As Casas de Armas de Isher

A. E. Van Vogt · Capítulo 5 de 32

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As Casas de Armas de Isher

Capítulo Segundo · Dentro, haviia um silêncio anormal. Nenhum som…

 

Dentro, haviia um silêncio anormal. Nenhum som vinha da noite de onde chegara. Fara avançou cautelosamente, o chão atapetado abafando seus passos. Os olhos acostumaram-se à iluminação suave que parecia emanar das paredes e do teto. A familiar iluminação atômica foi como um tônico para seus nervos. Sentindo-se mais seguro, começou a olhar à sua volta. O lugar parecia bastante normal. Era uma loja e estava mobiliada escassamente. Havia vitrines nas paredes e no chão, muito bonitas mas nada de muito especial - e não eram muitas, uma dúzia talvez. Ao fundo, uma porta dupla que dava para uma outra sala.

Tentou ficar de olho naquela porta enquanto examinava as vitrines, cada uma contendo três ou quatro armas montadas ou expostas em caixas ou nos coldres. Fara pensava na possibilidade de agarrar uma destas armas e quando alguém viesse, obrigá-lo a sair para que Jor pudesse prendê-lo. Atrás dele, um homem perguntou calmamente:

- O senhor deseja comprar uma arma?

Fara virou-se de um salto. Uma súbita fúria apossou-se dele, pois a chegada do empregado da loja fizera fracassar seu plano. A raiva cedeu ao verificar que o empregado era um senhor de boa aparência, grisalho, mais velho do que ele mesmo. Isso era desconcertante. Fara tinha um respeito imenso e quase automático por pessoas mais velhas. Finalmente respondeu, desajeitado:

- Sim, sim, uma arma.

- Para que finalidade? - perguntou o homem com sua voz calma.

Fara sentiu-se incapaz de outra coisa, a não ser olhá-lo. Gostaria de dizer o que pensava deles. Mas a idade avançada do seu interlocutor travava-lhe a língua. Só com grande força de vontade conseguiu dizer:

- Para caçar - estas palavras plausíveis deram-lhe maior força. Sim, exatamente, para caçar. Há um lago mais ao norte daqui - continuou - e...

Parou de falar, aborrecido; não estava preparado para este ato de desonestidade. Disse secamente:

- Para caçar.

Fara recuperara o autodomínio. Odiou o homem por tê-lo colocado numa situação tão desvantajosa. Ficou observando-o abrir uma das vitrines e retirar uma arma verde reluzente. Quando o homem se virou para ele, com a arma na mão, Fara estava pensando: "Muito espertos, usar o velho como fachada". Esta mesma esperteza os havia feito escolher o terreno do Sr. Harris. Estendeu a mão para pegar a arma, mas o homem não a entregou.

- Antes que eu possa deixá-lo experimentar esta arma, vejo-me obrigado a informá-lo, de acordo com os regulamentos das Casas de Armas, das condições sob as quais lhe é permitido adquiri-la. Nós, os Fabricantes de Armas, aperfeiçoamos um tipo de revólver que pode, dentro da sua especialidade, destruir qualquer máquina ou objeto feito do que se chama matéria. Desta maneira, quem quer que seja que possua uma de nossas armas é mais do que um páreo para qualquer soldado da Imperatriz. Digo mais, cada arma é centro de um campo de energia que age como um painel protetor contra forças destrutivas imateriais. Este painel não oferece resistência a clavas, lanças ou balas, ou outra substância material qualquer, no entanto seria necessária a potência de um pequeno canhão atômico para poder destruir a poderosa barreira levantada em torno do seu possuidor. Continuando, disse:

- O senhor compreenderá logo que tal arma não poderia cair em mãos irresponsáveis sem ser modificada. Assim sendo, nenhuma arma comprada em nossas lojas pode ser usada para agressão ou assassinato. No caso de um rifle de caça, apenas poderão ser abatidos os animais que constarem das listas que expomos regularmente em nossas vitrines. Finalmente, nenhuma arma poderá ser revendida sem a nossa aprovação. Está claro?

Fara aquiesceu. Quer dizer que a arma não pode ser usada para assassinato ou assalto. Só certos animais podem ser caçados. E quanto a revender, suponhamos... suponhamos que ele comprasse esta arma, viajasse com ela uns dois mil quilômetros e a oferecesse por dois créditos a um estrangeiro rico qualquer. Quem jamais viria a saber? Percebeu que a arma estava sendo estendida em sua direção. Ele a pegou e teve que combater o impulso de apontar a arma para o velho.

- Como funciona? - perguntou.

- É só mirar e puxar o gatilho. Talvez o senhor gostasse de experimentá-la em nosso alvo?

Fara apontou a arma.

- Sim - disse triunfante - e o senhor é o alvo. Dirija-se à porta da frente e saia.

Levantou a voz:

- E se alguém pensar em entrar por aquela porta dos fundos, ela também está sendo vigiada.

Empurrou o vendedor em direção à porta:

- Saia já! Mova-se, senão atiro! Juro que atiro! O homem conservava-se calmo:

- Não tenho dúvida de que o senhor o faria. Quando decidimos permitir que a por- rta se abrisse para o senhor entrar, apesar de sua hostilidade, levamos em conta sua disposição para o homicídio. No entanto, o senhor está em nosso território. Seria melhor ajustar-se a esta realidade e olhar para trás.

Fez-se silêncio. Dedo no gatilho, Fara permanecia sem se mover. Pensamentos confusos vieram-lhe à mente. Boatos que ouvira sobre essas lojas de armas; que tinham representantes secretos em cada distrito; que tinham um governo oculto impiedoso e, uma vez em suas garras, a única possibilidade de escapar era a morte. Porém o que lhe veio mais nitidamente foi o quadro mental dele mesmo, Fara Clark, pai de família, súdito leal da Imperatriz, ali de pé na loja mal iluminada, tentando, deliberada-mente, combater uma organização tão vasta e ameaçadora. Forçando-se a reagir disse:

- Não pense que eu acredito que haja alguém atrás de mim. Vamos, saia!

O olhar do velho o atravessava. O homem disse calmamente:

- Então Rad, você tem as informações?

- Suficientes para uma preliminar - disse uma voz jovem atrás de Fara. - Tipo A-7 conservador. Inteligência média comum, mas com desenvolvimento monárico típico das pequenas cidades. Visão parcial exagerada da realidade, criada por freqentar as escolas do Império. Extremamente honesto. Raciocinar seria inútil. Emocionalmente necessitaria de um prolongado tratamento. Não vejo por que nos incomodar. Deixemos que viva a sua vida como lhe convém. Com voz trêmula Fara disse:

- Se o senhor pensa que este truque da voz me fará virar, está louco. Eu sei que não há ninguém aí, é apenas a parede esquerda da loja.

- Concordo Rad - disse o velho. - Mas acontece que ele foi o principal agitador da multidão lá fora. Acho que deve ser desencorajado a tomar tais atitudes.

- Faremos com que saibam de sua presença - disse Rad. Ele passará o resto de seus dias negando a acusação.

A confiança de Fara na arma desaparecera de tal forma que, escutando intrigado a conversa incompreensível, acabou por esquecer mesmo o revólver.

O velho insistia:

- Acho que uma pequena emoção poderá ter um efeito bastante duradouro. Mostre-lhe o palácio.

A palavra palácio tirou Fara de sua paralisia. Começou:

- Veja como o senhor mentiu, este revólver nem está carregado...

Não havia mais revólver na sua mão.

- Então... - articulou vivamente e, de novo, calou-se.

Tentava combater a sensação de vertigem e, finalmente, tremendo, concluiu que alguém devia ter tirado a arma de sua mão; logo, alguém estava realmente às suas costas. A voz não era nada mecânica. Tentou virar-se e não conseguiu. Tentou lutar contra seus músculos paralisados. O recinto escurecia curiosamente mais e mais. Já mal enxergava o velho. Teria gritado, se pudesse. A loja desaparecera!

Fara flutuava no céu, sobre uma imensa cidade. Sua respiração estava solidamente bloqueada em seus pulmões. Sua sanidade mental retornou quando percebeu, gradativamente, que de fato estava pisando solo firme e que a cidade deveria ser uma imagem projetada de alguma maneira diretamente dentro de seus olhos.

Fara reconheceu imediatamente a metrópole em baixo. Era a cidade dos sonhos, a Cidade Imperial, capital da gloriosa Imperatriz de Isher. Daquela vertiginosa altura, via os jardins prateados do palácio, a própria residência Imperial. Os últimos tentáculos do medo que sentira já o soltavam, cedendo lugar a um misto de admiração e fascínio. O medo cedeu por completo quando Fara percebeu que o palácio se aproximava com uma velocidade incrível. "Mostre-lhe o palácio", tinham dito. O teto brilhante reverberou diretamente em seu rosto. Sua sólida estrutura metálica passou através dele.

Fara pressentiu logo a iminência de um processo de dissecação mental, à medida em que a imagem estacionou num enorme recinto onde um grupo de homens sentava-se à volta de uma mesa, à cabeceira da qual estava uma mulher jovem. As enormes e poderosas câmaras, indesculpáveis e sacrílegas, fotografavam a cena, focalizavam o rosto da mulher.

Era um rosto bonito, mas agora estava contorcido por fortes emoções, enquanto se inclinava para a frente; sua voz, que Fara ouvira tantas vezes, em tom calmo, nos telestates, estava distorcida. Distorcida pelo ódio e pela plena consciência do poder:

- Quero este traidor morto, ouviram? Não me importa como, mas amanhã ã noite quero ouvir a notícia de que ele está morto.

Aquela voz que cortava o silêncio do recinto era uma caricatura da voz amada. Fara a escutara tão nitidamente que era como se ele estivesse dentro da sala.

A imagem desfez-se e, instantaneamente, Fara viu-se de volta à loja de armas.

Por um momento, lutou para reacostumar os olhos à semi-obscuridade. Sua primeira reação foi um desprezo pela simplicidade do truque que lhe fora imposto. Um filme! Que tolo pensavam que ele era para engolir algo tão irreal?

- Corja! Vocês arrumaram alguém para representar o papel da Imperatriz, pretendendo...

- Basta! - disse a voz de Rad.

Fara estremeceu quando viu um rapaz enorme surgir à sua frente. Alarmado, pensou que gente que era capaz de insultar tão vilmente Sua Majestade Imperial, não hesitaria por um momento em ferir a ele, Fara Clark. O jovem continuava falando em tom cortante:

- Não estamos pretendendo que o que viu esteja acontecendo neste preciso momento no palácio. De fato, isso se passou há dois dias. A mulher era a Imperatriz. O homem que ela condenou à morte tinha sido um seu conselheiro que ela considerava um fraco. Ele foi encontrado morto em seu apartamento na noite passada. Seu nome, se você se der ao trabalho de verificar nas mais recentes notícias, era Banton Vickers. Bem, acabemos logo com isto, pois já terminamos com o senhor.

- Mas eu não terminei - disse Fara, violentamente. - Nunca escutei ou vi tanta infâmia na minha vida. Se vocês pensam que a cidade vai permitir que isto fique assim, estão muito enganados. Colocaremos neste local um guarda dia e noite e ninguém entrará ou sairá.

- Agora chega. O teste foi muito interessante. Como homem honesto, se algum dia estiver em dificuldades, pode apelar para nós. Saia pela porta lateral.

Era o velho grisalho que estava falando.

Forças impalpáveis empurraram Fara em direção a uma porta que aparecera miraculosamente na parede onde segundos antes estava o palácio. Encontrou-se de pé num canteiro de flores e, à sua direita, havia uma multidão. Reconheceu seus conterrâneos e sabia que tinha escapado.

Terminara o pesadelo. Quando chegou em casa, meia hora mais tarde, Creel perguntou-lhe:

- Onde está a arma?

- A arma? - Fara olhou a mulher, espantado.

- Disseram há alguns minutos no telestate, que você foi o primeiro freguês da nova loja de armas.

Fara lembrou-se de que o rapaz havia dito: "Faremos com que saibam de sua presença". Angustiado, pensou em sua reputação. Não que tivesse um grande nome mas acreditava, e se orgulhava disto, que a oficina de Fara Clark era conhecida e respeitada na aldeia e nos arredores.

Correu para o telestate e chamou o prefeito. Suas esperança caíram por terra quando ouviu o gordo prefeito dizer:

- Sinto muito, Fara. Mas não vejo como você pode conseguir tempo de graça no telestate. Vai ter que pagar. Eles o fizeram.

- Eles pagaram?

Fara se indagava se a sua voz soava tão vazia como se sentia.

- Eles também pagaram ao velho Lan Harris pelo terreno. Ele exigiu um preço muito alto e eles pagaram. Ele me telefonou para transferir o título.

- Oh! - o mundo de Fara estava se desmoronando. - Você quer dizer que ninguém vai fazer nada? E a guarnição imperial em Ferd?

Vagamente, escutou o prefeito murmurar qualquer coisa a respeito de os soldados da Imperatriz terem se recusado a interferir em assuntos civis.

Fara explodiu:

- Assuntos civis! Você quer dizer que será permitido a essa gente entrar e sair quando bem lhes aprouver, ainda que não queiramos, forçando ilegalmente a venda de terrenos porque tomaram posse deles?

Um pensamento o fulminou, deixando-o quase sem fôlego:

- Olhe, você não mudou de idéia a respeito do Jor ficar de guarda diante da loja, mudou?

O prefeito estava ficando impaciente:

- Escute, Fara, deixe que as autoridades constituídas tomem conta deste caso.

- Mas você vai deixar o Jor de guarda, não vai? O prefeito, cada vez mais impaciente disse:

- Prometi, não foi? Pois assim será. Agora, você ainda quer comprar tempo no telestate? São 15 créditos por minuto. Como seu amigo, acho que está jogando dinheiro fora. Nunca foram apanhados com uma declaração falsa até hoje.

Fara respondeu aborrecido:

- Ponha dois anúncios, um pela manhã e outro à noite.

- Está bem. Desmentiremos tudo. Boa-noite. Apagou-se a imagem do telestate. Fara continuou sentado. Um novo pensamento endurecia-lhe o rosto. "Esse nosso filho... vamos ter que pôr as cartas na mesa. Ou ele vai trabalhar comigo na oficina ou não recebe mais mesada." Creel disse:

- Você está tratando o rapaz errado. Ele está com 23 anos e você o trata como se fosse uma criança. Lembre-se, com 23 anos você era um homem casado.

- Foi diferente - disse Fara. - Eu tinha senso de responsabilidade. Sabe o que ele fez esta noite?

Ele não entendeu muito bem a resposta. Por um momento, teve a impressão de que ela dissera:

- Não; de que maneira você o humilhou primeiro? Fara apressou-se a responder:

- Ele se recusou, em frente a toda gente da cidade, a me ajudar. Ele é mau, muito mau.

- Sim, é verdade - disse ela com amargura - ele é mau. Tenho certeza de que você não percebe o quanto ele o é. É frio como o aço, mas sem ter a sua resistência ou a sua integridade. Custou muito, mas agora está até odiando a mim, por ter ficado do seu lado mesmo quando sabia que você não tinha razão.

- O quê? - perguntou Fara espantado; depois disse: - Vamos, vamos, minha querida; estamos os dois perturbados. Vamos dormir.

Dormiu mal naquela noite.