Brizola

Clóvis Brigagão · Capítulo 18 de 30

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Brizola

Entrando pela “Porteira da História”: São Borja

 

Passada a noite em Foz do Iguaçu, de pouco sono e de muitos sonhos, nas primeiras

horas do dia 7 de setembro de 1979, novamente, o pequeno avião e um segundo que

levava a comitiva decolaram rumo a São Borja, a “Porteira da História”. Próximo a

São Borja já se podia ver, lá do alto, o movimentado cenário de cavaleiros e muita

concentração popular na Fazenda Granja São Vicente, dos Goulart.

A foto expressa mais que as palavras: nos braços daquele seu povo, sob

bandeiras do Brasil, do PTB, e com a presença dos cavaleiros com seus costumes

gaúchos.

Foto: Ricardo Chaves. Zero Hora (RBS)

 

Em cima do teto de uma Kombi, Brizola é saudado por centenas de correlegionários, amigos e populares em São Borja, em 7 de setembro de 1979.

 

Para os que vinham com o casal Brizola, tudo aquilo era novidade: chegar ao

Brasil, em pleno dia Sete de Setembro e, particularmente, desembarcar, junto com

Brizola, no território sagrado do trabalhismo, de Getúlio, Pasqualini, Jango, e agora

Brizola. Sentia-se o clima de festividade trabalhista-gaúcho, hospitaleiro,

aconchegante: o churrasco sobre as brasas acesas parecia simbolizar o fim da

escuridão da noite da ditadura…

A Folha de S.Paulo dá o toque da chegada: “Foi preciso muito esforço para que o

ex-governador pudesse chegar seguro até um jipe. Daí, Brizola foi transferido para

o teto de uma perua Kombi, que o levou à sede da Granja São Vicente. Trinta

minutos depois, já em automóvel fechado, Brizola seguiu para o Cemitério de São

Borja, onde fez o seu primeiro pronunciamento no Brasil. Brizola falou ao lado do

túmulo de Getúlio Vargas e, em seguida, fez questão de visitar o jazigo da família

Goulart, onde está enterrado o ex-presidente João Goulart.120

Diante dos túmulos de Getúlio e de Jango, o discurso lido, ainda que cauteloso,

era entusiasmado e flamejante. Nele, Brizola partiu a perscrutar o destino traçado

desde ali sobre os próximos passos e as decisões que iriam contar, passo a passo,

no limite ainda do regime de exceção – sobre a herança do trabalhismo e de sua

reconstrução marcada naquele chão como seu ponto de não retorno… “Há em tudo

o que vivemos e sentimos, neste momento, um intenso simbolismo que nos dá

força e inspira confiança.”121 O regresso à sua terra teve grande repercussão, com

manifestações populares durante os primeiros dias de sua permanência na

“Porteira da História”.

Nas primeiras conversas de Brizola com os organizadores de sua inaugural

agenda brasileira, percebeu-se, desde logo, que o trajeto traçado de São Borja até

Porto Alegre parecia ser um roteiro carimbado pelo MDB de Pedro Simon. Não era

para oferecer o protagonismo ao projeto que Brizola abria para o trabalhismo. Com

efeito, o percurso apresentado e orientado pelo senador, junto aos seus

companheiros – ainda em estado de dúvida – seguia interesses emedebistas, por

um roteiro que atravessaria cidadelas guardiãs comandadas por políticos do MDB.

Brizola pediu um tempo.

Reuniu-se com seus colaboradores mais próximos, os que vinham de fora e os

velhos trabalhistas, e aí ficou decidido: iriam acampar ali em São Borja até que

fosse possível ter melhor visão do quadro e de outros arranjos, cujos roteiros

fossem mais trabalhistas do que emedebistas. E ali se instalou o acampamento do

casal Brizola, em casa da mãe de Neusa, dona Vicentina – Tinoca – à rua Felix da

Cunha com Presidente Vargas, hoje Museu João Goulart. No Hotel Charrua ficariam

hospedados os dois autores e o amigo Antonio Tabajara. Outros, em casas de

familiares e amigos dos Goulart.

O saguão do Hotel Charrua transformou-se em uma assembleia aberta durante

semanas. Era muito difícil encontrar acomodação nos demais seis hotéis de São

Borja e a solução foi colocar até cinco pessoas num só quarto de casal. Área de

segurança nacional, em São Borja era vedada a colocação de faixas na zona

urbana. O comitê de recepção passou a transportar bandeiras nas janelas dos

carros que corriam as ruas da cidade conclamando o povo a comparecer à praça

para o comício de Brizola naquela noite.

Cerca de 150 jornalistas, do Brasil e do exterior, cobriam a chegada, e a

expectativa era enorme quanto à primeira entrevista coletiva – concedida no

comitê de recepção na manhã de seu desembarque. Tanto a Brigada Militar do Rio

Grande do Sul como a Polícia Federal, reforçadas, garantiam a ordem pública.122

À noite, na principal praça de São Borja, praça Maurício Loureiro, uma multidão

esperava pelo pronunciamento de Brizola, às 23 horas, sobre Os direitos

econômicos e sociais do povo brasileiro, que ele vinha preparando com a ajuda de

seus colaboradores, desde Portugal e, depois, Nova York, antes de seu regresso. Ao

seu lado estavam Darcy Ribeiro e o senador Pedro Simon. Ali Brizola falou com

paixão e fervor sobre as razões do Golpe, com a tomada do poder pelos militares e

associados civis em 1964, as cassações sucessivas feitas contra o Partido

Trabalhista Brasileiro e seus militantes por todo o país, especialmente no Rio

Grande do Sul e no Rio de Janeiro.

Cassações, prisões, torturas e morte, exílio… Brizola falava sobre as condições

em que o trabalhismo passou a viver durante aqueles anos de ditadura. Continuou

refletindo sobre a dureza dessa perseguição, o que levou o trabalhismo a ter que

sobreviver sob a sigla do MDB e a se manter como a brasa adormecida pelas cinzas

da repressão política.

Seguiu seu raciocínio peculiar, adestrado em sintonia com o momento. Parou,

levantou os braços, espalmou bem a mão, e com veemência disse:

— Aí, então, cortaram a cabeça do trabalhismo.

Esperou a ovação do público que o ouvia comovido e em silêncio. Mas,

surpreendentemente, lá de baixo do palanque, um senhor, num inesperado grito,

fez o aparte:

— E pescoço não brota.

A multidão não deixou de reagir com uma coletiva gargalhada, meio abafada, e

Brizola retomou seu raciocínio, como se aquele aparte não o tivesse incomodado,

até que a certa altura retrucou:

— E em comícios dos trabalhistas não poderia faltar um borrachito a

incomodar.

O público conivente aplaudiu e gargalhou solto, enquanto Brizola, esperando

pelo fim do tumulto causado pelo senhor bêbado, terminava seu discurso sobre os direitos do povo brasileiro.

Reuniões e mais reuniões foram, então, sendo articuladas e a agenda

reestruturada. O passo seguinte foi reunir trabalhistas, velhos e novos, para um

seminário ali na “Porteira da História” trabalhista.

A partir da vitória do MDB em 1978, muitos desses trabalhistas históricos

haviam assumido compromissos com o MDB gaúcho e estavam “recolhidos”,

duvidosos, em cima do muro, entre o passado histórico do trabalhismo e a situação

e os interesses emedebistas.

Neusa Brizola, então, assumiu o comando. Delicadamente, mas decidida,

mobilizou todos os que ela conhecera na época de Jango, e que tinham sido do PTB

e continuaram com Brizola durante o governo estadual, em que os trabalhistas

haviam crescido muito. Falou com as principais e mais importantes lideranças e

personagens e deu orientação para que se organizasse um seminário, que viria a

ser conhecido como o Seminário Trabalhista de São Borja.123

Na reunião, em um galpão cedido pelo velho companheiro e amigo, Artur

Dornelles, Neusa, diante de Brizola e de centenas de companheiros trabalhistas,

passou um bom pito, sem sabão, e puxou a orelha daqueles senhores, alguns já de

cabelos brancos, que estavam traindo – “costeando o alambrado” – o legado do

trabalhismo. O seminário acabou sendo um sucesso, com os participantes

vibrantes e muitos comentando, com grande admiração, a destemida atuação de

Neusa. No seminário houve Temário (de Quatro Pontos), o Regimento Interno e o

Cronograma da Programação, além de um documento final defendendo a

determinação de continuar a mesma luta do trabalhismo histórico, assinado pela

Comissão Executiva Provisória do PTB de São Borja, como Florêncio Guimarães,

Luiz Dutra, Manoel Loureiro, Artur Freire Nunes, Bonifácio de Sá, Vera Peixoto,

Manoel Espina, Ramão Altair da Silva, Antonio Inda e Joveni Silveira.124

No dia 10 de setembro, Brizola vai a Carazinho e segue até o distrito de Cruzinha,

onde nascera. Foi visitar o túmulo de sua adorável mãe, Oniva Moura Estery, que

havia falecido em 1968, quando ele se encontrava no exílio. No dia do falecimento

da mãe, Brizola estava em Edimburgo, na Escócia, para uma cirurgia de seu filho

João Otávio. Ali, diante do túmulo, surgiu a Sra. Maria da Graça Medeiros, de 70

anos, que lhe transmitiu recado da mãe, da qual fora vizinha:

— Ela me pediu para lhe dizer que morria pensando no senhor e mandou que

lhe desse um abraço por ela.

Tal situação comovente o fez chorar.

Somente em 18 de setembro seguiu-se para Porto Alegre, onde a recepção foi, ao

mesmo tempo, política e emocionante, particularmente para o casal Brizola. O

ambiente de expectativa era enorme. Novos contatos foram surgindo, muitos deles

em casa de Joaquim Macedo e Elfrides, irmã de Neusa, onde o casal ficou

hospedado e onde se reuniriam alguns correligionários.

Brizola criticava qualquer artifício que a legislação do governo pudesse impor à

reforma partidária que viria, e reclamava uma que levasse à democracia:

— Podemos ter que enfrentar obstáculos maiores ou menores, mas a decisão [de

recriar o PTB] é irreversível.

Encontrou-se com o senador Teotônio Vilela e rearticulou-se com o amigo

Thales Ramalho, que afirmava conhecer apenas duas propostas expressas em

documento: uma da reunião feita por alguns parlamentares do MDB e líderes

sindicais em São Bernardo – sem que Brizola houvesse sido convidado, embora

tivesse se oferecido a participar – e repetida em Brasília. Outra, dizia Thales, foi a

reunião promovida no Encontro de Lisboa. “No meu entendimento pessoal, a

proposta da chamada Carta de Lisboa é mais condizente com a realidade atual da

vida política do que a outra.”125

Brizola esteve na Assembleia Legislativa, onde foi recebido pelo então

presidente, deputado Ibsen Pinheiro (MDB), e deu uma longa entrevista à

imprensa, tocando seu realejo sobre a situação política do país, seu

relacionamento com o MDB, com os sindicalistas, com os autênticos (grupo de

esquerda do MDB) e, claro, sobre a organização do PTB.

Reafirmava que os partidos são os que encaminham a democracia. Era o seu

beabá de princípios para consagrar a atitude de que a política de Oposição não

pode ser conduzida na dependência dos passos do Governo ou das imposições da

política internacional interessada em conservar, com roupas novas, a atual

situação do país.

E falou sobre o papel das Forças Armadas: depois de dizer que não era um

especialista no assunto, afirmou que como cidadão e político considerava que “a garantia de que as Forças Armadas cumpram seu papel constitucional encontra-se

numa sociedade civil organizada”. Finalmente, apontou para o PT que nascia,

dizendo que Lula não sofria nenhum tipo de condenação como fazia o MDB ao seu

papel de reorganizar o PTB.126

Nota digna da situação da chegada de Brizola na capital gaúcha. Era uma sexta-

feira e em nenhum meio de comunicação gaúcho apareceu qualquer manchete

sobre sua chegada a Porto Alegre. Ele, realmente, não queria manifestações

populares, preferindo reuniões em recintos fechados. Neusa aproveitava a chegada

para congraçar-se com seus familiares: as irmãs Elfrides, chamada pelos irmãos de

Tia Fida; Tarcila, conhecida como Cila; Yolanda, chamada de Landa. Todas vivas

quando Neusa chegou a Porto Alegre e hoje todas falecidas.

Brizola realmente sabia que qualquer grande manifestação de apoio popular

para ele poderia parecer provocação e isso já não fazia mais parte de sua política,

que pretendia criar, acima de tudo, um ambiente democrático. Mas também não

lhe agradava em nada o silêncio de toda a mídia, o que fazia desconfiar de censura,

uma ferida à liberdade de expressão. Aí vem a parte interessante: em todos os

jornais e no topo da primeira página, manchetes sobre a prisão do sindicalista

Olívio Dutra (e mais quatro líderes sindicais).

A mídia de Porto Alegre e de outras cidades médias e o MDB gaúcho chegaram a

interpretar a greve comandada por Olívio Dutra como “demonstração de força ao

Brizola”. Nascia ali a liderança petista do sindicalista Olívio Dutra: eleito prefeito

de Porto Alegre (batendo o candidato do PDT) e depois governador do Estado do Rio

Grande do Sul.127

Brizola atuava como o tropeiro a cuidar de seu rebanho, e passou a cultivar um

núcleo formado por um punhado de jovens que viram, com o Golpe civil-militar de

1964, ruir seus sonhos por um Brasil desenvolvido, soberano e sem as injustiças

sociais que na década de 60 faziam com que cerca de 70% da população brasileira

vivesse no campo, em condições miseráveis; a quem não restava outra alternativa

senão a migração para os grandes centros urbanos, para continuarem miseráveis,

amontoados nas favelas das principais capitais brasileiras.

Acervo pessoal

 

 

Sede da Associação de Estudos e Debates do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Porto Alegre, 19 de setembro de 1979.

 

Entre esses jovens estavam Isaac Ajnhorn, Miguel Bodea, Carlos Araújo, Dilma

Rousseff, Licia Peres, Glenio Peres, Miguelina Vechio, Vieira da Cunha, que

lideraram a organização de forte segmento jovem do partido no Rio Grande do Sul.

Esses jovens eram liderados pelos chamados “históricos” do trabalhismo, divididos

àquela altura entre os membros da Associação liderada por Matheus Schmidt, que

organizou o primeiro seminário trabalhista no Rio Grande do Sul, e os históricos

propriamente ditos liderados por Sereno Chaise, Alceu Collares, Lidovino Fanton,

Otavio Caruso da Rocha, Nadir Rossetti, Nei Ortiz Borges, Antonio de Pádua Ferreira

da Silva, os deputados Aldo Pinto, Amauri Muller, Magnus Guimarães e Carlos

Augusto Sousa.

Brizola e Neusa passariam vinte dias em Porto Alegre em constantes contatos

políticos e ouvindo os companheiros sobre os próximos passos para a

reorganização do PTB e seu papel dentro do cenário nacional.

Acervo pessoal

 

Brizola escuta, com grande e atento público, a saudação da visita proferida pelo presidente da Associação de Estudos e Debates do Partido Trabalhista Brasileiro, Matheus Schmidt (segurando o microfone), em Porto Alegre, em 19 de setembro de 1979.

Notas

 

120. Folha de S.Paulo, São Paulo, 8/9/1979.

121. Ver F. C. Leite Filho, El Caudillo Leonel Brizola, p. 373.

122. Folha de São Borja, São Borja, 7/9/79.

123. Já haviam sido realizados dois seminários antes, a partir de 1977, com a distensão de Geisel e a saída de

Brizola do Uruguai e a ida para os Estados Unidos. Os autores foram os responsáveis-executivos do Seminário

Trabalhista de São Borja, que ocorreu em 15/9/1979. A Carta de São Borja expressava a decisão de reorganizar o

Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), desde logo, como tarefa principal e urgente que se impunha a todos os

companheiros.

124. Ata do Seminário.

125. Zero Hora, Porto Alegre, 25/9/79.

126. Zero Hora, Porto Alegre, 25/9/79.

127. Mino Carta. “Em 77, o Planalto previa a volta. Mas…”, IstoÉ, São Paulo, 12/9/1979.