Brizola

Clóvis Brigagão · Capítulo 17 de 30

Páginas do PDF

Brizola

Voltando nas asas da Braniff

 

“Eu ainda não adquiri bem a consciência de que eu vou regressar, vou pisar de

novo o chão de minha pátria… voltar ao nosso ambiente. Eu só vou adquirir

consciência, acho, quando chegar lá. Quando encontrar as caras conhecidas, os

abraços, quando ouvir aquele linguajar, aquele português brasileiro. Só terei

consciência disso depois de dormir uma noite no Brasil. Há de ser muito agradável

acordar no Brasil.”

 

Leonel Brizola113

Acervo pessoal

 

Entre a data de aprovação da anistia, a reconquista do passaporte brasileiro e a

volta, houve a angustiante semana de preparações, despedidas e apreensões.

Saindo de Nova York, na noite do dia 5 de setembro, no último voo da Braniff, em

um DC-8 azul-marinho, para a América do Sul, o trajeto incluía pequena parada

em Washington, pouso para abastecimento na Cidade do Panamá, terceira parada

em Lima, quarta em La Paz, já de madrugada, e chegada em Assunção, Paraguai, na

manhã do dia 6 de setembro. Foi uma viagem inesquecível e dramática.

A data da viagem de volta fora resultado de cálculo: Brizola e sua caravana

chegariam em São Borja no dia 7 de setembro, data da Independência do Brasil. O

grupo era composto pelo casal, os filhos Neusa Maria e João Otávio, Hélio Fontoura, Carlos Contursi, Alex Souza, José Carlos Mendes, o jornalista da IstoÉ, Ricardo

Kotscho, o fotógrafo 114 freelancer Domingos e Clóvis Brigagão.

De Nova York – onde vários brasileiros, asilados ou não, foram despedir-se no

aeroporto John F. Kennedy –, o voo seguiu até Washington. Ali, após ter liberado os

passageiros para descerem no aeroporto para o free shopping, passados 10

minutos, o comandante, nervoso, alertou os passageiros, pelo alto-falante, que o

avião deveria levantar voo imediatamente antes que uma tempestade – o furacão

Davis – pudesse impedir a decolagem.

E lá ficaram, no Aeroporto Internacional Dulles, de Washington, cinco pessoas

da comitiva: Neusa Maria e João Otávio, Alex Souza, Ricardo Kotscho e o fotógrafo

Domingos, que tinham ido às compras. O avião partiu. Mas o furacão avançava e

os pegou em cheio, e todos passaram a sofrer os inconvenientes dos ventos fortes,

da torrente de chuva grossa, da pesada tempestade, que parecia impedir o avião –

de quatro turbinas com suas hélices – de movimentar-se para adiante, sacolejando,

sacolejando forte e abruptamente. Durante as mais de três horas do trecho

Washington–Cidade do Panamá, o voo foi uma sucessão de vômitos, quedas

abruptas e descontrole emocional.

Na parada no aeroporto de Tocumen, no Panamá, Brizola foi até o comandante

e exigiu que ele o acompanhasse até o balcão da Braniff, a fim de obter informações

sobre os brasileiros que haviam ficado em Washington. A Braniff informou que

eles haviam partido para o Brasil pela VARIG, o que deixou Brizola calmo. Antes da

partida, quatro peruanos sobreviventes de um naufrágio no golfo do Panamá

subiram no avião até Lima.

Tudo pronto para continuar a viagem, o comandante anunciou, na saída do

Panamá, que a tempestade já havia se dissipado, mas repentinamente comunicou

que o avião entraria, novamente, em área de grande instabilidade. E lá foram

todos completamente desnorteados até Lima, varando aquele céu de sombria

turbulência causada pelos fortes ventos e imprevisíveis quedas de altitude, com

raios a iluminar aquele céu escuro e chuvoso! Parecia que os céus conspiravam

contra a viagem!

Ao chegar a Lima, por volta das três horas da madrugada, um grande número

de jornalistas estava à espera dos quatro peruanos náufragos. Um dos jornalistas, de um grande jornal de Lima, sem informar aos demais sobre a presença de Brizola

no mesmo avião, esperou que a algazarra passasse e foi direto realizar seu furo de

reportagem. Ao ver o repórter dentro do avião, o comandante proibiu a entrevista.

O repórter, que não pretendia perder aquela oportunidade, trouxe, então, Brizola

para fora do avião e ali na escada fez sua entrevista.

Encerrada a passagem por Lima, eles partiram para La Paz. Tudo normal,

aparentemente. Ao pousar naquele aeroporto lunar, naquela altíssima altitude, o

fotógrafo Carlos Contursi, que acompanhava Brizola registrando sua vida e

trajetória política, começou a passar mal, ficou todo roxo e sem respiração, tendo

que receber socorro médico de emergência.

Finalmente, na manhãzinha do dia 6 de setembro, depois de quase 20 horas de

um voo longo e conturbado, a comitiva desembarcava no aeroporto de Assunção,

mais tarde renomeado Silvio Pettirossi, célebre aviador paraguaio, em lugar do

supremo ditador, general Alfredo Stroessner, que, depois de destituído do poder,

exilou-se em Brasília, onde morreu.115

As autoridades paraguaias já haviam autorizado o trâmite especial das

bagagens e de toda a comitiva. No saguão especial do aeroporto, o ministro do

Interior, general Sabino Montacino, representando o governo da ditadura

Stroessner, veio dar as boas-vindas ao casal Brizola. E ali mesmo deu ordens para

que os oposicionistas paraguaios – os históricos febristas e os liberais liderados por

Domingo Layno –, que vieram saudar o líder brasileiro, fossem retirados do recinto

do aeroporto.116 Também o acesso de jornalistas fora proibido, e o general

Montacino apenas informou que as “declarações [de Brizola] ficariam para o

território brasileiro em Foz do Iguaçu”.

Um grupo de brasileiros já os esperava e acenava para o casal: João Vicente

Goulart, o filho mais velho de Jango; Sereno Chaise, trabalhista histórico e um dos

homens mais chegados a Brizola, compadres duplamente; o senador Pedro Simon;

o jornalista Augusto Nunes, da revista Veja; Trajano Ribeiro e,

surpreendentemente, Cláudio Lembo, então o todo-poderoso presidente da Arena

de São Paulo.

As autoridades paraguaias haviam proibido jornalistas de entrar no recinto

onde Brizola era recepcionado. Augusto Nunes entrou como se fosse assessor de Cláudio Lembo e, assim, pôde acompanhar o que se passava dentro do aeroporto.

Houve bastante demora e todos ali permaneceram isolados, em uma área especial.

Observador, Brigagão viu que Brizola e Lembo conversavam em um canto de uma

sala reservada, e a imaginação soltou-se: a presença do arenista de São Paulo ali

seria por conta de algum “recado” do governo de Figueiredo a Brizola? Essa ideia

permaneceu em sua cabeça desde então (1979). Com a decisão de escrever este

livro, nada mais imperativo do que realizar entrevista com o então vice-

governador de São Paulo (2005), no Palácio Bandeirantes, para saber se ele

confirmaria a teoria conspiratória do autor.

Cláudio Lembo riu muito quando a pergunta foi feita:

— Sua presença ali representava o “dedo” do governo para passar algum

“recado” a Brizola? 117

Foto: Agência O Globo

 

Brizola é recebido por grupo de brasileiros: Trajano Ribeiro, ao fundo, à direita; o senador Pedro Simon, do MDB; Wilson Vargas, velho companheiro de Brizola no início do PTB e o filho mais velho de Brizola, José Vicente, em Assunção, 6 de setembro de 1979.

 

Segundo Lembo, ele estava em Assunção casualmente de passeio com sua

esposa, no mesmo hotel onde estava hospedado o jornalista Augusto Nunes, que,

então, convidara Lembo para ir ao aeroporto receber Brizola. O fato é que os dois

tiveram um trato muito carinhoso, e diante daquele homem que vinha de um

longo exílio e da oposição a ele, sentiu-se muito confortável e alegre em receber,

como brasileiro, aquele que estava retornando à sua terra. Foi, disse Lembo, um

contato muito afetivo e muito carinhoso de brasileiros que se reencontravam,

apesar de não se conhecerem antes.

Depois do encontro com Brizola no aeroporto de Assunção, Cláudio Lembo

recebeu vários telefonemas de autoridades do governo que se mostraram confusas e contrariadas com o acontecimento. Paulo Maluf o afastou da presidência da

Arena-São Paulo. Golbery do Couto e Silva ligou e pediu-lhe que falasse com cautela

sobre o assunto, porque a situação ainda era muito sensível contra Brizola. Para

Lembo, ele estava a serviço da reconciliação e considerava ser de bom-tom

encontrar-se com Brizola em sua volta ao país, e o que ocorreu foi positivo: como

presidente da Arena de São Paulo, o primeiro brasileiro do partido da ditadura a

receber Brizola foi fator positivo para a abertura política no Brasil.

Daí em diante surgiu uma amizade que permaneceu por toda a vida. O casal

Brizola ia visitar os Lembo em São Paulo. Brizola e Neusa chegavam a levar quitutes

e lembranças pessoais, toalhas bordadas, ao casal amigo, assim como os Lembo,

quando iam ao Rio, compartilhavam o mesmo espírito de amizade e

confraternização.

Dialogavam e mantiveram uma visão democrática e solidária. Lembo contou

que, na última semana de vida de Brizola, teve a oportunidade de dialogar várias

vezes com ele, pelo telefone, e Brizola chegou a relatar-lhe o cansaço nas pernas e o

avanço de sua enfermidade.118

A presença daqueles primeiros brasileiros tinha um significado especial tanto

para o casal Brizola, longe do país por 15 anos, quanto para os seus

acompanhantes, pois eles estavam ali saudando, pelo Brasil, aqueles que haviam

sido proscritos de sua prolongada convivência. Terminada a jornada de Assunção,

partiu-se em um pequeno avião bimotor Piper PT-ESO (de oito lugares) de

propriedade de João Vicente Goulart para Foz do Iguaçu. O piloto do Piper, Manoel

Soares Leães, o Maneco Leães, foi o mesmo que levou Brizola para o exílio no

Uruguai, pilotando um avião de Jango em maio de 1964.

A chegada ao Aeroporto de Foz do Iguaçu parecia que seria tranquila. No

entanto, seria necessário que passar pelo posto da Polícia Federal a fim de receber o

visto de entrada nos passaportes. Os agentes federais pegaram os passaportes e

minutos depois informaram que eles teriam de esperar, pois foram obrigados a se

comunicar com autoridades em Brasília, com a Polícia Federal (e certamente com o

SNI).

Foram obrigados a confirmar se Brizola e os demais brasileiros teriam

permissão para entrar no país. E haja espera de Brasília… Até que um dos agentes, o major Mata Machado (da mesma família dos Mata Machado, de Minas Gerais,

oposicionista ao regime militar e que teve um de seus jovens membros morto pela

ditadura), decidiu, por conta e risco próprios, liberar a comitiva de Brizola.

Do lado de fora do aeroporto podia-se ver uma aglomeração de mais de uma

centena de brizolistas, que ali permaneciam prontos para reagir ao boato de que o

líder fora preso.119

Desde Nova York, com a aproximação da volta, Brizola vinha pensando, como

um sobreaviso, na possibilidade de se criar algum clima militar em sua chegada,

provocando tumulto que pudesse prejudicar o andamento da abertura.

Conscientemente, excluiu a chegada pelo Rio de Janeiro e por Porto Alegre. Por isso

a escolha daquele voo da Braniff, que vinha pingando pela América do Sul até

Assunção, Foz do Iguaçu e, depois, a chegada à “Porteira da História”, São Borja.

Clóvis se lembra muito bem da grande e forte emoção ao pisar em solo

brasileiro, tendo à frente o Hotel das Cataratas (da antiga VARIG), onde ficaram

hospedados, aquelas cataratas brancas e, ao fundo, a espessa mata verde…

A primeira entrevista coletiva de Brizola, com inúmeros jornalistas, fotógrafos e

seus flashes, despertou sentimentos de perplexidade e muitas perguntas diante da

inusitada circunstância histórica. Brizola, em suas respostas – com seus cigarros

Marlboro sempre acesos – mostrava-se cauteloso, colocando palavras genéricas

que se encadeavam sobre cenários da vida política, da reorganização partidária, do

futuro do regime militar e das possibilidades de eleições gerais no país

democratizado.

Foto: Carlos Contursi

 

“Quero me empapar de Brasil”: primeira entrevista de Brizola em território brasileiro, em Foz de Iguaçu. (Ao fundo, as Cataratas do Iguaçu.) Em 6 de setembro de 1979.

Notas

 

113. Entrevista a Tarso de Castro, Enfim, Rio de Janeiro, ano 1, n. 1, 12/9/79, p. 2.

114. Informações confirmadas por Eunice de Oliveira, Rio de Janeiro, 29/5/2011.

115. Segundo F.C. Leite Filho, “o presidente Stroessner tinha feito restrições àquele pouso do ilustre exilado em

Assunção: ‘olha, eu sou amigo de seu pai; do Brizola, não’, disse ele ao filho de Jango, João Vicente Goulart, que

lhe fora pedir autorização para o desembarque do tio Leonel, no país”. F.C. Leite Filho. El Caudillo Leonel Brizola,

p. 371.

116. Informações da viagem e dos vários atropelos vividos durante o voo da Braniff foram passadas ao autor

[CB], em entrevista, por José Carlos Mendes, Rio de Janeiro, 17/1/2011.

117. Entrevista com o vice-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, Palácio dos Bandeirantes, São Paulo,

15/7/2005.

118. Idem, cf. entrevista com o vice-governador de São Paulo, Cláudio Lembo.

119. Entrevista de José Carlos Mendes a Clóvis Brigagão.