Brizola
A expulsão do Uruguai: saindo pela tangente americana
A expulsão do Uruguai: saindo pela tangente
americana
O mês de julho de 1977 foi particularmente frio no Rio Grande do Sul. O vento
gelado entrava pelo quebra-vento da caminhonete Caravan, que rodava noite
adentro, sob chuva, em direção a Livramento, oeste do estado, onde cruzaria a
fronteira para mais uma visita a Brizola na Fazenda La Manguera, em Durazno,
Uruguai. Isaac Ajnhorn, Antonio Tabajara e Trajano Ribeiro eram acompanhados
pelo incansável João Carlos Guaragna, íntimo colaborador de Brizola que, havia
pouco, fora homenageado por trabalhistas e emedebistas que promoveram um
churrasco no Uruguai – por sua centésima viagem a Montevidéu. Dessa vez eles
estavam dispostos a convencer Brizola a escrever um livro.
Entendiam ser uma forma de ele se reinserir no debate político nacional – que
caíra numa mesmice, com o MDB ostentando discurso anódino para evitar o
debate sobre questões nacionais. O partido limitava-se a tímidas bandeiras em
torno da democratização, recusando, inclusive, uma postura mais efetiva sobre a
anistia geral e irrestrita e sobre o retorno dos exilados.
Chegaram em La Manguera num sábado ensolarado e encontraram um Brizola
bem-disposto e ávido por notícias. Já os esperava com o churrasco quase pronto.
Passado o almoço, ainda em torno da mesa, Brizola, após alguns minutos em
silêncio e com o olhar perdido, esfregou a mão no queixo e disse com ar de quem
iria revelar algo surpreendente:
— Estou com vontade de testar essa política dos direitos humanos do Carter.
— E como será isso? — indagou Trajano.
— O senador Singer está me ajudando com esse assunto, amanhã ele deve vir
aqui para conversarmos.
Olhou-os bem nos olhos esperando uma reação. Era do estilo dele jogar no ar
assuntos que lhe interessavam, sobre os quais tinha dúvidas, ou, mesmo não as
tendo, que ele sabia serem polêmicos, mas que davam a impressão de serem
questões gerais, longínquas. Essa era sua maneira de testar a receptividade de seu
discurso, ou daquilo que ele chamava de 7 realejo. Naquele momento seu cavalo de
batalha era a anistia.
Ansiava por retornar logo ao Brasil, voltar à vida pública. Estava cansado do
exílio. Certa vez, em outra visita que Trajano lhe fizera ele havia dito:
— Trajano, quando não é tempo de eleições, o pasto cresce aqui na minha porta.
Referia-se à romaria de políticos que o visitavam na véspera das eleições para
tentar granjear votos do seu enorme eleitorado, principalmente no Rio Grande e
no Rio de Janeiro e que depois, passado o pleito, desapareciam.
***
À noite eles se reuniram em volta da lareira. Brizola permanecia de pé,
cruzando às vezes a sala ampla, e tecia comentários sobre o desempenho do único
partido de oposição e de alguns de seus principais líderes. Estava descontente com
a maneira tímida com que falavam da anistia. Cada um deles ponderou então
sobre a necessidade de Brizola entrar no debate e sugeriram que escrevesse um
livro. Ele os ouviu sem interromper.
As labaredas da lareira projetavam na parede a sombra de um Brizola enorme e
irrequieto.
— É melhor não escrever livro — disse, erguendo as sobrancelhas e com um leve
sorriso. — Olha, o Perón escreveu um livro, e depois… — E prosseguiu — vamos
fazer assim: eu escrevo… umas cartas para o Seu Guaragna8 e vocês as reproduzem.
No dia seguinte, Brizola receberia a visita do senador Juan Adolfo Singer, ativo
membro da Frente Ampla, oposição ao regime militar do Uruguai, e que mais tarde
veio a perder seu mandato. Ficou muito amigo e tornou-se confidente de Brizola
(além de terem feito negócios em fazendas) durante esses anos de exílio uruguaio.
Singer mantinha muito boas relações com o novo governo de Carter e, certamente, contribuiu para a decisão de Brizola de pedir asilo ao governo norte-americano,
com base na política de direitos humanos da nova administração.9
No dia seguinte Isaac, Antonio e Trajano retornaram a Porto Alegre discutindo
como poderiam viabilizar a reprodução e distribuição das cartas e sobre a
repercussão que poderiam ter, sem imaginar o que o futuro os reservara para
poucos dias depois.
Notas
7. O realejo é um instrumento musical híbrido muito antigo: órgão mecânico com tubos portáteis, automático,
mais uma forma de piano, com uma manivela que faz soar um número de melodias predeterminado.
8. João Carlos Guaragna, Brizola: a revoada do exílio.
9. Entrevista com o senador Singer, via e-mail, em 26/8/2006 e 9/10/2006.