Brizola
A volta e o encontro com o Brasil
Em Nova York: o teatro da transição autoritária à
democracia
Após a bonança do ambiente de Lisboa e a festa produzida pelo Encontro dos
Trabalhistas Brasileiros com os Trabalhistas no Exílio, já era hora de arrumar as
malas e pôr em ordem os pacotes e documentos de um ano e meio de EUA e de
Europa. Era o momento de agradecer aos anfitriões portugueses e colocar ponto
final nas últimas conversas com os novos trabalhistas. E, então, baldear-se
novamente para Nova York, hospedando-se no mesmo Hotel Roosevelt. Esse
período, limitado no tempo, que vai de julho a setembro de 1979, guarda
significados importantes para o retorno definitivo ao Brasil sob as condições da
política de abertura e da anistia.
Retomar o diálogo com políticos que continuavam a chegar do Brasil,
trabalhistas e do MDB (entre eles, o Dr. Tancredo Neves e o senador Pedro Simon),
e, principalmente, atualizar-se sobre o processo político aberto pelo novo
presidente, general João Figueiredo.
Dois políticos merecem referência especial como parte da trama do novo jogo
da abertura política: Petrônio Portela, ministro da Justiça de Figueiredo, por quem
passariam os projetos que desembocariam na anistia política, na reforma
partidária e, particularmente, na volta de Brizola; e Thales Ramalho, secretário-
geral do MDB, um exímio articulador dos bastidores, servindo, ao mesmo tempo,
ao MDB, como seu secretário-geral, e ao projeto de reforma executado pelo governo
Geisel, com apoio de Golbery e de Petrônio Portela.
O objetivo era destravar os empecilhos e desarmar os espíritos mais renitentes e
duros, dos dois lados, mais do lado do regime do que da oposição. Ambos os
políticos tiveram diálogos e entendimentos com Brizola; Thales Ramalho,
diretamente, e Petrônio Portela, indiretamente.
Politicamente significativas e em circunstâncias muito especiais foram suas
constantes visitas a Thales Ramalho. Elas ocorriam, geralmente, no final da tarde,
quando Brizola e seu assessor Clóvis Brigagão caminhavam, após longo dia de
trabalho, por um bom trecho da Park Avenue. Em uma dessas caminhadas, Brizola
deu uma parada e, com gestos largos e olhar incisivo, voltou-se para Clóvis e disse:
— Professor, quanto estás a ganhar?
— Bom, o governador sabe quanto, pois dos 5 mil dólares que temos, o senhor
tem 4 e eu mil dólares para cobrir as despesas de alimentação, gastos para me
sustentar, viagens etc.
Então Brizola disse, sem nenhuma cerimônia:
— Ah, professor, então temos que dividir esse seu dinheiro, metade, metade!
E fez o gesto de uma mão sobre a metade da outra para significar a divisão meio
a meio. Sem acreditar no que ouvira, Brigagão ficou pensativo alguns segundos e
então lhe disse:
— Não, governador, eu não tenho condições de dividir o que ganho trabalhando
(acentuando tra-ba-lhan-do) para a reorganização do trabalhismo (acentuando
pausadamente tra-ba-lhis-mo).
E assim seguiram a caminhada em direção ao apartamento de Thales Ramalho,
num silêncio incômodo.
Nesse tour eles passavam por prédios gigantescos – entre os quais aqueles que
sediavam a ITT e a ATT, nacionalizada por Brizola durante seu governo no Rio
Grande do Sul, e aí embicavam em direção a uma rua perpendicular. Diante da
porta do edifício de Thales Ramalho, Brizola se despedia e proferia algumas
palavras para justificar por que ele preferia encontrar-se a sós com o político
brasileiro.
Thales Ramalho havia sofrido um terrível acidente automobilístico nos
arredores de Recife. Viera para Nova York a fim de submeter-se a cirurgias e receber
o que havia de melhor em termos de tratamento e recuperação médico-cirúrgica.
Pernambucano, de fala mansa e bem pausada, foi um político daqueles que sabia
ouvir, muito afável e amigo dos amigos.
Ali estavam reunidos dois estilos, duas trajetórias, dois enigmas da política
brasileira, que por caminhos bem diferentes, como que por acaso, encontravam-se na Big Apple, naqueles anos finais da década de 70. Nova York não tinha nada de
tolerância zero com o crime: era um bangue-bangue terrível, uma cidade em que o
problema de ordem pública dominava o ambiente e as pessoas.
Para Brigagão, a curiosidade sobre aqueles encontros, que duraram três meses
(aproximadamente uns 15 a 20 encontros), nesse final de exílio, era enorme: o que
estariam tratando aqueles dois personagens, tão distintos na maneira de fazer
política como nas características pessoais? Uma, duas, às vezes, três horas
encerrados naquele apartamento sem estilo definido, onde a única testemunha
era a esposa de Thales Ramalho, dona Helena Ramalho.
Quando, mais tarde, Clóvis e Brizola se reencontravam, Brizola falava sobre
assuntos gerais que teria tratado com Thales Ramalho, mas nunca pontuou
situações concretas oriundas daquele conluio, nem jamais indicou pistas reais
sobre a conversa e as possibilidades de algum tipo de entendimento, através de seu
interlocutor, com o governo Figueiredo.
Brigagão imaginou telefonemas para o Brasil, entre Ramalho e, quem sabe,
Petrônio Portella. Teria, porventura, algum telefonema sido dado a Golbery, o
homem todo-poderoso, à sombra, e chefe da Casa Civil de Figueiredo? Condições
para a volta, que tipo de anistia, que garantias e liberdade para a reorganização
partidária? O que representariam o MDB/PMDB, o PTB, o PT e o PCB no novo e
surpreendente processo político? E o novo partido do governo, o PDS?
Que lugar ocuparia Brizola nessa intricada mesa do xadrez político nos
episódios pós-anistia? Ele, de fato, seria o líder de referência para chegar à
Presidência, ápice do desejo de todo grande político? Eu especulava sobre o
significado de tantas conversas com aquele homem habilidoso, que, ao mesmo
tempo, servia ao MDB – como seu secretário-geral – e tornara-se homem de
confiança do novo governo militar, que desenhava a anistia e a reorganização dos
partidos políticos.
Apenas na última visita que fez a Thales Ramalho, Brizola fez o convite para que
Clóvis o acompanhasse, e a conversa, que não demorou muito, transcorreu sob um
clima ameno e de trivialidades formais. José Almino Alencar, filho de Miguel
Arraes, que vivia em Nova York, também esteve presente no apartamento de
Thales Ramalho acompanhando Brizola.
Segundo Elio Gaspari, Thales Ramalho aparece como articulador importante e
defensor da conciliação. Em maio de 1975, articulou com o marechal Cordeiro de
Farias uma longa conversa entre o general Golbery do Couto e Silva (ministro chefe
da Casa Civil do presidente Geisel) e o presidente do MDB, Ulysses Guimarães, cujo
tema central foi o processo de redemocratização do país. Era o que Thales Ramalho
fazia com Brizola, teatro de conciliação.110
Seria possível que esses dois políticos profissionais tivessem passado todos
esses encontros falando e, quem sabe, tomando cafezinho ou até mesmo e,
comedidamente, algum bom vinho – se é que a situação de Thales Ramalho
permitia alguma bebida alcoólica – comentando fatos pitorescos da vida de cada
um?
Mas é bem mais provável que ali a comunicação e a articulação política tenham
sido estabelecidas com maestria, cada um negociando o que tinha de direito e
responsabilidades políticas, seus limites e espaço de liberdade, por seu papel, pela
liturgia de poder e pela representação política naquele momento histórico da vida
brasileira. É bem provável que, ali, um capítulo singular da história tenha sido
escrito, e é quase certo, lamentavelmente, que permaneceu sem registro!
Clóvis Brigagão visualizou alguns diálogos entre os dois personagens como se
fora um teatro de costumes político, cada qual representando excelentemente seu
papel: o primeiro, Thales, moderado por natureza; o outro, Brizola, apressado, por
necessidade dos novos tempos; um, pernambucano, o outro, gaúcho; um, que
estava no poder, o outro, que queria chegar a ele… e ainda guardava a ansiedade do
exílio em relação à volta e ao seu papel nessa nova história.
Um que negaceava, por temperamento e por ordem das circunstâncias e do
projeto do governo, ainda militar, que se abria sob o signo da segurança, aquilo
que, para o outro, também por temperamento e por acreditar em sua missão
política, era uma situação de urgência – embora não pudesse manifestar essa
pressa, como um teste para sua paciência, nesse jogo em que os limites de cada
lance poderiam ser perigosos, fatais, e, assim, os dois prolongavam esses
exercícios, metódicos, com ênfases para cada jogada e para cada decisão, num
alinhavo repleto de frases, gestos, insinuações, possibilidades de acerto… ou
impasse… mas sem recuo sobre o que estava ali sendo representado.
Para nós, não há dúvida sobre o fato de que Brizola representava o último
obstáculo para a concessão da anistia. Na ata secreta do CSN (Conselho de
Segurança Nacional), em reunião de junho de 1978 – um ano antes do envio ao
Congresso Nacional –, o general João Figueiredo abre a discussão dentro do
governo Geisel sobre o assunto. A Lei da anistia foi assinada em 28 de agosto de
1979. Segundo Rubens Valente, jornalista da Folha de S.Paulo, “a proposta que
passou no Congresso, onde o governo tinha maioria, refletia a posição de Geisel
que ficou registrada na ata”. 111
O presidente convocou a reunião do CSN para discutir o projeto pelo qual iria
extinguir os Atos Institucionais baixados pela ditadura entre 1964 e 1969, as
principais medidas persecutórias do regime. A ata do CSN demonstra como a
discussão sobre a anistia era complicada no seio do governo. Geisel, segundo a
reportagem, disse aos membros do CSN (entre eles, Golbery do Couto e Silva,
ministro chefe da Casa Civil; Armando Falcão, ministro da Justiça; e Mário
Henrique Simonsen, ministro da Fazenda):
— A anistia é inoportuna, porque eles continuam a conspirar; eles continuam a
querer subverter, continuam a agitar. […]
“Eu [Geisel] acho que há muitos Atos que vamos ter que rever. […]
“Eu não vou rever um Ato em que o Exército expulsou ou botou para fora um
general comunista. Pode ser que algum dia se faça essa campanha de anistia
política. E veja bem, se nós pusermos [sic] isto, nós estamos indiretamente
encampando esta campanha de anistia que está aí pelo país afora. Eu preferi não
dizer nada sobre isso para não acender nenhuma esperança. Como está, não há
esperança. Se eu estabelecer que os Atos ‘serão revistos’, de acordo com lei de
iniciativa do Poder Executivo, estou abrindo uma porta muito larga para todos
estes que estão querendo forçar um clima de anistia, afirmando que o Brasil foi de
anistia etc.
O projeto de anistia encaminhado ao Congresso em 1979 deixou a cargo da
administração federal, por meio de conselhos de avaliação, decidir sobre o retorno
dos servidores atingidos pelos Atos. O chefe do Estado-Maior da Aeronáutica,
Mário Paglioli de Lucena, manifestou sua preocupação quanto a perder o controle “sobre o processo de extinção dos Atos” e que isso fosse aproveitado para criar a
anistia “ampla” no Brasil.
— Qual a segurança que temos de que esta proposta passe tranquilamente no
Congresso, sem acréscimos, com vistas a anistia ampla e irrestrita — indagou
Paglioli a Geisel.
O presidente respondeu que era “um problema que realmente existe”, mas que
tinha um plano, sobre o qual pediu “sigilo”, que consistia em retirar do Congresso,
em último caso, a proposta do governo sobre os Atos.112
Às vésperas da aprovação da Lei da Anistia pelo Congresso, que resgataria a
cidadania de milhares de exilados brasileiros, presos, torturados e perseguidos
pela ditadura, desembarcaram em Nova York a grande raposa da política
brasileira, Tancredo Neves, e o senador gaúcho, de origem trabalhista, Pedro
Simon, ambos no MDB. Sobre o Dr. Tancredo, Brizola guardava na memória
episódios que culminariam no suicídio de Getúlio: Tancredo era o ministro da
Justiça e quem Brizola considerava ter “traído” o Dr. Getúlio.
Nos episódios de 1961, após a renúncia de Jânio e o impedimento feito ao vice-
presidente João Goulart pelos militares, Brizola conduzira o Movimento da
Legalidade pela posse de Jango. Para ele, a ida de Tancredo ao Uruguai para
encontrar-se com Jango, antes de sua descida em Porto Alegre, tivera o objetivo de
manipular Jango para que aceitasse a via do parlamentarismo. Portanto, em Nova
York, Brizola não estava muito disposto a conversar sobre o futuro do Brasil pós-
ditadura com quem ele conhecia de outros tempos. Nesse ambiente de desconforto,
Neusa teve papel decisivo.
Ela apenas disse, com toda a sua calma e delicadeza, como costumava tratar
Brizola na intimidade:
— Queridinho, você vai receber, sim, o Dr. Tancredo.
Foto: Carlos Contursi
Foto de Brizola com Tancredo e Pedro Simon em Nova York, entre julho e setembro de 1979.
E assim Brizola recebeu o Dr. Tancredo. A conversa alongou-se por praticamente
dois dias inteiros, com caminhadas, almoço, jantar em uma sala do Roosevelt, no
próprio apartamento, conversa cheia de evasões e generalidades, cada um deles
reinventando sua própria forma de “ocultar” ao seu interlocutor, como se as
posições fossem coincidentes, embora as sutilezas garantissem, principalmente,
para cada um deles, a divergência expressa nas palavras que os dois políticos
encontram no centro do alvo, cada um convencido de que a parada estava ganha.
Ao lado dos dois líderes, o jovem senador Pedro Simon, que na ocasião dissera que,
findo o bipartidarismo, estaria no PTB ao lado de Brizola, ouvia a sabedoria política dessas duas especiais raposas políticas brasileiras. Era outra versão do teatro das
negociações que Brizola tivera com Thales Ramalho e agora revivia com o Dr.
Tancredo e o jovem senador gaúcho Pedro Simon. O MDB e, depois, o PMDB, eram
pedras no caminho do líder do trabalhismo.
Foto: Carlos Contursi
Despedida de Nova York. Equipe em torno da mesa de trabalho. Da esquerda para a direita, Alex Souza (íntimo colaborador de Brizola e de Neusa, assim como sua esposa Eunice de Oliveira), Clóvis Brigagão, Leonel Brizola e José Carlos Mendes; à direita o jornalista Ricardo Kotscho (IstoÉ) e o fotógrafo Carlos Contursi. Setembro de 1979, dias antes da volta ao Brasil.
Notas
110. Ver Elio Gaspari, A Ditadura Encurralada, p. 89-91.
111. Cf. Rubens Valente, “Ata revela veto de Geisel à anistia ampla”, Folha de S.Paulo, 29/9/2009, p. A8.
112. Ibidem. Cf. Rubens Valente, “Ata revela veto de Geisel à anistia ampla”, Folha de S.Paulo, 29/9/2009, p. A8.