Brizola
Os Cabildos Abiertos
O passo seguinte àquele primeiro momento de reuniões e convergências políticas
foi instaurar nos salões do subsolo do Hotel Flórida os Cabildos Abiertos. Durante a
colonização espanhola na América Latina, os Cabildos representavam uma
instituição ibérica de longa data, composta por representantes de vizinhos ricos de
uma cidade que compravam os cargos e se renovavam através de cooptação. Mas
os Cabildos Abiertos a que nos referimos vêm do processo de independência do
Uruguai, com participação ampla da vizinhança, de base popular, em que se
debatiam todos os assuntos de interesse da população, como em uma assembleia
popular.37 Em Lisboa, os Cabildos tornaram-se efervescentes.
A participação, em número e intensidade, crescia e tudo era debatido
exaustivamente: a política brasileira, o exílio, a volta com a anistia, os novos
compromissos do trabalhismo que o próprio Brizola estimulava. Os novos
“barbudinhos” socialistas democráticos à brasileira dissecavam, às vezes com
doses impiedosas de críticas ao antigo PTB, as razões do Golpe de 1964, a história
da luta armada e os sonhos de um Brasil socialista democrático. As reuniões
varavam a madrugada, num entra e sai, para recarregar as baterias e dar mais
ímpeto às discussões.
Tornaram-se aulas vividas da realidade histórica e das lutas populares
brasileiras e, infelizmente, sem registro histórico. Com o andar das dezenas de
Cabildos Abiertos, começava a ter forma a convergência do trabalhismo pré-1964 –
de Getúlio, Pasqualini, Jango e do próprio Brizola – com a esquerda que se formava
pelo grupo da luta armada, agora em vias de democratização, e por independentes
da esquerda democrática. Nessa mirabolante construção aberta, confluía o
trabalhismo para o novo projeto político partidário, que começou a ser chamado de
“caminho brasileiro para o socialismo democrático”.
As discussões iam se afunilando sobre temas mais atuais: como seria a anistia,
a volta ao Brasil, que condições, que perspectivas e (duras) realidades iriam todos
enfrentar? O PTB de Brizola – e com ele a associação de práticas fisiológicas então
representadas por Ivete Vargas e por velhas estruturas peleguistas – seria o caudal
renovado, socialista democrático, com as idiossincrasias, nuances e os matizes
brasileiros? Naquele laboratório de histórias e reconsiderações, de ambos os lados,
os ideais manifestavam-se com muito mais força e pareciam empolgar muito mais
que a realidade com a qual todos ali iriam, logo mais, se defrontar no Brasil.38
Caravanas de velhos trabalhistas chegavam a Lisboa, aumentando a
curiosidade entre os exilados sobre aquela sigla, sua história e seus personagens.
Ao mesmo tempo, os que vinham do Brasil encantavam-se com aqueles jovens
idealistas, alguns há mais de dez anos fora do Brasil, relatando suas peripécias e
andanças pela América Latina, África, Estados Unidos e países europeus,
mantendo o ideal, agora em torno da redemocratização do Brasil.
Um de seus interlocutores nesse início de Lisboa foi o exilado brasileiro Alfredo
Sirkis, banido e condenado à prisão perpétua pelos militares. Sirkis lembra-se de
ter feito um passeio à costa portuguesa (Sezimbra), a fim de encontrar um hotel
para que Brizola se hospedasse por alguns dias com a família. Pouco a pouco, a
conversa foi na direção da análise da situação da Guerra Fria. Repentinamente,
Brizola descreveu, com convicção, duas situações que pareceram a Sirkis
completamente estapafúrdias para aquela época:
— Estávamos em 1978, e Brizola prognosticou, com inabalável certeza, o
desmoronamento da URSS e a reunificação da Alemanha, que só viria a ocorrer
uma década mais tarde, no final dos anos 80 e início dos 90. E aí ele falou com
aquelas suas elaborações típicas.
Sirkis nos conta ainda:
— Em 1978, no pós-Vietnã, o poder militar soviético estava no seu auge, com os
movimentos de libertação avançando na África, a revolução sandinista em
marcha, a estagflação nos EUA e a hegemonia econômica do Japão eram tidas
como certas. Não passava pela cabeça de nenhum analista internacional a
possibilidade de uma reunificação da Alemanha ou o colapso da URSS.
“Pois, Brizola, ali, junto à costa portuguesa, uma década antes de qualquer líder
político mundial, diagnosticou o colapso da União Soviética, a reunificação das
duas Alemanhas, além de afirmar sobre a sinuca de bico que seria para o Brasil a
globalização e a hegemonia do neoliberalismo.39
E, certamente, incluiria elucubrações sobre “as perdas internacionais”, sua
marca registrada!
Brizola referia-se ao que ele chamava de “perdas internacionais”, desde os anos
de seu governo no Rio Grande do Sul, e depois, mais radicalmente, entre 1961-67,
quando deixa a ideia e a formação para a luta armada, das guerrilhas, para
assumir a luta política contra a ditadura.
Suas elucubrações eram sobre as estruturas do mundo financeiro, do comércio
internacional e da atuação das multinacionais sobre países como o Brasil – ainda
denominados países do Terceiro Mundo; depois, em desenvolvimento; e agora,
emergentes. Até muito recentemente éramos bastante subordinados às regras de
Bretton Woods, às regras financeiras multilaterais (do FMI, principalmente), e era
como se as perdas desencadeassem um processo, em “cadeias econômicas”, que,
ao fim e ao cabo, prejudicavam a independência econômica dos países.
“Perdas internacionais” representavam a perda de um bom naco da soberania e
das riquezas do país. Brizola tinha essa intuição, ao mesmo tempo nacionalista (na
melhor tradição da defesa dos interesses nacionais) e internacionalista, que se
incorporaria à sua estratégia sob o manto da Internacional Socialista. E fazia
sentido! Por isso não entendemos por que economistas, jornalistas econômicos e
políticos e a mídia em geral tratam com tanta ironia e zombaria essa conceituação,
como visão estratégica das perdas internacionais.
Com Brizola em Lisboa, a imprensa brasileira começou a ver nele uma
referência alternativa da política nacional. Ironicamente, a ditadura revelou mais
uma vez sua incompetência e acabou promovendo a presença de Brizola na
Europa, nos EUA, na América Latina e na África, onde passaria, então, a pregar a
reestruturação do PTB.
Para os novatos, que começavam a ouvi-lo, o PTB era sua alma gêmea e
confundia-se com sua própria vida. No entanto, a ideia de reunificar o PTB era vista
pelo MDB como divisionista na luta pela anistia: afirmava-se, primeiro, que a anistia deveria ser conquistada com todos à frente do MDB, e, só então, se devia
pensar em reorganização partidária.
Já para Brizola e seu novo grupo, a anistia passava, necessariamente, pela
recriação dos partidos políticos, e como o MDB era tão somente uma frente de
vários segmentos políticos partidários, seria mais que natural que anistia e
reorganização partidária marchassem juntas. Seria vital para a nova luta política
no Brasil o renascimento do PTB. Brizola achava que o MDB deveria – pelo menos
aqueles que decidissem assim – vir para o PTB e não o contrário. Queria desde já
puxar os trabalhistas de volta à casa…
Aqui vale a pena relembrar o último encontro do ex-presidente João Goulart
com Brizola, ainda no Uruguai, em casa dos Brizola. Jango disse-lhe:
— Brizola, nós não vamos voltar pelas mãos do MDB, vamos voltar pelas mãos
dos militares e o nosso projeto político não coincide com o deles [MDB].
Essa era uma conversa recorrente de Brizola conosco. Cabe aqui fazer uma breve
digressão. Por tradição, com a anistia e a reorganização partidária, João Goulart,
vivo e de volta ao Brasil, assumiria o papel de líder maior do PTB e, caso houvesse
eleições gerais, seria ele o candidato natural do trabalhismo à Presidência da
República com toda a oposição das elites conservadoras e dos militares. Com sua
morte, a bandeira trabalhista passou a ser sustentada por Leonel Brizola. Isso
explica sua ida para os EUA, depois para Portugal e sua entrada na Internacional
Socialista.
Notas
37. Consulta ao ex-senador uruguaio Juan Adolfo Singer, que foi grande amigo de Brizola, via e-mail, em
26/8/2006, 9/10/2006 e 21/3/2007.
38. Infelizmente, não houve gravação ou registro impresso desses memoráveis Cabildos Abiertos realizados
nos salões do Hotel Flórida. A descrição aqui é demasiadamente sucinta para revelar toda a riqueza desse
período de um ano e meio cujo resultado será a realização do Encontro de Lisboa.
39. Cf. depoimento de Alfredo Sirkis, Rio de Janeiro, em 21/6/2006.