Brizola

Clóvis Brigagão · Capítulo 23 de 30

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Brizola

No ar, a Proconsult

 

O governo tratou logo de criar mais um casuísmo – o do “voto vinculado”: o eleitor

votaria nos candidatos do mesmo partido para todos os cargos (governador, vice,

senador, deputado federal, estadual, prefeito e vereador). Caso a escolha fosse

diferente, o voto era anulado, pura e simplesmente. No cômputo geral, o que o

partido governista, o PDS, ganhou foi numericamente parecido ao da oposição,

composta por três partidos (PMDB, PDT e PT) e tal resultado iria influenciar,

finalmente, a composição do colégio eleitoral em 1985, onde seria eleito,

indiretamente, o candidato da Aliança Liberal (PMDB-dissidentes da Arena),

Tancredo Neves.

Por sua vez, a Justiça Eleitoral impôs às eleições de 1982 um formato híbrido: a

votação manual e a apuração informatizada. Era o que parecia ser possível naquele

momento, em que o país caminhava ainda lentamente em termos de um processo

eleitoral como temos hoje: totalmente digital. Mas o fato real é que a Justiça

Eleitoral estava desaparelhada para a contagem de votos e decidiu informatizar a

fase final da apuração.

O somatório dos mapas realizados manualmente nas juntas apuradoras em

cada zona eleitoral seria, então, feito por uma empresa particular. Eis que surge a

empresa Proconsult-Racimec, de propriedade de antigos oficiais de informação do

Exército, contratada exclusivamente pelo TRE do Rio de Janeiro, que seria o único

Tribunal Eleitoral no Brasil a contratar empresa privada. Em outros estados, como

São Paulo e Minas, a empresa estatal SERPRO seria a contratada para realizar a

apuração.166

A história da Proconsult, em sua tentativa de fraudar as eleições no Rio, foi

concebida, claro, à sombra da primeira experiência democrática, depois de

décadas de ditadura e controle dos meios de comunicação. Aparentemente poderia chegar a ter êxito. A Proconsult criou um sistema informatizado de apuração dos

votos contabilizando os nulos ou brancos para serem transferidos ao candidato do

PDS, através de uma fórmula que ficou conhecida como Fator Delta: era levado em

consideração um aumento dos votos brancos e nulos. Pelo regime estabelecido, em

que o voto iria para o mesmo partido, estimava-se que haveria um alto índice de

votos nulos, pois, segundo a visão elitista, o eleitorado brizolista, mais pobre, seria

a principal vítima dos votos nulos e brancos transformados em Fator Delta.

Os indícios de que os resultados seriam fraudados surgiram da apuração

paralela contratada pelo PDT à empresa Sysin Sistemas e Serviços de Informática,

coordenada por Cibilis Viana, mas, de fato, comandada por César Maia, que havia

adquirido conhecimento sobre programas de computação e tinha disposição

política.167 E logo no início, os resultados não batiam com os da apuração oficial

dirigida pela Proconsult e divulgados pelo TRE.

Outra fonte que obteve resultados diferentes dos oficiais foi a Rádio Jornal do

Brasil. Segundo o então chefe do Departamento de Jornalismo da Rádio JB-AM,

Procópio Mineiro:

— […] Com uma pequena equipe, integrada em grande parte por estudantes de

jornalismo, foi possível oferecer inúmeros boletins diários formados do somatório

dos mapas coletados nas juntas de apuração. Ao final do primeiro dia tínhamos

cerca de 2% dos votos totalizados e pude ousar a previsão de que Leonel Brizola era

o vitorioso.168 — Procópio prossegue:

— No finalzinho da noite desse primeiro dia, o responsável pela Proconsult,

Arcádio Vieira, nos telefonou. Como matemático, analisava minha apuração e

concluía que a vitória final seria de Moreira Franco por uns 60 mil votos. Os

argumentos, porém, eram pouco matemáticos: falavam na elevada proporção de

votos que seriam anulados na conferência final antes da entrada dos dados no

computador.

“Ou seja, os mapas procedentes das juntas apuradoras iriam ser alterados,

porque os pobres não teriam competência para preencher com correção a cédula,

muito complexa, pois a eleição envolvia também a escolha de senadores,

deputados estaduais e federais, prefeitos e vereadores. Somado tudo, daria

vantagem de 60 mil votos para o candidato do PDS […] Um mês depois, imerso em crise, o TRE apresentou seus números: eram os nossos com diferenças de

milésimos.169

Segundo Ali Kamel, atual diretor da Globo (à época era estagiário na Rádio JB):

— [...] A TV Globo e O Globo jamais contrataram os serviços da Proconsult.

Desde o dia da eleição, até o fim da apuração, O Globo deu manchetes atribuindo a

vitória a Leonel Brizola. Jamais disse em manchete ou em título interno que

Moreira Franco ganharia a eleição. A TV Globo previu a vitória de Brizola já no dia

da eleição, com a divulgação da pesquisa de Boca de Urna do Ibope, dando a vitória

de Brizola por cinco pontos percentuais.

“Nos dias subsequentes, foram divulgados os resultados oficiais do TRE e os da

apuração paralela do Globo, que apresentava números defasados em relação à

apuração paralela do PDT e da Rádio Jornal do Brasil. Mas, já no dia 18 de

novembro, [O Globo] fazia projeções que davam a vitória a Brizola. O Globo

desenvolveu sistema próprio, sem qualquer vinculação com a Proconsult.

Estagiários foram contratados para, durante a apuração, trabalhar nas zonas

eleitorais de todo o estado. As mesas apuradoras, depois de contar os votos,

registravam tudo em boletins, que eram afixados em lugar visível. A tarefa dos

estagiários do Globo era copiar todos os dados dos boletins: os votos para todos os

candidatos eram enviados por carro ou moto para a sede do jornal, onde eram

digitados para alimentar os computadores.

“No dia 16 de novembro de 1982, um dia depois da eleição e com os votos sendo

contados, a manchete de primeira página do Globo era: ‘Ibope aponta vitória de

Brizola’. No texto está dito: a última pesquisa do Ibope antes das eleições,

divulgada ontem, prevê a vitória do candidato do PDT, Leonel Brizola, com 31,3%

dos votos; Moreira Franco, do PDS, com 26,8%; Miro Teixeira, do PMDB, 14,1%;

Sandra Cavalcanti, do PTB, 8,9%, e Lysâneas Maciel, do PT, 3%.170

Apenas dois dias passados da data da eleição, já se sentia no ar o cheiro da

fraude na apuração da Proconsult: tudo andava muito lento, os votos do interior

chegavam mais rápido e os da capital – com mais de dois terços do eleitorado de

todo o estado e onde Brizola obteve cerca de 70% dos votos – não apareciam ou se

arrastavam. Estava montado o esquema fraudulento para que Brizola não

ganhasse a eleição.

No meio desse imbróglio político-tecnológico, o principal responsável pela

Proconsult, Sr. Arcádio Vieira, procura sigilosamente Cibilis Viana e propõe-lhe o

seguinte negócio: se Brizola o nomeasse para a presidência do BANERJ, ele abortaria

a operação. Cibilis, sempre muito fiel a Brizola, levou-lhe o recado. Ouvida a

história, Brizola apenas disse que iria mandar prender Arcádio. Mas, de fato, partiu

para a ofensiva, convocou a imprensa estrangeira sediada no Rio e denunciou a

operação fraudulenta executada pela Proconsult.171

Diante das denúncias, o TRE do Rio de Janeiro pediu abertura de inquérito da

Polícia Federal e aprovou a realização de uma auditoria técnica na Proconsult.172

Um bilhete escrito a mão pelo general Newton Cruz revela que a ditadura tentou

intervir nas investigações do escândalo da Proconsult, que marcou a eleição do ex-

governador Leonel Brizola em 1982. Símbolo da linha-dura dos quartéis, o general

recorreu ao então procurador-geral da República, Inocêncio Coelho, para reclamar

da atuação do Ministério Público. Os papéis não permitem concluir se o SNI tentou

fraudar o resultado para impedir a eleição de Brizola.

Em 24 de fevereiro de 1983, Cruz enviou a Coelho um relatório com duros

ataques aos procuradores e promotores eleitorais que investigavam a Proconsult,

contratada pelo Tribunal Regional Eleitoral para totalizar os votos no Rio. Segundo

arapongas, o MP estaria determinado a desmoralizar o SNI e a Polícia Federal, que

arquivou o inquérito sem qualquer indiciamento. O documento faz críticas ao

então chefe da Procuradoria no Rio, Carlos Roberto Siqueira Castro: “À sanha dos

chefes da Procuradoria Regional da República contra o governo e a Revolução não

escapa a figura respeitável do presidente Figueiredo.”

O procurador Siqueira Castro havia tirado da parede de sua sala o retrato de

Figueiredo e as críticas a ele foram endossadas por Cruz: “Subscrevo-as

inteiramente”, anotou no bilhete. Siqueira Castro informou que ouvia aquilo com

muita honra. “As denúncias impediram uma fraude para desviar votos do ex-

governador Brizola.” Os arquivos do SNI não apontam vínculos entre o órgão e a

Proconsult, que tinha um tenente-coronel do Exército como diretor de computador

[da Proconsult]. Siqueira Castro afirmou que a fraude ficou comprovada. “Mas não

foi possível apontar o envolvimento direto de agentes da ditadura.”

Dois dias depois, a divulgação de boletins do TRE foi suspensa e uma auditoria

da SERPRO entregava seu relatório ao TRE apontando inúmeros erros de

procedimentos da Proconsult, evidenciando que a totalização de votos tinha sido

mal planejada, mas mesmo assim os trabalhos da Proconsult continuaram…

depois das medidas corretivas apontadas pelo SERPRO.

Na noite do dia 18 de novembro, Brizola foi à sede da Rede Globo, no Jardim

Botânico, que lhe concedeu espaço para entrevista ao vivo, por cerca de meia hora,

entrando no ar depois das 22 horas, conduzida pelos jornalistas Paulo César de

Araújo e André Gustavo Stumpf, sob a coordenação de Armando Nogueira, diretor

de jornalismo da TV Globo: era o programa diário Show das Eleições.

Vamos aqui dar os principais trechos da entrevista, pois não resta dúvida de

que se trata de um episódio sui generis, em que se mistura política, meios de

comunicação e comportamento psicológico.

Paulo César de Araújo — Nós estamos aqui com o ex-governador do Rio Grande

do Sul e ex-deputado federal pela antiga Guanabara, o engenheiro Leonel de

Moura Brizola.” [Segundo as últimas projeções do Centro de Computação de O

Globo, o candidato do PDT ganharia as eleições no Rio por uma margem apertada

sobre o candidato do PDS.] “Dr. Brizola, segundo suas previsões, por quanto o

senhor ganharia, com que índice o senhor ganharia as eleições no Rio – na capital,

no interior e na periferia?”

Leonel Brizola — Rigorosamente, eu, sob o ponto de vista pessoal, não tenho,

nunca fiz projeções. Sabe que eu sou empírico. Essas técnicas americanas, por

exemplo, eu não entendo delas. E acho que elas são muito relativas num país como

o Brasil. Em geral, elas não dão certo aqui. Agora, a minha convicção sempre foi a

de que nós iríamos vencer as eleições… e agora que as eleições já estão com as suas

apurações mais ou menos avançadas, já se superando um pouco esse quadro de

confusão, o nosso pessoal, o partido, que está fazendo ali as suas projeções, os seus

cálculos…

Paulo César de Araújo — O senhor está eleito, hoje?

Leonel Brizola — Só a fraude pode ameaçar a nossa vitória… seria a vitória do

povo do Rio de Janeiro. Porque – olha que sacudir essa parafernália de propaganda,

esses golpes todos que nos deram aí. Esse rio de dinheiro, sem nada, essa população do Rio de Janeiro – tem que se tirar o chapéu! O mundo tem que tirar o

chapéu para o Rio de Janeiro!

André Gustavo Stumpf — O senhor falou que só a fraude pode impedir de o

senhor se considerar eleito. O senhor acha razoável, o senhor teme a fraude?

Leonel Brizola — Tememos sim! Tememos! Tememos, sim!

Paulo César de Araújo — Só que o candidato do PDS tem essa mesma opinião.

Ele acha que só a fraude o tirará do governo.

Leonel Brizola — Eu não sei no que ele pode se basear… Porque, quando nós

víamos o noticiário – e eu me aprontei como cidadão para acompanhar pelos

meios de comunicação… que em todo o Brasil o noticiário caminhava certo. Veja

São Paulo, como chegou, tudo caminhando… E no Rio de Janeiro, nós para trás,

confusos, a população atônita. Então, isso levou até as apurações. Sabe que lá, no

recinto das apurações, se criou um quadro de tensão entre os fiscais; as pessoas na

rua, por toda parte… e isso criou um clima favorável à fraude no Rio de Janeiro.

Paulo César de Araújo — O senhor acha que a Justiça Eleitoral podia se deixar

ficar tumultuada com esses números?

Leonel Brizola — Não! Nós confiamos na Justiça Eleitoral, nos seus juízes, nos

seus tribunais. Agora, acho que ela ficou em dificuldades e, por isso mesmo,

ineficiente, sob muitos aspectos, por desaparelhada, tanto de pessoal quanto

materialmente. As juntas apuradoras se transformaram em muitos casos quase

que num tumulto… Porque faltou à Justiça Eleitoral, aqui, uma colaboração real da

administração estadual.

Paulo César de Araújo — Só uma observação: o primeiro boletim parcial do TRE

deu 25 urnas da capital, 25 urnas do interior e duas da periferia: 52 urnas. E o

resultado foi o candidato do PDS em primeiro lugar…

Leonel Brizola — Mas acontece o seguinte… Eu não quero me referir aos

primeiros resultados, não. Não, foram dias. O TRE está vivendo dificuldades…

contratou uma firma particular. É uma firma que está fazendo a computação em

vários lugares e os mapas estão sendo elaborados com muitos problemas… nós

mesmos constatamos muitas imperfeições. Vamos dizer, o resultado oficial,

sempre mais atrasado e demorado, embora causasse espécie também o fato de que

o TRE só tenha dado um boletim oficial praticamente 48 horas depois…

Paulo César de Araújo — Cinquenta e quatro[horas]!

Leonel Brizola — Veja o seguinte: falando aos correspondentes estrangeiros,

eles próprios disseram: “Bom, para nós, isso não existe. Há 30, 40, 72 [horas]. A três

dias e três noites das eleições, o Rio de Janeiro está vivendo a indefinição, enquanto

em todos os estados a situação já estava praticamente definida”.

Paulo César de Araújo — Um momentinho só, porque agora nós vamos aos

nossos estúdios, em São Paulo, onde o nosso companheiro Armando Nogueira tem

uma pergunta a fazer ao senhor.

Armando Nogueira — Estamos acompanhando aqui a sua entrevista, com

natural interesse, e a certa altura pareceu que o senhor ficou preocupado, em dado

momento da apuração, com a correção do trabalho dos profissionais da Rede

Globo, entre os quais eu figuro, humildemente, mas com muito orgulho. E eu

perguntaria ao senhor, governador, se é justo que profissionais com um passado,

alguns com um futuro, quase todos com um futuro, devam merecer, numa hora de

paixão, um tratamento tão rigoroso da parte de um homem público, por parte de

quem a gente tem um apreço. Eu gostaria de fazer esta pergunta, que ela é quase

pessoal. O senhor me desculpe introduzir uma pergunta pessoal, mas em nome de

cerca de dois mil jornalistas… Eu me sinto no dever de fazer essa pergunta ao

senhor.

Leonel Brizola — Perfeito. Com muito carinho, com muito prazer, Armando.

Sabe que eu dou essa resposta com aquela franqueza que me caracteriza – não é

verdade? E nós devemos sempre usar esse método da franqueza, da lealdade. Eu

registrei o que era real. Eu não cheguei a entrar no mérito. Eu não cheguei, de forma

nenhuma, a considerar que tivesse havido má-fé… Não cheguei, absolutamente. Eu

registrei uma situação real existente aqui no Rio de Janeiro e também os meus

próprios sentimentos. Porque eu senti o nosso Rio, no conjunto, desmerecido.

Chegava a ser anunciado: “Olha, logo em seguida, vem o Rio de Janeiro!” E depois

vinha o Acre, vinha Rondônia, e nada… Agora, pode ser que tenha entupido… os

canais tenham se entupido aí. Havia dificuldades… Porque uma organização

grande é assim, às vezes o gigantismo, uma doença das organizações. Isto pode

acontecer… sem desmerecer os profissionais… Muitas vezes grandes médicos vão

fazer uma operação e o doente morre. Quer dizer, eu registro o fato… Neste momento, Armando, a mensagem que eu dirijo a todos quantos me ouvem, com a

consideração da minha palavra, de uma mensagem minha… que se mantenham

tranquilos, se mantenham calmos, cabeça fria… Vamos trabalhar para que a

verdade eleitoral flua e surja, seja qual for. Vamos honrar a justiça, vamos

respeitar… Fazer com que a justiça paire acima de qualquer suspeita, seja

prestigiada. Se não tivermos uma justiça prestigiada, não temos ordem jurídica,

não temos democracia… muito menos a verdade eleitoral. Quer dizer, Armando,

não tome esses meus comentários como uma desconsideração, como um

desmerecimento aos profissionais. Ao contrário, eu até fiquei admirado como é

que um conjunto, uma equipe extraordinária de profissionais, como são vocês

todos, pudesse entrar nesse descompasso que houve. E tanto que gerou esse estado

de espírito. Mas, felizmente, eu acho que tudo está retornando… aos seus níveis

normais. Eu fiquei muito honrado de ouvir essa projeção final, que está

canalizando no sentido de um reconhecimento da possibilidade de que a maioria

eleitoral se estabeleça em torno de meu nome. Como veria também se a verdade

fosse outra.

Armando Nogueira — Pois é, governador, eu gostaria que o senhor, já nesse

estado de espírito de compreensão, o senhor aproveitasse a oportunidade para, ao

desagravar a Rede Globo, desagravar também de certa maneira o Tribunal

Regional Eleitoral. Porque, o senhor sabe que, fosse qual fosse a discrepância dos

números, jamais os magistrados da Justiça Eleitoral iam se deixar perturbar por

uma manipulação. Eu sei o que é a Justiça Eleitoral… e o senhor sabe também,

porque o senhor exaltou essa retidão da Justiça Eleitoral ao longo de toda a

campanha, e o senhor sabe perfeitamente que os números que estão chegando

agora – eles estão chegando porque eles correm um ritmo normal e não o delírio,

governador. Nós não entramos no delírio dos números. Aqui, em São Paulo,

também, no primeiro dia, nós ficamos aquém, mas quisemos ficar aquém da

fantasia, para ficar de acordo com a realidade, governador.

Leonel Brizola — Não, mas pode crer que foi uma satisfação muito grande

contar com a sua participação, sobretudo uma honra maior ainda. Mas eu gostaria

de dizer o seguinte: que, agora sim, nós discordamos. Em primeiro lugar, nunca,

em nenhum momento, tanto eu quanto o PDT, pusemos em dúvida a lisura da Justiça Eleitoral. Ao contrário, nós trabalhamos para que ela fosse respeitada na

campanha eleitoral. E [ela] foi muito desconsiderada, principalmente por parte do

candidato do governo e a sua campanha. E muitos outros setores, que

desconsideraram reiteradamente a Justiça Eleitoral. De modo que eu não tenho

nada que desagravar a Justiça Eleitoral, Armando. Ao contrário, o meu primeiro

passo como candidato foi visitar a Justiça Eleitoral e prestigiá-la. Eu tenho uma

tradição de prestígio e de acatamento ao Poder Judiciário. Agora, a minha

referência sobre uma possibilidade de fraude não se refere aos juízes: refere-se a

este submundo que passou a se mover, em função desta confusão que se criou aqui.

Porque nós temos indícios muito concretos a esse respeito. Então, isto pode se

passar, independentemente do cuidado e do zelo dos juízes. E depois constatar

essas providências é muito difícil. Nas minhas críticas – porque, na verdade, é

crítica mesmo, no bom sentido, no sentido elevado. Não tem nada com exaltação,

me desculpe, Armando. Pelo contrário, a cabeça aqui, oh… quando começa a

adquirir uma temperaturazinha, eu boto na geladeira. Cabeça fria, a minha… Mas

como é que eu posso me conformar que vocês computem a toda hora urnas do

interior e deixem as urnas da cidade, aqui?… Custa muito mais uma viagem – me

desculpe – lá de Campos, lá de Bom Jesus, lá de Itaperuna, do que uma corrida de

automóvel ali em Bonsucesso, ali na Baixada. E isso foi ficando para trás. Eu acho

que era uma ideia parelha do resultado das eleições. Isso se foi – alguém teve a

intenção de esvaziar, enfim, a projeção dos resultados do Rio de Janeiro, cometeu

um erro… Mas, enfim, Armando, olha, com toda a franqueza, pode crer que, em

mim, não existe mais nenhuma restrição a esse respeito… Pode crer que,

assumindo essas responsabilidades de governo, no Rio de Janeiro, nós vamos ter

de trabalhar juntos por essa comunidade… Então, falar em Rede Globo, falar no Rio

de Janeiro, é como falar de uma coisa só… está entrosado, está interligado. E nós

vamos ser companheiros de viagem, vamos trabalhar juntos. Podemos discordar

um momento, discordar noutro, mas vai nos sobrar terreno comum de trabalho

conjunto por essa terra e por essa gente querida do Rio de Janeiro.173

Refeito o susto da possível fraude, recomposta a contagem dos votos, o TRE deu,

quase um mês depois da data das eleições de 15 de novembro, a vitória ao

candidato do PDT, Leonel Brizola, com 1.709.264 votos (34,2%) contra 1.530.728 (30,5%) do candidato do PDS, Moreira Franco: foram 178.536 votos de diferença. Em

terceiro lugar ficou Miro Teixeira, PMDB, com 1.073.444 (21,5%), Sandra Cavalcanti,

do PTB, ficaria em quarto lugar com 536.383 (10,7%) e por último o candidato do PT,

Lysâneas Maciel, com 152.614 (3,1%).

O PDT apresentara candidatos a governador em 11 estados: Maranhão, Sergipe,

Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro (o único vitorioso), São Paulo, Paraná,

Santa Catarina, Rio Grande do Sul (em terceiro lugar, depois do PDS e do PMDB),

Mato Grosso e Goiás. No plano das eleições proporcionais, de deputados federais e

estaduais, o PDT teve o seguinte resultado: no Rio de Janeiro elegeu 16 deputados

federais (entre outros, o cantor Agnaldo Timóteo, com meio milhão de votos, o

Cacique Juruna e o poeta J.G. de Araújo Jorge) e no Rio Grande do Sul, 7, enquanto

24 deputados estaduais foram eleitos no Rio e 12 no Rio Grande do Sul. Elegeu em

todo o país 22 prefeitos, em grande parte no Rio Grande do Sul. No estado do Rio, a

capital, Angra e Volta Redonda eram cidades de segurança nacional e não houve

eleições.174

Brizola arrematou:

— Minha vitória é para oferecer uma alternativa verdadeiramente democrática

ao povo fluminense, como o único representante da oposição autêntica, sem

cumplicidades.175

Notas

 

166. O Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO) é uma empresa pública de Tecnologia,

Informação e Comunicação do governo federal, vinculada ao Ministério da Fazenda.

167. Ver blog do Oliveira Ramos, disponível no site Jornal pequeno:

<blog.jornalpequeno.com.br/josedeoliveiraramos>, postagem de 10/10/2009. “Remember – Quiseram roubar

Leonel Brizola!”.

168. Ibidem.

169. Ibidem. Segundo outro Oliveira Ramos no texto “O outro Golpe que Brizola evitou”, 27/11, o Jornal do Brasil

denunciou que, juntamente com a Rádio Jornal do Brasil, havia sofrido pressões da Proconsult, por meio de seu

vice-presidente, Arcádio Vieira, para mudar os resultados que vinha divulgando. O JB informou que recusara

oferta de Arcádio para que usasse os números da Proconsult e que demitira seu gerente de Métodos e

Sistemas, Tadeu Lanes, que se mostrara receptivo aos argumentos do executivo da Proconsult. Basta consultar

os arquivos dos jornais da época, disponível no site Jornal pequeno,

<blog.jornalpequeno.com.br/josedeoliveiraramos>, postagem de 10/10/2009.

170. Cf. Oliveira Ramos, “O outro Golpe que Brizola evitou” disponível no site Jornal pequeno:

<blog.jor.nalpequeno.com.br/josedeoliveiraramos>, postagem de 10/10/2009.

171. Cf. entrevista de Gessy Sarmento ao autor Clóvis Brigagão, Petrópolis, 11/3, 17/3 e 31/3 e 17/6/2007, p. 23.

172. Cf. O Globo, 29/3/2009, p. 3.

173. Cf. Oliveira Ramos. “Remember - Quiseram roubar Leonel Brizola”, disponível no site Jornal pequeno:

<blog.jornalpequeno.com.br/josedeoliveiraramos>.

174. Ver <jaironicolau.iesp.uerj/banco.2004.html>

175. Ver Israel Beloch e Alzira Alves de Abreu (coords.), Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, 1930-1983, p.

494.