Brizola

Clóvis Brigagão · Capítulo 14 de 30

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Brizola

A “cadeira vazia” do Brasil na Internacional Socialista

 

Durante o regime militar, tudo que cheirasse à política internacional podia ser

considerado subversão. Se ao internacional adicionava-se socialista ou comunista,

aí então, o pau comia, prisões eram certas, acompanhadas de torturas e mortes. No

caso da Internacional Socialista (IS), conhecida também como a II Internacional, a

história é pouco conhecida no Brasil. Originalmente, fora constituída em 1889 por

partidos operários independentes e com relações flexíveis entre si.

Com a Revolução Bolchevique, de 1917, o movimento operário dividiu-se

definitivamente: comunismo de um lado, social-democracia ou socialismo

democrático de outro. Lenin, tão logo tomou o poder na União Soviética, criou a

Internacional Comunista, que viria a ser a mãe de todos os conhecidos Partidos

Comunistas, inclusive do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Reformatada em 1923, em Hamburgo, a IS iria sofrer nova divisão com os

dramáticos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Passada a tempestade

nazifascista, ela foi reconstruída em Frankfurt (1951), reinaugurando nova agenda:

apoiar os partidos social-democratas, majoritariamente europeus. Nos anos 70, foi

decisivo seu apoio aos socialistas que se restabeleceram nos escombros das

ditaduras, como em Portugal com Salazar e na Espanha com Franco, abrindo

caminhos para as novas lideranças, a de Mário Soares e a de Felipe González.

Até 1976, a IS praticamente não teve envolvimento regular com a América

Latina. A partir de quando Willy Brandt (nascido Herbert Ernst Karl Fraham), ex-

chanceler da Alemanha (1969-74), Prêmio Nobel da Paz (1971) e criador da

Ostpolitik – relaxamento com o Leste comunista – foi eleito presidente no XIII

Congresso da IS, Genebra (26-28/11/1976), a IS nunca mais seria a mesma.

Willy Brandt, com sua larga visão, entendia que o mundo ficava, cada vez mais,

interdependente e conectado e que as lutas democráticas seriam decisivas em todas as partes. Convidado pelo Banco Mundial em 1977, Willy Brandt presidiu a

Comissão Independente para Questões de Desenvolvimento Internacional, cujo

relatório final foi entregue em 1980, conhecido como Relatório Norte-Sul ou

Relatório Brandt. Reler o Relatório é refazer os caminhos da política internacional

dos anos 80 até praticamente os dias atuais. São temas e políticas internacionais –

com diagnósticos e recomendações – que ainda afetam grande parte das pessoas

no mundo.

Nele, Brandt apontava para os problemas do século XXI. Mas os ouvidos

estavam atentos quase que exclusivamente para o conflito entre as duas grandes

potências, EUA e União Soviética. Foram poucos os que ouviram suas advertências

para o perigo explosivo gerado pela discrepância entre países ricos e pobres. Não

era a única causa do problema, mas contribuiu para o aumento, inclusive, do

terrorismo, instrumentalizado pelo fundamentalismo religioso.

Além disso, a América Latina, deixada à sua própria sorte e como área de

influência dominada pelos norte-americanos – à exceção de Cuba, pró-União

Soviética – deveria merecer tratamento especial. Dentro de seus limites passaria a

ser influenciada pela concepção e prática democráticas da Internacional

Socialista.74

No Brasil, a história dos partidos políticos e suas relações internacionais terá,

ainda, de ser escrita.75 Na esfera da IS, desde os anos 50, já se tentava abrir contatos

com partidos políticos brasileiros.76 Nos arquivos do excelente Instituto

Internacional de História Social (IIHS), em Amsterdã, existe correspondência do

secretário-geral da IS, desde 1962, com maior intensidade em 1963: conjunto de

correspondência com lideranças do Partido Socialista Brasileiro e, especialmente,

com o Partido Trabalhista Brasileiro.

O secretário-geral da IS da época, o inglês Albert Carthy, escreveu ao então

deputado Almino Afonso (líder do PTB na Câmara dos Deputados), ao professor

Alberto Guerreiro Ramos (como suplente, substituiria Leonel Brizola na Câmara

dos Deputados quando este foi cassado; o próprio Guerreiro Ramos logo depois

também seria cassado, indo viver nos EUA) e ao Pelópidas Silveira, ex-vice-

governador de Pernambuco e então prefeito de Recife, do Partido Socialista

Brasileiro.77

Da documentação encontrada no IIHS há uma lista de importantes contatos no

Brasil redigida pela IS, em janeiro de 1963: Pelópidas Silveira (prefeito de Recife,

PSB), Freitas Nobre (vice-prefeito de São Paulo, PSB), Aurélio Viana (senador pelo

antigo estado da Guanabara, pela coligação PSB/PTB), Agostinho Rito (ex-

secretário-geral do PSB e da secretaria da presidência da Petrobras), Vamberto

Lopes de Morais (Sudene, PE, PSB), Febus Gikovate (presidente do PSB de São Paulo),

João Chakian (líder da Juventude Socialista do PSB, São Paulo) e Cleo Bernardo

(presidente do PSB no Pará e deputado na Câmara dos Deputados).

Da lista do PTB: Leonel Brizola (deputado eleito pelo Rio de Janeiro), Almino

Afonso (líder do PTB na Câmara dos Deputados, Amazonas), Guerreiro Ramos

(sociólogo, suplente de deputado federal pelo PTB, Rio de Janeiro); três ministros do

governo Goulart: Hermes Lima (ministro das Relações Exteriores, PSB), João

Mangabeira (ministro da Justiça, PSB) e San Tiago Dantas (ministro da Fazenda,

PTB). As cartas são dirigidas, uma para Almino Afonso (s.d., 1963), duas para

Alberto Guerreiro Ramos (28/11/63 e 6/12/63) e uma para Pelópidas Silveira (31/1/63).

Há também uma carta assinada pelo deputado trabalhista inglês John B. Hynd

para David Ennals, Departamento Internacional do Partido Trabalhista, da Grã-

Bretanha (com cópia para o secretário-geral da IS, Albert Carthy). O assunto refere-

se à viagem de deputados trabalhistas da Grã-Bretanha (e de países escandinavos)

a Brasília para participarem da Conferência Interparlamentar encerrada em

novembro de 1963. Na ocasião foram mantidos contatos com representantes do

PTB com objetivo de estabelecer linha de ação parlamentar no plano internacional

e defender teses políticas comuns pela ação parlamentar.

A tônica: abrir canais regulares de contatos, programar mecanismos de

cooperação, compartilhar visões comuns para solução dos problemas presentes e

futuros do Brasil e da América Latina. Em particular, incentivar os dois partidos a

ingressarem na Internacional Socialista, resguardando as características e o modo

de pensar dos trabalhistas e dos socialistas brasileiros com os partidos socialistas e

social-democratas europeus da IS.

Conclusões dessa inusitada correspondência internacional:

(a) Havia grande motivação para estreitar os laços entre a IS e os partidos

populares brasileiros (PTB e PSB);

(b) Dava-se ênfase à associação, na condição de partidos observadores, entre a

IS e os dois partidos, mencionando que outros partidos similares (como a Ação

Democrática da Venezuela) estavam na mesma situação;

c) Ficou acertado que, em março de 1964, a IS credenciaria um representante da

secretaria-geral com a missão especial de vir ao Brasil para estreitar os laços… mas

o Golpe Militar de 1964 paralisaria a execução do plano de ação.

Alguns anos antes, Brizola, como prefeito de Porto Alegre, visitou Willy Brandt,

então prefeito eleito de Berlim, e os dois mantiveram estreito contato, analisando o

contexto internacional referente ao Brasil, à América Latina, aos Estados Unidos e

à Europa. Brandt confirmou, ainda, que eles se encontraram quando Brizola estava

no exílio, no Uruguai.78

Os novos contatos, pelo menos com o Brasil, só foram retomados 15 anos mais

tarde, diante da visão global da IS/Willy Brandt, da nova conjuntura internacional

– principalmente nos Estados Unidos, com o presidente Carter e sua política de

direitos humanos – e do momento político brasileiro, a partir da expulsão de

Brizola do Uruguai.79

Nos arquivos da IS no IIHS/Amsterdã, Clóvis Brigagão encontrou

correspondências entre a cúpula da IS com altos membros do governo Carter.

Nelas, pode-se verificar o interesse do governo Carter para que a IS participasse e

influenciasse o processo de redemocratização na América Latina. A partir de

meados da década de 70, a Internacional Socialista intensificou suas missões

(Mário Soares, Felipe González, representação de Olof Palme, primeiro-ministro da

Suécia), além de ter promovido encontros, congressos etc. por toda a região.

Ampliou seus contatos com partidos políticos que se tornariam associados à IS

(observadores, consultivos e membros plenos).

Líderes latino-americanos tornam-se futuros presidentes de países governados

pelos partidos ligados à IS, como Raúl Alfonsín (Argentina), Alan García (Peru),

César Borgia (Equador) e alguns outros (da América Central e Caribe) que tiveram

apoio, direto ou indireto, da Internacional Socialista. A exceção, que não estava no

programa, foi Leonel Brizola, que não chegou à Presidência do Brasil.

No caso do foro da IS havia, de parte de nossos partidos políticos, falta de

conhecimento ou interesse político e ideológico. Para o MDB, a aliança política de oposição permitida pela ditadura, a IS era considerada irrelevante. Até então não

havia, praticamente, nenhuma articulação política a fim de se estabelecer contato

– e muito menos associação. Para alguns políticos oposicionistas a palavra

socialista seria, automaticamente, confundida pelos militares como comunista.

Para outros, o Brasil não deveria ter nenhum interesse nessa associação com

“revisionistas” sociais-democratas europeus, bem como do resto do mundo.

Aquela cadeira era percebida como ideia fora do lugar, distante – quando não

estranha – e irrealista!

Foto: Carlos Contursi

 

Brizola e Olof Palme no gabinete do primeiro-ministro sueco.

 

No Brasil, com a Guerra Fria instalada e a Doutrina de Segurança Nacional em

vigor, considerava-se proibida qualquer associação às organizações político-

partidárias internacionais. Os alvos eram o Partido Comunista Brasileiro (PCB),

vinculado a Moscou, ou o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em sua relação com

a China de Mao Tsé-tung.

Durante esse período, como já observamos, o PTB não mantinha vínculos com a

Internacional Socialista, embora houvesse troca de correspondência entre

dirigentes da IS e líderes trabalhistas, desde os anos 60. Comparativamente, o

extinto PDC (Partido Democrata Cristão) também não mantinha vínculos formais

com a Internacional Democrata Cristã (hoje Internacional do Centro Democrático).

Aliás, ambas, a IS e a IDC/ICD, tiveram sua origem na tradição alemã.

No período da ditadura, a vinculação de qualquer partido político brasileiro com

organizações políticas internacionais era considerada crime contra a segurança

nacional. No entanto, vários partidos socialistas e sociais-democratas de outros

países latino-americanos (como o Partido Socialista Uruguaio, um dos mais

antigos do continente, e o Partido Socialista Chileno) mantiveram seus vínculos

com a IS, mesmo durante a ditadura naqueles países.

Brizola, logo ao chegar a Lisboa, declarou que o trabalhismo brasileiro tinha

afinidades com os partidos sociais-democratas europeus e que ele iria buscar

contatos com essas lideranças. Era um ato arriscado, mas chegara o momento de

agarrar a oportunidade e “pegar o trem” que passava. Era hora de sentar na

cadeira vazia. Suas conversas com Mário Soares e com o PS português seguiram

essa linha de raciocínio, até que a oportunidade pôde, enfim, ser concretizada.

Alguns dias após sua chegada, em almoço na casa de Mário Soares, em Sintra, o

assunto foi finalmente abordado e a convergência, criada. Brizola passaria a

frequentar as reuniões dos socialistas europeus – que ampliava a ação política

além do Velho Continente – na condição de observador e líder nacional do PTB, que

se reorganizava.80

Mário Soares diz que, dos líderes socialistas europeus, o que mais gostava de

Brizola era realmente Willy Brandt.

— Os outros tinham alguma reserva em razão da imagem de comandante que

Brizola mantinha. Mitterrand nunca gostou muito de Brizola, o Partido Socialista

francês tinha, inicialmente, resistência; também o Felipe González tinha certa

resistência. Eu [Mário Soares] por diversas vezes lhe disse: “Ó Brizola, você tem que

atualizar seu vocabulário”. Ele me pediu dois passaportes: um para suas viagens

pela Europa e América Latina e o segundo para visitar o Leste Europeu: não queria

que soubessem para onde iria e o que faria.

Mas Brizola, durante sua permanência na Europa, não pisou no então território

europeu sob o controle da antiga URSS.

De Lisboa e com passagens por Nova York, entre 1978 e 1979, Brizola viajou

incansavelmente. Era mesmo admirável a sua resistência, fôlego e sentimento de

estar cumprindo, agora mais adulto e maduro, sessentão, sua responsabilidade

histórica de reconduzir o trabalhismo a serviço de seu país. Dupla jornada: manter contatos, ter encontros e realizar entendimentos com líderes e dirigentes europeus

da Internacional Socialista e, ao mesmo tempo, reencontrar velhos companheiros

e conhecer novos exilados, sempre com seu realejo a tiracolo.

Instalado em Nova York, Brizola iniciou os primeiros contatos com os líderes

dos partidos que compunham a Internacional Socialista. Seu primeiro interlocutor

foi o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira. Brizola havia passado de suas

primeiras notas do realejo, sobre a Anistia, a entoar as notas da reorganização do

trabalhismo.81

Ele havia pedido a Trajano que indicasse alguém que pudesse assessorá-lo e que

falasse inglês e alemão. Pediu que também procurasse Franklin de Oliveira, que

havia trabalhado com ele no Rio Grande do Sul e agora era assessor do Dr. Roberto

Marinho nas Organizações Globo. Acreditava que alguém pudesse intermediar a

vinda de Franklin (sempre acentuando o lin com força do acento agudo) para Nova

York, sem prejuízo de seu salário naquela empresa. Categoricamente, afirmava que

seria por pouco tempo. Trajano procurou um amigo comum para falar com o Dr.

Roberto Marinho e o próprio Franklin de Oliveira. Mas este já não era mais aquele

que inflamava a plateia estudantil dos anos 60.

Fisicamente não mudara muito, mas o espírito era de um guerreiro retirado e

sem grande ânimo para encetar nova marcha.

— Não posso — dizia, como que tentando convencer a si mesmo do absurdo que

seria àquela altura repetir o que fizera 15 anos antes. — Eu caí uma vez nessa

conversa do Brizola de apenas alguns meses. Foi assim que ele me convenceu a ir

para o Rio Grande. Acabei ficando lá por dois anos. Custei a reorganizar a minha

vida, tenho por ele profunda admiração e respeito, mas não há a menor hipótese

de eu aceitar o convite. Fico honrado, mas não posso aceitar.

O amigo comum saíra com esta:

— Não há a menor possibilidade de o Dr. Roberto liberar o Franklin para ir a

Nova York. O Brizola está louco. Ele tem que entender que o tempo dele já passou.

Ele não tem mais a importância que justificaria um gesto desses do Dr. Roberto.

Em parte ele tinha razão, pois dificilmente Roberto Marinho enviaria Franklin

para assessorar Brizola em Nova York, mas se enganava quanto à atualidade do personagem político Brizola e de sua importância na política brasileira nas

próximas duas décadas e meia até sua morte.

O recado foi transmitido ao Sr. Guaragna, no Rio Grande do Sul. Havia a

necessidade de enviar a Nova York um colaborador que falasse inglês e alemão e

que pudesse permanecer alguns meses acompanhando Brizola em seus contatos

europeus. A escolha recaiu sobre o cientista político Miguel Bodea, jovem de

origem alemã, que já vivera na Europa, afinado politicamente com o pensamento

trabalhista e estudioso das lutas sindicais e trabalhistas no Brasil desde os

primórdios da industrialização no século XIX.

A dificuldade seria custear a ida de Bodea para Portugal. O amigo comum José

Newton Machado, dirigente do MDB e ligado ao deputado Pedro Simon, presidente

do MDB-RS, levou Trajano até a praia Rainha do Mar para que este solicitasse o

apoio do deputado à ida de Miguel Bodea para acompanhar Brizola.

Pedro Simon foi cordial, com seu inseparável cachimbo. Indagou sobre o novo

exílio de Brizola, seu estado de ânimo e sua saúde. Depois de escutar o pedido disse

que iria apoiar a viagem de Bodea. Aproveitou a ocasião para tecer comentários

elogiosos sobre o papel de Brizola na política gaúcha, sobre seu governo realizador

e sobre os fatos que determinaram o exílio dos melhores quadros políticos do país.

Virou-se, então, para Trajano e falou:

— Diga ao Dr. Brizola que eu estou aqui guardando a trincheira; eu sou um

político de quarta linha e só cheguei à posição que ocupo hoje porque foram

cassando, cassando…

Modéstia do então deputado. Na verdade, todo político um dia esteve na quarta

linha e são poucos os que chegam às primeiras fileiras. Pedro Simon foi um deles e

até hoje se mantém como um dos principais líderes do Rio Grande do Sul, com

expressiva projeção nacional.

 

Entrada na Internacional Socialista

 

De posse de seu passaporte português, Brizola foi recebido oficialmente pela IS

na reunião de Hamburgo, em fevereiro de 1978, menos de um mês após o seu desembarque no continente europeu. Nessa ocasião, além de Neusa, viajou o casal

Trajano Ribeiro e Maria Ribeiro Goulart, sobrinha de Neusa, que havia pedido sua

presença na viagem. Foram para Hamburgo via Transportes Aéreos Portugueses

(TAP) até Frankfurt, onde tomaram o voo da Lufthansa para Hamburgo. O

aeroporto de Frankfurt estava ostensivamente guardado por tropas armadas com

fuzis e metralhadoras – dispositivo dissuasório para qualquer tentativa do grupo

Baader-Meinhoff –, mesmo assim ao grupo não pareceu muito estranho a não ser

por se tratar de um aeroporto europeu e não latino-americano. Brizola observou:

— Pelo visto, tá preto o olho da gateada por aqui. — Expressão sulista usada

para definir uma situação crítica.

Em Hamburgo, Brizola hospedou-se no mesmo hotel onde se realizaria a

reunião da Internacional Socialista. Durante toda a viagem, bem ao seu estilo, ele

simulava o pronunciamento que faria e os diálogos que teria com Willy Brandt. Ele

achava importante que os europeus compreendessem o Brasil, suas

peculiaridades, e também a América Latina; queria saber o que seria e o que não

seria possível aplicar em nosso país das experiências europeias do pós-guerra,

especialmente as desenvolvidas pelos partidos socialistas europeus, nas recentes

experiências portuguesa e espanhola.

Esses exercícios se estenderam noite adentro e ainda no dia seguinte no café da

manhã, dia da abertura da reunião da IS. Brizola era alguém que os europeus

identificavam como a mais importante liderança latino-americana naquele

momento. Sua passagem por Nova York e o destaque que as mídias brasileira e

estrangeira deram ao fato não passaram despercebidos pelas lideranças europeias,

quanto mais não fosse pelo valor estratégico para a expansão dos interesses

europeus que a América Latina, e particularmente o Brasil, passava a representar,

quinhentos anos após a primeira e vitoriosa incursão.

Basta um lançar de olhos sobre o atual panorama econômico brasileiro para se

identificar a presença europeia marcante – e em alguns setores preponderante –

na economia brasileira: energia elétrica, transportes, comunicações, turismo e

siderurgia, para citar apenas os mais notórios. Isso talvez explique o entusiasmo

com que Brizola foi acolhido no foro da Internacional Socialista, naquele momento

impregnado pelos ideais libertários que embalaram a Revolução dos Cravos e a retomada da democracia na Espanha. Isso sem falar da queda, em estilo dominó,

de cada uma das ditaduras implantadas meticulosamente pelos interesses dos

Estados Unidos desde o Panamá até o Uruguai, passando pelo Chile de Pinochet,

pela Argentina dos milhares de desaparecidos e do Brasil. O Paraguai,

infelizmente, permaneceu sob as botas do ditador Stroessner por um tempo ainda

longo.

Não escapava às lideranças da IS a trajetória nacionalista de Brizola e sua

posição crítica, particularmente em relação à presença predatória de capitais

americanos no Brasil, o que o levou a nacionalizar, nos anos 50/60, quando

governara o Rio Grande do Sul, nada menos que dois gigantes norte-americanos, a

ITT e a Bond and Share. Na verdade, a entrada, naquela manhã ensolarada de

Hamburgo, de Brizola no enorme salão onde se reunia a nova Europa –

completamente refeita da tragédia por que passara 35 anos antes – significava um

reencontro entre a velha mãe e sua filha América, afastadas durante décadas.

Para Brizola era finalmente a possibilidade de falar ao mundo e ao Brasil do alto

de uma das mais respeitadas e prestigiosas tribunas, consagrado pelas principais

lideranças do mundo. Ali ele estava não como um simples dirigente partidário

burocrático, mas como líder de enorme parcela do povo brasileiro, como guardião

de um projeto de nação, socialista e democrático, em consonância com o ideário da

Internacional Socialista, da qual não tardaria em se tornar um dos vice-

presidentes. Mário Soares foi quem o respaldou nessa entrada junto à comunidade

social-democrata internacional. Seu primeiro pronunciamento foi sobre a

realidade política e o panorama social e econômico brasileiro.82

Da primeira vez que esteve na Alemanha, como todo turista em Hamburgo,

naturalmente visitou St. Pauli, o bairro da prostituição, que na Alemanha assume

um aspecto completamente distinto dos equivalentes no Brasil. Lá a prostituição

foi legalizada em 1950. As mulheres exibem-se bem trajadas, em vitrines, como se

fossem mercadorias em uma loja de departamentos. Algumas ostentam grandes

piteiras, em pose de estátua. Outras se fazem acompanhar de poodles

compenetrados em sua função publicitária. Um verdadeiro horror para os

sentimentos e os pontos de vista dos direitos humanos, das mulheres e dos

homens de então e, ainda mais, agora.

O bairro é composto quase que somente de casas. As ruas, impecavelmente

limpas, não denunciam a atividade que ali se desenvolve, com a presença das

mulheres nas vitrines. Cabarés e boates apresentam shows variados. Brizola, na

noite do encerramento da reunião da Internacional, anunciou para Neusa, Trajano

e Maria o programa turístico:

— Vamos jantar e depois vamos a St. Pauli assistir a um show.

Todos concordaram e ele ficou satisfeito.

Sua presença na reunião da IS fora bem-sucedida. Foi saudado por diversos

líderes socialistas em suas intervenções, especialmente por Willy Brandt e Mário

Soares, seu anfitrião em Portugal, que o chamava de Camarada Brizola. Fez, como

sempre, um pronunciamento longo e, mesmo assim, agradou a audiência. Foi

acolhido e festejado. Estava feliz e queria agora dar atenção à família e demonstrar

algum conhecimento do lugar.

Queria talvez reviver a experiência do jovem e recém-vitorioso prefeito de Porto

Alegre, que, 20 anos antes, estivera ali e que na ocasião não imaginara retornar,

especialmente como exilado, pavimentando com cuidado seu caminho de volta ao

Brasil.

Lá estavam os quatro, representando duas gerações, assistindo a um espetáculo

que, visivelmente, não era o que Brizola imaginava proporcionar aos seus

acompanhantes. Tratava-se de um show erótico, com um casal de atores

completamente nus que se embolavam no palco, ao som de uma música sugestiva,

numa coreografia escandalosa para a geração de Brizola, mas nem tanto para a de

Trajano e a de Maria, protagonistas da revolução dos padrões comportamentais de

1968.

Brizola começou a inquietar-se na cadeira. Subitamente observou:

— No meu tempo não era assim. Isto está brabo. — E em seguida exclamou: —

Não dá. Isto não dá. É melhor sairmos, vamos a outro lugar.

Quando eles se retiravam, encontraram Peña Gómez, o líder socialista da

República Dominicana que chegava com outro grupo de amigos. Eles o

cumprimentaram rapidamente e deixaram St. Pauli.

A primavera de 1979 chegara. Brizola, mais uma vez, foi convidado para

participar da reunião da IS em Estoril, com seu famoso cassino e seus turistas. Então pediu a Uchoa (professor Pedro Celso Uchoa Cavalcanti) que escrevesse um

trabalho para seu pronunciamento na manhã seguinte. Todos se hospedaram no

hotel da reunião da IS. À noite convocou Trajano e leu o excelente texto escrito por

Pedro Celso em voz alta – como se estivesse ensaiando seu pronunciamento.

Terminada a leitura perguntou:

— Que tal?

— Achei excelente, está conciso, sem prejuízo dos temas importantes como as

identidades programáticas, a questão da democracia e o trabalhismo como

caminho brasileiro para socialismo democrático.

— É, gostei do texto — replicou Brizola —, vamos ver como me saio amanhã.

Foto: Carlos Contursi

 

Brizola em reunião da IS, com o líder Willy Brandt, primeiro-ministro da Áustria; Bruno Kreisky, o líder do Partido Trabalhista de Israel; Shimon Peres; Bettino Craxi, primeiro-ministro da Itália, do PSI, entre outros.

 

Na manhã seguinte, após o café em companhia de Mário Soares, se dirigiram ao

salão da reunião. Pedro Celso e Trajano sentaram-se atrás da cadeira de Brizola.

Abertos os trabalhos, foi dada a palavra ao representante Guillermo Ungo, da

Frente Farabundo Martí de El Salvador, que falou por mais de 40 minutos. A seguir,

o presidente da sessão passou a palavra a Brizola. Pausadamente, Brizola ensaiou

uma análise da conjuntura brasileira, entremeando alusões históricas com fatos

recentes da política do país. Pedro Celso e Trajano entenderam ser uma introdução

e que logo Brizola lançaria mão do texto previamente preparado.

Mas o tempo foi passando, passando, as imagens e metáforas se sucedendo, até

que, transcorrida meia hora, nada do texto escrito apareceu. Aí aconteceu outro

episódio a ser registrado: o presidente da Mesa enviou a Brizola um bilhete

alertando-o de que seu tempo se esgotara. Brizola ignorou o bilhete e seguiu seu

discurso… Mais dez minutos e o presidente o interrompeu, em espanhol:

— Señor Brizola, lamento, su tiempo está agotado, por favor concluya su

ponencia 83 .

Lentamente, Brizola reinicia seu discurso:

— Eu venho de um país, pequenino, lá do sul da América, um país sem muita

relevância e que não merece ser ouvido nesta reunião. Diante desta

responsabilidade, eu peço licença para me retirar, Senhor Presidente. — E

levantou-se para sair. Em pânico, o presidente da sessão se esforçou:

— Por favor, camarada Brizola, no entienda mal mis palabras. Usted tiene el

tiempo que quiera para concluir su ponencia, además su presencia para

nosotros es muy importante, como el gran país que usted representa. 84

Brizola voltou a sentar-se, meio contrariado, mas retomou seu discurso, logo

concluído.

Irritados com aquela situação constrangedora que, por pouco, não resultara

num rompimento de Brizola com a Internacional Socialista, Pedro Celso e Trajano

partiram imediatamente para Lisboa. Trajano retornou a Estoril na manhã

seguinte, e Brizola, ao vê-lo, disparou rindo:

— Foram para a boemia, não?

— Não, governador, tínhamos uns problemas para resolver em Lisboa.

— E o professor?

— Não virá, governador.

Dois dias depois, Pedro Celso reencontrou Brizola no hall do Hotel Flórida e eles

conversaram como se nada tivesse acontecido, embora ambos estivessem

constrangidos.

Em outra ocasião, Brizola, acompanhado de Darcy Ribeiro, fora convidado por

Felipe González para participar de um importantíssimo Congresso do PSOE (o

XXVIII, em 19 de maio de 1979) em que ficou legitimada a liderança dos “filipistas”

contra marxistas e outras correntes mais à esquerda. Felipe González ouviu,

calado, muitas críticas, algumas severas, contra ele e sua liderança. E, no final,

pediu desculpas e ganhou o apoio do PSOE.

Quando voltou do XXVIII Congresso do PSOE, Brizola disse ter ficado, ao mesmo

tempo, espantado e admirado com o debate no interior do PSOE, durante o qual o

termo marxista fora suprimido e a liderança de Felipe González contestada. E em

seguida com a autocrítica do próprio diante do Congresso repleto, foi reconduzido

à liderança e à direção do PSOE por mais algumas décadas.

Nesse contexto de namoro com a IS, Brizola teve um marcante encontro secreto

– não divulgado pela imprensa – com o presidente da IS, Willy Brandt, na Suíça.

Brandt planejava visitar o Brasil e pediu a Brizola que o colocasse a par da situação

política brasileira, da política de Geisel, do projeto de anistia e da reorganização

partidária. Novamente, Pedro Celso Cavalcanti foi convocado por Brizola para

preparar um documento a fim de que Brandt, caso quisesse, fizesse uso dele

durante a planejada visita ao Brasil, que não ocorreria em razão de sua saúde, que

se tornara frágil.85 Em algumas entrevistas dadas a jornais brasileiros, entre 1979 e

1980, Brandt fala abertamente de sua aproximação com Leonel Brizola,

mencionando o PTB, sem, contudo, deixar de citar líderes oposicionistas do MDB.

Inicialmente, em 1º. de junho de 1979, em entrevista a um grupo de jornalistas

brasileiros que visitava a República Federal da Alemanha, Brandt disse ter

conhecimento de que o ex-governador gaúcho Leonel Brizola estava tentando

reorganizar o seu partido (PTB).86 Respondendo sobre seu contato com Brizola,

Brandt disse:

— Não tenho visto Brizola nos últimos meses. Já o conheço há muitos anos,

quando eu era prefeito de Berlim Ocidental e ele, então prefeito de Porto Alegre, me

visitou.

“Soube depois que pretende reconstituir seu partido a partir de Lisboa, mas é um

processo em que não me imiscuo porque não quero interferir em assuntos internos

do Brasil. Mas acompanhamos com grande interesse o processo de liberalização e,

espero, de democratização, porque consideramos o Brasil um importante parceiro

futuro na cooperação internacional.87

Outra história inesquecível desse período foi a reunião – poder-se-ia dizer,

secreta – na Suécia, já diante do máximo do inverno sueco, início de 1979. O então

chanceler Bruno Kreisky, austríaco e judeu, propôs que a Organização de Libertação

da Palestina (OLP), liderada por Yasser Arafat, entrasse na IS na condição de

observador, com a oposição clara de Shimon Peres, líder dos trabalhistas

israelenses.

Mário Soares havia convidado Brizola a participar, como observador, daquela

reunião, e Clóvis Brigagão o acompanhou como assessor e intérprete para o inglês,

principalmente. Brigagão costumava resumir bem as falas de Brizola, mas este achava que Clóvis não dava todas as palavras que estavam sendo ditas. E o

Brigagão lhe respondia que o inglês é uma língua que reduz muito as frases,

mesmo assim sentia-se que Brizola não ficava satisfeito com a explicação. Naquele

clima de inverno sueco, o ambiente era demasiadamente tenso. Alguns eram

partidários da ideia de se aceitar a entrada da OLP, inclusive Willy Brandt, que

presidia a reunião com Kreisky. Outros, como o PS francês de François Mitterrand,

não estavam tão firmes em se alinhar com a proposta. Arafat encontrava-se

hospedado no mesmo local, mas fora do plenário da reunião, esperando o

momento propício para ser convidado a entrar no salão e, como observador, ser

homenageado pela cúpula da IS.

A discussão seguia seu curso, uns a favor, outros contra a OLP e Arafat. Durante

um intervalo para o café e o descanso necessário, dentro daquele ambiente

demasiadamente crítico, Shimon Peres e seus companheiros vieram conversar

com Brizola e saudá-lo de forma amigável e até efusiva. Clóvis fez a tradução

resumida da conversa para Brizola e parecia que eles estavam em um ambiente

fraterno. No final da tarde, todos já bastante esgotados e sem que se chegasse a

uma conclusão sobre a entrada ou não da OLP na IS, Brizola, subitamente, levantou

a mão e pediu a palavra.

Clóvis lembra-se de ter ficado arrepiado e de ter lhe soprado uma frase:

— Governador Brizola, esse assunto não é…

Mas ele já iniciara sua prosa… Partiu da constatação de que o fenômeno do

terrorismo de grupos deveria, sim, ser totalmente condenado e alongava seu

discurso – com a tradução de sentido geral e curta que lhe desagradava – com

comparações e casos… Até que, passados mais de dez minutos, destacou que havia

também que se condenar o terrorismo de Estado, referindo-se ao caso de Israel…

A reação foi instantânea… o grupo dos trabalhistas israelenses, liderado por

Shimon Peres, levantou-se de suas cadeiras, abrindo as portas do salão, batendo-as

com força e retirando-se do plenário… Alguns membros de outros partidos

movimentaram-se pela sala. Bruno Kreisky, que comandava a reunião na mesa

central, viu-se diante de uma situação descontrolada. Instalou-se uma confusão e a

reunião não mais voltou a ter ordem. A dispersão foi, pouco a pouco, se alastrando e o final foi melancólico, sem que se aprovasse qualquer resolução. Brigagão

apenas sussurrou no ouvido de Brizola:

— Governador, esse assunto não era para nosso calibre…

E ele, resposta pronta:

— Mas temos que nos posicionar sobre todos os assuntos que nos interessam.

Além da história sobre a OLP, toda a movimentação internacional do

trabalhismo brasileiro sempre foi marcada por características singulares. Na

Conferência Permanente de Partidos Políticos da América Latina (COPPPAL), por

exemplo, tanto a presença de Brizola como as posições do PDT eram ouvidas com

muita consideração. O presidente da COPPPAL, senador Carvajal Moreno, do PRI,

sempre dava a Brizola distinção ímpar; suas opiniões, em geral, eram consideradas

como definitivas para o conjunto da atuação dos demais partidos ligados à IS no

cenário latino-americano.

Algumas histórias – pelo menos no período em que Brigagão tocou a área de

Relações Internacionais, no primeiro período do PDT – podem ser consideradas

interessantes, quando não pitorescas.

Certa vez, o Comitê da IS para a América Latina convocou reunião deliberativa

sobre a ação que a FSLN (Frente Nacional de Libertação Sandinista, da Nicarágua)

movia contra o Estado da Costa Rica (e seu partido no governo, o Partido de

Libertação Nacional, PLN) na Corte Internacional de Justiça, devido à histórica

situação de a Costa Rica apoiar a ação dos contras dentro do seu território.

Lá estavam políticos europeus ligados a partidos-membros da IS, dirigentes da

própria IS, representantes de partidos afins da América Latina, e observadores,

como os sandinistas. A discussão toda marchava no sentido crítico à posição da

Costa Rica e do PLN contra os sandinistas. No café da manhã, antes da reunião, um

cubano foi até a mesa de Brigagão para “conversar” sobre a posição do PDT e de

Brizola, que, segundo ele insistia, certamente seria favorável à FSLN.

Ao ouvir as razões dos participantes contra a Costa Rica, chegou a vez do

Brigagão opinar. Desenvolveu o seguinte raciocínio: primeiro, a IS não era o foro

apropriado para examinar tal ação entre um partido observador da IS e um Estado,

e que, portanto, tal debate ou discussão deveria ser realizado em outro foro mais

adequado; segundo, que o Partido de Libertação Nacional (PLN-Costa Rica), além de ser um dos primeiros partidos da IS na América Latina, era membro efetivo,

enquanto a FSLN era observador e, portanto, não tinha o mesmo poder de

deliberação no âmbito da IS; e terceiro, pediu aos participantes que encerrassem a

discussão e passassem a outros assuntos da agenda da reunião.

Claro, houve reações imediatas, e o ex-presidente da Venezuela, Andrés Pérez,

coordenador da mesa do debate, chegou a gaguejar ao tentar restabelecer a

discussão. Mas o ambiente já havia sido modificado pela posição de Clóvis, e

praticamente todos os demais partidos, da América Latina e da Europa, também

passaram a opinar favoráveis a esta visão.

A sessão terminou ali. O cubano logo veio até o Clóvis, bravo, o acusando de

traidor e ameaçando passar uma mensagem ao Brizola, reportando aquela

posição, que não seria a mesma dele. Na chegada ao Brasil, Brizola esperava pelo

Clóvis no aeroporto do Rio com o Gessy Sarmento, e logo contou-lhe que fora

informado sobre a reunião, mas que o cumprimentava pela posição, que ele

também teria tomado.

Em outra ocasião, o homem forte do Panamá, general Omar Torrijos, que

assinara os dois novos tratados do Canal do Panamá com o governo Carter,

conhecidos como os Tratados Torrijos-Carter (1977), restituindo a zona do Canal à

soberania do Panamá, anunciara as primeiras eleições legislativas – depois de 12

anos – para que seu PRD (Partido Revolucionário Democrático) ganhasse força. O

PRD convidou então observadores da IS para acompanhar as eleições legislativas

em curso em agosto de 1980.

Como representante internacional do PDT foi o Clóvis. Ele se integrou ao grupo

de observadores, composto pela ex-presidente da Bolívia, Sra. Lidia Gueiler (1979-

1980), por um político do Equador (que provavelmente também fora presidente do

país), pelo senador chileno Anselmo Sule e por outro político do México (PRI). Na

manhã do dia eleitoral, eles foram recebidos pelo general Omar Torrijos, que

discursou sobre a importância daquelas eleições para seu país e também sobre a

importância de ter ali o grupo de observadores.

Muito bem. A missão daquele grupo era viajar por determinadas regiões

observando as eleições, sua lisura. Os observadores partiram para o aeroporto: lá

estava um aviãozinho bem pequeno. As seis pessoas (com o piloto) ficaram bastante apertadas e muito desconfortáveis. Depois de voarem durante uns 30

minutos, o piloto anunciou que entrariam em uma zona de turbulência – a estação

do ano era de frequentes tempestades, como de costume nos países da América

Central – e todos ali ficaram atentos. De fato, houve turbulência pela frente – e

possivelmente também por trás, pois o aviãozinho perdeu completamente o

controle e ficou a voar errático até que… foi arremetido e caiu justo em um campo

sem árvores… de plantação de batatas!

A não ser por escoriações sem grande gravidade, o aviãozinho ficou ali plantado

com as batatas que entravam em suas asas e, o grupo, depois de muito tempo à

espera de socorro do governo, voltou à Ciudad de Panamá sem ter “observado”

qualquer processo e muito menos qualquer zona eleitoral. À noite, o general

Torrijos os convidou para uma reunião, um jantar, pediu desculpas pela queda do

aviãozinho. O constrangimento era notório entre todos.

Numa noite de 1980, Brizola chama o Clóvis e diz ser necessário realizar uma

“missão especial”, pois só a ele poderia pedir algo de tamanha confiança. Mas não

lhe disse claramente do que se tratava, embora contasse uma história

transfigurada, segundo a qual um nome conhecido da mídia brasileira teria

enviado um mensageiro para o exterior e tal pessoa fora presa por agentes

federais… O mandante teria lavado as mãos, ou melhor, colgado o telefone quando

seu mensageiro pedia-lhe socorro.

Clóvis deveria chegar à Jamaica antes do comício final da campanha eleitoral,

decisiva para o representante do Partido Nacional do Povo (PNP), liderado pelo

socialista Michael Manley, e que ocorreria dali a alguns dias.88 No aeroporto do

Galeão, de terno e gravata, nervoso e preocupado, ele acabou comprando um

pacote de cinco quilos de café brasileiro para presentear Michael Manley. Desceu

no vigiadíssimo aeroporto de Miami sentindo calafrios… Passou pelo controle e, a

seguir, tomou o avião da Air Jamaica, chegando pouco menos de duas horas mais

tarde no aeroporto de Kingston, carregando a sua maleta com a mensagem e a

caixa de café.

Lá estava a sua espera a equipe de Manley. Foram direto para residência deste,

uma casa ao estilo inglês colonial. Em uma sala ampla e elegante, Clóvis entregou

a ele o recado do Brizola e, imediatamente, fez o gesto de mostrar-lhe a caixa de café trazida do Brasil… Caíram todos na gargalhada, inclusive Manley: não passara

pela cabeça de Clóvis que a Jamaica produz um bom café… Seria o mesmo que um

visitante ir a Minas e levar a algum amigo um queijo de… Minas…

Passado o vexame, foi para o hotel, descansou um pouco, e no início da noite o

apanharam para acompanhar Manley ao comício final da campanha, marcado

por extrema violência entre gangues. O lugar era espantosamente pobre, um

bairro popular com o nome de Cidade Espanhola (Spanish Town), uma grande

massa, muitos rastafáris, com um aparente clima de festa… certamente

esquentada pelo rum jamaicano.

Com algumas horas de atraso o comício começou. E a tensão também. Após os

discursos de vários candidatos, chegou a vez de Manley: ele acusava seu adversário

e seu grupo pela violência; um candidato a deputado pelo seu partido trabalhista

havia sido assassinado, sua viúva encontrava-se ali, bem próxima a Brigagão, e

iria discursar. Nesse clima quente, repentinamente, começa um pavoroso tiroteio

vindo não se sabe de onde… tiroteio forte, tiros de revólver… abaixa aqui, corre

dali… os seguranças de Manley pegam o Clóvis e o colocam direto no carro do

Manley. Ele pede que o levem direto ao hotel, onde não conseguiria domir,

pensando naquele tiroteio e no risco que havia corrido.

Logo de manhã Brigagão liga para seu contato, que veio apanhá-lo no hotel e

insistiu para que fossem a um bar do aeroporto, onde lhe ofereceu um rum servido

com leite… pavoroso… Brizola, junto com Gessy Sarmento, esperava por ele, pela

segunda vez, no aeroporto, e quando ele contou a história do café e do tiroteio os

dois riram muito. Brizola só queria informações e saber se a Jamaica era maior ou

menor que o estado do Rio. Mas Brigagão insistia:

— Mas, governador, o tiroteio foi feio e eu estava ali no palanque!

Com o regresso de Brizola ao Brasil, a associação com a IS continuou

prosperando. Logo após a perda da sigla do PTB, seu sucessor, o Partido

Democrático Trabalhista, tomou uma decisão pioneira na área internacional. De

fato, o PTB oficialmente não participou da IS. Com a perda da sigla em 1980 –

embora Brizola usasse o PTB em suas reuniões na IS, somente com o PDT foi que as

relações tornaram-se oficiais.

Primeiramente, criou-se o Grupo para Relações Internacionais, dentro da

Comissão Nacional Provisória, e mais tarde a Secretaria de Relações Internacionais.

O Grupo foi criado em reunião no dia 20 de agosto de 1980, tendo como convidados

o professor Nielsen Pires (Nova York), Maurício Paiva (Minas Gerais) e Beno

Burmann (Ijuí, RS). O mapa do Grupo ficou assim dividido: América Latina –

Francisco Julião e Theotônio dos Santos –; Europa do Leste – Theotônio dos Santos –;

Europa ocidental – Pedro Celso Cavalcanti, Bocaiúva Cunha e Moniz Bandeira –;

África e Oriente Médio – Abdias do Nascimento e Neiva Moreira –; Estados Unidos,

Canadá, Ásia e Igrejas – Herbert de Souza (Betinho); Lysâneas Maciel e Clóvis

Brigagão. Relações Internacionais Sindicais: Benedito Cerqueira. Foi aprovada a

indicação de Clóvis Brigagão como secretário-executivo de Relações Internacionais

do PDT.

Como registro, foram secretários de Relações Internacionais: Clóvis Brigagão,

Miguel Bodea, Roberto D’Ávila, Bocaiúva Cunha, Luiz Alfredo Salomão, Arnaldo

Mourthé, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) e o atualmente deputado federal

Vieira da Cunha (RS). O PDT foi pioneiro no Brasil em manter, sem interrupção, a

Secretaria Executiva de Relações Internacionais, com laços com a IS, assim como

com o seu Comitê para a América Latina e Caribe, com a COPPPAL e com outros

fóruns políticos partidários internacionais, inclusive agora com o Partido

Comunista Chinês (PCC).

Desde o período de 1978 até a morte de Brizola, em 2004, suas relações e as do

PDT com a IS foram marcadas por presença constante. Sempre havia motivação e

intensa participação, nas várias instâncias da IS: congressos, reuniões do conselho,

do bureau, reuniões temáticas etc. Além da constante presença de Brizola,

compareciam altos integrantes do Diretório e da Executiva Nacional, que, aliás,

elegiam os secretários de Relações Internacionais.

Frequentavam a IS deputados e senadores do PDT, sindicalistas e

representantes de movimentos sociais trabalhistas – negros, mulheres, índios. Os

discursos de Brizola – que não deixava quase nunca de meter a sua “colherada”,

como dizia – eram longos e com riqueza de análises. Para a opinião dos europeus,

além de não serem curtos, não eram, principalmente, muito objetivos. Mas todos o ouviam com respeito e admiração – até mesmo pelo seu característico estilo

discursivo –, e também com grande simpatia.

Houve pelo menos uma situação em que Willy Brandt reclamou de Brizola pelo

tempo que gastara, além do previsto, em seu discurso sobre a situação política e

econômica brasileira. Mas sempre causavam espanto suas análises políticas, sobre

temas nacionais e internacionais; seu estilo pessoal e sua abordagem, floreada e

irônica, sempre contando casos concretos. Em quase todos esses momentos, o PDT

levava seus documentos sobre posições da agenda da discussão, que eram

distribuídos durante os debates dentro da IS.

O processo de maior aproximação do PDT com a IS seguiu roteiro normal. Na

reunião de Viena, em 1985, o Bureau da IS decidiu recomendar ao Congresso o

pedido do partido para tornar-se membro consultivo. Em Lima, Peru (20-23 junho

de 1986), o XVII Congresso confirmou o status consultivo do PDT. Finalmente, será

no XVIII Congresso, em Estocolmo (20-22 junho de 1989), que o Presidium decidirá

mudar o status do PDT de membro consultivo para o de membro pleno.89

Desde seus primeiros contatos com a IS, Brizola afirmava que todos os partidos

políticos brasileiros, de cunho socialista democrático e os sociais-democratas,

deveriam se associar a ela. O presidente Mário Soares, em sua entrevista, foi

enfático quando afirmou como Brizola tinha a generosidade de nunca fazer

oposição a outros partidos brasileiros que quisessem ou viessem a se associar à IS.

“Brizola era um homem de grande abertura política.” Ele não mantinha nenhum

espírito exclusivista e dizia que, quanto mais partidos políticos brasileiros

estivessem na IS, mais o Brasil ganharia com esse canal e foro para ampliar suas

demandas internacionais.

 

Seminário da posse

 

Nos dias 12 e 13 de março de 1983, durante a posse como governador eleito do

Estado do Rio de Janeiro, Brizola transformou a data em uma demonstração de

força política internacional e organizou um amplo seminário internacional, no

Othon Palace Hotel, cujo tema era “Socialismo, Democracia e Soberania na América Latina”. Eram dezenas de delegações do Brasil e do exterior, da Europa, dos EUA, da

América Latina, da África e da Ásia.

O professor Darcy Ribeiro, então vice-governador e presidente do Instituto

Alberto Pasqualini, promotor do evento, abriu o seminário discursando sobre o

tema principal. Alguns destaques presentes que falaram durante a reunião: Joe

Eldridge, diretor do WOLA (Washington Office on Latin America); Pendukeni

Kaulinge, representante da SWAPO (South West Africa’s People Organization); Uwe

Holtz, deputado do SPD-Alemanha Federal (ainda não havia sido derrubado o

Muro de Berlim); o representante da FRETILIN (Frente Revolucionária do Timor-Leste

Independente); senador Pompeyo Márquez, do MAS (Movimiento al Socialismo) da

Venezuela; general Leonidas Rodriguez, do PSR (Partido Socialista Revolucionário),

do Peru; Berta Torrijos, representante de Omar Torrijos, presidente do Panamá;

Anselmo Sule, futuro senador pelo PRC (Partido Radical do Chile); Carlos Andrés

Pérez, presidente da Venezuela por duas vezes e líder da AD (Acción Democrática) e

vice-presidente da IS; e Juan Prats, da Comissão Executiva do Partido Socialista

Operário da Espanha (PSOE).

De Portugal veio uma delegação de altíssimo nível, encabeçada por Manuel Tito

de Moraes, vice-presidente da Assembleia da República de Portugal, representando

o primeiro-ministro Mário Soares; Amandio Silva, da Comissão Nacional do PSP; o

historiador Paulo de Castro, ex-conselheiro cultural da Embaixada de Portugal no

Brasil; Jacintho Rego de Almeida, escritor e representante do governo português na

Embaixada de Portugal no Brasil; e Jaime Conde, delegado do Instituto de

Emigração no Rio de Janeiro – os três últimos residentes no Rio de Janeiro e

integrantes do núcleo do PS. Alem destes, vieram Beliti Besotri, dirigente do Partido

Socialista da Itália, que apoiou integralmente a entrada de Brizola na IS; Elizabeth

Burgos, esposa de Regis Debray e diretora da Casa da América Latina em Paris; o

secretário internacional do PS francês, Jacques Huntzinger; professor José Pedro

Cardoso, o mais antigo líder do Partido Socialista do Uruguai; Obregon Cano, ex-

governador de Córdoba e do movimento peronista da Argentina; Guillermo Ungo,

fundador e líder do MNR (Movimiento Nacional Revolucionário) e, mais tarde,

líder da Frente Democrática Revolucionária (FDR) de El Salvador; Juan Ferreira

Aldunarte, grande amigo de Brizola e da Convergência Democrática do Uruguai; Ruben Barrios, líder do Partido Independentista de Porto Rico; Hortensia Allende,

viúva de Salvador Allende, do Chile; o ministro da Educação da República de São

Tomé e Príncipe, Rafael Branco, do Comitê Central, e Rui Trigueiros, do Comitê de

Zona do MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe); Valeriano

Ferrão, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, da FRELIMO, de Moçambique;

o cônsul-geral no Rio de Janeiro da Guiné-Bissau, Jair Sebastião dos Santos; e o

embaixador de Angola em Cuba, João Baptista.

Também houve exposições feitas por representantes do PDT: senador Saturnino

Braga; professor Pedro Celso Uchoa Cavalcanti; professor Theotônio dos Santos;

professor Moniz Bandeira; Miguel Bodea, representante do ILDES-Fundação

Friedrich Ebert; Mila Cauduro, do Movimento Pró-Anistia; e deputado Neiva

Moreira. Ainda dentro das comemorações da posse de Brizola houve uma

importante conferência na OAB-RJ (14/3/1983), feita pelo procurador da República

dos EUA no governo Carter, Ramsey Clark, que falou sobre os Direitos Humanos e o

Estado de Direito.

O seminário, que poderia ser encarado como mera estratégia de valorização da

solidariedade com Brizola, revelou-se uma importante reunião internacional, com

uma inesquecível sessão de encerramento, tão empolgante foi o clima de unidade

daquelas forças políticas que ali estavam representadas, cantando o Hino Nacional

de pé.90

Em seu discurso de encerramento, Brizola escolheu três figuras para simbolizar

os que o apoiaram no exílio e então no Brasil: Willy Brandt (“E falando dele, estou a

falar de outros grandes amigos da Europa, como, e principalmente, Mário Soares,

como também Felipe González e Olof Palme”); fez referência elogiosa a Carlos

Andrés Pérez, da AD da Venezuela, e a Gustavo Carvajal Moreno, ex-presidente do

PRI do México e secretário-geral da COPPPAL.

Passados quatro meses, entre 19 e 21 de agosto de 1983, realizou-se a primeira

reunião da Internacional Socialista em território brasileiro, a segunda reunião do

Comitê da IS para a América Latina e o Caribe.91 Estiveram presentes o coordenador

do Comitê, Peña Gómez, da República Dominicana; o secretário-geral da IS, Pentti

Vaananen (da Finlândia), e seu assistente chileno, Luís Ayala. O tema da reunião

era Socialismo Democrático, a América Latina e o Caribe. Eram mais de 50 delegados de 17 partidos da IS e outros 13 partidos observadores, além da

organização da Internacional Socialista para as Mulheres.

O PDT foi representado por Leonel Brizola, Doutel de Andrade, Matheus

Schmidt, Bocaiúva Cunha, Neiva Moreira, Dilma Rousseff, Luís Henrique Lima, José

Miguel Bodea e o secretário-executivo de Relações Internacionais, Clóvis Brigagão.

Pelo PMDB, estavam presentes o economista Celso Furtado, o editor e secretário

internacional do PMDB, Fernando Gasparian, o govenador Miguel Arraes e o

deputado estadual pelo Rio de Janeiro, José Augusto Ribeiro, representando o

prefeito de Niterói, Moreira Franco.

Pelo PT estavam o deputado estadual Liszt Vieira, o deputado federal Lysâneas

Maciel e o secretário-geral do PT e sociólogo, Francisco Weffort. Entre os

observadores estavam os jornalistas Carlos Castello Branco (do Jornal do Brasil),

Newton Rodrigues (da Folha de S.Paulo), Fernando Pedreira (também do Jornal do

Brasil), Newton Carlos (da TV Bandeirantes), Jânio de Freitas (da Folha de S.Paulo)

e o escritor Eric Nepomuceno.

Brizola expressou “a oportunidade da reunião, quando o país entrava em uma

nova era e que o socialismo democrático na América Latina assumia uma nova e

mais significativa dimensão”. No final, saiu a Declaração do Rio de Janeiro,

apontando o fato do fim dos regimes militares e o fortalecimento da luta pela

democracia na região.92

A grande oportunidade da IS de entrar no panorama político-partidário no

Brasil surgiu com a Reunião do Bureau da IS, entre 1 e 2 de outubro de 1984, no Rio,

sobre o tema Paz e Democracia na América Latina e Caribe. Praticamente, e pela

primeira vez no Brasil, reuniam-se cerca de duzentos delegados de cinquenta

países, com os principais líderes internacionais: Willy Brandt (presidente da IS),

François Mitterrand (presidente da França), Mário Soares (primeiro-ministro de

Portugal), Felipe González (presidente do Conselho de Ministros da Espanha) e

muitos outros líderes internacionais, com presença maciça dos partidos políticos

latino-americanos e do Caribe.93

Um dos assuntos de destaque apresentado pelo presidente da IS, Willy Brandt,

foi o esforço dedicado pelos socialistas no sentido de unir as forças políticas que se

combatiam na Nicarágua, cujo governo era liderado pelos sandinistas. Infelizmente, as negociações no interior da reunião do Bureau não tiveram êxito,

mas evidenciaram o esforço feito pela IS a respeito das negociações políticas em

um país marcado pelo radicalismo.

Também foram debatidos outros temas da conjuntura: a crise da democracia na

América Central e da dívida externa; a luta pela democracia nos países da América

Latina, principalmente dos principais partidos oposicionistas brasileiros (PDT,

PMDB e PT), que relataram a situação política interna do país nesse reinício do

processo de democratização.

Foto: Carlos Contursi

 

François Mitterrand no Cantagalo.

 

Houve um episódio que vale a pena revelar aqui, pois mistura humor negro e

política, e ocorreu durante a preparação que antecedeu a reunião do Bureau da IS

no Rio em outubro. Era normal nos procedimentos da IS o envio, ao país

hospedeiro de alguma reunião, de um time precursor para observar todos os

detalhes (acomodação, lugar do encontro, logística e segurança etc.).

Brigagão acumulava o cargo de secretário executivo de Relações Internacionais

do PDT, que organizaria a reunião, e assessor de Relações Internacionais do

Governo do Estado, que apoiaria a logística necessária para receber os líderes da IS

e de seus partidos associados. Muito bem.

Em abril de 1984 chega ao Rio, sete meses antes da data da reunião, o time

precursor da IS. Foram, eles e Brigagão, então, visitar o Hotel Cassino Atlântico (no

final da Av. Atlântica, hoje Sofitel) para obter informações sobre as acomodações

para os hóspedes e para os serviços de comunicação, auditório, preços etc. O

gerente os conduziu com extrema amabilidade – ora, como poderia ser diferente diante de uma reunião com trezentas pessoas e altos dirigentes políticos

internacionais? – por todo o hotel, e os precursores da IS ficaram encantados e

pareciam de acordo com tudo.

No final, antes da partida, o gerente os avisou que, na mesma hora em que seria

aberta a reunião da IS, ao lado, no auditório contíguo, haveria reunião de generais

das Forças Armadas dos EUA, comemorando data festiva castrense, no Rio de

Janeiro. No mesmo hotel e no mesmo horário!

Brigagão comunicou imediatamente o fato a Cibilis Viana, que deveria ter

transmitido o recado ao Brizola, numa cadeia de comando, para que eles

decidissem a respeito da conveniência de ter simultaneamente uma abertura de

líderes socialistas e outra de generais das Forças Armadas dos EUA: não parecia ser

uma combinação muito agradável, para dizer o mínimo. A informação foi

transmitida, mas nada foi informado a este respeito ao Brigagão, e o processo de

organização continuou. Passado algum tempo, volta ao Rio o mesmo time de

precursores da IS e informa a Brizola sobre a inconveniência da data, diante

daquela simultaneidade das duas reuniões.

O hotel teria que dar um jeitinho para que a reunião dos militares norte-

americanos passasse para outra data, ou a reunião do Bureau da IS não iria ocorrer

mais no Rio de Janeiro. A novidade da notícia deixou Brizola muito nervoso.

Com suas características típicas de chefe político, mandou chamar o Clóvis ao

Palácio das Laranjeiras, contou-lhe um episódio de seu passado pessoal – em que

teria sido demitido por alguma razão no Rio Grande do Sul – e, diante de seu

exemplar caso pessoal, demitiu-o dos dois cargos que ele ocupava, no PDT e no

governo do Estado.

Para o seu lugar foi nomeada como coordenadora técnica da reunião a chefe do

cerimonial do Palácio Guanabara, embaixatriz Elizabeth Vieira de Mello. Com todo

o seu charme, ela permanecia de olho na disputa pelos convites às cerimônias que

Brizola ofereceria para os convidados da reunião, inclusive com a presença do Dr.

Ulysses Guimarães, Dr. Tancredo Neves do PMDB e outros líderes de partidos

políticos brasileiros.94

Para fechar esse circuito de encontros internacionais, Brizola se fez presente na

reunião convocada pelo Partido Democrata dos Estados Unidos, para a qual foram convidados vários líderes democráticos do continente e de países da Europa a fim

de discutir o andamento das diversas situações da implantação da democracia.95

Em seu segundo governo do Estado do Rio de Janeiro, Brizola aproveitou a onda

da futura Conferência Rio-92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio

Ambiente e o Desenvolvimento) para hospedar duas reuniões do Comitê de Meio

Ambiente da IS. A primeira, em 21 de novembro de 1991, cobriu as questões que

seriam discutidas na Rio-92, para colocar na agenda ambiental as questões

relacionadas à região da América Latina e do Caribe.

Em 1992, entre 8 e 11 de junho, durante a realização da Rio-92 da ONU, Brizola

também hospedou novamente o Comitê do Meio Ambiente da IS, com a presença

de dezenas de ministros do Meio Ambiente de governos de partidos associados,

além de especialistas que analisaram as relações entre o meio ambiente, guerra,

injustiça, pobreza e destruição dos recursos naturais.96

Com os governos de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, Brizola levantou

uma questão de ordem na IS. Criticou FHC por ter traído os seus ideais (crítica à

desnacionalização do patrimônio e às “perdas internacionais”), e por isso

dificultou a entrada do PSDB na Internacional, se é que o PSDB desejou mesmo se

associar à IS alguma vez. Ainda durante a ditadura, tanto FHC quanto Serra não

queriam aproximação com a IS. Achavam que no Brasil (da ditadura) a IS seria

confundida com os comunistas e os militares iriam vetar. Para Mário Soares, “a

razão era outra”. Como ele disse:

— De início, efetivamente, não queriam. Anos depois, quiseram. Os tucanos,

não sabemos bem por que razão, ainda não perceberam a importância e a

amplitude da IS, ou, então, por que não acreditam na sua validade para a política

internacional no mundo de hoje? 97

Em 2002, Bizola apoiou a candidatura do presidente Lula ao 2º turno. Logo em

seguida, iniciou movimento de críticas à política econômica e social do PT como

antissociais e antinacionalistas. Dois anos depois, em documento intitulado O PDT

e o governo Lula apontou os propósitos da política econômica e social, colocando-

as em oposição e explicando seus motivos. Levado para o debate dentro da IS,

mostrava-se desiludido com Lula e seu governo.98

Após a saída do francês Pierre Mauroy, a IS foi presidida pelo então ex-primeiro-

ministro de Portugal, do PS português, António Guterres. Brizola apoiara Guterres e

parece ter tido papel destacado, pedindo votos aos partidos latino-americanos – e

também por gratidão ao PS português – para sua eleição à presidência da

organização. Guterres passou a aproximar-se de Lula e expressou o interesse da IS

em ter em suas fileiras, como membro, o PT. Embora nada impedisse essa

aproximação, o método empregado parece não ter sido feito com transparência.

A escolha da realização do XXIII Congresso da IS em solo paulista deve ter sido

parte dessa estratégia, reunindo-se inclusive com o PT para preparar o encontro.

Zeloso e sentindo que não havia sido ouvido, Brizola discordou dessa conduta. Que

o único partido brasileiro, membro pleno, e ele próprio, com 18 anos de estrada na

IS, como vice-presidente, não tivessem sido consultados previamente era atitude

lamentável.

Havia aquela empolgação com a eleição de Lula, com o operário que chegara à

Presidência do Brasil, e isso tudo era muito natural e positivo, mas também havia

certa tendência dentro da IS de aproximação à posição do governo Bush em relação

à guerra contra o terrorismo, à invasão do Iraque e mesmo a um considerável

alinhamento ao neoliberalismo. Ele discordava. Brizola passou a se distanciar da

posição da presidência da IS pela forma como estava sendo encaminhada a

aproximação com Lula e o PT com a política americana.

Fato singular ocorreu na reunião do Presidium da IS, no dia anterior à realização

do Congresso em São Paulo (27-28/10/2003). O Movimento das Mulheres da IS

reclamara de sua baixa representatividade na cúpula e reivindicava um lugar no

Presidium. A candidata era a mexicana Margarida Zapata, presidente do

Movimento das Mulheres da América Latina. Brizola aproveitou a ocasião para um

lance político típico: galante e cavalheiro, renunciou ao seu cargo de vice-

presidente para ceder o lugar à representante Margarida Zapata. Com luva de

pelica, expressava seu descontentamento com a presidência da IS.

O secretário-geral da IS, o chileno Luís Ayala, com quem Brizola e o PDT

mantiveram excelentes relações desde sempre, veio visitar Brizola em seu

apartamento da avenida Atlântica e dissipar o clima de constrangimento. A partir

daí o conflito foi amenizado e o clima tenso passou.99 Ainda assim, à reunião do Conselho da IS em Madri, em fevereiro de 2004, o PT enviaria dois representantes,

sindicalistas, que viviam na Europa.

O então secretário de Relações Internacionais do PDT, Arnaldo Mourthé, levou o

documento aprovado pelo Diretório Nacional criticando a política do governo Lula.

Reinou alvoroço e dividiram-se as opiniões durante a reunião. Brizola parecia

continuar melindrado com a forma de aproximação da IS ao PT: e o PT até hoje não

faz parte da IS!

Para terminar, no 22º Congresso da IS, em São Paulo, Brizola, após sua renúncia

e o gesto inusitado, foi eleito como um dos 14 presidentes honorários, e como tal

ficaria até sua morte. Em comunicado à imprensa (25/6/2004), os socialistas

renderam homenagem à memória de Brizola, acentuando que ele fora um “fiel

seguidor da IS e de seus ideais e durante 18 anos desempenhou um papel ativo e de

compromisso dentro da organização, servindo como um de seus vice-presidentes

por 14 anos. Como membro do Presidium da IS, era uma presença familiar em

qualquer parte do mundo onde ela se reunira, contribuindo com sua voz e sua

visão para o trabalho da Internacional”.100

Durante a Rio-92 – Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente e o

Desenvolvimento, Brizola reuniu no Rio de Janeiro, em junho de 1992, o Comitê do

Meio Ambiente da IS que trouxe dezenas de líderes e dirigentes partidários da IS e

pôde ter seu desempenho expresso em várias intervenções sobre as condições do

desenvolvimento. A foto abaixo revela um jantar no qual Brizola agradeceu aos

dirigentes da IS e do PDT – naquele ambiente que já lhe era tão familiar –,

constituindo mais uma de suas intervenções – como naquele momento da Rio-92 –

para ampliar sua integração e solidariedade ao movimento socialista, encabeçado

pela IS.

Brizola participou ativamente, ainda no exílio e no pós-exílio, da COPPPAL. Em

suas conversas com dirigentes do Partido Revolucionário Institucional (PRI)

mexicano, Brizola insistia para que os partidos políticos latino-americanos

tivessem seu próprio foro, como meio de comunicação e divulgação das ideias que

estavam nas agendas políticas internacional e regional.

Assim nasceu a COPPPAL, que contou com o apoio principal do PRI e acabou

agrupando 56 partidos de trinta países da região: partidos democráticos, nacionalistas, socialistas e anti-imperialistas com o intuito de impulsionar a

democracia na região.

Em sua primeira reunião – que ocorreu em Oaxaca (México), entre 10 e 12 de

outubro de 1979, da qual participaram 22 partidos de 14 países – o intenso debate

resultou no Documento de Oaxaca. Nele estava firmada a vocação da unidade

latino-americana pela via da não intervenção e pela decisão soberana dos povos a

projetar seu desenvolvimento com justiça social que eliminasse a exploração e a

desigualdade.

Foto: Carlos Contursi

 

Reunião do Comitê do Meio Ambiente da Internacional Socialista, com Brizola, Trajano Ribeiro e outros dirigentes da IS e do PDT, em junho de 1992.

 

Sua primeira coordenação ficou integrada pelo senador mexicano do PRI,

Gustavo Garvajal Moreno, seu presidente, e seis vice-presidentes: Leonel Brizola,

do PDT; Tomás Borge, ministro do Interior da Frente Sandinista de Libertação

Nacional, Nicarágua; Michael Manley, Partido Nacional do Povo, Jamaica; Daniel

Oduber, Partido de Libertação Nacional, Costa Rica; Víctor Paz Estenssoro,

Movimento Nacionalista Revolucionário, Bolívia; José Francisco Peña Gómez,

Partido Revolucionário Dominicano, República Dominicana. Praticamente todos

ligados à Internacional Socialista e que iriam atuar nos próximos anos em toda a

região.101

Notas

 

74. Entrevista com o secretário-geral da IS, Luís Ayala, Londres, Maritime House, 12 de outubro de 2004. Graças

a ele obtivemos não só informações, mas reflexões sobre a IS e a América Latina, além de documentos e fotos

que enriqueceram estas nossas memórias.

75. O embaixador Paulo Roberto de Almeida trata sobre o tema com certa regularidade. Ver também tese de

doutorado do prof. Gilberto M. A. Rodrigues, Política Externa Federativa, principalmente o capítulo 4.1, “A

transição democrática internacionalizada: a política externa federativa do Estado do Rio de Janeiro no

governo de Leonel Brizola (1983-85)”, p. 104-124.

76. Em seu livro João Goulart – Uma Biografia, o historiador Jorge Ferreira afirma que na X Convenção em 1957

o PTB decidiu convocar para 1958 o I Congresso Mundial Trabalhista, “com convidados do Labour Party inglês e

de partidos trabalhistas e socialistas de diversos países”, p. 185.

77. Sobre essa visita dos deputados ingleses e da IS a Brasília, ver coluna de Mauritônio Meira: “Partidos

trabalhistas do mundo terão frente única de atuação”. Brasília Informa. Última Hora, Rio de Janeiro, 1962.

78. Cf. entrevista de W. Brandt à correspondente Graça Magalhães, do jornal O Globo, 23/9/1984.

79. Este tema será objeto, em futuro próximo, de outro livro sobre a IS – A IS Vai à América Latina –, com a

participação de membros do PS Português, da Espanha e da Suécia.

80. Em sua entrevista a Clóvis Brigagão, Fundação Mário Soares, Lisboa, 23/10/2004.

81. Moniz Bandeira, Brizola e o Trabalhismo e sua entrevista a Trajano Ribeiro, por escrito [manuscrito], em

22/10/2009.

82. Esse seu discurso, de improviso, será então transformado em seu primeiro artigo “Brazil – a democratic

future?”, Socialist Affairs, Londres, no. 2/79, março-abril, 1979, p. 37-38. Clóvis Brigagão escreveria o artigo como

ghost writer.

83. “Senhor Brizola, lamento, seu tempo está esgotado, por favor, conclua seu discurso”.

84. “Por favor, camarada Brizola, não entenda mal minhas palavras. Você tem o tempo que precisar para

concluir sua exposição, afinal para nós sua presença é tão importante quanto o país que o senhor representa”.

85. Em entrevista a Carlos Struwe, páginas amarelas, revista Veja, 6 de agosto de 1980, Brandt disse: “Quanto à

viagem deste ano (1980), tive de cancelá-la por motivos de saúde: o médico proibiu-me de viajar de avião. Não

tenho data certa ainda.” Mesmo assim, Pedro Celso Cavalcanti pôde reconhecer, na entrevista dada por W.

Brandt ao Estado de S. Paulo, um parágrafo inteiro do documento que ele havia preparado a pedido do Brizola.

86. Cf. Fredy Krause, enviado especial, O Estado de S. Paulo, 2/6/1979.

87. Ibidem.

88. Manley, economista atuante dentro da IS (formado na Inglaterra), tinha sido primeiro-ministro entre 1972

e 1980, com reformas econômicas e política externa mais alinhada aos governos da IS, apoio a Cuba e oposicão

aos EUA. Nas eleições de 1980 ele concorreu a novo cargo de primeiro-ministro, disputando com o adversário Edward Seagan – do Partido Trabalhista da Jamaica (JLP), fortemente apoiado pelos EUA e alinhado ao governo de Ronald Reagan –, que acabou derrotando Manley.

89. O Comitê Financeiro e Administrativo da IS, que se ocupa das candidaturas a membros, recomendou ao

Bureau que continuasse a manter contato com o PMDB, então o partido do governo Sarney, como membro

consultivo. Ver Socialist Affairs, abril de 1985, p. 35. Para a decisão sobre membro pleno, disponível em

<www.socialistinternational.org>, acesso em: 27/3/2007.

90. Ver Relatório sobre a Participação da Delegação do Partido Socialista de Portugal escrito por Amandio

Silva, Arquivo Fundação Mário Soares, Lisboa, Portugal no. 00744.003-im.42.

91. O Comitê da IS para a América Latina e o Caribe foi formalmente integrado à IS, em reunião do Bureau da IS,

Lisboa, 1979. O Comitê foi formado por Francisco Peña Gómez (Santo Domingo, como presidente); Héctor

Oqueli (de El Savador, mais tarde assassinado em sua missão à Guatemala, por grupos ilegais), como

secretário executivo, além de quatro vice-presidentes com sua sede em Santo Domingo, República

Dominicana.

92. Documentos da 2ª. Reunião do Comitê da IS para a América Latina, cf. Socialist Affairs, Londres, 1/1984, p. 18-

19 em posse do autor [CB].

93. A lista de participantes reunia partidos políticos do Brasil, da Argentina, Aruba, Áustria, Bélgica, Bolívia,

Canadá, Chile, Chipre, Costa Rica, Dinamarca, Equador, El Salvador, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França,

Honduras, Irlanda, Israel, Itália, Jamaica, Japão, Holanda, Nicarágua, Noruega, Panamá, Paraguai, Portugal,

Porto Rico, República Dominicana, República Federal da Alemanha, Santa Lúcia, Senegal, Uruguai e Venezuela,

além de organizações fraternas (das Mulheres, dos Jovens) e outras representações associadas.

94. Ver matéria publicada na revista Afinal, de 2/10/1984. Brigagão ficaria fora de atividade do PDT durante

quase um ano, quando finalmente seria chamado para substituir a embaixatriz Elizabeth Vieira de Mello, que

havia cometido, na opinião do próprio Brizola, uma interferência que daria mais destaque ao Itamaraty do que

a ele durante a visita do presidente Mitterrand ao Rio de Janeiro. Brigagão passou um ano e meio como chefe

de cerimonial. Embora não sendo um especialista em operações cerimoniais, realizou muitas mudanças e

reformas no pequeno Itamaraty do governo do Estado do Rio de Janeiro. Mário Soares e sua equipe do PS

português foram os que o convidaram para passar uma tarde na Reunião do Bureau da IS no Cassino Atlântico,

onde ele se encontrou com muitos amigos da IS.

95. Ver coluna de Carlos Castello Branco, Jornal do Brasil, 23/4/1987.

96. Ver SI News, no. 4/1991 e no. 2/1992.

97. Entrevista a Clóvis Brigagão, Fundação Mário Soares, Lisboa, 23/10/2004.

98. O documento “O PDT e o governo Lula”, preparado pelo então secretário de Relações Internacionais do PDT,

Arnaldo Mourthé, foi aprovado pelo Diretório Nacional, em reunião de 12/12/2003, por 147 votos a favor e 3

contra, com a declaração de independência ao governo Lula e postura crítica aos projetos e ações que estavam

em desacordo com os princípios trabalhistas. Ver em Cadernos de Textos 1, Fundação Leonel Brizola –Alberto

Pasqualini, p. 55-72.

99. Arnaldo Mourthé, em entrevista a Clóvis Brigagão, 23/5/2007.

100. Em <www.socialistinternational.org>, 20/2/2006.

101. Documento “Reunión de Partidos Políticos Latinoamericanos (Reunião de Oaxaca)”, 10-12/10/79, em posse

de Clóvis Brigagão. Ver também Copppal, <www.copppal.org.mx/Institu-2.htm>.