obedeceu sem protestar, contentando-se em fazer notar:
- Repare que eu não resisto.
Sem comentário, ela apontou o instrumento sobre seu interlocutor.
- Seu nome?
- Harj Martin.
O Lambeth não oscilou. Era o nome dele.
- Eu lhe darei todas as informações que desejar - disse o homem, com um sacudir de ombros, antes que Lucy pudesse dizer uma palavra. - Que importância tem para mim? Nós somos protegidos. Se a senhora conseguir achar a casa para onde levaram seu marido, muito bem... vá até lá. Mas esses estabelecimentos têm métodos seguros para se livrar de seus pensionistas quando há uma batida da polícia. Imagino que sabe disso?
Seu nervosismo atraiu a atenção de Lucy.
- Tenho a impressão de que o senhor vai tentar modificar nossas posições respectivas. Dou-lhe um conselho: não tente. Não hesitarei em atirar.
- É uma arma das lojas - cuspiu ele, sarcástico.
- Exatamente. Ela só disparará se o senhor me atacar.
Não era estritamente verdadeiro. As armas pessoais dos agentes da liga não estavam sujeitas às limitações das dos simples clientes.
- Perfeito - suspirou Martin. - Temos negócio. com a Sociedade de Transportes Aéreos.
O Lambeth confirmou a veracidade da informação.
- Não sei se o senhor percebe, mas está se saindo bem! - disse Lucy, enquanto, recuando, preparava a saída.
O gorducho passou a língua nos lábios secos. A última imagem que ficou no espírito da pseudo-senhora Cayle foi a de dois olhos atentos e intensos. Como se o homem não tivesse perdido a esperança de pegá-la de surpresa.
Trinta segundos mais tarde, a agente Lucy Rall estava na rua, inteiramente salva.
Anton Lowery, um gigante louro, levantou a cabeça do travesseiro ainda meio adormecido e olhou Lucy com ar perplexo, sem mesmo se dar ao trabalho de levantar.
- Não sei para onde o levaram - falou finalmente. - Nós apenas nos encarregamos do negócio, manjou?
O chofer liga para as tascas, ao acaso, uma após outra, até encontrar uma que se ocupe do cliente. Não queremos encrenca.
Parecia vagamente indignado. Como um honesto comerciante que, pela primeira vez, visse sua probidade profissional posta em dúvida. Era inútil para Lucy perder tempo discutindo.
- Onde posso encontrar esse chofer?
Segundo Lowery, o chofer tinha acabado de trabalhar às duas horas da madrugada e tinha direito a sessenta e seis horas de descanso.
- Foi o sindicato quem decidiu assim. Período de trabalho reduzido, salário alto e muito tempo livre.
O tom do homem deixara de ser indignado. Estava triunfante. Contentíssimo de dar esses esclarecimentos...
- Onde ele mora?
O gigante, que não tinha a menor idéia, sugeriu-lhe dirigir-se ao sindicato. Apenas ele não se lembrava, mas não se lembrava mesmo, do nome do sindicato em que seu empregado estava inscrito. O Lambeth, que Lucy tivera a precaução de tomar emprestado de Martin, confirmou a ignorância do seu interlocutor. Ela teve um momento de pânico. Dentro de três dias Cayle seria iniciado na vida sórdida das Casas de Ilusões.
- Imbecil! Assim que seu chofer vier trabalhar, você lhe pedirá o endereço do estabelecimento. Dez minutos depois, entrarei em contato com você. E olhe, é do seu máximo interesse ter a informação!
Seu tom e atitudes deveriam ter sido convincentes, pois Lowery apressou-se a garantir-lhe que teria a informação, que iria se ocupar pessoalmente, que...
Ele ainda engrolava suas promessas quando ela saiu do quarto.
No primeiro distribuidor, bebeu um copo de energia. A ração era insuficiente. Eram mais de cinco horas da manhã. Estava exausta, impunha-se um pouco de repouso.
Voltou para casa sem incidentes, despiu-se lentamente e deslizou entre os lençóis. "Três dias. " pensou ela antes de adormecer. "Três dias. Para quem o tempo passa mais lentamente? Para o homem submetido às solicitações ininterruptas do prazer, ou para ela, ela que sabia que o prazer a jato contínuo é a mais dilacerante das torturas?"
Foi seu último pensamento consciente. Mergulhou no sono como uma criança esgotada.