Brizola
O realejo começa a tocar
O regime militar brasileiro dava sinais de esgotamento. A nação clamava por
reconciliação. O povo brasileiro ansiava por liberdade e queria escolher,
livremente, seus dirigentes, eliminando o ódio da vida pública brasileira que já se
arrastava por 14 anos ininterruptos. A anistia ampla, geral e irrestrita era o
caminho para o reencontro da sociedade brasileira com seu destino. Alguns
políticos, no entanto, pareciam acomodados com a situação e não estavam
comprometidos com a luta pela anistia.
Esse era o discurso recorrente de Brizola desde que desembarcou em Nova York
até sua volta ao Brasil em 1979. Era seu realejo tocando o momento histórico: ideias
expressas em linguagem cheia de parábolas e metáforas que abrangiam uma
posição acerca da conjuntura política do momento, na qual ele estava inserido.
Brizola tinha o hábito de falar a seu interlocutor como se estivesse proferindo uma
conferência ou discurso. Observava a reação do interlocutor, que atuava como um
verdadeiro sparring. Seus colaboradores se acostumaram com essa preleção.
Depois, ele mesmo indagava: “Não te parece?” Atento, ouvia as observações dos
ouvintes – como nos Cabildos Abiertos – e procedia, eventualmente, a
modificações, repetindo o mesmo pensamento incontáveis vezes, em várias
oportunidades, para jornalistas, políticos, amigos ou colaboradores. Se a
conjuntura mudava, mudava o realejo.
Naquele outubro de 1977, o que Brizola tocava poderia resumir-se em uma só
palavra, ou melhor, em uma só melodia: Anistia. Já instalado no Hotel Roosevelt,
impôs-se uma disciplina de trabalho diário, que incluía a leitura dos jornais do
Brasil trazidos todos os dias pela tripulação da VARIG, que também lhe brindava
com erva-mate, charque, feijão e outras iguarias, vindas, muitas vezes, a pedido de
amigos do Brasil. Muitos comandantes antigos da VARIG eram seus velhos conhecidos e o alimentavam com informações e opiniões sobre a vida e a situação
brasileira.
Brizola tinha relação afetiva e histórica com a VARIG, que apoiou desde seus
primórdios. Em companhia de João Goulart foi, primeiro, à presença do presidente
Vargas e, depois, à do presidente Juan Domingo Perón, em Buenos Aires, pedir
autorização para que a VARIG iniciasse voos regulares para a Argentina. Em
reconhecimento pelo apoio, ganhou passe livre que somente o seu fundador,
Ruben Berta, possuía igual. Durante seu período no exílio nunca fez uso do passe.
Durante seu primeiro governo do Estado do Rio de Janeiro, seus colaboradores em
missões – como o professor Brigagão, secretário executivo das Relações
Internacionais do PTB/PDT e do governo – sempre viajavam de primeira classe
para o exterior. Passagens que lhe eram obsequiadas pela VARIG. Mas o próprio
Brizola jamais aproveitou o privilégio de usar o cartão que lhe havia sido dado pelo
presidente da VARIG, Ruben Berta.
Instalado no apartamento, com uma sala que serviria de escritório, passou a
usar, fartamente, o telefone internacional, que após anos de exílio e confinamento,
era como um brinquedo para ele. Quando, após solicitar, através da mesa central
do Hotel, o número de algum amigo ou correligionário em um distante município
gaúcho, e a telefonista internacional lhe dizia “Just a moment, please”, Brizola
parecia uma criança diante daquele brinquedo que o colocava, em segundos, em
contato com a voz de seu interlocutor, do outro lado do Atlântico.
Além disso, era preciso tomar providências relativas à súbita saída do Uruguai e
aos negócios que lá deixara, agora a cargo do filho mais velho, José Vicente. Brizola
estava com dificuldades de crédito nos bancos.24 Novos contatos com políticos
brasileiros que o visitavam passaram a ser cada vez mais frequentes. Com a já
grande colônia brasileira em Nova York, Brizola retomava contato mais próximo,
conversava com quem o procurava, ouvia, falava, comentava e tocava seu realejo.
Nesse período teve início uma verdadeira romaria de políticos brasileiros
buscando contatos, especialmente políticos do MDB gaúcho, com profundas raízes
trabalhistas. O PTB fora a matriz originária do MDB gaúcho, à qual se agregaram,
posteriormente, políticos de pensamento liberal oriundos, principalmente, do
Partido Libertador (PL).
Esses quadros sentiam-se atraídos por sua liderança. Alguns dispostos a segui-
lo, fosse qual fosse o rumo que tomasse em termos partidários; outros mais
cautelosos queriam ouvi-lo, gostavam da conversa, mas não chegavam a se
comprometer com a causa de Brizola. Os mais novos sentiam-se inseguros em
abandonar o MDB, com o predicado de ligação orgânica, embora o pai ou o avô
tivessem pertencido ao PTB.
Nota
24. Entrevista a Tarso de Castro, em Nova York. Enfim, Rio de Janeiro, ano 1, n. 1, 12/9/79.