Brizola
O povo fala em 1982: Brizola na cabeça
“Felicidade em política é entre a eleição e a posse. Depois são momentos, e momentos de distintas
graduações.”
Leonel Brizola
Bem no início das discussões em torno das primeiras eleições diretas para governo
de Estado, em 1982, o PDT tinha diante de si duas posturas: procurar um
entendimento com os demais partidos de oposição, como o PMDB, o que não
prosperara, ou com o PT, que perseguia sua história. Ainda na agenda não se
descartava a hipótese de uma reunificação com o PTB. Ou então, analisar e verificar
se uma candidatura própria corresponderia às aspirações populares. O que se
pensava naquele momento é que o PDT considerava estar dentro de um processo
muito novo e ainda longe das decisões definitivas sobre as eleições de 1982, o que
incluía também eleições para o Senado, Câmara dos Deputados, Assembleias
Lesgislativas, Prefeituras e Câmara dos Vereadores.
Brizola não perdia sua vocação para o otimismo: esperava fazer, segundo seus
cálculos, uns cinquenta representantes para a Câmara Federal: 14 deputados no Rio
Grande do Sul, outros 15 no Rio de Janeiro, além de outros 25 em estados como
Pernambuco, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul,
Maranhão, Ceará etc.
Parecia que a corrente mais forte dentro do PDT era mesmo a de postular ação
própria para construir suas bases, tanto de filiação como de força política eleitoral
(obter 20% do eleitorado brasileiro em 1982). No Rio Grande do Sul, a postura de
Brizola era a de manter a unidade das oposições e não partir para ser fator de
quebra dessa aspiração, o que acabou ocorrendo, enquanto no Rio iria enfrentar o PMDB chaguista, o PTB de Sandra Cavalcanti, o PDS do governo federal e até
mesmo o PT liderado por Lysâneas Maciel.
Feito o balanço, naquele momento calculava-se que o PDT já havia ultrapassado
os 500 mil filiados, e Brizola afirmara que nada o preocupava a este respeito, mas,
sim, o cenário existente, com os meios de comunicação alimentados pelas
declarações, comentários dos políticos e agentes do governo. Nesse cenário,
realmente, existiam estas dúvidas, enquanto a realidade eleitoral estava
começando a acenar – com a verve nos debates da TV sobre as grandes questões,
sua visão trabalhista seria receptiva aos seus acenos e propósitos.
Por outro lado, como extensão da viabilidade da candidatura ao governo do Rio,
o natural seria que o PDT lançasse seus candidatos em todos os estados, mesmo
para perder. Brizola chegara a afirmar:
— Se perder na primeira, como já havia ocorrido com o velho PTB, o novo
partido se firmará perante o povo brasileiro.
E acabou alfinetando o lançamento de “candidaturas pessoais”, numa alusão
ao senador Pedro Simon para o governo do Rio Grande do Sul, onde havia um
ambiente para a união das oposições com apoio popular.
Brizola estava convicto:
— Aonde nós vamos não temos dificuldades de filiar. E só não estamos
organizados na maioria dos municípios por falta de meios para o deslocamento de
pessoas e até mesmo de quadros para viajar por todo o Brasil.
E, além disso, o PDT não dispunha de caixa, de dinheiro, para estruturar-se por
esse imenso território brasileiro. E mesmo para encarar a candidatura de Brizola ao
governo do Rio, as contribuições ainda eram, inicialmente, bastante minguadas.
Toda a discussão em torno da candidatura ao governo do Rio de Janeiro, e que,
certamente, teria repercussão nacional, ainda não levara a uma decisão definitiva.
Havia os que defendiam a sua candidatura pelo Rio Grande do Sul, onde teria
chances mais certas de vitória. Outros achavam que naquele ambiente, em que o
regime militar mantinha o controle sobre a abertura democrática, nada ainda
estava garantido e talvez Brizola devesse esperar o ambiente clarear e jogar seu
poderio quando as eleições presidenciais fossem marcadas, quando, esperava-se,
ele teria grandes chances de se eleger presidente.
Mas era o próprio presidente Figueiredo que passara a fazer, quase que
obsessivamente, pronunciamentos afirmando que, a despeito de tudo, o povo iria
às urnas em 1982. O PDS, como partido do governo, corria meio sem rumo e com
falta de unidade em torno de uma solução política. Entre a grande frente formada
pelo PMDB e o Partido Popular (PP), criação mineira de Tancredo Neves e de seu
grupo moderado-conservador, existia uma relação de amor e ódio. Mas Tancredo,
matreiríssimo, dá a volta atrás e retorna ao PMDB, e com ele, no Rio de Janeiro,
Chagas Freitas e Miro Teixeira voltariam a dar as cartas.
Houve, então, novas recomposições das forças políticas no cenário nacional,
com impacto especial no Rio de Janeiro. O candidato ao governo do Rio pelo PMDB
deveria ser o senador Saturnino Braga, ou, numa segunda hipótese, o senador
Nelson Carneiro; mas com a incorporação do PP ao PMDB e a volta de Chagas
Freitas a comandar a refusão, a candidatura do senador Saturnino refluiu.
Saturnino Braga, no início, pensou em poder brigar por dentro do PMDB e sair
candidato, mas viu-se diante da predominância chaguista nos diretórios
fluminenses. Chagas Freitas, que deixara seu domínio no PMDB fluminense para
acompanhar Tancredo no PP, repensou suas chances e chegou a querer flutuar
sobre os partidos. Em conversas com políticos e a alta cúpula do governo
Figueiredo, chegou até a lançar seu ex-secretário de Obras, Emílio Ibrahim, à
sucessão, com apoio do ministro Mário Andreazza, dentro do PDS. Mas a realidade
dos fatos é que, para o PMDB fluminense, dominado por Chagas Freitas, não
haveria outra saída a não ser apoiar a candidatura de Miro Teixeira.
Concentremos nossa atenção no cenário do Rio de Janeiro: as forças políticas
dominantes no estado eram fortes e consolidadas. Lá estava o esquema
peemedebista, na capital, comandado por Chagas Freitas; no interior do estado e
em Niterói o comando era do senador Amaral Peixoto. À esquerda, havia os luas
pretas e o grupo de Saturnino Braga, que acabaria vindo para o PDT. E o Partido
Comunista, no seu final!
Saturnino era o candidato natural ao governo pelo PMDB – foi eleito em 1974
por votação expressiva, mas o velho comando do PMDB do Rio era guardado a sete
chaves por Chagas Freitas e, por delegação, por Miro Teixeira e seu grupo político.
O senador Amaral Peixoto, que era um dos líderes do partido no estado do Rio,
apoiava Saturnino, e a campanha parecia ter começado. O senador Nelson
Carneiro, articulado com o senador Amaral Peixoto e com o ministro da Justiça,
Petrônio Portela (Arena-PI), rejeitou a fórmula e foi parar no PTB de Ivete Vargas,
pois achava que tinha mais chances de vencer com o apoio do governo. Rompidos
definitivamente, o senador Amaral Peixoto segue para o PDS, levando consigo o
então prefeito de Niterói, o jovem e ascendente político, Wellington Moreira
Franco.
Saturnino assinala que manteve relações com Brizola desde 1962, “quando
fomos deputados federais eleitos pelo estado da Guanabara”, e que gostava da
ideia de o PDT ser um partido socialista democrático, pois o PMDB era uma salada
democrática, não era um partido social-democrata…
Saturnino prossegue:
— Então, diante de tudo isso, eu decidi, na passagem de 1981 para 1982, o Brizola
me chamou e eu atendi e prontamente aderi!
“O Chagas, imediatamente me garantiu a vaga de senador, desde que o
candidato ao governo fosse o Miro, e eu tinha uma eleição ‘garantida’, porque o
PMDB do Rio tinha uma força muito grande, e com o poderio do Chagas a minha
candidatura seria quase que imbatível. Eu rejeitei esta proposta e fiquei com o
Brizola. E recebi muitas críticas dos cientistas sociais – os luas pretas – pois eu
estaria jogando pela janela uma reeleição garantida ao Senado para aderir a uma
proposta que, na ocasião, o Brizola tinha uns 2%… E eu aceitei essa alternativa, que
acabou dando certo.” 153
O caminho tomado pelo senador Saturnino Braga e seu grupo, como Luiz
Alfredo Salomão, Vivaldo Barbosa e Fernando Lopes, foi beneficiar-se da Lei de
Inelegibilidade e emigrarem para o PDT, numa aliança com Brizola, onde ambos
poderiam sair reforçados. Só que o lugar de candidato a governador seria do
próprio Brizola. No próprio front trabalhista havia a divisão entre os históricos
petebistas do antigo estado do Rio, originários da liderança de Roberto Silveira, ex-
governador fluminense nos anos 60 e morto em um acidente de helicóptero, seu
irmão Badger da Silveira, Paiva Muniz, Álvaro Fernandes, entre vários outros, e a
força nascente do brizolismo na cidade do Rio de Janeiro.
Às vésperas das primeiras eleições diretas para governador, em 1982, realizou-
se uma reunião decisiva dos Diretórios Nacional e Regional (do Rio de Janeiro).154 O
comando político do PDT discutia e arguia sobre a dificuldade da candidatura de
Brizola e o quadro dos oponentes. Uns insistiam que a candidata que ganhara a
sigla do PTB para disputar as eleições e que contava com o apoio do regime militar,
Sandra Cavalcanti, despontava com mais chances, e as pesquisas davam a ela,
naquele momento, mais de 60% das intenções de voto.
Outros, no entanto, afirmavam que o pleito seria decidido por fatores regionais
e nesse sentido o esquema de Chagas Freitas, com domínio forte do PMDB no Rio e
controle de redutos em cidades da periferia do Rio, teria força suficiente para eleger
seu afilhado, o jovem deputado Miro Teixeira. Nessa altura, Brizola mantinha-se,
segundo pesquisas eleitorais, em torno de uma média que variava entre 2% e 3%
dos eleitores.
Brizola passara grande parte da reunião em silêncio, ouvindo a opinião de
todos – experientes políticos –, e, no final, fez sua análise política:
— Não se impressionem com esses resultados de agora. Estamos ainda nas
preliminares, a população vai reconhecer quem é o candidato natural da Oposição
com o início do debate na TV. — Parou, olhou em volta, sentindo as prováveis
reações de seus companheiros, e concluiu: — Nós não vamos concorrer, não vai ser
nem a Sandra, nem o Miro, mas, quero dizer, e estou mesmo convicto aqui nas
minhas elucubrações, que vamos concorrer com o candidato que o governo federal
apoiar!
Ninguém ali presente aceitou aquele raciocínio, e as contestações logo
surgiram: o governo nem tinha candidato, tal seu desgaste e impopularidade,
mesmo que lançasse um candidato ele seria fraco. Brizola ouviu com paciência e,
então, rebateu:
— O governo vai lançar seu candidato e será com ele que iremos concorrer. Ele
será um candidato forte, com todo o apoio da máquina do governo. — E voltou a
repetir: — Será com ele que vamos concorrer.155
O candidato do governo apareceu: o prefeito de Niterói, Wellington Moreira
Franco. O governo tentara o ministro Mário Andreazza e não deu certo, tentou
então o ex-secretário de Chagas Freitas, Emílio Ibrahim. Não deu certo! O senador Amaral Peixoto, já no PDS, realizou prévias nos diretórios municipal e estadual do
Rio e fez com que o genro, Moreira Franco, ganhasse maiores chances na
convenção. E ganhou!
Na opinião de Moreira Franco, no início, essa transferência não parecia muito
confortável. Apesar de gostar do sucesso e embora fosse conhecido em Niterói, e
em zonas de domínio do senador Amaral, ele era desconhecido na capital do Rio de
Janeiro. Mas isso é que lhe parecia promissor: tornar-se conhecido na capital com
ganhos de notoriedade, coisa que em processo eleitoral conta muito e para um
jovem político conta mais ainda! Assim, por circunstâncias da política regional,
separou-se do esquema dominante de Chagas Freitas e foi para o PDS, partido que
substituíra a Arena e era o principal apoio do governo Figueiredo. Sua lealdade à
liderança do sogro o fez sair do PMDB para acompanhá-lo ao PDS.156
Previdente e experiente, Brizola usou a Lei do TSE que determinava o direito de
falar em cadeia nacional de TV com 30 dias de antecedência e excluiu a utilização
desse meio de comunicação nos seis meses anteriores à eleição para apresentar o
programa do PDT. E foi o único de todos os políticos a ter o cuidado de requerer
tempo na TV.157
Acervo pessoal
Cartaz da campanha de 1982 com os nomes das três candidaturas.
Talvez Brizola fosse um dos que mais destaque poderia ganhar com suas
aparições no rádio e na TV, e como tinha o “faro” da mídia! Sabia trabalhar, a seu
modo, a arte da comunicação, muito embaraçosa, é verdade, para a mídia e esta
para com ele. Brizola sabia debater através da mídia, exercia o debate público – era
o seu prato preferido –, portanto, sua postura democrática quanto aos produtores
de informações e comunicações, que ele conhecia bem desde quando fora
governador do Rio Grande do Sul e nacionalizara duas “big american companies”,
a ITT e a Bond and Share, bastaria!
Pouco antes do início dos debates na TV, o quadro já mudara: Sandra (PTB)
estava com pouco mais de 30%, e Miro Teixeira (PMDB), com 30%. Sandra havia perdido alguns pontos e Miro Teixeira ganhara uns pontinhos a mais.
O candidato do governo e do PDS, aqui no Rio, Moreira Franco, com 1%, poderia
preencher o espaço eleitoral que era ocupado pelo eleitorado de Sandra Cavalcanti.
Ele ainda foi escolher Célio Borja (antigo secretário de Lacerda) como candidato ao
Senado, e, como seu vice, Francisco Melo Franco, vinculado à família mineira-
udenista dos Melo Franco. Cabe aqui um adendo: seguindo a pista de Castelinho.
“Sua candidatura [de Moreira Franco] fora politicamente articulada na aliança das
bases do senador Amaral Peixoto com a estrutura eleitoral montada no estado pelo
ministro Mário Andreazza. Com João um brasileiro, o governo teria usado uma
versão publicitária da sua imagem como fator auxiliar da campanha.”158
Lysâneas Maciel (PT) não aparecia na contagem de votos e Brizola (PDT)
continuava a patinar nos seus 2%: mas quase 40% dos eleitores continuavam
indecisos.
Os debates no programa O Povo na TV, do SBT, iriam mudar esse quadro
significativamente, e Brizola começaria a crescer. Para ele, primeiro teria de
conquistar a classe média, e, se ela aderisse ao seu programa, o povão da Baixada,
da periferia da cidade do Rio, e em algumas cidades-chave do estado viriam atrás e,
então, ele poderia pensar, concretamente, em ser o vencedor.
Antes de iniciar os debates na TV, Brizola e Moreira Franco, a sós, tiveram um
encontro de mais de quatro horas no Hotel Othon (vizinho ao apartamento de
Brizola), repassando o processo político, desde a criação dos partidos até o
desenrolar das suas candidaturas. E concluíram esse encontro com um pacto:
estabelecer o adversário principal, que seria Miro Teixeira. A estratégia era a de
Brizola bater no Lysâneas e Moreira Franco na Sandra e depois, resolvidos esses
dois casos, iriam partir para cima do Miro.
No primeiro desses debates, Brizola aparecia com aquela sua roupa jeans-brim
azul, cabelos soltos, enquanto Moreira era o único que se vestia de terno, formal.
Sandra Cavalcanti vinha toda bem-arrumada, senhorial, e Miro mais esporte. Logo
de início Miro bateu forte em Brizola, repetindo todos aqueles ataques que a
ditadura havia feito contra ele. Brizola não dava a mínima atenção aos ataques de
Miro, preocupado em tirar Lysâneas de seu caminho. E Moreira batia em Sandra.159
Para Gessy Sarmento, a vitória de Brizola já estava escrita, pois ele retomava o
fio da meada daquela triunfal eleição para deputado federal em 1962 no Rio, onde
obtivera 300 mil votos. Isso era a garantia da vitória de Brizola agora, 20 anos
depois. Todo mundo gozava Gessy, dizendo:
— O cara é doido, como é que pode entender de política dizendo que o Brizola
com 2% vai ganhar?
Mas Gessy baseava-se naqueles 300 mil votos de 1962 e garantia que o Brizola
ganharia essa parada eleitoral.
Gessy levava Brizola a andar pelas ruas e acontecia de encontrarem pessoas que
o reconheciam. Diziam: “Olha, Leonel, em 62, éramos eu e a minha esposa, mas
agora somos cinco.” Outros falavam e prometiam mais três votos, outros, sete.
Gessy conclui:
— Então, quem pensou, ou nem se lembrou, que ele teve 300 mil votos não
atentou para isso. A gente nem precisava fazer campanha, a única coisa que
precisava mesmo era entrar nas faculdades e ir à TV.
“Nas faculdades, o Brizola não era conhecido e pensavam sobre ele o mesmo
que a Terezinha, minha esposa que, quando a conheci, achava que o Brizola comia
criança assada, matava para se divertir. A campanha contra ele era muito grande.
Aí fomos testar ali na Faculdade Santa Úrsula, perto do Palácio Guanabara.
Chegamos lá – e eu fico até arrepiado quando falo – a garotada toda sentada no
chão e ouvindo o Brizola falar. A garotada que não o conhecia, mas começou a
escutá-lo e a se aproximar. E aí veio a TV, quando o Brizola e o Moreira
combinaram não baterem um no outro.160
Gessy jogava futebol – havia uns 20 anos – com o Armando Nogueira, diretor de
Jornalismo da TV Globo. Armando afirmava que a Globo não iria fazer debate
algum. Mas Gessy retrucava dizendo que ele, Armando, não sabia nada da Rede
Globo e continuava a repetir a frase. E ainda acrescentava, diante da
incredibilidade de Armando:
— Escreve aí, a Rede Globo vai fazer o debate.
Na segunda semana da campanha, Trajano e um grupo de companheiros
acompanharam Brizola a Nova Friburgo. Na comitiva estava Juruna, candidato a
deputado federal pelo PDT. A caravana parou numa rua do centro de Friburgo e todos desembarcaram dos carros. A figura de Juruna logo chamou a atenção dos
transeuntes, que se juntavam em número cada vez maior ao redor dele.
Percebendo que ninguém se aproximava de Brizola, Trajano e os demais
companheiros cercaram-no e passaram a dar-lhe atenção. No final da campanha,
a uma semana da eleição, o mesmo grupo voltou com Brizola a Friburgo. Juruna
aproximou-se de Trajano e reclamou:
— Ninguém agora fala com Juruna, só querem Brizola.
Esse episódio revela bem o crescimento de Brizola, que acabou por levá-lo à
vitória.
A estratégia entre Moreira Franco e Brizola continuava, e em todos os demais
debates públicos o esquema funcionava à risca. Alguns meses depois do início dos
debates na TV, Miro descobriu que Brizola e Moreira estavam mancomunados e
passou, então, a denunciar o encontro em seu jornal de campanha, feito com os
melhores jornalistas do Rio: até o número do apartamento do encontro no Hotel
fora fornecido.161
A campanha continuava e Brizola iniciava a reação, crescendo junto à classe
média: as figuras de Darcy (como vice) e Saturnino (para o Senado) ajudaram
muito junto à intelectualidade e ao meio artístico do Rio. Um cartaz de propaganda
política das três candidaturas do PDT tornou-se símbolo de criatividade e
manifestação do grande apoio recebido dos formadores de opinião pública.
Em julho a eleição para governador do Rio não estava definida. Aparentemente,
o favoritismo apontava para Sandra Cavalcanti, tendo como fatores negativos a
frágil estrutura do PTB e a vinculação de votos, além da competição em sua área da
candidatura Moreira Franco–Célio Borja. A mobilização estadual do dispositivo
chaguista sustentava Miro Teixeira, além da incidência dos recursos do Finsocial
que o ministro Andreazza investia no Rio juntamente com seu poder de
aliciamento.
Acervo Pessoal
Cartaz das assinaturas dos artistas e outros profissionais do Rio de Janeiro.
Miro Teixeira contava com a maior massa de apoio político que uma
candidatura poderia agrupar: o governo estadual, a Prefeitura do Rio, o PMDB, o
PCB, o MR-8, donos dos três mais influentes jornais do Rio, jornalistas e editores.
Era um gigantesco poder de agitação e mobilização.162
Dois meses antes das eleições, o quadro evoluíra para que a reta final fosse
disputada entre Miro Teixeira e Moreira Franco, sustentados pelas máquinas
partidárias e administrativas, federal e estadual. A segunda opção seria entre
Moreira Franco – que deslocara de posição a candidata Sandra Cavalcanti – e
Leonel Brizola, que crescia em cima de Miro Teixeira, conforme havia previsto o
próprio Brizola aos seus correligionários da Comissão Executiva do PDT tempos
atrás.
A política é, por natureza, surpreendente e cheia de nuvens, que se movem com
rapidez ou param. Nas eleições de 1982 para governador, a sociedade indignada
superou a realidade das máquinas e dos poderes consolidados no estado nos
últimos 20 anos. Sem estrutura partidária forte, Brizola, através de sua
comunicação, levantou o eleitorado carioca, identificado como o candidato da
oposição, “paralisando o PT e perturbando profundamente o projeto de campanha
do Sr. Miro Teixeira”.163 Além de ter derrotado a máquina do governo federal
colocada à disposição do candidato do PDS: foi uma vitória incalculável, mas cujas
consequências para os cálculos políticos a partir daí seriam de grande peso.
A cidade do Rio, festiva, vivia a eleição com entusiasmo, e por toda parte, em
todas as conversas, o tema era a eleição. Ainda assim, essa comoção não se
traduzia, três meses antes das eleições de 15 de novembro, em opções definidas.
Sandra e Miro continuavam à frente, mas ninguém mais ignorava a presença de
Brizola e de Moreira Franco. Este vinha aumentando sua força eleitoral e chutando
para escanteio a candidatura de Sandra, que se promovera por quase dois anos.
Como dizia outro colunista ilustre, Villas-Bôas Corrêa, citado pela coluna do
Castello: “[Sandra] é fruto em grande parte da competente utilização dos meios de
comunicação de massa, mas sua mensagem é dirigida sobretudo às donas de casa,
que, hoje, pela alta do custo de vida, querem uma solução antigovernista, mas não
ideologicamente oposicionista.”164
Para Castello, “o Sr. Leonel Brizola, candidato do PDT, é uma presença em
ascensão na política fluminense. Num debate na sexta-feira, com dezenas de
jornalistas reunidos na ABI, impressionou-me o número dos seus partidários e a
ênfase que dão a uma escolha que apresentam como a mais nítida […]. O
ostracismo lhe acentuou a vocação democrática. Hoje ele sabe que é pelo voto e
pela ação política que se mobiliza o povo para reformas e não pela organização
revolucionária da população. Brizola disputa com Miro a condição de principal
candidato oposicionista e pretende chegar em posição privilegiada no final da
campanha”.165
O grande e festivo comício na Cinelândia, em 12 de novembro de 1982,
expressou como nada antes a euforia política eleitoral daquele momento e havia
grande esperança não só da vitória de Brizola e Darcy ao governo do Estado do Rio
como da eleição de Saturnino Braga para o Senado e de uma bancada bastante
significativa na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa.
As eleições prontas, o TRE se ajustara à primeira eleição direta para governador
desde 1965 (que substituíra, pelo Ato Institucional 2, o pluripartidarismo pelo
bipartidarismo da Arena e do MDB) e o eleitor estava ávido para colocar seu voto
na urna. Parecia que íamos ter eleições limpas, sem maiores problemas.
Notas
153. Entrevista com o ex-senador Roberto Saturnino Braga, Rio de Janeiro, 15/3/2011.
154. Entre eles: Doutel de Andrade (vice-presidente do PDT), Darcy Ribeiro, Cibilis Viana, Neiva Moreira,
Marcelo Alencar, Saturnino Braga, Baby Bocaiúva Cunha, José Colagrossi, Alceu Collares, Getúlio Dias,
Matheus Schmidt, Trajano Ribeiro, Abdias do Nascimento, Eduardo Chuahy e outros deputados federais e
estaduais membros dos dois diretórios. Neusa Brizola e Cláudia Zarvos (então casada com Darcy Ribeiro)
eram as únicas mulheres presentes. Clóvis esteve presente à reunião, mas, como não pertencia a nenhum dos
dois Diretórios, funcionava como ouvido e guarda-memória, assim como Trajano.
155. Essa história foi contada por Cláudia Zarvos, presente à reunião. Ela diz ter ficado muito impressionada
com a certeza da visão de Brizola ao apontar seu concorrente, o candidato do PDS, e o desenrolar da campanha
acabou provando sua visão. Entrevista de Cláudia Zarvos a Clóvis Brigagão.
156. Entrevista de Moreira Franco, Rio de Janeiro, 21/8/2005 e 2/4/2007.
157. Cf. Carlos Castello Branco, Jornal do Brasil, 24/4/1982 e 4/7/1982. Nesse sentido, o uso do rádio e da TV pelos
candidatos foi executado experimentalmente, com possibilidades da reformulação da famigerada Lei Falcão,
que censurava a propaganda eleitoral nos 60 dias anteriores às eleições.
158. Carlos Castello Branco, Jornal do Brasil, 16/9/1982.
159. Na reunião, Brizola e Moreira fizeram um segundo pacto. Brizola disse que, se ele ganhasse, Moreira seria
o prefeito do Rio, e, se Moreira ganhasse, ele indicaria o prefeito, já que ele mesmo não poderia pelo ainda veto
militar. Moreira pensou, “tudo bem, mas aquilo foi uma mosca que não me mordeu”. Nessa reunião, os dois
designaram Álvaro Santos (que fora secretário de Moreira Franco em Niterói e, anos mais tarde, seria o diretor
do Metrô de Brizola e, mais à frente, do governador Marcelo Alencar) e Gessy Sarmento, do lado de Brizola,
para manterem conversas a fim de resolver assuntos pendentes dessa estratégia. Entrevista de Moreira
Franco, Rio de Janeiro, 21/8/2005 e 2/4/2007.
Gessy Sarmento contou a Clóvis em diversas entrevistas (Petrópolis, 11/3, 17/3, 31/3 e 17/6/2007)que fez um
trato com Álvaro Santos, já sabendo o que ia acontecer: “Se o Brizola ganhar, eu te trago, e se o Moreira ganhar,
você me leva… e o Álvaro entrou na conversa e isso aconteceu.”
160. Entrevista de Gessy Sarmento ao autor Clóvis Brigagão, Petrópolis, 11/3; 17/3; 31/3 e 17/6/2007.
161. Entrevista de Moreira Franco, Rio de Janeiro, 25/8/2005 e 2/4/2007.
162. O governador Chagas Freitas era dono absoluto do MDB/PMDB fluminense, com 96% dos diretórios,
manietado por uma máquina política criada desde 1968, “exatamente quando o AI-5 depenou o MDB”, cf. IstoÉ,
12/9/1979, p.10.
163. Carlos Castello Branco, Jornal do Brasil, 26/9/1982.
164. Ver a citação em Carlos Castello Branco, Jornal do Brasil, 10/8/1982.
165. Ibidem. No mesmo período eleitoral, o PDT não lançou seu próprio candidato ao governo de Pernambuco.
Tanto o pedetista Armando Monteiro como Francisco Julião, cassado e exilado, consideraram ser correto abrir
caminho ao senador Marcos Freire. Essa abdicação deixaria de fora do poder legislativo alguns cassados, que se elegeriam sob a legenda do PDT, como os próprios dois citados e o, já falecido, José Carlos Guerra, que mais tarde seria o presidente do PSDB.