Brizola

Clóvis Brigagão · Capítulo 3 de 30

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Brizola

Dedicatória

Para Neusa Goulart Brizola (in memoriam)

Sobre a foto da capa

O fotógrafo Aguinaldo Ramos, autor da foto, então no Jornal do Brasil, nos

conta:

“Um dia [do ano de 1982], saí da redação do JB com o repórter J. Paulo para

acompanhar o então candidato a governador [Brizola] num roteiro pela Zona Norte

da cidade. No começo da tarde estávamos no Conjunto Amarelinho, em Irajá, junto

à avenida Brasil. As lideranças locais aproveitaram a promissora visita para fazer,

além da luta pela reforma do conjunto, uma manifestação pela paz na

comunidade, cercada de favelas. Promoveram a queima, em grande fogueira à

frente do conjunto, das armas de plástico recolhidas das crianças. Brizola ganhou a

honra de atear o fogo, o que fez com prática de gaúcho churrasqueiro. De repente,

vira-se para o mais destacado cabo eleitoral local e pergunta: ‘Tens coragem de

pular a fogueira, tchê?!… Então vai na frente que eu vou atrás!’

“Os assessores, até mesmo o futuro prefeito Marcelo Alencar, também na

campanha, tentaram preservar o chefe. Nada adiantou, Brizola estava tranquilo e

ia pular.

“Eu me preparei como pude… Busquei uma posição lateral, pus a 24 mm (a

maior grande angular que tinha ali), me agachei, mantive o dedo no obturador. O

líder local, com a maior desenvoltura, cumpriu sua parte. Acompanhei de rabo de

olho, sem apertar, preocupado com Brizola, que podia nem esperar o salto do outro.

Ou, refugar… Brizola tinha os olhos fixos na fogueira e um sorriso maroto no rosto.

Com suas botinas de gaúcho exilado, camisa azul-clara de mangas arregaçadas,

arredou um pouco a garotada, abriu uma roda, concentrou-se e, sem

considerações, partiu! No meio do caminho, abriu os braços, parecia estar num voo

acima de tudo. Aterrissou com perfeição, sem qualquer escorregão ou

derrapagem.”

(Depoimento pessoal. “Brizola pula a fogueira”, Aguinaldo Ramos)