Brizola

Clóvis Brigagão · Capítulo 8 de 30

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Brizola

O realejo começa a tocar

 

O regime militar brasileiro dava sinais de esgotamento. A nação clamava por

reconciliação. O povo brasileiro ansiava por liberdade e queria escolher,

livremente, seus dirigentes, eliminando o ódio da vida pública brasileira que já se

arrastava por 14 anos ininterruptos. A anistia ampla, geral e irrestrita era o

caminho para o reencontro da sociedade brasileira com seu destino. Alguns

políticos, no entanto, pareciam acomodados com a situação e não estavam

comprometidos com a luta pela anistia.

Esse era o discurso recorrente de Brizola desde que desembarcou em Nova York

até sua volta ao Brasil em 1979. Era seu realejo tocando o momento histórico: ideias

expressas em linguagem cheia de parábolas e metáforas que abrangiam uma

posição acerca da conjuntura política do momento, na qual ele estava inserido.

Brizola tinha o hábito de falar a seu interlocutor como se estivesse proferindo uma

conferência ou discurso. Observava a reação do interlocutor, que atuava como um

verdadeiro sparring. Seus colaboradores se acostumaram com essa preleção.

Depois, ele mesmo indagava: “Não te parece?” Atento, ouvia as observações dos

ouvintes – como nos Cabildos Abiertos – e procedia, eventualmente, a

modificações, repetindo o mesmo pensamento incontáveis vezes, em várias

oportunidades, para jornalistas, políticos, amigos ou colaboradores. Se a

conjuntura mudava, mudava o realejo.

Naquele outubro de 1977, o que Brizola tocava poderia resumir-se em uma só

palavra, ou melhor, em uma só melodia: Anistia. Já instalado no Hotel Roosevelt,

impôs-se uma disciplina de trabalho diário, que incluía a leitura dos jornais do

Brasil trazidos todos os dias pela tripulação da VARIG, que também lhe brindava

com erva-mate, charque, feijão e outras iguarias, vindas, muitas vezes, a pedido de

amigos do Brasil. Muitos comandantes antigos da VARIG eram seus velhos conhecidos e o alimentavam com informações e opiniões sobre a vida e a situação

brasileira.

Brizola tinha relação afetiva e histórica com a VARIG, que apoiou desde seus

primórdios. Em companhia de João Goulart foi, primeiro, à presença do presidente

Vargas e, depois, à do presidente Juan Domingo Perón, em Buenos Aires, pedir

autorização para que a VARIG iniciasse voos regulares para a Argentina. Em

reconhecimento pelo apoio, ganhou passe livre que somente o seu fundador,

Ruben Berta, possuía igual. Durante seu período no exílio nunca fez uso do passe.

Durante seu primeiro governo do Estado do Rio de Janeiro, seus colaboradores em

missões – como o professor Brigagão, secretário executivo das Relações

Internacionais do PTB/PDT e do governo – sempre viajavam de primeira classe

para o exterior. Passagens que lhe eram obsequiadas pela VARIG. Mas o próprio

Brizola jamais aproveitou o privilégio de usar o cartão que lhe havia sido dado pelo

presidente da VARIG, Ruben Berta.

Instalado no apartamento, com uma sala que serviria de escritório, passou a

usar, fartamente, o telefone internacional, que após anos de exílio e confinamento,

era como um brinquedo para ele. Quando, após solicitar, através da mesa central

do Hotel, o número de algum amigo ou correligionário em um distante município

gaúcho, e a telefonista internacional lhe dizia “Just a moment, please”, Brizola

parecia uma criança diante daquele brinquedo que o colocava, em segundos, em

contato com a voz de seu interlocutor, do outro lado do Atlântico.

Além disso, era preciso tomar providências relativas à súbita saída do Uruguai e

aos negócios que lá deixara, agora a cargo do filho mais velho, José Vicente. Brizola

estava com dificuldades de crédito nos bancos.24 Novos contatos com políticos

brasileiros que o visitavam passaram a ser cada vez mais frequentes. Com a já

grande colônia brasileira em Nova York, Brizola retomava contato mais próximo,

conversava com quem o procurava, ouvia, falava, comentava e tocava seu realejo.

Nesse período teve início uma verdadeira romaria de políticos brasileiros

buscando contatos, especialmente políticos do MDB gaúcho, com profundas raízes

trabalhistas. O PTB fora a matriz originária do MDB gaúcho, à qual se agregaram,

posteriormente, políticos de pensamento liberal oriundos, principalmente, do

Partido Libertador (PL).

Esses quadros sentiam-se atraídos por sua liderança. Alguns dispostos a segui-

lo, fosse qual fosse o rumo que tomasse em termos partidários; outros mais

cautelosos queriam ouvi-lo, gostavam da conversa, mas não chegavam a se

comprometer com a causa de Brizola. Os mais novos sentiam-se inseguros em

abandonar o MDB, com o predicado de ligação orgânica, embora o pai ou o avô

tivessem pertencido ao PTB.

Nota

 

24. Entrevista a Tarso de Castro, em Nova York. Enfim, Rio de Janeiro, ano 1, n. 1, 12/9/79.