Brizola
Introdução
“Toda memória é uma seleção recontada
e, portanto, uma narrativa ficcional.”
Jorge Luis Borges
“Todo memorialista é um mentiroso.”
Nelson Rodrigues
Uniu-nos ao escrever estas memórias – não se trata de uma biografia – o fato de
termos sido testemunhas e participantes da vida política – nada tranquila – de
Leonel Brizola. A história começa a partir de sua expulsão do Uruguai, em 1977,
principal motor desta empreitada político-literária. O que nos levou a este árduo e
prolongado trabalho de pesquisa, entrevistas, organização de fotos e textos escritos
e reescritos nos últimos sete anos foi o sentimento de lealdade e companheirismo à
grande figura de Leonel Brizola.
Norteou-nos o desejo de desvendar a alma desse gaúcho que se tornou figura
política, nacional e internacional, desde o seu segundo exílio nos EUA e na Europa,
sua volta ao Brasil tão logo a anistia foi decretada em 1979, seus dois governos do
Estado do Rio de Janeiro, suas candidaturas à Presidência, sua liderança política e
suas idiossincrasias.
Buscamos, sem cessar, revelar a sua personalidade, através de seu “realejo”
(com seus gestos típicos e estilo peculiar de comunicação), e as suas formas de
conversar, muitas vezes elegantes, outras vezes sarcásticas e cheias de
simbolismos. Seu discurso tinha origem em experiências “empíricas” e era calcado
em fatos da natureza. Dessa base ele emitia suas convicções, opiniões e análises políticas, nada convencionais, sobre o Brasil (“O Brasil é um país surrealista” era
uma de suas frases favoritas).
Nenhum outro político brasileiro usou os meios de comunicação – da imprensa
escrita à TV, pois ainda não eram de sua época as redes sociais, que ele teria
utilizado fartamente – como Brizola em seus “tijolaços” (de 1984 a 1992), que se
revelam um discurso político coerente e rico em análises de conjunturas,
personalidades, mídias e situações políticas nacionais e internacionais.
Verdadeira cartilha do trabalhismo renovador, os “tijolaços” de Brizola nortearam
seus dois mandatos como governador do Rio e suas intervenções na política
nacional – o seu “realejo” doutrinário.
Traçava perfis das personalidades mais destacadas da política brasileira – sem
deixar de marcá-las com algum apelido jocoso e criativo. Acima de tudo, ele se
mantinha coerente com seu profundo amor pelo povo que o elegeu prefeito de
Porto Alegre e governador do Rio Grande do Sul, depois deputado estadual e
federal (com a maior votação alcançada por um político brasileiro), duas vezes
governador do Estado do Rio, além de líder do antigo e renovado Partido Trabalista
Brasileiro (PTB), e, quando este lhe foi surrupiado, do Partido Democrático
Trabalhista (PDT).
Faltou-lhe apenas aquilo que mais desejava ser: presidente da República
Federativa do Brasil. Injunções, percalços, embaraços e reservas políticas da elite
brasileira constituíram objeções à sua projeção como chefe da nação.
Reunimos os principais lances de sua vida política, desde a expulsão do
Uruguai, em 1977, até sua morte inopinada, em 2004, para a partir disso formular
ideias e visões de sua personalidade marcante, absolutamente coerente com suas
verdades e intuições – marcas que ficaram registradas na história do Brasil, onde
ele viveu, militou e lutou por mais de 60 anos na vida política partidária. Era um
soldado de seu próprio destino histórico e político.
Apesar do trabalho árduo e prolongado, foi uma grande satisfação podermos
nos debruçar sobre a figura ímpar de Brizola, que se destacou no tabuleiro da
política brasileira, a partir da década de 50, durante o processo político que
culminou com o Golpe civil-militar de 1964.
O que mais chamou nossa atenção foi o fato de Brizola ter sido um trabalhista
em tempo integral. Nada o impedia de promover e divulgar, sem diletantismo,
suas ideias e políticas sobre a via do trabalhismo brasileiro, que, com o Encontro de
Lisboa e a Carta de Lisboa, passou a ser chamado de “caminho brasileiro para o
socialismo democrático”, expressão que ele mesmo cunhou e permanentemente
lembrava aos seus velhos e novos companheiros. Certa vez, diante de Doutel de
Andrade e de José Gomes Talarico, Brizola disse enfaticamente: “Nascemos e
vamos ser enterrados trabalhistas.”
Estas são as nossas memórias. Com elas queremos contribuir para que o papel
que Brizola desempenhou na política brasileira e na política internacional seja
mais uma vez reconhecido. Inovador em suas administrações, convincente em
suas pregações – pois era um grande e fluente orador –, Brizola permanece no
inconsciente coletivo brasileiro. As histórias que coletamos, as lembranças dos
mais velhos e dos mais jovens, – muitas vezes recolhidas em entrevistas informais,
algumas concedidas até por email – constituem-se de material inédito e raro e que
apresentam Brizola como um líder eminentemente preocupado com a libertação
do Brasil, com sua autonomia e independência de qualquer ideologia e de qualquer
poder internacional.
As críticas de que Brizola não “pensava” e de que não tinha uma estratégia
política faziam parte do discurso de seus opositores, que tentaram diminuir sua
importância e grandeza. Não era um nacionalista de meia-tigela, mas um político
que pensava e se dedicava, em tempo integral, a dar sentido à sua amada nação, o
Brasil. Verdadeiramente um patriota como já não se encontra mais!
Ao leitor, os nossos melhores votos de boa leitura.