Brizola
A “chapa quente”
O mês de agosto transcorreu sem maiores novidades e sem as cartas ao Seu
Guaragna. Trajano estranhou o silêncio do governador, como o chamávamos
desde que o conhecemos. Até que, em princípios de setembro, em meio ao jantar
em sua casa, no Rio de Janeiro, o telefone tocou:
— É da casa do Sr. Trajano Ribeiro? Boa noite, aqui é Toufik Mattar. Estou
falando de São Paulo… acabei de chegar de allá e o Chefe pediu-me que lhe dissesse
que a chapa está quente e pede-lhe para mandar-lhe os meninos.
— Pois não. Temos problemas lá então?
— É… problemas.
— Está bem, eu levarei os guris até lá.10
Despediram-se. A conversa foi lacônica, como convinha naqueles dias. O Dr.
Toufik Mattar era médico em São Paulo e acabara de chegar de uma visita a
Montevidéu, onde estivera com Brizola. Estava a par de tudo, mas não podia entrar
em detalhes, por razões óbvias.
A expressão “chapa quente”, usual no Rio Grande, não deixava dúvidas de que
Brizola tinha que sair do Uruguai. E às pressas. Todavia, as razões não estavam
claras.
Certa ocasião, ele havia contado a Trajano que Jango, antes de viajar para a
Europa, fora visitar a irmã, Neusa, e nessa oportunidade o relacionamento entre
ele e Brizola, abalado desde os primeiros tempos de exílio, havia sido reatado. Esse
episódio, carregado de emoção, ensejou uma longa conversa entre os dois
estadistas exilados. Unidos por laços de família, identidades políticas, ideológicas e
pela militância partidária, eles forjaram uma sólida amizade. Foram vítimas do
ambiente de intrigas que invadiu a comunidade de exilados brasileiros no
Uruguai, desde o Golpe de 64, e por 11 anos não se falaram.
Antes de sua viagem a Paris, Jango sentira saudades da irmã Neusa, esposa de
Brizola, e fora ao seu encontro, em companhia de seu ajudante Maneco Leães.
Chovia forte em Montevidéu e Jango decidiu ir até o apartamento da Rambla
Armenia, onde o casal recebia o escritor Josué Guimarães, Hélio Fontoura e José
Real, o Batoque.
Jango entrou, abraçou Neusa, cumprimentou os amigos e logo perguntou onde
estava Brizola. Neusa mostrou-lhe o escritório. Jango bateu à porta e se deparou
com Brizola, que o olhava fixamente. Abraçaram-se por um bom tempo e
choraram. Refeitos da grande emoção, Jango contou-lhe os planos: estava decidido
a voltar ao Brasil e criar um caso de dimensões internacionais; já não confiava no
MDB.11
Jango achava que, se dependesse dos políticos ligados ao MDB, ele e Brizola
morreriam no exílio e a liderança emedebista estaria à vontade para fazer
discursos laudatórios em seus enterros. Foi o último encontro entre os dois, e muito
significou para eles, mas principalmente para Neusa, que era quem mais o
desejara.
Nessa longa conversa, Jango advertiu Brizola sobre planos para eliminação de
lideranças brasileiras de oposição ao regime militar, sobre os quais havia sido
informado pelo serviço secreto cubano. Quanto a ele, depois da viagem à Europa,
iria se fixar, com sua mulher Maria Thereza, na Argentina, limitando suas estadas
no Uruguai. Os filhos estavam estudando na Europa; longe, portanto, da área de
risco. De fato, quando voltou da viagem, Jango foi para sua estância em Mercedes,
onde morreu, sem direito, naquele momento, a uma autópsia que revelasse a
causa de sua morte súbita.
Nesse contexto é que se deu a articulação terrorista promovida pela Operação
Condor, comandada por Pinochet, do Chile, pelos militares argentinos e uruguaios,
com apoio, e algumas intervenções práticas, do governo militar brasileiro. A
operação, que também era do conhecimento do governo americano, visava a vigiar
os passos e até mesmo assassinar líderes políticos oposicionistas – civis e militares
– às ditaduras do Cone Sul. Brizola, embora publicamente nunca tenha se
manifestado sobre a Operação Condor, que só veio ao conhecimento público anos depois de sua expulsão do Uruguai, estava entre os alvos da operação do terror das
ditaduras do Cone Sul em seus últimos suspiros.
Segundo o jornalista José Casado: “adormecem nos porões do Itamaraty, dos
comandos militares e da Presidência documentos vitais para se entender a história
das relações do Brasil com o Chile do general Augusto Pinochet”. De acordo com
Casado, “o regime brasileiro se associou a quase todas as iniciativas relevantes
para derrubar o governo civil de Salvador Allende”. Sobre a Operação Condor, o
jornalista escreve que “a cooperação brasileira na [Operação] Condor foi,
aparentemente, limitada”. “Há documentos indicando que o então general-
presidente Ernesto Geisel refutou as gestões de Pinochet para uma associação
ativa. Mas há, também, registros de casos em que militares brasileiros colaboraram
no sequestro de opositores dos governos do Chile e da Argentina. Esses opositores
permanecem como ‘desaparecidos’”. 12
Portanto, “chapa quente” encerrava vários significados e circunstâncias que,
finalmente, exigiam que Brizola se retirasse rapidamente do país que tão
generosamente o acolhera e cujos governos sempre o admiraram e respeitaram,
mesmo no período em que esteve confinado, por quase uma década, em Atlântida.
Não raro, tomavam-no como conselheiro informal, situação que, com o advento da
ditadura, experimentou um esfriamento, mas sem jamais descambar para o
desrespeito a seus direitos de asilado político ou para ameaças à sua liberdade.
Após voo matinal, Trajano e os dois filhos de Brizola – João Otávio e José Vicente
– desembarcaram em Porto Alegre para alguns contatos familiares e políticos. À
noite, partiram de ônibus para Montevidéu. Chegaram em uma manhã de sol,
temperatura agradável, típica da primavera castellana, com muita luminosidade
e sem qualquer resquício de névoa, tempo adequado a comemorações.
O apartamento da Rambla Armenia, que logo estaria coalhado de gente, estava
calmo. Brizola os recebeu com a cordialidade costumeira e, apesar da situação em
que se encontrava, aparentava estar no controle, tomando as providências para
minimizar os danos de uma retirada súbita e violenta, após tantos anos, sem
sequer saber por qual motivo estava sendo expulso.
Era como uma árvore, com raízes profundas, que se arrancava
impiedosamente. Afinal, mais da metade da vida de seus filhos fora vivida no Uruguai e, àquela altura, até sua neta Laila, filha de Neusa Maria, já havia nascido.
O patrimônio da família estava lá: Brizola trabalhara todos os dias desenvolvendo
atividade intensa como criador de gado, produtor de leite e agricultor. Essa
atividade não lhe era estranha, pois nascera em uma pequena propriedade rural,
mas à qual só se dedicaria realmente após o exílio.
Brizola era um trabalhador e, desde a juventude, levantava-se cedo e varava as
madrugadas na atividade política. Seu compadre e correligionário, Wilson Vargas,
com quem muitas vezes rivalizou dentro do PTB, costumava dizer em Porto Alegre:
— Brizola sempre “me ganhou” porque acordava mais cedo. Quando eu
chegava a algum reduto eleitoral ele já havia passado por lá e arrebanhado os
votos.
A expulsão descortinava um horizonte de incertezas. Como seria agora? Teria de
sobreviver em outro ambiente, onde quer que fosse – no Brasil, na Argentina, na
Argélia, na Europa ou nos Estados Unidos. Por outro lado, abriam-se novas
perspectivas de atuação no seu habitat, a política. Para onde quer que fosse,
certamente teria oportunidade de voltar a atuar politicamente e influenciar a
situação brasileira.
A reação de Brizola ao tomar conhecimento da instrução assinada pelo diretor-
geral da Direção Nacional de Informação e Inteligência do Uruguai, Vitor
Castiglioni, de 15 de setembro de 1977, expulsando-o do país, foi a de que só poderia
tratar-se de uma brincadeira… de mau gosto. Neusa, que recebeu a nota, recusou-se
a assiná-la. Agora, diante desse dilema que parecia uma encruzilhada inesperada,
o que fazer?
Os militares uruguaios deram-lhe cinco dias, ou 120 horas, para abandonar o
país, sem dar satisfação sobre os reais motivos. A intimação afirmava que ele havia
desrespeitado as obrigações de sua condição de exilado (outorgada em 2 de julho
de 1964, 13 anos antes).
Em suas duas entrevistas concedidas já em Buenos Aires – para onde foi em 21
de setembro –, Brizola disse que não havia desenvolvido nenhuma atividade que
configurasse violação das normas do asilo político e acrescentou:
— Mas se alguém, com tal medida, pretendeu me constranger ou humilhar, eu
não me sinto atingido.
Indagado se mudaria seu pensamento político, respondeu:
— A própria vida é uma sucessão de revisões. Temos que revisar nossos atos,
seja para modificar ou até para reafirmá-los.
E finalizou:
— Quando cheguei ao Uruguai estava de marca quente e nunca neguei que
havia desenvolvido atividades políticas. Mas quando fui confinado na praia de
Atlântida cheguei à conclusão de que já não havia mais condições para a realização
de um trabalho político radical. Aquele foi um período de inspiração gaúcha, não
era uma inspiração ideológica.13
Ele chegara a visitar a chancelaria uruguaia para saber sobre as acusações, mas
não só não sensibilizou a ditadura militar uruguaia – que mantinha uma lua de
mel com os militares brasileiros – com o drama familiar que vivia, como não
recebeu nenhuma explicação clara. Nos bastidores, sabia-se que os militares
uruguaios estavam fortemente ligados ao ministro do Exército brasileiro, Sylvio
Frota, que os pressionara pela expulsão de Brizola.
Pode-se imaginar a guerra de posições entre Geisel e seu ministro Frota em
torno da sucessão presidencial da ditadura. Brizola tornou-se a principal peça do
xadrez daquela disputa pelo poder no Brasil.14
Em seu livro, Ideais traídos, Frota afirma que não teve nada a ver com a
expulsão de Brizola, mas alerta: “Como poderia o presidente Geisel (no início da
crise da expulsão pensou-se que se Brizola voltasse ao Brasil Geisel o confinaria em
Corumbá, como a ditadura fizera com Jânio anos atrás), general do Exército, chefe
militar que merecera a confiança de seus colegas da Revolução para exercer o mais
alto cargo político-administrativo do país, acoitar um homem odiado pelo Exército,
visceralmente inimigo dos revolucionários e que acabara de ser expulso de uma
nação irmã por ter desonrado compromissos assumidos?”15
Em outra parte, Frota relata: “Como já mencionei (em audiência com Geisel, no
dia 20/7/77), declarei ao presidente não me responsabilizar pela integridade física
de Brizola. Poucas horas depois, a informação de que eu me opunha à sua vinda,
apesar de o presidente Geisel inclinar-se a permiti-la, já chegara aos [ouvidos] de
Brizola, em Montevidéu… Quem teria transmitido?… A comunicação a Brizola era
nitidamente vantajosa à política do governo – mostrava o espírito liberalizante do general Geisel, jogava sobre o ministro do Exército a inteira responsabilidade de
uma recusa em receber o político cassado e, acima de tudo, angariava simpatias do
grupo janguista.
“Engendrou-se, também, um motivo para justificar o meu suposto interesse em
afastar Leonel Brizola do Uruguai: o ministro preparava um golpe para depor
Geisel e duas guarnições do Rio Grande do Sul discordantes ameaçaram, então,
convocar o político cassado [Brizola] para uma resistência.” 16
Anos mais tarde, e pela primeira vez, Brizola identificou, em conversas
reservadas com alguns amigos, sua expulsão como resultado de uma conversa do
vice-presidente Adalberto Pereira dos Santos com o então presidente do Uruguai,
Aparício Mendes. Segundo ele, a conversa não teria atingido o objetivo, mas os
uruguaios a interpretaram, diante da qualificação do interlocutor, como uma
sugestão concreta.
Esse capítulo permanece ainda obscuro e intrincado, mas o fato marcante – com
ou sem Frota e sua interferência junto aos militares uruguaios – e que
provavelmente deve ter ocorrido, é que Brizola já tinha feito sua cabeça: preparou-
se para testar a política de direitos humanos de Carter, buscando, com sua
manobra política, chegar aos EUA com 0 a aprovação de asilo do próprio
presidente americano – que não via com bons olhos as violações de direitos no
Brasil – e, assim, dar o troco aos militares brasileiros.
Mas a realidade estava ali diante dos olhos, e o que fazer diante da expulsão?
Ainda mais em um fim de semana, com as repartições públicas uruguaias
fechadas? O nervosismo começou a dominar os auxiliares, entre eles, o escritor
Josué Guimarães e o jornalista Tarso de Castro. Mas as providências começaram a
ser pensadas.
Surgiu a ideia de ir para a Argélia e reunir-se com Miguel Arraes, conforme se
pensara como primeira opção, com a oferta daquele governo para o novo exílio. Ou
ir para Portugal, onde o novo governo socialista de Mário Soares havia
manifestado sua vontade de oferecer-lhe passaporte e asilo político. Ou voltar ao
Brasil, ainda que com as ameaças reais que poderiam vir dos militares.
Na tarde do dia 15 de setembro, Brizola pediu a Trajano que se dirigisse à
embaixada brasileira e comunicasse sua intenção de retornar ao Brasil, o que entendia ser um direito seu. Em companhia do amigo João Carlos Guaragna e do
filho João Otávio Brizola, foram recebidos pelo embaixador brasileiro, que, ao ouvir
que Brizola estava determinado a retornar ao Brasil, empalideceu. Não escondendo
o nervosismo, solicitou a Trajano que aguardasse um telefonema na residência de
Brizola até o meio-dia do dia seguinte. Ele precisava consultar o governo brasileiro.
Por volta de 12h15 do dia seguinte, Brizola observou:
— Eles não vão ligar, precisamos de uma resposta. Liga para lá e pergunta o que
resolveram. Afinal de contas, estou sendo expulso e tenho o direito de voltar ao
meu país. Não tenho sequer passaporte. O que estão querendo? Que me joguem na
fronteira como um saco de papas [batatas]?
Os acontecimentos que se seguiram à sua expulsão do Uruguai podem, talvez,
conferir a essa observação de Brizola um caráter quase premonitório. Sem
passaporte, sem ter para onde ir, não seria de duvidar que os uruguaios o
“despejassem” em Livramento ou em Quaraí, à sanha dos homens de Frota, que
teria aí o pretexto que necessitava para fabricar uma crise e alegar razões de
segurança nacional para sustar o processo de abertura do general Geisel.
Do outro lado do telefone, o primeiro-secretário não revelou a posição do
governo brasileiro. Solicitou a Trajano que se dirigisse ao consulado brasileiro em
Montevidéu: o cônsul transmitiria as instruções devidas. O cônsul Fernando
Fontoura, polidamente, informou a Trajano e a José Vicente Brizola, que o
acompanhara, que se o governador Brizola entrasse em território brasileiro seria
preso.
Brizola costumava contar aos seus colaboradores, principalmente nos
primeiros tempos do novo exílio, que, após o impacto da expulsão, pegara sua
caminhonete e dirigira-se a sua fazenda em Durazno para algumas providências.
Retornando à tarde, ao passar em frente à embaixada dos EUA, teve um lampejo.
Parou… entrou… e pediu para falar com o embaixador. Disse-lhe que se encontrava
em uma situação de expulsão do país que lhe dera asilo, e que gostaria de pedir ao
governo do presidente Carter, em razão da política de direitos humanos, que
acolhesse a ele e a sua esposa, Neusa.
Brizola decidira que, caso recebesse o asilo do governo americano, só viajaria
para Nova York pela VARIG, o que implicava necessariamente uma escala no Rio de Janeiro. Trajano insinuou ao cônsul brasileiro:
— Tudo indica que o governo americano lhe dará asilo, e ele, se for esse o caso,
viajará no voo da VARIG com escala necessária no Rio de Janeiro.
— Eu não recomendaria — disse o cônsul. — Se tocar o solo brasileiro será preso,
ainda que não desça do avião. Há outros voos para Nova York que não são via Rio
de Janeiro.
— Mas ele está decidido a tomar esse voo, via Rio — retrucou Trajano.
A conversa terminou ali. Brizola queria provocar uma reação do governo
brasileiro que talvez o ajudasse a compreender o que estava se passando.
Trajano retornou à Rambla Armenia e relatou a Brizola o ocorrido. Pouco tempo
depois chega ao apartamento um funcionário do Ministério das Relações
Exteriores do Uruguai com o título de viaje [título de viagem] para que Brizola
pudesse sair do país. O governo uruguaio emitira o título de viagem, documento
provisório fornecido, em circunstâncias especiais, a pessoas em situação de perda
de cidadania.
Aquilo talvez fosse um sinal de que não haveria violência e que a ditadura
uruguaia, ante a acolhida de Brizola pelo governo americano, abrandava suas
atitudes, até então inspiradas pelas cumplicidades das ditaduras do Cone Sul e da
Operação Condor, e outras que ainda poderão vir a ser reveladas.
O fato é que o funcionário inadvertidamente não providenciara documentos
para que dona Neusa pudesse viajar acompanhando o marido. Brizola recusou-se a
aceitar o documento se não fosse providenciado outro para sua mulher.
— Volte e diga a seus superiores que sem minha esposa eu não viajo, portanto
eles que emitam um documento para ela.
O homenzinho prometeu voltar com o documento para Neusa. Mas a noite caiu
e os documentos não chegaram.
Brizola decidiu então ir para a embaixada americana, depois de receber a
informação de que os documentos seriam entregues lá. Realmente, já na
embaixada, após meia hora, chegou o funcionário da chancelaria uruguaia e
entregou os documentos. O encarregado da embaixada americana examinou-os
atentamente, virou-se para o pequeno funcionário da chancelaria e disparou:
— Como os senhores emitem documentos com prazo de validade de apenas 24
horas? Volte e traga documentos com validade de trinta dias.
O pequeno homem girou sobre os calcanhares e sumiu. Uma hora depois
retornava com novos documentos, válidos por trinta dias.
De volta à Rambla Armenia constatou-se que os acontecimentos haviam se
precipitado. No meio da tarde, forças policiais uruguaias cercaram o prédio de
Brizola. Mantinham certa distância, mas sua prisão domiciliar foi comunicada.
Ainda houve tempo para transmitir a Brizola as recomendações do cônsul
brasileiro. Como a decisão de ir para os Estados Unidos já estava tomada, faltavam
os documentos para viajar. Brizola e Neusa não tinham passaporte, negados pelo
governo brasileiro.17
O tempo passando e nada de os documentos chegarem… Às cinco horas da
tarde alguém bate à porta do apartamento. Era um policial comunicando que o
prazo para Brizola deixar o país se esgotara.
— Mas não termina à meia-noite? — Trajano indagou.
— 18 No, señor, el plazo se termina con la caida del sol .
Tudo indicava que se preparava uma armadilha. O governo não fornecia os
documentos de viagem e, ao mesmo tempo, a polícia comunicava que o prazo se
esgotaria em poucas horas… “con la caida del sol”. Algo tinha que ser feito.
Brizola determinou, então, que, em companhia de Romeu Barleze, seu amigo e
colaborador durante o exílio, Trajano fosse à embaixada americana e informasse o
que estava ocorrendo ao então encarregado de negócios. O Sr. Archie Cheek estava
substituindo o embaixador Larry Pezzulo, que havia viajado acompanhando o
presidente uruguaio em visita ao presidente Carter, em Washington. Jimmy Carter
recebia, como hóspedes, vários presidentes latino-americanos para a cerimônia de
assinatura do novo Tratado do Canal de Panamá, conhecido como Tratado
Torrijos-Carter, devolvendo o canal ao Estado do Panamá.
O Sr. Cheek havia chegado em Montevidéu no final de agosto de 1977, e na
primeira semana de setembro já estava com a incumbência de encaminhar o
pedido de asilo de Brizola para os EUA.
É o próprio Sr. Cheek quem narra:
— A primeira vez que estive com o Sr. Trajano Ribeiro foi quando ele veio à
embaixada para me informar que a situação do Brizola havia piorado. Ofereci,
então, enviar o carro da embaixada ao prédio da Rambla Armenia: o carro entraria
na garagem, recolheria os Brizola e voltaria à embaixada, sem riscos para a
segurança do casal, uma vez que a polícia uruguaia não interceptaria carro
diplomático, ainda mais dos Estados Unidos. De fato, logo depois, a guarda
marinha [os Marines] da embaixada ligou para dizer que os Brizola, suas malas e
tudo mais estavam no saguão da Embaixada.
Imaginem que cena histórica!
O Sr. Cheek diz:
— Então fiz o que era necessário: que o casal ficasse em segurança, sob a guarda
do governo dos EUA, para que partissem, em paz, do Uruguai, com trânsito em
Buenos Aires até a chegada aos Estados Unidos, em Nova York. Era uma tarefa
diplomática nada simples!19
E continua:
— O caso de Brizola apresentou problemas especiais para mim, como chefe da
missão. Primeiro, a regra estabelecida pela política externa dos EUA era e ainda é a
de que não damos asilo nas embaixadas no exterior. Mas podemos dar ‘refúgio
temporário’ em casos em que se acredite que a pessoa esteja sendo procurada ou
perseguida injusta ou ilegalmente, e que seus direitos humanos básicos estejam
sendo violados, caso seja feito prisioneiro.
“Quando o meu pessoal de segurança e inteligência confirmou que tipos
suspeitos seguiam os Brizola e estavam ‘de olho’ no interior da embaixada, concluí
que os Brizola estavam sendo, definitivamente, perseguidos. E, dado o bem
conhecido registro de violações de direitos humanos da política no governo militar
uruguaio de 1977 (como o do Brasil, da Argentina e do Chile), havia óbvio perigo
para eles se fossem agarrados por esse pessoal. Então, concedi-lhes o ‘refúgio
temporário’ na embaixada e, só aí, orientei a Casa Branca em Washington.
Mr. Cheek comenta ainda que:
— O próximo problema era como colocá-los dentro dos Estados Unidos, tarefa
nada fácil (muito mais naquela época), devido a nossos complexos regulamentos e
leis de imigração. Os EUA não concedem asilo político a pessoas enquanto elas estiverem em outro país. Primeiro, têm que entrar nos EUA legalmente com um
visto (ou uma “custódia pré-arranjada”) e, uma vez lá dentro, solicitar à Imigração
americana o status de “refugiado político”, que lhes permite ficar,
temporariamente, enquanto o pedido estiver sendo julgado (leva meses), e então
permanentemente, se aprovado.
Foto: Editora Abril
Brizola e Neusa, no aeroporto de Carrasco, em Montevidéu, Uruguai, 23/9/1977.
“Para conceder um visto de ‘visita temporária’ dos EUA para os Brizola, eles
teriam que ter um documento de viagem válido para além da data da estada
temporária nos EUA. Foi isso que pensei quando insisti que o Ministério das
Relações Exteriores uruguaio desse a eles titulos de viaje válidos por trinta dias, o
que consegui. A próxima exigência para conceder-lhes o visto dos EUA era a de que
eles tivessem um outro destino além do ‘visto temporário’. Desde que eles foram
expulsos do Uruguai e, obviamente, não poderiam retornar ao Brasil e a Argentina
estava fora de questão, isso se revelou um problema real.
“Recordo-me, e a memória torna-se vaga sobre aqueles detalhes, ter
solucionado o problema com apoio do Departamento de Estado, obtendo do
Governo de Portugal a confirmação oficial de que Brizola e Neusa seriam recebidos
com passaporte português, oferecido pelo governo de Mário Soares, e lá
permaneceriam depois de ter se esgotado o prazo do refúgio temporário dado pelos
EUA. Faltaria, no entanto, o último detalhe para que o asilo fosse concluído: eliminar o nome de Leonel Brizola da relação de pessoas impedidas de entrar nos
EUA, existente no aeroporto internacional John Kennedy, em Nova York. E isso foi
feito.20
No aeroporto de Montevidéu, Brizola entrou na fila de embarque para Buenos
Aires como todos os demais passageiros. A diferença é que uma pequena multidão
formou-se em torno do casal. Não apenas companheiros do Brasil que haviam
acorrido a Montevidéu para com ele solidarizar-se, mas também uruguaios que
não escondiam sua admiração pelo líder brasileiro a quem se acostumaram a
abrigar e que agora percebiam estar sendo maltratado por seu governo.
Tal movimentação incomodou os policiais uruguaios, que não tardaram em
intervir, tentando afastar Brizola. Advertiram para que ele embarcasse logo.
Brizola afastou a mão de um dos policiais com voz alterada:
— Não se atreva. Eu já comandei mais de 30 mil homens, ponha-se no seu lugar.
Os próprios colegas do policial encarregaram-se de tirá-lo da situação em que se
metera. A tensão momentânea dissipou-se e Brizola embarcou com Neusa para
Buenos Aires.
Com a decisão de viajar a Nova York via Buenos Aires, surgiu outra
preocupação. É que o Hotel Liberty, onde ficariam hospedados à espera do voo, no
dia seguinte, para Nova York, era o mesmo onde havia pouco tempo dois políticos
uruguaios tinham sido sequestrados e assassinados. Mas o Sr. Cheek, diante da
apreensão, foi incisivo:
— Não se preocupem, nós estaremos lá. Para garantir-lhes trânsito seguro por
Buenos Aires, nossa embaixada ali (muito ativa nas lutas pelos direitos humanos)
não desgrudará os olhos de Brizola e Neusa, durante o trânsito deles do aeroporto
de Ezeiza para Nova York, pela Aerolíneas Argentinas.
“Tudo funcionou bem e eles puderam fazer isso de maneira segura e com
liberdade! 21 — conclui o Sr. Cheek.
Percebia-se que o diplomata americano, amigo e colaborador diante daquela
situação, tinha respeito por aquele a quem estava garantindo o direito de asilo e
cuja segurança era agora de sua responsabilidade.
Quer dizer, a decisão do Sr. Cheek revela sua pessoal e intransferível
responsabilidade de decidir pela entrada de Brizola no território americano. Foi um caso político de grande importância. Por esse contexto, entende-se por que Brizola
foi a figura central e de primeira linha nas negociações com o regime militar, e que
levaram, paulatina e seguramente, à anistia e à reforma partidária. Brizola, sem
dúvida, passou a ser a principal figura que desmancharia o monopólio das Forças
Armadas no comando político brasileiro, pondo fim ao monopólio – composto por
Arena e MDB – nascido da ditadura e levantando as brasas cobertas pelas cinzas da
ditadura sobre o grande espectro de político regional, nacional e internacional que
foi.
As experiências nos EUA e na Europa foram muito bem captadas pelo sentido
político internacional, contribuindo para a sua participação e liderança no seio da
Internacional Socialista – o que jamais se repetiu na política brasileira até agora – e
para sua inclusão como figura política entre chefes de Estado, presidentes e
primeiros-ministros – tanto nos EUA como em Portugal –, através e com o apoio do
Partido Socialista Português e de Mário Soares, particularmente.
Este é o palco para a inserção de Brizola no cenário e nas atividades políticas
democráticas, com o PTB. Isso não significa que ele tenha deixado de lado as
amplas discussões e conversações – pessoais (direta ou indiretamente) e políticas –
com o comando ditatorial dos militares na atividade política brasileira. Durante
seis anos (em 1977 e de 1982 a 1986) de observações mútuas e comportamentos
políticos mal resolvidos, Brizola manteve algum tipo de negociação política com o
governo americano, em especial com o próprio presidente Carter, como veremos
adiante. Mas naquela época pensávamos que nacionalizar duas grandes
companhias norte-americanas no final dos anos 50 significava entrar na “lista
negra” dos EUA e não mais pisar em solo americano. Como, então, passados 20
anos, o governo americano veio a conceder-lhe visto como asilado?
As explicações que o Sr. Cheek nos deu pareceram claras a respeito da vontade
do governo Carter em conceder a Brizola o que faria a qualquer outro cidadão que
estivesse sendo violentado em seus direitos humanos. Achamos que, por gratidão
ou por sua visão política mais madura e conciliatória, Brizola, desde então, jamais
proferiu críticas diretas aos EUA como governo, referindo-se, indiretamente e em
diversas circunstâncias, ao que ele chamava de “perdas internacionais” através do poder das multinacionais, principalmente as norte-americanas, mas também das
alemãs, francesas e britânicas.
Em resumo, o Sr. Cheek responde às nossas perguntas:
— Eu tomei a decisão pessoalmente, a de conceder ‘refúgio temporário’ na
Embaixada americana. Só então informei à Casa Branca – era sexta-feira e o
Departamento de Estado estava fechado – de que eles já se encontravam aqui em
nossa Embaixada. Em seguida, todas as minhas ações foram no sentido de dar
assistência aos Brizola, para que partissem do Uruguai e fossem para os EUA de
maneira segura, e esses passos foram coordenados juntamente com a Casa Branca
em Washington. […]
“A burocracia e o aparato de poder do governo americano não queriam,
exatamente, dar boas-vindas a Brizola, mas, consistente com a política de direitos
humanos do presidente Carter, nós estendemos a ele a mesma assistência para
proteger direitos humanos básicos que teríamos dado a qualquer outra vítima da
opressão. Suas críticas e ações anteriores aos EUA, quando era governador, não
pesaram em nossa decisão. Ela foi baseada na questão dos direitos humanos, não
em uma questão política. […]
“Não tenho provas concretas, mas, pessoalmente, creio que os militares do
governo do Brasil estavam por trás da expulsão de Brizola do Uruguai. O governo
do Uruguai era uma ditadura militar, embora mais moderada do que as ditaduras
militares do Brasil, da Argentina e do Chile. Diferente de seus vizinhos, eles
raramente torturavam pessoas ou ‘desapareciam’ com elas, como testemunharam
seus seiscentos prisioneiros políticos, sob condições toleráveis e observação da
Cruz Vermelha. O governo do Uruguai tolerou a presença de Brizola por 13 anos, o
que indicava que ele não era percebido como ameaça. No entanto, os militares
argentinos haviam tido sucesso ao pressionar o governo uruguaio a expulsar ou
devolver ‘subversivos’ que tivessem se refugiado no Uruguai. Penso que os
militares brasileiros, no caso de Brizola, fizeram o mesmo, e os milicos do governo
do Uruguai, como um dever, saudaram e obedeceram.
“Meu conhecimento de Brizola veio, inicialmente, de meus estudos
universitários, durante o final dos anos 60 e início dos 70. Mas a minha relação
com Brizola é baseada em experiência pessoal. De 1967 a 1969, o Departamento de Estado ‘emprestou-me’ para o U.S. Peace Corps [Corpo da Paz], como diretor-
executivo [deputy director] do programa no Brasil. Ajudei e geri o maior e mais
bem-sucedido programa do Peace Corps no mundo, com cerca de 1.400
voluntários, que serviram em todos os estados do Brasil, exceto no Rio Grande do
Sul. Por que não no Rio Grande do Sul? Bem, Leonel Brizola, enquanto governador
do Rio Grande do Sul, no início dos anos 60, havia expulsado os Voluntários da Paz,
por considerá-los ‘agentes do imperialismo e da CIA’. Nós ainda vivíamos com
aquela acusação quando servi no Peace Corps, no Brasil, entre 1967 e 1969, mas,
afortunadamente, milhões de brasileiros generosamente ajudados pelos
Voluntários por alguns anos, compreenderam que aquela acusação de Brizola
estava errada. Ele reconheceu isso e atribuía esse ambiente de Guerra Fria à
constante tensão internacional. Agora, iria conhecer e praticar como inserir
melhor o Brasil no cenário internacional. Ser ator e não coadjuvante.”
Finalmente, o Sr. Cheek concluiu:
— Tive, ao longo de meus 36 anos de carreira, como profissional diplomata no
Serviço Estrangeiro dos EUA, de dar ajuda, talvez salvar a vida, dando a mão aos
Brizola em Montevidéu, em setembro de 1977: é disso que eu mais me orgulho. Era
uma chance não para mencionar a proteção aos direitos humanos, mas torná-los
um fato concreto, realizá-los, e isso foi feito.22
E, finalmente, é o próprio Brizola que, em seu depoimento à Comissão Externa
da Câmara dos Deputados23 (destinada a esclarecer as circunstâncias da morte do
ex-presidente João Goulart), rememora os fatos que culminaram em sua expulsão
do Uruguai e sua ida para os Estados Unidos:
— Quando lá estava [no Uruguai], eu não tinha muita ideia de que estávamos
dentro de um processo que envolvia todos nós. Na época em que fui expulso, por
exemplo, eu não estava exercendo atividade política nenhuma. Não entendia o
porquê. Aquilo era uma vingança pessoal. Por muito tempo, cultivei a impressão,
dada uma informação e outra, de que fui expulso daquele país por pressão da área
do Geisel ou da área do ministro do Exército daquele tempo, Sr. Sylvio Frota.
“Talvez tivessem receio de que pudesse haver entendimento entre mim, que
estava no Uruguai, e o então governador do Rio Grande do Sul, recentemente
falecido, Synval Guazzelli, invocando, talvez, o que ocorrera em 1961, e que dali pudesse surgir uma reação, com essa soma de forças, contra um ou contra outro.
No caso, teria sido a área do Sr. Sylvio Frota que teria insistido junto aos militares
uruguaios para me expulsar, na atividade que desenvolviam preparando outro
golpe contra o governante discricionário do momento, para não dizer um ditador
de turno, o Sr. Ernesto Geisel.
“Como fui para os Estados Unidos, acolhendo-me na política que desenvolvia o
presidente Carter – até surpreso com aquele atendimento, com o acolhimento que
lá recebi, convivendo com muitas pessoas –, eu, de certa forma, aceitava essa
interpretação.
“Hoje, de longe, somando mais informações, chego à conclusão de que
absolutamente não foi isso o que ocorreu. Eu estava ali na mesma situação de
outros latino-americanos que demarcavam toda uma época e foram objeto de um
processo de repressão que atingia personalidades e simples quadros da resistência
a esse conjunto de ditaduras. Hoje estou absolutamente convencido de que uma
voz me surgiu ali, naquela hora em que ingressava na embaixada americana.
“Quando expirava aquele prazo [das 120 horas] dado pelo regime militar
uruguaio, fomos informados pela embaixada americana de que devíamos nos
deslocar para lá, eu, a minha família, os meus amigos, quem eu quisesse levar. E
estávamos ali cercados por várias caminhonetes do exército uruguaio. Eu até
perguntei: ‘Como vou passar por esse cerco?’ Responderam: ‘Não vai ocorrer nada;
nós estamos aí também.’ Foi a resposta que recebemos da embaixada [dos EUA].
“Não sabíamos, mas tivemos a informação de que havia um entrelaçamento
desses regimes. Logo que chegamos lá, pudemos sentir uma estreita ligação entre
autoridades norte-americanas e de alguns outros países que se prestavam a esse
tipo de cooperação.
“Confesso que, quando me decidi a ir, fui sozinho à embaixada americana. Foi
um arroubo! Eu pensava: quero colocar à prova essa política de direitos humanos
do presidente dos Estados Unidos. Quero saber. Ele está falando tanto de direitos
humanos, e eu, por exemplo, sinto-me ferido nos meus. Estou sendo expulso deste
país de maneira injusta. Como pode um país que tem tratados em matéria de
direito de asilo expulsar alguém que não está fazendo nada? Vou consultar o presidente dos Estados Unidos, diante do que estou sofrendo, sobre se me recebe
em seu país. Era com essa intenção, palavra de honra.
“Chegando lá, fui recebido por uma moça, porteira ou telefonista, meio
uruguaia, meio americana: ‘O senhor quer falar com o embaixador?’ E eu meio
barbudo… Ela pediu minha identidade, minha cédula. Eu dei minha carteira,
estava ali exilado… Ela olhou, olhou, pediu que esperasse um momento e chamou
um funcionário.
“Veio um jovem atencioso [Archie Cheek, encarregado de Negócios da
Embaixada dos EUA em Montevidéu, na ausência do embaixador]. Pensei: ‘este
deve ser um elemento da CIA, que, sem mais nem menos, vem me receber.’ O rapaz
chegou e disse: ‘Sr. Brizola, o senhor quer passar ao meu gabinete?’ ‘Perfeitamente’,
respondi. Continuou o funcionário: ‘O senhor é conhecido.’ E eu, cá comigo: claro
que o senhor me conhece! A gente sempre pensa que é muito conhecido. Então, ele
disse: ‘Quando eu estava na universidade, nós tínhamos um clube latino-
americano. Naquele tempo, falava-se muito no senhor, que o senhor gostava de
expropriar empresa americana.’ Eu disse: ‘É verdade.’
“Ele foi muito amável. Conversamos, tomamos um cafezinho, e por fim ele me
perguntou: ‘O senhor quer mesmo ir para os Estados Unidos?’ Respondi: ‘Olha, até
há pouco tempo eu não admitia essa possibilidade, mas quero ir.’ O rapaz me
ofereceu uma revista e, após alguns momentos, disse: ‘Fui tratar do assunto com as
autoridades americanas, na ausência do embaixador. Na segunda-feira nós lhe
damos uma resposta.’ Isso aconteceu numa sexta-feira. Na segunda-feira, deram-
me a resposta mesmo.
“Soube depois que minha sorte foi isso ter acontecido na sexta-feira, porque o
assunto foi direto à Casa Branca, já que o Departamento de Estado estava fechado.
Na Casa Branca, foi levado diretamente à consideração do presidente Carter, que
não teve dúvida, seguindo sua política; era esse seu pensamento, sua maneira de
ser. O assunto praticamente pulou o Departamento de Estado. Caso fosse numa
segunda-feira – soube depois; brasilianistas me disseram –, o Departamento de
Estado iria complicar de tal maneira meu pedido que seria muito difícil ir para lá.
Esse episódio revela em toda a sua complexidade o caráter das relações que o
governo dos Estados Unidos mantinha com as ditaduras militares do Cone Sul. Também denuncia que se estava esgotando o seu apoio incondicional aos regimes
que ajudara a implantar e que, por várias razões, já não atendiam mais aos seus
interesses. Não demoraria para que todos fossem levados pelo sopro dos novos
ventos que vinham da Casa Branca, sob a bandeira politicamente correta dos
direitos humanos empunhada pelo presidente Carter.
Notas
10. Os “guris” eram os filhos de Brizola e Neusa: José Vicente, Neusa Maria e João Otávio, este último residindo,
na ocasião, na casa de Trajano e Maria Ribeiro.
11. Perfis Parlamentares, Leonel de Moura Brizola, p 101.
12. Ver artigo de José Casado, O Globo, 12/12/2006. Ver também Luiz Cláudio Cunha, Operação Condor: o
sequestro dos uruguaios.
13. Gaúcha pela tradição de lutas, pugnas e guerras partidárias, entre maragatos e chimangos, ao longo da
história do Rio Grande do Sul. Perfis Parlamentares, Leonel de Moura Brizola, p. 100.
14. Ver as análises de Elio Gaspari em A Ditadura Derrotada sobre o processo de abertura da dupla Geisel-
Golbery, e em A Ditadura Encurralada sobre a crise de 1975.
15. Sylvio Frota, Ideais traídos, capítulo 41 – “A tentativa de retorno de Brizola”, p. 487-88.
16. Ibidem, p. 491-492.
17. Até mesmo na ditadura de Pinochet os exilados mantiveram seus passaportes, como cidadãos chilenos. Na
ditadura brasileira, os exilados perderam seus passaportes, sua cidadania e andavam como párias com todo
tipo de documentos, ora da ONU, ora de algum país que lhes concedesse o laissez-passez, vistos limitados, ou,
em raras exceções (como em Portugal após 25 de abril), documentos de residência e cidadania (com bilhete de
identidade, com apoio do governo de Mário Soares).
18. “Não, senhor, o prazo termina com o pôr do sol.”
19. Depoimento do Sr. Archie Cheek – de Kansas City, EUA –, aos autores, via e-mail, 3/9/2007.
20. Entrevista com Sr. Cheek, via e-mail, 3/9/2007.
21. Ibidem, 2007.
22. Entrevista com Mr. Cheek, via e-mail, 3/9/2007.
23. Depoimento de Leonel Brizola à Comissão Externa, Câmara dos Deputados, Relatório Final, Coordenação de
Publicações, Brasília, 6/6/2000, p. 69-96.