Brizola
No ar, a Proconsult
O governo tratou logo de criar mais um casuísmo – o do “voto vinculado”: o eleitor
votaria nos candidatos do mesmo partido para todos os cargos (governador, vice,
senador, deputado federal, estadual, prefeito e vereador). Caso a escolha fosse
diferente, o voto era anulado, pura e simplesmente. No cômputo geral, o que o
partido governista, o PDS, ganhou foi numericamente parecido ao da oposição,
composta por três partidos (PMDB, PDT e PT) e tal resultado iria influenciar,
finalmente, a composição do colégio eleitoral em 1985, onde seria eleito,
indiretamente, o candidato da Aliança Liberal (PMDB-dissidentes da Arena),
Tancredo Neves.
Por sua vez, a Justiça Eleitoral impôs às eleições de 1982 um formato híbrido: a
votação manual e a apuração informatizada. Era o que parecia ser possível naquele
momento, em que o país caminhava ainda lentamente em termos de um processo
eleitoral como temos hoje: totalmente digital. Mas o fato real é que a Justiça
Eleitoral estava desaparelhada para a contagem de votos e decidiu informatizar a
fase final da apuração.
O somatório dos mapas realizados manualmente nas juntas apuradoras em
cada zona eleitoral seria, então, feito por uma empresa particular. Eis que surge a
empresa Proconsult-Racimec, de propriedade de antigos oficiais de informação do
Exército, contratada exclusivamente pelo TRE do Rio de Janeiro, que seria o único
Tribunal Eleitoral no Brasil a contratar empresa privada. Em outros estados, como
São Paulo e Minas, a empresa estatal SERPRO seria a contratada para realizar a
apuração.166
A história da Proconsult, em sua tentativa de fraudar as eleições no Rio, foi
concebida, claro, à sombra da primeira experiência democrática, depois de
décadas de ditadura e controle dos meios de comunicação. Aparentemente poderia chegar a ter êxito. A Proconsult criou um sistema informatizado de apuração dos
votos contabilizando os nulos ou brancos para serem transferidos ao candidato do
PDS, através de uma fórmula que ficou conhecida como Fator Delta: era levado em
consideração um aumento dos votos brancos e nulos. Pelo regime estabelecido, em
que o voto iria para o mesmo partido, estimava-se que haveria um alto índice de
votos nulos, pois, segundo a visão elitista, o eleitorado brizolista, mais pobre, seria
a principal vítima dos votos nulos e brancos transformados em Fator Delta.
Os indícios de que os resultados seriam fraudados surgiram da apuração
paralela contratada pelo PDT à empresa Sysin Sistemas e Serviços de Informática,
coordenada por Cibilis Viana, mas, de fato, comandada por César Maia, que havia
adquirido conhecimento sobre programas de computação e tinha disposição
política.167 E logo no início, os resultados não batiam com os da apuração oficial
dirigida pela Proconsult e divulgados pelo TRE.
Outra fonte que obteve resultados diferentes dos oficiais foi a Rádio Jornal do
Brasil. Segundo o então chefe do Departamento de Jornalismo da Rádio JB-AM,
Procópio Mineiro:
— […] Com uma pequena equipe, integrada em grande parte por estudantes de
jornalismo, foi possível oferecer inúmeros boletins diários formados do somatório
dos mapas coletados nas juntas de apuração. Ao final do primeiro dia tínhamos
cerca de 2% dos votos totalizados e pude ousar a previsão de que Leonel Brizola era
o vitorioso.168 — Procópio prossegue:
— No finalzinho da noite desse primeiro dia, o responsável pela Proconsult,
Arcádio Vieira, nos telefonou. Como matemático, analisava minha apuração e
concluía que a vitória final seria de Moreira Franco por uns 60 mil votos. Os
argumentos, porém, eram pouco matemáticos: falavam na elevada proporção de
votos que seriam anulados na conferência final antes da entrada dos dados no
computador.
“Ou seja, os mapas procedentes das juntas apuradoras iriam ser alterados,
porque os pobres não teriam competência para preencher com correção a cédula,
muito complexa, pois a eleição envolvia também a escolha de senadores,
deputados estaduais e federais, prefeitos e vereadores. Somado tudo, daria
vantagem de 60 mil votos para o candidato do PDS […] Um mês depois, imerso em crise, o TRE apresentou seus números: eram os nossos com diferenças de
milésimos.169
Segundo Ali Kamel, atual diretor da Globo (à época era estagiário na Rádio JB):
— [...] A TV Globo e O Globo jamais contrataram os serviços da Proconsult.
Desde o dia da eleição, até o fim da apuração, O Globo deu manchetes atribuindo a
vitória a Leonel Brizola. Jamais disse em manchete ou em título interno que
Moreira Franco ganharia a eleição. A TV Globo previu a vitória de Brizola já no dia
da eleição, com a divulgação da pesquisa de Boca de Urna do Ibope, dando a vitória
de Brizola por cinco pontos percentuais.
“Nos dias subsequentes, foram divulgados os resultados oficiais do TRE e os da
apuração paralela do Globo, que apresentava números defasados em relação à
apuração paralela do PDT e da Rádio Jornal do Brasil. Mas, já no dia 18 de
novembro, [O Globo] fazia projeções que davam a vitória a Brizola. O Globo
desenvolveu sistema próprio, sem qualquer vinculação com a Proconsult.
Estagiários foram contratados para, durante a apuração, trabalhar nas zonas
eleitorais de todo o estado. As mesas apuradoras, depois de contar os votos,
registravam tudo em boletins, que eram afixados em lugar visível. A tarefa dos
estagiários do Globo era copiar todos os dados dos boletins: os votos para todos os
candidatos eram enviados por carro ou moto para a sede do jornal, onde eram
digitados para alimentar os computadores.
“No dia 16 de novembro de 1982, um dia depois da eleição e com os votos sendo
contados, a manchete de primeira página do Globo era: ‘Ibope aponta vitória de
Brizola’. No texto está dito: a última pesquisa do Ibope antes das eleições,
divulgada ontem, prevê a vitória do candidato do PDT, Leonel Brizola, com 31,3%
dos votos; Moreira Franco, do PDS, com 26,8%; Miro Teixeira, do PMDB, 14,1%;
Sandra Cavalcanti, do PTB, 8,9%, e Lysâneas Maciel, do PT, 3%.170
Apenas dois dias passados da data da eleição, já se sentia no ar o cheiro da
fraude na apuração da Proconsult: tudo andava muito lento, os votos do interior
chegavam mais rápido e os da capital – com mais de dois terços do eleitorado de
todo o estado e onde Brizola obteve cerca de 70% dos votos – não apareciam ou se
arrastavam. Estava montado o esquema fraudulento para que Brizola não
ganhasse a eleição.
No meio desse imbróglio político-tecnológico, o principal responsável pela
Proconsult, Sr. Arcádio Vieira, procura sigilosamente Cibilis Viana e propõe-lhe o
seguinte negócio: se Brizola o nomeasse para a presidência do BANERJ, ele abortaria
a operação. Cibilis, sempre muito fiel a Brizola, levou-lhe o recado. Ouvida a
história, Brizola apenas disse que iria mandar prender Arcádio. Mas, de fato, partiu
para a ofensiva, convocou a imprensa estrangeira sediada no Rio e denunciou a
operação fraudulenta executada pela Proconsult.171
Diante das denúncias, o TRE do Rio de Janeiro pediu abertura de inquérito da
Polícia Federal e aprovou a realização de uma auditoria técnica na Proconsult.172
Um bilhete escrito a mão pelo general Newton Cruz revela que a ditadura tentou
intervir nas investigações do escândalo da Proconsult, que marcou a eleição do ex-
governador Leonel Brizola em 1982. Símbolo da linha-dura dos quartéis, o general
recorreu ao então procurador-geral da República, Inocêncio Coelho, para reclamar
da atuação do Ministério Público. Os papéis não permitem concluir se o SNI tentou
fraudar o resultado para impedir a eleição de Brizola.
Em 24 de fevereiro de 1983, Cruz enviou a Coelho um relatório com duros
ataques aos procuradores e promotores eleitorais que investigavam a Proconsult,
contratada pelo Tribunal Regional Eleitoral para totalizar os votos no Rio. Segundo
arapongas, o MP estaria determinado a desmoralizar o SNI e a Polícia Federal, que
arquivou o inquérito sem qualquer indiciamento. O documento faz críticas ao
então chefe da Procuradoria no Rio, Carlos Roberto Siqueira Castro: “À sanha dos
chefes da Procuradoria Regional da República contra o governo e a Revolução não
escapa a figura respeitável do presidente Figueiredo.”
O procurador Siqueira Castro havia tirado da parede de sua sala o retrato de
Figueiredo e as críticas a ele foram endossadas por Cruz: “Subscrevo-as
inteiramente”, anotou no bilhete. Siqueira Castro informou que ouvia aquilo com
muita honra. “As denúncias impediram uma fraude para desviar votos do ex-
governador Brizola.” Os arquivos do SNI não apontam vínculos entre o órgão e a
Proconsult, que tinha um tenente-coronel do Exército como diretor de computador
[da Proconsult]. Siqueira Castro afirmou que a fraude ficou comprovada. “Mas não
foi possível apontar o envolvimento direto de agentes da ditadura.”
Dois dias depois, a divulgação de boletins do TRE foi suspensa e uma auditoria
da SERPRO entregava seu relatório ao TRE apontando inúmeros erros de
procedimentos da Proconsult, evidenciando que a totalização de votos tinha sido
mal planejada, mas mesmo assim os trabalhos da Proconsult continuaram…
depois das medidas corretivas apontadas pelo SERPRO.
Na noite do dia 18 de novembro, Brizola foi à sede da Rede Globo, no Jardim
Botânico, que lhe concedeu espaço para entrevista ao vivo, por cerca de meia hora,
entrando no ar depois das 22 horas, conduzida pelos jornalistas Paulo César de
Araújo e André Gustavo Stumpf, sob a coordenação de Armando Nogueira, diretor
de jornalismo da TV Globo: era o programa diário Show das Eleições.
Vamos aqui dar os principais trechos da entrevista, pois não resta dúvida de
que se trata de um episódio sui generis, em que se mistura política, meios de
comunicação e comportamento psicológico.
Paulo César de Araújo — Nós estamos aqui com o ex-governador do Rio Grande
do Sul e ex-deputado federal pela antiga Guanabara, o engenheiro Leonel de
Moura Brizola.” [Segundo as últimas projeções do Centro de Computação de O
Globo, o candidato do PDT ganharia as eleições no Rio por uma margem apertada
sobre o candidato do PDS.] “Dr. Brizola, segundo suas previsões, por quanto o
senhor ganharia, com que índice o senhor ganharia as eleições no Rio – na capital,
no interior e na periferia?”
Leonel Brizola — Rigorosamente, eu, sob o ponto de vista pessoal, não tenho,
nunca fiz projeções. Sabe que eu sou empírico. Essas técnicas americanas, por
exemplo, eu não entendo delas. E acho que elas são muito relativas num país como
o Brasil. Em geral, elas não dão certo aqui. Agora, a minha convicção sempre foi a
de que nós iríamos vencer as eleições… e agora que as eleições já estão com as suas
apurações mais ou menos avançadas, já se superando um pouco esse quadro de
confusão, o nosso pessoal, o partido, que está fazendo ali as suas projeções, os seus
cálculos…
Paulo César de Araújo — O senhor está eleito, hoje?
Leonel Brizola — Só a fraude pode ameaçar a nossa vitória… seria a vitória do
povo do Rio de Janeiro. Porque – olha que sacudir essa parafernália de propaganda,
esses golpes todos que nos deram aí. Esse rio de dinheiro, sem nada, essa população do Rio de Janeiro – tem que se tirar o chapéu! O mundo tem que tirar o
chapéu para o Rio de Janeiro!
André Gustavo Stumpf — O senhor falou que só a fraude pode impedir de o
senhor se considerar eleito. O senhor acha razoável, o senhor teme a fraude?
Leonel Brizola — Tememos sim! Tememos! Tememos, sim!
Paulo César de Araújo — Só que o candidato do PDS tem essa mesma opinião.
Ele acha que só a fraude o tirará do governo.
Leonel Brizola — Eu não sei no que ele pode se basear… Porque, quando nós
víamos o noticiário – e eu me aprontei como cidadão para acompanhar pelos
meios de comunicação… que em todo o Brasil o noticiário caminhava certo. Veja
São Paulo, como chegou, tudo caminhando… E no Rio de Janeiro, nós para trás,
confusos, a população atônita. Então, isso levou até as apurações. Sabe que lá, no
recinto das apurações, se criou um quadro de tensão entre os fiscais; as pessoas na
rua, por toda parte… e isso criou um clima favorável à fraude no Rio de Janeiro.
Paulo César de Araújo — O senhor acha que a Justiça Eleitoral podia se deixar
ficar tumultuada com esses números?
Leonel Brizola — Não! Nós confiamos na Justiça Eleitoral, nos seus juízes, nos
seus tribunais. Agora, acho que ela ficou em dificuldades e, por isso mesmo,
ineficiente, sob muitos aspectos, por desaparelhada, tanto de pessoal quanto
materialmente. As juntas apuradoras se transformaram em muitos casos quase
que num tumulto… Porque faltou à Justiça Eleitoral, aqui, uma colaboração real da
administração estadual.
Paulo César de Araújo — Só uma observação: o primeiro boletim parcial do TRE
deu 25 urnas da capital, 25 urnas do interior e duas da periferia: 52 urnas. E o
resultado foi o candidato do PDS em primeiro lugar…
Leonel Brizola — Mas acontece o seguinte… Eu não quero me referir aos
primeiros resultados, não. Não, foram dias. O TRE está vivendo dificuldades…
contratou uma firma particular. É uma firma que está fazendo a computação em
vários lugares e os mapas estão sendo elaborados com muitos problemas… nós
mesmos constatamos muitas imperfeições. Vamos dizer, o resultado oficial,
sempre mais atrasado e demorado, embora causasse espécie também o fato de que
o TRE só tenha dado um boletim oficial praticamente 48 horas depois…
Paulo César de Araújo — Cinquenta e quatro[horas]!
Leonel Brizola — Veja o seguinte: falando aos correspondentes estrangeiros,
eles próprios disseram: “Bom, para nós, isso não existe. Há 30, 40, 72 [horas]. A três
dias e três noites das eleições, o Rio de Janeiro está vivendo a indefinição, enquanto
em todos os estados a situação já estava praticamente definida”.
Paulo César de Araújo — Um momentinho só, porque agora nós vamos aos
nossos estúdios, em São Paulo, onde o nosso companheiro Armando Nogueira tem
uma pergunta a fazer ao senhor.
Armando Nogueira — Estamos acompanhando aqui a sua entrevista, com
natural interesse, e a certa altura pareceu que o senhor ficou preocupado, em dado
momento da apuração, com a correção do trabalho dos profissionais da Rede
Globo, entre os quais eu figuro, humildemente, mas com muito orgulho. E eu
perguntaria ao senhor, governador, se é justo que profissionais com um passado,
alguns com um futuro, quase todos com um futuro, devam merecer, numa hora de
paixão, um tratamento tão rigoroso da parte de um homem público, por parte de
quem a gente tem um apreço. Eu gostaria de fazer esta pergunta, que ela é quase
pessoal. O senhor me desculpe introduzir uma pergunta pessoal, mas em nome de
cerca de dois mil jornalistas… Eu me sinto no dever de fazer essa pergunta ao
senhor.
Leonel Brizola — Perfeito. Com muito carinho, com muito prazer, Armando.
Sabe que eu dou essa resposta com aquela franqueza que me caracteriza – não é
verdade? E nós devemos sempre usar esse método da franqueza, da lealdade. Eu
registrei o que era real. Eu não cheguei a entrar no mérito. Eu não cheguei, de forma
nenhuma, a considerar que tivesse havido má-fé… Não cheguei, absolutamente. Eu
registrei uma situação real existente aqui no Rio de Janeiro e também os meus
próprios sentimentos. Porque eu senti o nosso Rio, no conjunto, desmerecido.
Chegava a ser anunciado: “Olha, logo em seguida, vem o Rio de Janeiro!” E depois
vinha o Acre, vinha Rondônia, e nada… Agora, pode ser que tenha entupido… os
canais tenham se entupido aí. Havia dificuldades… Porque uma organização
grande é assim, às vezes o gigantismo, uma doença das organizações. Isto pode
acontecer… sem desmerecer os profissionais… Muitas vezes grandes médicos vão
fazer uma operação e o doente morre. Quer dizer, eu registro o fato… Neste momento, Armando, a mensagem que eu dirijo a todos quantos me ouvem, com a
consideração da minha palavra, de uma mensagem minha… que se mantenham
tranquilos, se mantenham calmos, cabeça fria… Vamos trabalhar para que a
verdade eleitoral flua e surja, seja qual for. Vamos honrar a justiça, vamos
respeitar… Fazer com que a justiça paire acima de qualquer suspeita, seja
prestigiada. Se não tivermos uma justiça prestigiada, não temos ordem jurídica,
não temos democracia… muito menos a verdade eleitoral. Quer dizer, Armando,
não tome esses meus comentários como uma desconsideração, como um
desmerecimento aos profissionais. Ao contrário, eu até fiquei admirado como é
que um conjunto, uma equipe extraordinária de profissionais, como são vocês
todos, pudesse entrar nesse descompasso que houve. E tanto que gerou esse estado
de espírito. Mas, felizmente, eu acho que tudo está retornando… aos seus níveis
normais. Eu fiquei muito honrado de ouvir essa projeção final, que está
canalizando no sentido de um reconhecimento da possibilidade de que a maioria
eleitoral se estabeleça em torno de meu nome. Como veria também se a verdade
fosse outra.
Armando Nogueira — Pois é, governador, eu gostaria que o senhor, já nesse
estado de espírito de compreensão, o senhor aproveitasse a oportunidade para, ao
desagravar a Rede Globo, desagravar também de certa maneira o Tribunal
Regional Eleitoral. Porque, o senhor sabe que, fosse qual fosse a discrepância dos
números, jamais os magistrados da Justiça Eleitoral iam se deixar perturbar por
uma manipulação. Eu sei o que é a Justiça Eleitoral… e o senhor sabe também,
porque o senhor exaltou essa retidão da Justiça Eleitoral ao longo de toda a
campanha, e o senhor sabe perfeitamente que os números que estão chegando
agora – eles estão chegando porque eles correm um ritmo normal e não o delírio,
governador. Nós não entramos no delírio dos números. Aqui, em São Paulo,
também, no primeiro dia, nós ficamos aquém, mas quisemos ficar aquém da
fantasia, para ficar de acordo com a realidade, governador.
Leonel Brizola — Não, mas pode crer que foi uma satisfação muito grande
contar com a sua participação, sobretudo uma honra maior ainda. Mas eu gostaria
de dizer o seguinte: que, agora sim, nós discordamos. Em primeiro lugar, nunca,
em nenhum momento, tanto eu quanto o PDT, pusemos em dúvida a lisura da Justiça Eleitoral. Ao contrário, nós trabalhamos para que ela fosse respeitada na
campanha eleitoral. E [ela] foi muito desconsiderada, principalmente por parte do
candidato do governo e a sua campanha. E muitos outros setores, que
desconsideraram reiteradamente a Justiça Eleitoral. De modo que eu não tenho
nada que desagravar a Justiça Eleitoral, Armando. Ao contrário, o meu primeiro
passo como candidato foi visitar a Justiça Eleitoral e prestigiá-la. Eu tenho uma
tradição de prestígio e de acatamento ao Poder Judiciário. Agora, a minha
referência sobre uma possibilidade de fraude não se refere aos juízes: refere-se a
este submundo que passou a se mover, em função desta confusão que se criou aqui.
Porque nós temos indícios muito concretos a esse respeito. Então, isto pode se
passar, independentemente do cuidado e do zelo dos juízes. E depois constatar
essas providências é muito difícil. Nas minhas críticas – porque, na verdade, é
crítica mesmo, no bom sentido, no sentido elevado. Não tem nada com exaltação,
me desculpe, Armando. Pelo contrário, a cabeça aqui, oh… quando começa a
adquirir uma temperaturazinha, eu boto na geladeira. Cabeça fria, a minha… Mas
como é que eu posso me conformar que vocês computem a toda hora urnas do
interior e deixem as urnas da cidade, aqui?… Custa muito mais uma viagem – me
desculpe – lá de Campos, lá de Bom Jesus, lá de Itaperuna, do que uma corrida de
automóvel ali em Bonsucesso, ali na Baixada. E isso foi ficando para trás. Eu acho
que era uma ideia parelha do resultado das eleições. Isso se foi – alguém teve a
intenção de esvaziar, enfim, a projeção dos resultados do Rio de Janeiro, cometeu
um erro… Mas, enfim, Armando, olha, com toda a franqueza, pode crer que, em
mim, não existe mais nenhuma restrição a esse respeito… Pode crer que,
assumindo essas responsabilidades de governo, no Rio de Janeiro, nós vamos ter
de trabalhar juntos por essa comunidade… Então, falar em Rede Globo, falar no Rio
de Janeiro, é como falar de uma coisa só… está entrosado, está interligado. E nós
vamos ser companheiros de viagem, vamos trabalhar juntos. Podemos discordar
um momento, discordar noutro, mas vai nos sobrar terreno comum de trabalho
conjunto por essa terra e por essa gente querida do Rio de Janeiro.173
Refeito o susto da possível fraude, recomposta a contagem dos votos, o TRE deu,
quase um mês depois da data das eleições de 15 de novembro, a vitória ao
candidato do PDT, Leonel Brizola, com 1.709.264 votos (34,2%) contra 1.530.728 (30,5%) do candidato do PDS, Moreira Franco: foram 178.536 votos de diferença. Em
terceiro lugar ficou Miro Teixeira, PMDB, com 1.073.444 (21,5%), Sandra Cavalcanti,
do PTB, ficaria em quarto lugar com 536.383 (10,7%) e por último o candidato do PT,
Lysâneas Maciel, com 152.614 (3,1%).
O PDT apresentara candidatos a governador em 11 estados: Maranhão, Sergipe,
Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro (o único vitorioso), São Paulo, Paraná,
Santa Catarina, Rio Grande do Sul (em terceiro lugar, depois do PDS e do PMDB),
Mato Grosso e Goiás. No plano das eleições proporcionais, de deputados federais e
estaduais, o PDT teve o seguinte resultado: no Rio de Janeiro elegeu 16 deputados
federais (entre outros, o cantor Agnaldo Timóteo, com meio milhão de votos, o
Cacique Juruna e o poeta J.G. de Araújo Jorge) e no Rio Grande do Sul, 7, enquanto
24 deputados estaduais foram eleitos no Rio e 12 no Rio Grande do Sul. Elegeu em
todo o país 22 prefeitos, em grande parte no Rio Grande do Sul. No estado do Rio, a
capital, Angra e Volta Redonda eram cidades de segurança nacional e não houve
eleições.174
Brizola arrematou:
— Minha vitória é para oferecer uma alternativa verdadeiramente democrática
ao povo fluminense, como o único representante da oposição autêntica, sem
cumplicidades.175
Notas
166. O Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO) é uma empresa pública de Tecnologia,
Informação e Comunicação do governo federal, vinculada ao Ministério da Fazenda.
167. Ver blog do Oliveira Ramos, disponível no site Jornal pequeno:
<blog.jornalpequeno.com.br/josedeoliveiraramos>, postagem de 10/10/2009. “Remember – Quiseram roubar
Leonel Brizola!”.
168. Ibidem.
169. Ibidem. Segundo outro Oliveira Ramos no texto “O outro Golpe que Brizola evitou”, 27/11, o Jornal do Brasil
denunciou que, juntamente com a Rádio Jornal do Brasil, havia sofrido pressões da Proconsult, por meio de seu
vice-presidente, Arcádio Vieira, para mudar os resultados que vinha divulgando. O JB informou que recusara
oferta de Arcádio para que usasse os números da Proconsult e que demitira seu gerente de Métodos e
Sistemas, Tadeu Lanes, que se mostrara receptivo aos argumentos do executivo da Proconsult. Basta consultar
os arquivos dos jornais da época, disponível no site Jornal pequeno,
<blog.jornalpequeno.com.br/josedeoliveiraramos>, postagem de 10/10/2009.
170. Cf. Oliveira Ramos, “O outro Golpe que Brizola evitou” disponível no site Jornal pequeno:
<blog.jor.nalpequeno.com.br/josedeoliveiraramos>, postagem de 10/10/2009.
171. Cf. entrevista de Gessy Sarmento ao autor Clóvis Brigagão, Petrópolis, 11/3, 17/3 e 31/3 e 17/6/2007, p. 23.
172. Cf. O Globo, 29/3/2009, p. 3.
173. Cf. Oliveira Ramos. “Remember - Quiseram roubar Leonel Brizola”, disponível no site Jornal pequeno:
<blog.jornalpequeno.com.br/josedeoliveiraramos>.
174. Ver <jaironicolau.iesp.uerj/banco.2004.html>
175. Ver Israel Beloch e Alzira Alves de Abreu (coords.), Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, 1930-1983, p.
494.