As Casas de Armas de Isher

A. E. Van Vogt · Capítulo 25 de 32

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As Casas de Armas de Isher

Um discreto suspiro de alívio saudou a…

CAPÍTULO VIGÉSIMO TERCEIRO

 

Um discreto suspiro de alívio saudou a entrada da Imperatriz, que sorriu com ar ausente. O repasto só começava quando Innelda partia o pão ou mandava avisar que não compareceria. Não era indispensável fazer ato de presença, mas os que tinham o privilégio de se sentar à mesa da soberana não abririam mão, por nada deste mundo, desse costume.

Depois de um rápido bom-dia, Innelda sentou-se à cabeceira da mesa e bebeu um copo dágua. Era o sinal pelo qual os servidores aguardavam.

A maioria dos convivas, homens e mulheres, tinha a cabeça embranquecida. Nem bem uma meia-dúzia de secretários jovens misturava-se a esses parasitas da regência. Quando o Príncipe Del Curtin exilou-se voluntariamente, houve uma verdadeira debandada entre os cortesãos.

Depois de uma palavra de amável indiferença da Imperatriz, um silêncio tenso voltou a reinar na sala de jantar. Faltava alguma coisa aos seus familiares. Frivolidade, talvez? Mas até que ponto? Ela se lembrava ainda que, há um ano, um rapazinho lhe perguntara se era virgem. E como ela era, a lembrança do incidente ainda a perturbava.

A licenciosidade fora banida da corte. Instintivamente, Innelda sentia que deixar a porta entreaberta à imoralidade mancharia imediatamente a reputação da família imperial. Certo, e então? Que desejava ela exatamente?, pensava roendo uma torrada distraidamente. Pessoas que acreditassem em princípios mas que também soubessem ver a vida sob um ângulo de humor. Gente igual a ela. Positivos. A educação que recebera, severa e austera, lhe tinha dado espírito positivo, o que tinha importância capital. Mas isso não era razão para exibir uma solenidade afetada a todo instante. "É preciso que eu me livre desses santarrões e desmancha-prazeres. Apiedando-se da própria sorte, dirigiu uma fervente prece aos seus deuses particulares: "Concedam-me uma boa piada por dia! Concedam-me um homem capaz de dirigir os negócios de Estado e que saiba também se divertir. Ah! Se ao menos Del estivesse aqui!"

Franziu as sobrancelhas. Seus pensamentos começavam a ficar desagradáveis. O Príncipe Del Curtin, seu primo, era contra a ofensiva anti-Casas de Armas. Que choque ela sofrerá quando descobriu! E que mortificação quando os partidários do rapaz acompanharam o chefe no seu retiro, para frisar sua recusa a participar da aventura! Innelda, que mandara executar Banton Vickers quando este ameaçara revelar seus planos aos Fabricantes de Armas (traição que arruinaria seu prestígio, se ela não tivesse reagido), não podia subestimar a força da oposição. Lembrava-se da última conversa que tivera com o príncipe. Ele, gelado, protocolar, belíssimo em sua cólera; ela, ao mesmo tempo vacilante e determinada.

- Quando estiver calma, pode me chamar, Innelda. Mas não antes.

Ele a provocava para que ela lhe respondesse: "Pode ficar esperando!" Mas não teve coragem de pronunciar essas palavras.

Ela se portara como uma mulher, pensava amargamente, uma mulher ferida que se contém de medo que o marido aja ao pé da letra. Claro, não haveria mais possibilidade para ela de casar com o primo depois de semelhante desabafo. Mas seria bem agradável, se ele voltasse! Mais tarde. Quando as Casas de Armas tivessem sido destruídas.

Empurrou o prato, olhou o relógio e estremeceu. Nove e meia. O dia mal estava começando.

Às dez e trinta, tendo liquidado a correspondência urgente, mandou entrar o desertor. O dossiê informava que ele se chamava Gile Sanders, tinha quarenta e cinco anos, era de origem camponesa e tinha o posto de major. Apesar de seu sorriso um nada cínico, o homem parecia desmoralizado.

Innelda examinou-o com ar sombrio. A ficha indicava ainda que ele sustentava três amantes e havia juntado uma fortuna traficando com os fornecedores do exército. De certa maneira, um caso típico. Que um personagem tão corrupto tivesse sacrificado tudo, ultrapassava sua compreensão.

Foi o que Innelda fê-lo notar, sem circunlóquios inúteis:

- E não procure me fazer crer que o conflito determinou uma crise de consciência no senhor. Eu considerarei como um insulto que o senhor me atribua a ingenuidade de aceitar essa explicação. Diga-me simplesmente por que renunciou à situação que o senhor mesmo havia escolhido. No melhor dos casos, o senhor se arrisca a ser deportado, por toda a vida, para Marte ou Vênus. O senhor é um imbecil? Um covarde? Ou os dois ao mesmo tempo?

- Provavelmente um imbecil - disse ele, sacudindo os ombros.

Seu olhar não deixou o da Imperatriz, mas a resposta deixou-a insatisfeita. Depois de dez minutos de interrogatório, não conseguira arrancar-lhe uma explicação plausível para sua conduta. Talvez a noção de lucro ou de perda não tenha influenciado? Innelda tentou um outro caminho.

- Li no seu dossiê que o senhor recebeu ordem de se apresentar no edifício 800 A. Lá lhe informaram, por causa do seu posto, que fora estabelecida uma tática para destruir as lojas de armas. Uma hora mais tarde, depois de ter queimado seus documentos pessoais, o senhor saiu de seu escritório para se refugiar num chalé da costa, que o senhor comprara secretamente - pelo menos o senhor pensava assim - cinco anos antes. No fim de uma semana, quando ficou claro que o senhor havia abandonado o posto, o senhor foi preso e posto incomunicável. Está de acordo com esta versão da situação?

O desertor concordou em silêncio.

- Posso fazê-lo castigar à minha vontade - continuou Innelda com voz suave. - A morte, a deportação... Posso também comutar sua pena... e até anistiá-lo.

Sanders suspirou profundamente.

- Eu sei.

- Não compreendo! Se o senhor percebesse tudo o que significava a sua decisão... era pura loucura.

- Tive de repente - principiou o outro, com voz monótona, como se não tivesse reparado na interrupção - tive de repente a visão do mundo em que vivia. Um mundo onde um ser, e não obrigatoriamente a Imperatriz, deteria esse poder absoluto. Um mundo no qual não haveria onde alguém se agarrar. Um mundo sem consolo, um mundo sem esperança. Era então esse o motivo?

- Jamais ouvi dizer asneira igual - exclamou Innelda, estupefata. - Lamento pelo senhor, major. A história da família imperial deveria convencê-lo de que não é possível fazer mau uso do poder. O universo é grande demais para isso. A fração da raça humana sobre a qual estende-se a jurisdição do meu governo é tão insignificante que chega a ser ridículo. Cada decreto que promulgo desaparece como fumaça. Perde-se literalmente numa floresta de interpretações contraditórias à medida em que vai chegando às camadas executivas. Somente eu posso saber como a autoridade se deforma quando chega ao estado de aplicação, quando se tem onze bilhões de súditos para administrar.

Mas Sanders não parecia tocado por esta confissão. Ofendida, Innelda levantou-se. Era claro: o homem não passava de um imbecil. E um imbecil empedernido. Refreou a ira com dificuldade.

- Ouça, major; destruídas as lojas, nós teremos tempo para estabelecer leis sensatas, das quais ninguém poderá zombar. A justiça será mais uniformemente distribuída; as pessoas serão levadas a aceitar o veredito dos tribunais, pois seu único recurso será apelar para uma jurisdição superior.

- Exatamente!

O tom em que pronunciara essa palavra provava amplamente que o rebelde não se rendia aos argumentos da Imperatriz. Ela olhou durante uns segundos, sem nenhuma simpatia.

- Se o senhor é um tão caloroso partidário dos Armeiros, porque não lhes pediu uma arma protetora?

- Eu pedi. Ela hesitou.

- E então? Faltou-lhe coragem no momento da sua prisão?

Ela não deveria ter dito aquilo. Era como dar a Sanders um chicote para espancá-la.

- Não, Majestade. Agi como os outros... desertores. Tirei meu uniforme. Fui a uma loja de armas. Mas a porta não se abriu. Acontece que eu sou desses oficiais que acreditam que a família de Isher é, dos dois elementos da nossa sociedade, o que mais importância tem para a civilização de Isher.

Seus olhos, que brilharam à medida em que falava, voltaram a embaciar.

- Estou na situação em que a senhora quer que todos estejam. Não há saída. Devo curvar-me à sua lei, aceitar a guerra não declarada contra uma instituição tão legítima quanto a própria Casa de Isher, aceitar a morte se isso lhe agrada, sem poder arriscar honestamente minha vida em combate. Eu a respeito, senhora, e admiro-a. Os oficiais que desertaram não são canalhas. Apenas tiveram que fazer uma escolha e escolheram não participar de uma aventura que põe em discussão o estado de coisas atual. Creio ser impossível falar mais francamente.

Era também a opinião de Innelda. O homem que estava diante dela jamais compreenderia o realismo indispensável de sua política.

Quando mandou-o embora, anotou em sua agenda: "Tomar conhecimento do veredito da corte marcial".

Isso fê-la pensar no rapaz que Medlon devia apresentar-lhe dentro de 24 horas. Folheou a agenda: "Cayle Clark", leu em voz alta, depois de ter virado algumas páginas. "Cayle Clark, é esse mesmo. "

Estava na hora de ir ao Ministério da Fazenda para ouvir desfilar todos os motivos pelos quais era impossível um aumento de despesa. Sorriu com ar cansado, antes de entrar no elevador.