Brizola

Clóvis Brigagão · Capítulo 5 de 30

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Brizola

O segundo exílio, nos EUA e na Europa (1977-1979)

 

De volta à democracia: o tiro da ditadura saiu pela

culatra

 

Em 9 de maio de 1964, na primeira entrevista em solo uruguaio como exilado,

Brizola afirmava que “especialistas americanos finalmente conseguiram o que

queriam: a transformação do Exército Brasileiro em um grande corpo policial

militar”. Acrescentou que lutava pelas reformas sociais por meios pacíficos, que

não houvera resistência contra o Golpe militar porque “nós não éramos

organizados para a violência” e que ele “nunca tinha sido um comunista, mas um

nacionalista”. Finalmente, declarou que a imprensa americana os acusava (ele e o

ex-presidente João Goulart) de formarem uma família oligárquica, “mas nós

éramos apenas dois cunhados – muito menos do que os Kennedys”.2

Exilado, Leonel Brizola foi figura política marcante – algumas vezes decisiva –

nos principais acontecimentos durante os 20 anos de ditadura militar. Na última

vez, que resultou na sua expulsão pela ditadura uruguaia, foi pivô da luta política

travada entre o general-presidente do Brasil, Ernesto Geisel, que se decidira pela

gradual abertura do regime, e seu ministro do Exército Sylvio Frota, posicionado na

direção de maior endurecimento.

Isso não significa que o general Geisel tivesse simpatia por Brizola, ou este por

Geisel. Porém, em seu governo no Rio Grande do Sul, Brizola trabalhara com

Bernardo Geisel, irmão mais velho do general, que ocupara um lugar no gabinete –

fazendo a ligação entre o gabinete civil e o militar. Bernardo Geisel também foi

presidente da siderúrgica criada por Brizola, a Aços Finos Piratini.

A inesperada e inusitada manobra de Brizola – recorrendo ao governo de Jimmy

Carter para um novo asilo em terras americanas – foi um acontecimento político

de inegável repercussão no Brasil e em círculos políticos internacionais. Numa

manhã do outono nova-iorquino de 1977, vindos no voo da Aerolíneas Argentinas, Brizola e Neusa pousaram em solo americano, recebidos por jornalistas brasileiros,

representantes do governo Carter e pelo professor Moniz Bandeira, que se

deslocara de Washington para isso.

Ao encontrar-se com correspondentes de jornais brasileiros, Brizola definiu-se

como social-democrata, ocidentalista e dissidente dos regimes militares. O casal

partiu, então, para o tradicional e agradável Hotel Roosevelt, onde também se

hospedava a tripulação da VARIG. Entre a avenida Madison e a rua 45, em Nova

York, o casal passaria quatro meses na suíte 727. Depois de sua ida para Lisboa, em

janeiro de 1978, e das viagens pelos EUA, pela Europa e América Latina, Brizola e

Neusa voltaram ao Roosevelt em julho de 1979. Eles permaneceriam ali mais três

meses, até o dia do retorno ao Brasil, em 5 de setembro de 1979, com Brizola já

anistiado.

Foto: Candice Bergen

 

Na porta do Hotel Roosevelt, Neusa e Brizola em companhia do porteiro que se tornara amigo do casal. A foto foi tirada pela atriz Candice Bergen, então namorada de Tarso de Castro, jornalista gaúcho que trabalhava para o jornal O Pasquim.

 

Treze dias após sua chegada a Nova York, Brizola concedeu entrevista à

conhecida rede radiofônica norte-americana, Voz da América. Foi direto ao ponto:

a política de Direitos Humanos de Carter possibilitara a sua presença nos EUA.

Antes de Carter ele não teria transposto as portas da embaixada americana em

Montevidéu. Seu livre trânsito nos EUA estava garantido pelo governo Carter.

A entrevista foi dada à jovem jornalista Marilena Miller, mais conhecida nos

EUA como Mary Miller, e seria transmitida pela Voz da América. Marilena parecia

não conhecer bem o entrevistado. Brizola a chamou e disse:

— Olha, menina, tens aí uma bomba em tua mão.

A matéria teve enorme repercussão, não só nos EUA, mas em todo o mundo. 3

No dia 7 de novembro 1977, o jornalista Graham Hovey, do New York Times,

escreveu artigo tecendo comentários com base na entrevista sobre a permanência

de Brizola em solo norte-americano e sua repercussão nas relações bilaterais entre

os dois países.4

O secretário de Relações para a América Latina, do Departamento de Estado,

Terence Todman, informou a Brizola que ele poderia sair e entrar nos EUA sempre

que fosse necessário. Brizola revelou, então, ter aceitado o convite do primeiro-

ministro português, Mário Soares, para visitar Lisboa, como asilado político e com

passaporte português.

Jimmy Carter viria ao Brasil em 29 de março de 1978 e, além do encontro difícil

com o presidente Geisel, esteve com figuras da sociedade civil brasileira, como dom

Paulo Evaristo Arns no Rio de Janeiro (Carter não incluiu São Paulo em sua visita).

Realizou uma visita formal ao Congresso brasileiro e encontrou-se, em recepções

oficiais e não oficiais, com figuras do MDB, embora não tenha tido encontros

especiais com Ulysses Guimarães, então presidente deste partido.

O governo Carter estava abandonando a postura norte-americana de estimular

governos militares e ditatoriais – em sua fase mais aguda da Guerra Fria – para

acercar-se de movimentos, partidos e futuros governos democráticos.5

Façamos um parêntese que nos conta e nos aproxima de uma intuição do que

viria a acontecer. Em 1977, o jornalista Mino Carta, que então trabalhava na revista

IstoÉ, refletiu o clima imperante no Palácio do Planalto, em um diálogo com um

“personagem muito importante”, que relatava os temores de certas áreas fardadas

quanto às expectativas eleitorais no Rio Grande do Sul. A conversa entre o

jornalista e o entrevistado abordava a possibilidade de eleições diretas para

governador em 1978, com a vitória do MDB oposicionista.

O interlocutor de Mino Carta revelava que, diante dessa situação, o provável

candidato da oposição seria Pedro Simon. Mas as áreas verdes (militares) talvez

não compartilhassem dessa opinião. Por trás de Simon, veriam inevitavelmente o

fantasma de Leonel Brizola. E em hipótese alguma aceitariam a possibilidade de

Brizola estar agindo à sombra de um governo emedebista no Rio Grande do Sul.

Para Mino Carta o sinal parecia evidente: não haveria eleições diretas em 1978

e o Planalto, de fato, preparava um pacote político “que acabou desabando sobre nós em abril, dois meses depois da minha conversa planaltina”. Mino ouviu,

então, a seguinte afirmação de seu interlocutor: “Hoje Brizola é a besta-fera e, no

entanto, num prazo quem sabe mais curto do que se pode imaginar, ele poderá

estar de volta, aceito até por aqueles que enxergam nele o pior inimigo.”6

Notas

 

2. “Brizola charges U.S. inspired coup” [“Brizola acusa os EUA de inspirarem o Golpe”], The New York Times,

10/5/1964. Disponível em: ProQuest Historical Newspapers New York Times (1851-2007) w/Index (1851-1993) <

http://search.proquest.com/hnpnewyorktimes>.

3. Eunice de Oliveira, que trabalhou com o casal Brizola por cerca de 16 anos (em entrevista aos autores, Rio de

Janeiro, 29/5/2011); e Marilena Miller (em entrevista aos autores, Rio de Janeiro, 6/7/2011).

4. Ver “U.S. Broadcast to Brazil Appears To Add to the Strains in Relations”, por Graham Hovey, especial para

The New York Times, (1923-Current file); 7/11/1977; Disponível em: ProQuest Historical Newspapers New York

Times (1851-2007) w/ Index (1851-1993) < http://search.proquest.com/hnpnewyorktimes>.

5. Cf. Folha de S.Paulo, 30/3/1978, e O Estado de S.Paulo, 30/3/1978.

6. Mino Carta. “Política – Em 77, o Planalto previa a volta”, IstoÉ, São Paulo, 12/9/1979, p. 3.