Brizola

Clóvis Brigagão · Capítulo 11 de 30

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Brizola

Esquentando a chaleira do chimarrão

 

Não se podia mais perder tempo nem esperar pelo calendário da abertura do

regime militar. A mobilização para a reorganização do trabalhismo tornara-se

urgente. De Lisboa, Brizola continuava a usar e a abusar do telefone internacional e

convocava os companheiros, de dentro e fora do Brasil, para a nova jornada.

Rapidamente, Trajano Ribeiro viajou a Nova York e recebeu o seguinte recado de

Brizola: “Está na hora de mostrar a nossa cara e peço que você escreva um relatório

sobre a situação no Brasil.” Trajano preparou o relatório. Nele, afirmava que o MDB

se acomodava como partido consentido e se ocupava apenas com o dia a dia da

política brasileira. À anistia o partido dava pouca ênfase, embora o tema fosse

parte de seu programa. Como guarda-chuva da oposição, o MDB não tinha uma

política que contemplasse as grandes questões das reformas nacionais. Concluía

que não fazia parte de seu ideário o ressurgimento de partidos políticos definidos

ideologicamente, como o PTB.

Na sequência, Brizola disse que era a hora de procurar Doutel de Andrade,

Cibilis Viana, Darcy Ribeiro e outros amigos trabalhistas, a fim de dar início à

organização do PTB. A corrente trabalhista foi se alargando e uma pessoa foi

chamando outra, como no caso de Marcelo Alencar e do pessoal do antigo PTB do

Estado do Rio de Janeiro. Brizola ponderou então com Trajano que era necessário

instalar o Partido: “Precisamos de um local, não há religião sem igreja.”

Assim foi que, na avenida Nilo Peçanha, 155 (Edifício Nilomex), no Rio de

Janeiro, instalou-se a Comissão Provisória Reorganizadora do PTB, composta por

Doutel de Andrade, Trajano Ribeiro, Cibilis Viana, Eduardo Chuahy e Moniz

Bandeira, constituída sob a orientação de Brizola, e onde se concentraria o trabalho

de reorganização do partido – presidido por Doutel de Andrade, até o retorno de

Brizola ao país.

Grupos e tendências organizaram-se em torno do projeto de recriação do PTB

liderado por Brizola. Regionalmente, foram três os estados em que a articulação se

firmou com maior força. No Rio de Janeiro, com os mais importantes líderes do

extinto PTB, remanescentes do governo Goulart e novos adeptos, formaram-se os

primeiros agrupamentos. No Rio Grande do Sul o grupo constituía-se por

trabalhistas históricos cassados e pela ala trabalhista do MDB; em São Paulo

formaram-se dois grupos, e, finalmente, em Brasília, inicialmente houve adesão de

quatro deputados federais.

Quem deu o pontapé inicial , no Rio de Janeiro, foi Darcy Ribeiro. Cassado, mas

de volta ao país, ele iniciou o debate na Bienal do Livro (1978), defendendo a

reorganização do PTB “como forma de os trabalhadores retomarem suas

conquistas perdidas em 1964”. Disse que iria encarar as críticas de intelectuais

paulistas sobre a volta do populismo, “pois era o governo de Jango, chamado de

populista, que estava realizando reforma agrária”. Darcy chamou de esquerdistas

as correntes do pensamento brasileiro que combatiam a volta do trabalhismo.40

Nesse abrir de horizontes e conforme revelou o Jornal do Brasil, em janeiro de 1979

uma pesquisa de opinião registrava que, na reformulação do quadro partidário

nacional, um partido de tendência trabalhista seria aquele que congregaria o

maior número de adeptos.

Por sugestão de Eduardo Chuahy, Trajano procurou Carmen Cenira Leite de

Castro, antiga militante da luta armada que reunia em sua casa um grupo de

jovens de esquerda em busca de alternativas para a militância. Já na primeira

reunião Trajano iria perceber as dificuldades de recrutamento do grupo para a

causa trabalhista, tal a animosidade contra Brizola e seus conceitos dogmáticos.

Trajano fez, então, mais duas tentativas e finalmente desistiu, contentando-se

com a adesão de Carmen Cenira, Antonio César Amaral, César Behs, Anisio Khader,

Luis Henrique Ferreira e Celso Frazão. Carmen Cenira passou a atuar com a

Comissão Nacional e participou ativamente da organização do Seminário

Trabalhista do Rio de Janeiro. Mais tarde, com o retorno de Brizola, veio a ocupar o

cargo de secretária do Diretório Regional, e nele permaneceu até sua morte. César

Behs participou do Encontro de Lisboa, mas posteriormente abandonou a

militância política. Os demais são filiados ao PDT até hoje.

Carmen Cenira recrutou o deputado José Mauricio Linhares, que, juntamente

com Brandão Monteiro (eleito deputado federal em 1982 e depois nomeado

secretário de Transportes do governo de Brizola no Rio), o advogado Ivan Senra

Peçanha (em seu escritório da rua Araújo Porto Alegre o grupo se reunia com

frequência) e o deputado cassado Lysâneas Maciel consideravam-se à esquerda da

Comissão Provisória. Eles então criaram o Centro de Mobilização Popular do PTB,

de “tradição revolucionária” e de esquerda radical cristã e que acabou sendo

desativado por ordem de Brizola.

Gessy Sarmento, Paulo Ribeiro e Osório Vargas (três brizolistas históricos)

fundaram a Associação de Auxílio aos Exilados, que funcionava no escritório de

Osório, na Cinelândia, também frequentado por Cibilis Viana e Wilson Fadul, mas

“aí veio a anistia e superou tudo e cada um tomou seu rumo”.

Um terceiro grupo formou-se ao redor do ex-deputado cassado Baby Bocaiúva

Cunha (líder do PTB na Câmara no governo Goulart), que mantinha certa

expectativa não muito consagradora da reorganização imediata do PTB, até porque

era alinhado ao MDB de Chagas Freitas, do qual fazia parte Waldir Pires (ex-

procurador-geral do governo Jango), o ex-deputado Paiva Muniz e outros ex-

colaboradores do presidente Jango, ligados a Brizola, como Cibilis da Rocha Viana,

que era membro da Comissão Nacional Provisória do PTB e mantinha boas relações

com todos os grupos.

Bocaiúva Cunha funcionava como um avalista de candidatos de esquerda na

chapa do MDB, garantindo a presença de candidatos comunistas na legenda

emedebista. Nas eleições de 1978, Trajano Ribeiro foi procurado por Alexandre

Farah e José Colagrossi Filho, dispostos a participar da reorganização do PTB.

Queixaram-se de que os trabalhistas estavam sendo barrados na legenda do MDB,

enquanto outros pretendentes de esquerda eram acolhidos. Aparentemente

tratava-se de impedir a formação da bancada trabalhista que reforçaria o

ressurgimento do PTB e atribuíam a Bocaiúva essa omissão.

O empresário trabalhista José Colagrossi, deputado federal cassado pelo AI-5,

ajudava financeiramente a empreitada de reorganização do PTB. Ligado a Doutel

de Andrade, logo no primeiro contato tornou-se entusiasta da ideia de reorganizar

o PTB sob a liderança de Brizola. Ele se manteria ao lado de Brizola, sendo seu futuro secretário no governo do Rio. Após mal-entendidos e intrigas palacianas,

pediu demissão. Em 1986 filiou-se ao PMDB, tendo sido secretário de Relações

Governamentais e presidente da Fundação Leão XIII no governo Moreira Franco.

Também o então prefeito de Niterói, Moreira Franco, do MDB, ligado ao senador

Amaral Peixoto, apoiava a reorganização do PTB, colaborando igualmente com

apoio financeiro. Pensava em articular-se com Brizola na volta deste ao Brasil e,

quando da realização do I Seminário Trabalhista do Rio de Janeiro, ofereceu a

cidade de Niterói para sediá-lo.41

O Rio funcionaria como a central de mobilização. Organizada a Comissão

Provisória, a arregimentação passou a contar com a base de ex-cassados, como

sargentos, antigos trabalhistas (de lembrança: João de Deus, Ruth Pardal, Alzira

Leite) e do grupo ligado ao deputado Edson Khair, como o jornalista Ary Ahmed.

Novos contatos foram feitos com ex-ministros de Jango: Armando Monteiro Filho

(de Pernambuco), Wilson Fadul (ex-ministro da Saúde de Jango), Almino Afonso

(ex-líder do PTB do governo Jango e que acabou permanecendo no MDB) e

Bocaiúva Cunha.

Organizada a estrutura física do PTB, ainda não havia o projeto de registro

oficial, que só foi pautado mais tarde. A ex-deputada Ivete Vargas foi contatada

pela Comissão e se integrou ao projeto de reorganização. Desde o início ela tinha

suas próprias ideias de como reorganizar o trabalhismo, segundo seu figurino.

Trajano Ribeiro fazia contato com ela, pois havia certa incompatibilidade, devido

aos resquícios do passado trabalhista, entre ela e Doutel de Andrade.42

Para acionar o esquema do forte e tradicional PTB gaúcho, Trajano Ribeiro

viajou a Porto Alegre. De início, não obteve sucesso com as lideranças tradicionais

(que estavam todas no MDB). Por sugestão do advogado Isaac Ajnhorn contatou o

deputado cassado Matheus Schmidt. Ligaram para Brizola, em Nova York, e ele deu

ânimo a Schmidt (não fez parte da cúpula antiga do PTB no Rio Grande do Sul), que

concordou logo com o projeto da renovação. O jurista Otávio Caruso da Rocha (filho

do ex-primeiro-ministro de Jango, Francisco Brochado da Rocha) foi outro a ser

procurado. Trajano Ribeiro informou a Otávio:

— O Brizola pediu para convocares uma reunião dos trabalhistas no Rio Grande

do Sul.

— Ele pediu ou mandou? — perguntou Otávio.

— Ele pediu, Otávio, que tu convoques a reunião dos trabalhistas.

— Mas eu preciso saber se ele pediu ou se mandou, porque se ele pediu é porque

não devo convocar. Se ele mandou, é diferente, tenho que convocar.

Trajano Ribeiro então lhe disse:

— Vamos tirar a dúvida já.

Ligou para Brizola e passou o telefone para Otávio Caruso:

— Mas, professor, o senhor tem que convocar a reunião — disse-lhe

diretamente Brizola.

E foi Otávio Caruso da Rocha quem coordenou os trabalhistas de 17 municípios

gaúchos para discutir a reorganização do PTB.

Na primeira reunião dos trabalhistas em Porto Alegre, a última em que

compareceu o mais velho de todos, João Caruso, estavam presentes Sereno Chaise

(compadre de Brizola e ex-prefeito de Porto Alegre), o deputado Lidovino Fanton, o

ex-deputado cassado Armando Temperani Pereira (que fora da Frente Parlamentar

Nacionalista), o ex-deputado Nei Ortiz Borges, Matheus Schmidt, José Fidelis

Ramos Coelho, Otávio Caruso da Rocha e Trajano Ribeiro. Temperani Pereira disse

que não pretendia participar do projeto de reorganização do PTB, pois não via

viabilidade em um projeto nacional do partido. Para ele, a então famosa Comissão

Trilateral já tinha traçado o destino do poder no mudo e cabia ao Brasil uma

posição subalterna.43

Em São Paulo, sempre à margem do núcleo dominante trabalhista, estavam

dois outros grupos: o do ex-deputado José Barbosa, fundador do PTB em 1945, tendo

sua ficha assinada pelo ex-presidente Vargas, preconizando algo nebuloso em

torno de um neotrabalhismo, adaptado às novas condições; e o grupo liderado pela

ex-deputada Ivete Vargas, que especulava como manobrar para ter de dividir o

meio de campo com seus adversários, como Doutel de Andrade, Almino Afonso e o

próprio Brizola.

Os dois grupos trabalhistas de São Paulo – que por causa da presença de Ivete

Vargas sofreram as críticas dos intelectuais paulistas ao populismo trabalhista –

tinham severa restrição aos grupos do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, que os

acusavam de pretender oferecer a legenda trabalhista de presente ao governo militar. Ivete não explicava por que não se unia ao grupo do Rio, e menos ainda ao

grupo do Rio Grande do Sul, onde havia maior campo de ação para reorganizar o

PTB.

Tão logo a rolha da garrafa começou a sair de seu gargalo autoritário, a ex-

deputada Ivete Vargas manifestou-se pelo ressurgimento do PTB e enfatizou: em

seu grupo não integraria o ministro Golbery do Couto e Silva, mas o ex-governador

Brizola, que, mesmo sem ter voltado ao Brasil, estaria no movimento.44

Almino Afonso, ex-ministro do Trabalho de Jango, também movimentou-se a

favor da reorganização do PTB. Em reunião na residência do ex-deputado federal

Bocaiúva Cunha, no Rio de Janeiro, da qual participava a filha do ex-presidente JK,

Márcia Kubitschek, Almino diria ser “um soldado a mais na luta pela criação de um

novo partido de base trabalhista”. Quanto ao futuro partido, teria que guardar

pouca identidade com o extinto PTB se quisesse acompanhar a nova realidade

brasileira, mas que “a carta-testamento de Getúlio Vargas seria a principal

plataforma”.

Revelou que acreditava na importância da volta de Brizola, mas que este não

deveria retornar “na condição de dono da ideia do renascimento do trabalhismo”.

45 Também estavam presentes nesta reunião: Darcy Ribeiro, Doutel e Ligia Doutel

de Andrade, Cibilis Viana, Waldir Pires, Wilson Fadul, Raul Riff, Oswaldo Aranha

Filho, Aarão Steinbruch, Sérgio Magalhães, Álvaro Fernandes, Badger da Silveira,

os deputados federais emedebistas, Marcelo Cerqueira, Marcelo Medeiros,

Emanuel Waisman e Ário Teodoro, e os deputados estaduais Jorge Roberto Silveira

e Fernando Leandro.

Com a definição das reformas baixadas pelo general Geisel sobre a formação de

novos partidos, o projeto foi considerado de grande importância pelos ex-

trabalhistas. Mas, de qualquer forma, queriam aguardar a regulamentação para

saber se o PTB poderia ser criado mediante o apoio de 5% do eleitorado nacional ou

de 3% distribuídos entre nove estados. Ivete retrucou e negou que houvesse

dualidade para a reorganização do PTB e que o partido não deveria ser dessa ou

daquela pessoa, referindo-se ao ex-ministro Almino Afonso, que teria sido

incumbido de liderar a reestruturação da legenda.

O fato é que o único elo de possível união dessas correntes e movimentos

trabalhistas, com a morte de Jango, era Leonel Brizola, nome que todos faziam

questão de mencionar como avalista político e líder.

Começava, então, a fase de organização dos Encontros Trabalhistas. Entre 6 e 7

de janeiro de 1979, liderado por um grupo de trabalhistas, ainda dentro dos limites

legais do MDB, realizou-se o I Seminário de Estudos Políticos, em Esteio, Rio Grande

do Sul.46 O encontro, semiclandestino por razões óbvias, aconteceu na Casa de

Formação das Filhas do Sagrado Coração de Jesus, em que cada participante tinha

seu próprio mapa para que soubesse como chegar seguro ao local.

Entre os setenta integrantes, inspirados pela mensagem transmitida por

Brizola de que “a água de chaleira do chimarrão começa a aquecer de baixo para

cima”,47 estavam Matheus Schmidt; os deputados federais Getúlio Dias e Nadir

Rossetti; o deputado estadual Aldo Pinto; o integrante do Diretório Regional do

MDB/RS Carlos Franco; Índio Vargas; o escritor Josué Guimarães; o professor

Joaquim José Felizardo; Mila Cauduro (líder do Movimento pela Anistia); Jair

Calixto (histórico líder da reforma agrária no Rio Grande do Sul); João Carlos

Guaragna (outro histórico trabalhista e grande amigo de Brizola); o historiador

Miguel Bodea (que viria a desempenhar intensa atividade na área das relações

internacionais do PTB e do PDT, falecido prematuramente); o advogado Isaac

Ajhorn (também falecido), integrante do grupo de jovens ex-líderes estudantis que,

periodicamente, visitava Brizola no Uruguai.

Também foram ativos participantes o jovem advogado, militante e político

Carlos Araújo (mais tarde, candidato à Prefeitura de Porto Alegre), sua então

esposa Dilma Rousseff (eleita presidenta do Brasil em 2010 e reeleita em 2014);

Danilo e Ione Groff, entre muitos outros. Brigagão e Trajano viajaram

especialmente de Nova York e Rio de Janeiro, respectivamente, para participar do

Seminário de Esteio. Ali foi aprovada a criação da Associação de Estudos e Debates

do PTB, pioneira no Brasil e cujo presidente foi a figura líder, muito humana e ética,

do deputado federal Matheus Schmidt.

Foto: Carlos Contursi

 

 

Brizola, Trajano Ribeiro e Jair Calixto. Organização do PDT no Rio Grande do Sul.

 

A criação da Associação era um esforço para incrementar a organização do PTB,

que encontrava resistência entre os chamados quadros históricos do trabalhismo,

que balançavam entre a vontade de reentrar no PTB e a de permanecer na

estrutura emedebista, que crescera à sombra do autoritarismo de 1964. Era o

mesmo que ocorria no Rio de Janeiro, onde trabalhistas históricos adotaram essa

postura de “corpo mole” diante da reorganização trabalhista, reforçando

inicialmente a consolidação do PMDB.

O Seminário de Esteio debateu cinco pontos que expressavam a visão dos que ali

participavam: (1) o trabalhismo era uma realidade social e política do Brasil

(confirmada inclusive por pesquisas publicadas pela imprensa); (2) caberia ao MDB mobilizar-se pela anistia ampla, geral e irrestrita e pela reorganização

pluripartidária, pontos de seu programa; (3) a reorganização partidária e a

formação dos novos partidos não viriam cindir a frente de oposição ao regime,

mas sim reforçá-la; (4) propugnar pelos ideais trabalhistas, desde a carta-

testamento de Getúlio Vargas até as novas lutas pela democracia, contra o capital

espoliativo e pela defesa dos oprimidos; e (5) lutar pela reorganização do PTB, com

caráter nacional, popular e democrático.

O segundo encontro veio logo depois. Por exigência de oposicionistas gaúchos,

cerca de duzentas pessoas reuniram-se em 19 de fevereiro de 1979, em Osório, para

avaliação da existência da forte ala trabalhista do MDB. Como foi dito na ocasião:

“já não se pode arrolhar uma garrafa de fermento”. O Encontro foi dirigido por

Pedro Simon, presidente regional do MDB, no Rio Grande do Sul. Estavam

presentes o então senador Paulo Brossard, vários deputados federais, inclusive o

presidente do Instituto de Estudos Políticos Pedroso Horta, o deputado Alceu

Collares, parlamentares estaduais, prefeitos, vereadores e líderes municipais.

Grande número de ex-cassados participava, além de partidários de duas facções –

uma delas defendia a imediata reestruturação do PTB – dentro da ala trabalhista.

Segundo o deputado federal Magnus Guimarães, era preciso haver definição do

MDB: esclarecer suas metas nas regras do jogo político: ou como partido ou, ao

contrário, como frente de oposições. Deveria, portanto, propiciar acolhida a todas

as correntes político-filosóficas como sementes de futuros partidos. Sucessivos

oradores afirmaram ser unânime o crescimento trabalhista em todo o estado. O

setor jovem do MDB era favorável à estruturação de um partido para acolher o seu

futuro líder, Leonel Brizola. A outra tendência, liderada por Pedro Simon, preferia

não tocar no assunto sobre a futura criação do PTB. Sim, Lula deu palestra no

Encontro sobre o novo sindicalismo, e Simon disse ter a obrigação de esperar a

volta de quatro ex-cassados que haviam ido a Lisboa a fim de debater o assunto

com o senhor Brizola.48

O terceiro encontro nasceu no Rio de Janeiro, por iniciativa de membros da

Comissão Nacional Provisória. Havia resistências. Doutel de Andrade tinha

dúvidas sobre a oportunidade e o sucesso do evento, temendo uma repercussão

negativa no caso de um fracasso de público. Inicialmente, o encontro seria realizado em Niterói, apoiado pelo então jovem prefeito Wellington Moreira

Franco, eleito pelo MDB e que se dispunha a apoiar a sua realização. Moreira

Franco e o capitão Eduardo Chuahy organizaram o PTB em Niterói, e o prefeito

desta cidade defendia, junto ao senador Amaral Peixoto, do MDB, e os seus (como o

senador Saturnino Braga), que fossem todos refundar o PTB, juntamente com

Brizola e seu grupo.

Houve interferências de Bocaiúva Cunha e do pessoal do antigo PTB do Estado

do Rio de Janeiro, que achavam que a presença do prefeito niteroiense iria reforçar

o lado amaralista no PTB. O senador Amaral Peixoto não tinha muita simpatia pelo

temperamento de Brizola, durante a época do governo de Jango, mas também não

tinha restrição.

Alzira Vargas tinha restrições a Brizola, mais por questão geracional. Ela,

Maneco Vargas (filho de Getúlio) e Jango eram da mesma geração e tinham uma

ligação afetiva, e Alzira achava que Brizola tinha sido o responsável pela tragédia

de Jango. Mas, afinal, eles estiveram, no passado, muitas vezes com Brizola, e

teriam condições de se juntar a ele em um projeto partidário.

Era o grupo do Bocaiúva Cunha, do Paiva Muniz, do Ário Teodoro, do Álvaro

Fernandes e do Badger da Silveira que fazia forte oposição ao senador Amaral

Peixoto e procurava afastar Brizola do senador. Brizola, por sua vez, tinha restrições

a esse grupo porque este não era muito afinado com o ex-governador Roberto

Silveira, pai de Jorge Roberto Silveira, que viria para o PTB de Brizola e que

permanece até hoje no PDT, várias vezes prefeito de Niterói.

O grupo do antigo estado do Rio teve muito mais ligações com Jango e seu

governo, mas Brizola tinha que contar com eles para sobreviver, pois,

naturalmente, poderiam e iriam caminhar para o PTB de Ivete, como ocorreu, com

a exceção de Jorge Roberto Silveira.

Percebia-se o temor de alguns membros da Comissão Nacional Provisória em

partir para grandes mobilizações e gestos mais ousados e vigorosos. Preferiam

articulações sigilosas com lideranças, sem a cobertura da imprensa, que já tinha

bastante liberdade para opinar sobre o processo da nova organização partidária.

Foi então criado um Núcleo de Organização do Encontro, do qual participaram

ativamente Trajano Ribeiro, Ary Ahmed, Carmem Cenira, Adalberto Ribeiro, Alzira Leite, Ruth Pardal e Eduardo Chuahy. Doutel, então, convenceu-se da coerência da

iniciativa. Em reunião definitiva sobre o assunto, Trajano deixou claro que o

Encontro ocorreria mesmo que a Comissão Nacional não apoiasse.

Graças à gestão do trabalhista histórico José Gomes Talarico junto ao presidente

da ABI, Barbosa Lima Sobrinho, as portas da ABI – tradicional trincheira da

democracia – foram abertas para a inauguração, em 22 de março de 1979, do I

Encontro dos Trabalhistas Brasileiros. Feita a lista com centenas de nomes, em um

esforço surpreendente, os convites foram entregues de porta em porta.

Durante dois dias, mais de quatrocentas pessoas passaram pelo auditório da

ABI e participaram dos debates, que giraram em torno das propostas de

reorganização imediata do PTB e do futuro do trabalhismo com a proximidade da

volta de Brizola ao Brasil. Gilberto Mestrinho, do antigo PTB do Amazonas, em

longo pronunciamento, abriu o Seminário Trabalhista e emprestou seu apoio à

reorganização do PTB. Moreira Franco acabou não comparecendo e o advogado

Marcelo Cerqueira chegou até a porta do auditório com ar surpreso: convidado por

Trajano Ribeiro a entrar e participar, agradeceu e retirou-se.49

No início de março de 1979, os diversos grupos foram tomando posição para

reforçar a ideia de se organizar o PTB com vistas à elaboração de seu programa e à

nova estrutura de direção partidária.

De Nova York, Brizola enviou mensagem, via telefone, aos participantes,

reafirmando a necessidade da reorganização do PTB através desses seminários,

que deveriam ocorrer em todo o país com a finalidade de auscultar e colher

opiniões em meio às bases populares a respeito do programa e da estrutura do

partido.

Ao mesmo tempo, numa mobilização incansável, em vários lugares do Brasil

onde houvesse pessoas e grupos do extinto PTB, começavam a surgir seminários,

encontros e grupos de estudos. Até mesmo em São Paulo, historicamente difícil

para a implantação trabalhista, o movimento de reestruturação do PTB renovava-

se com a publicação dos Cadernos Trabalhistas, em cujas páginas foram impressos

artigos sobre o trabalhismo e seus valores, com propostas sobre o desenvolvimento

institucional, econômico e social do Brasil e da situação internacional,

impulsionada pelos economistas Márcio (casado com Ana Luiza Viana, irmã da Márcia, ambas militantes de esquerda e filhas de Cibilis Viana) e Márcia Cibilis

Viana. Toda essa movimentação no Brasil iria desaguar no Encontro de Lisboa,

reunindo o amplo arco de trabalhistas históricos, novos quadros e exilados, de

vários matizes, em torno da liderança de Brizola.

O mês de abril de 1979 chegara, assim como em 1964 viera o Golpe. Sob forte

pressão, pressa e uma articulada gestão de crise, a Comissão Provisória – formada

por Doutel de Andrade, presidente, Darcy Ribeiro, Cibilis Viana, Trajano Ribeiro,

Eduardo Chuahy e Moniz Bandeira – registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE),

em 10 de abril de 1979 (datado em Brasília, 9 de abril de 1979), o Partido Trabalhista

Brasileiro, integrado por 109 pessoas.

Seu objetivo era claro: garantir a posse da sigla para evitar que outros grupos

assumissem a dianteira pelo registro do trabalhismo. Trajano Ribeiro, em nome do

Doutel e do próprio Brizola, consultou então o professor de Direito Constitucional,

Dr. Adalberto Ribeiro, sobre a chance de fundar um novo partido, com o nome, a

sigla e os símbolos do velho PTB.

Estudioso, o Dr. Adalberto Ribeiro meteu a mão na massa (com a colaboração do

Dr. Gustavo Tepedino) e concluiu: não havia impedimento legal para o registro. Os

partidos anteriores a 1964 haviam sido extintos pelo Ato Institucional no. 2

(27/11/1965), e o Ato Complementar no. 4 (25/1/1965) proibia a utilização de nome,

legenda, sigla e símbolos dos partidos dissolvidos pelo Ato n o. 2 (que extinguia os

partidos nascidos em 1945 num espectro democrático, e engendrara o

bipartidarismo, com Arena e MDB).

Com o advento da Emenda Constitucional no. 11 (13/11/1978), decretada por

Geisel, que alterava a Constituição militar de 1967, “o dispositivo que proíbe que

um partido tenha a mesma sigla de um partido extinto, no caso o PTB, perdia a

validade”.50

No início de 1979 foi divulgado que o PTB estava sendo criado. O passo seguinte

foi o de requerer seu registro no Supremo Tribunal Eleitoral. Previa-se que o grupo

comandado por Ivete também tentaria registrar a mesma sigla e, portanto, era

preciso presteza. Mas vamos passo a passo. Diante da possibilidade de Ivete chegar

ao Tribunal primeiro, Brizola pediu ao seu grupo que requeresse imediatamente o

registro do PTB, de acordo com a legislação em vigor.

O registro exigia a apresentação ao TSE de um conjunto de documentos

constituído por estatuto, programa e manifesto, que deveria ser acompanhado

pela relação de no mínimo 111 assinaturas de apoiadores, além da relação dos

membros da Comissão Nacional Provisória. Darcy Ribeiro encarregou-se de

preparar o programa e, em menos de 24 horas, tinha elaborado a peça introdutória

que daria entrada no TSE. Coube a Doutel escrever o manifesto, e a Trajano Ribeiro

e Adalberto Ribeiro, o estatuto. Chamada por Doutel de “Operação Entebbe” 51 a

ação contemplava pegar de surpresa tanto o governo quanto a Ivete.

Doutel convocou um datilógrafo catarinense, Pedro Dietrich, que se encontrava

no Rio de Janeiro. À noite, por volta das oito horas, parte da Comissão Provisória

(Doutel, Eduardo Chauhy), com a presença de Carmen Cenira, reuniu-se na

residência de Trajano Ribeiro, em torno de uma velha máquina portátil Royal, que

pertencera ao pai de Trajano. Tudo precisava ser revisado e assinado, a petição de

registro redigida, e depois tudo deveria ser levado a Brasília. Carlos Franco chegara

de Porto Alegre trazendo dezenas de assinaturas.

O datilógrafo batia na máquina com espantosa velocidade. Os documentos

eram ditados e por volta das 11 horas chegou o deputado federal José Maurício

Linhares, pronto para assiná-los e, ao amanhecer do outro dia, partir para Brasília

com os responsáveis por levar o registro do PTB: ele seria o primeiro deputado

federal a filiar-se a esse partido.

Alta madrugada, Doutel, bem ao seu estilo, dirigiu-se à esposa, Lígia Doutel de

Andrade e, em tom jocoso, indagou:

— Liginha, o que é que nós estamos fazendo aqui? Isto é uma loucura!

Em seguida voltou-se para o datilógrafo e o advertiu:

— Se você não correr com isso vamos perder o bonde da história!

Às sete horas da manhã do dia 10 de abril, Trajano, Adalberto Ribeiro e o

deputado José Maurício embarcaram para Brasília com a missão de realizar o

sonho de Brizola: reorganizar oficialmente o trabalhismo. Em Brasília foram

recebidos com euforia pelos deputados Getúlio Dias, Lidovino Fanton, Eloy Lenzi e

Alceu Collares, todos do Rio Grande do Sul.

Em Brasília, o Dr. Adalberto Ribeiro verificou que o TSE havia aprovado nova

regulamentação sobre as regras constitucionais para a criacão, organizacão e registro de partidos políticos. Ele chegou a cogitar com o então deputado Lidovino

Fanton, do Rio Grande do Sul, que se desistisse do pedido anterior e fosse feito um

novo. Mas veio o encorajamento e a influência da declaração do então presidente

do TSE, Leitão de Abreu, para que se prosseguisse o pedido em tramitação. Leitão,

tanto naquele momento como depois, como Figueiredo, preferia o Brizola à Ivete.

Mas a dúvida persistia: qual a regra que o TSE adotaria em caso da requisição da

propriedade de dois títulos? O primeiro a fazer o registro levaria a sigla. O PTB

liderado por Brizola havia chegado primeiro e este fato deveria prevalecer. Mas o

pedido acabou sendo indeferido por estar em desacordo com a nova resolução do

TSE.

Brizola e Doutel de Andrade decidiram, então, procurar a orientação do

ministro Evandro Lins e Silva. O grande jurista e criminalista explicou não ser esta

sua área e sugeriu que eles procurassem o advogado Sepúlveda Pertence, sócio do

escritório de Victor Nunes Leal. Tudo em boas mãos. Em Brasília, Adalberto Ribeiro

conversou com Sepúlveda Pertence, que concordou em ajudar, mas não poderia

assumir o caso formalmente, uma vez que o ministro Pedro Gordilho, relator do

processo do PTB no TSE, era sócio do mesmo escritório. O ato foi aceito. Logo à

chegada de Brizola ao Brasil, em setembro de 1979, o TSE indeferiu o pedido de

registro do PTB, sem recurso ao STF. À época, foi geral o sentimento de que

Sepúlveda Pertence havia perdido o prazo por descuido; o que levou à pergunta de

Brizola: “A quem Sepúlveda pertence?”52

Revisemos rapidamente a história. Em declarações ao jornalista Flamarion

Mossri, do Jornal do Brasil, Ivete acusou o “Sr. Leonel Brizola de pretender,

realmente, aproximar-se do ministro Golbery do Couto e Silva, tendo solicitado a

ela, amiga pessoal de longa data do chefe do Gabinete Civil da Presidência, que

realizasse gestões e revelasse sua intenção de criar um novo PTB para ‘implodir’ o

MDB”.

Ela acrescentou que Brizola lhe pedira para conseguir do general Golbery a

indicação de um elemento da confiança dele para uma conversa franca e

reservada no exterior, em Lisboa ou Nova York. Nesse entendimento, Brizola

revelaria seu pensamento político, suas intenções de atuar novamente na política

brasileira e suas ideias sobre os problemas nacionais.53

Ivete revelou que conversara a respeito, pelo telefone e pessoalmente, com

Golbery. A resposta de Golbery, segundo ela, fora: “Brizola poderia regressar

quando desejasse, mas ao desembarcar seria preso, viesse com quem viesse, com a

netinha no colo, acompanhado de líderes políticos de muitos países e de dezenas

de jornalistas estrangeiros.” Ivete passara quase um mês, com o marido, o filho e a

mãe, com a família Brizola em Nova York e o assunto dominante fora a

reorganização do PTB.

As ideias não combinavam. Ela pretendia indicar, em cada estado, um nome de

liderança trabalhista como coordenador dos trabalhos. Brizola, segundo Ivete,

queria instituir com o PTB uma frente nacional das esquerdas (com a exclusão do

Partidão), o que deixou Ivete intrigada. Brizola não tinha intenção de entregar a ela

a direção do PTB, mas sim ao ex-líder petebista Doutel de Andrade. Ela discordou

da escolha por não ver capacidade política de liderança em Doutel, nem nos

demais coordenadores do PTB de Brizola, como Darcy Ribeiro ou Almino Afonso. E

cansou de repetir o que teria ouvido do ex-governador pelo Amazonas, Gilberto

Mestrinho – integrante da Comissão Executiva Provisória da facção de Ivete:

“Esperava um elefante e encontrei um gafanhoto.”

Em Brasília, para registrar o seu PTB, ela não negou suas antigas relações de

amizade com o ministro Golbery e suas ligações com o deputado arenista Rafael

Baldacci (SP). Ela havia indicado Baldacci para ingressar no PTB, mas Brizola havia

vetado seu nome por ser arenista e conhecido por ter ligações diretas com

Golbery.54 Brizola ficara convencido de que Ivete estava executando um projeto

governista e encerrou suas conversas com o grupo dela.

Brizola contra-atacou em entrevista por telefone ao jornal O Globo. Desmentiu

Ivete sobre sua intenção de provocar a implosão do MDB em troca de seu retorno,

mas não havia se surpreendido com isto, já que nos últimos 15 anos de exílio

muitos haviam deturpado suas palavras.

— Ela, aqui, é que falou muito sobre ele [Golbery] ressaltando suas amplas

ligações. Nenhum mal nisso. Quanto aos seus oferecimentos, reiterei que vivíamos

o momento de abertura democrática e de que não devíamos nos negar a nenhum

tipo de diálogo, com a condição de que fossem encontros públicos que a imprensa

possa noticiar.

“Ela deveria superar seus ressentimentos em benefício da unidade da causa

trabalhista. Nunca pensamos em excluí-la, ela que queria excluir todos os que não

se subordinassem aos seus esquemas domésticos. A volta do PTB não tem e não

pode ter sentido de divisão das oposições. Nossa oposição é antagônica a tudo que

se fez nesses 15 anos. É essencialmente antagônica.

Brizola usa o exemplo do trabalhista histórico José Gomes Talarico, que não

constava do manifesto de lançamento do partido:

— O Talarico me disse ontem, por telefone, estar solidário com a nossa

iniciativa. O nome de muita gente não está em função da necessidade de se tomar

uma decisão rápida… é apenas o primeiro passo e abriremos um grande debate e

desenvolveremos os mais amplos entendimentos necessários.55

Esses entendimentos seriam junto aos trabalhistas históricos, às novas e

antigas lideranças sindicais e, especialmente, aos valores das novas gerações com

relação a outras correntes afins (como cristãs de esquerda e de outras orientações

socialistas). Quanto ao PCB, afirmou ser “natural que não tenhamos nada a ver

com ele: tem sua própria organização e seria muito construtivo que reconquistasse

sua legalidade, para evitar confusões e o ‘centrismo’”. Com relação ao MDB, por ele

designado de “frente”, afirmou:

— Enquanto o PTB não existir plenamente e legalmente seremos uma corrente

do MDB. Quando alcançarmos a existência legal, faremos, certamente, coligação

com o (P)MDB e com outras correntes democráticas e de oposição que deverão

surgir.56

Ivete retrucou e prometeu acelerar o registro no TSE em Brasília. Disse

considerar seu grupo como o de maior representatividade nacional e que, ao

contrário do PTB encabeçado por Doutel – que registrara primeiro o PTB junto ao

TSE, sem comparecer ao Diário Oficial para que fossem publicados os documentos

exigidos por lei –, ela decidira primeiro publicar toda a documentação referente ao

PTB para depois providenciar seu registro na Justiça Eleitoral. Sozinha, ela seguiu

para as oficinas da Imprensa Oficial, em Brasília, já com o Diário Oficial, que

circularia na manhã seguinte, praticamente composto.

Dramática e sabe-se lá com que ajuda, encontrou-se com o diretor-geral do D.O.,

professor Otaciano Nogueira, que decidiu aceitar o material para publicação. Com a publicação no Diário Oficial, o grupo de Ivete passou a informar que o seu PTB

havia sido criado.57 Lutero Vargas, membro da Comissão Provisória do PTB-Ivete,

acreditava na fusão dos dois grupos em torno de uma mesma sigla, e Brizola, em

conversa com ele, apelara para o sentimento de unidade.

Enquanto isso, o presidente do TSE, ministro Leitão de Abreu, designava o

ministro Pedro Gordilho para relator do pedido de registro do PTB-Brizola. Gordilho

teve direito de não levar, de imediato, o processo a julgamento, mas a tendência

era a de que ele daria prosseguimento normal ao caso. Houve pedido ao TSE para

que houvesse suspensão do julgamento até que fosse editada a nova Lei Orgânica

dos Partidos Políticos, que iria criar os requisitos para a organização e o

funcionamento dos novos partidos. Assim, a sigla não pertencia nem a Brizola

nem a Ivete, pois o TSE só concederia registro com a apresentação completa da

documentação exigida.

Também não havia a figura de registro provisório e nem qualquer norma que

assegurasse a quem primeiro requeresse o uso de determinada legenda. A posse da

sigla dependeria da ação de cada grupo, da organização imediata de um completo

processo, munido de todos os documentos exigidos na lei. No pedido de registro

encaminhado ao TSE, o PTB-Brizola pediu a paralisação do processo até que a nova

lei fosse feita, reformando a Lei Orgânica dos Partidos existente e reduzindo,

substancialmente, as exigências para criação de novo partido.

O pedido de registro encontrava-se, portanto, à margem da lei. Do lado do

grupo liderado por Brizola, ninguém respondia às constantes críticas feitas por

Ivete, como tática para que ela se cansasse. A preocupação de Brizola, Doutel e

Darcy Ribeiro era a de atrair o ex-ministro Almino Afonso e, então, dar por

encerrada qualquer composição com o grupo de Ivete. Mas Almino não

compareceu!

No momento mesmo em que o Palácio do Planalto encaminhava à imprensa

oficial os autógrafos da lei da reforma partidária, assinados pelo presidente,

general João Figueiredo, um procurador do futuro PTB-Brizola entregou no TSE os

documentos exigidos para fundação do partido: manifesto, programa de ação e

estatuto. Deputados comprometidos com a formação do PTB-Brizola mantinham

plantão no TSE 24 horas por dia. No instante em que os documentos pudessem ser recebidos, seus representantes estariam na cabeça da fila. Os plantonistas já

tinham embaixo do braço os três documentos e com o número mínimo de

parlamentares: 48 congressistas representando as duas casas do Congresso.

Nessa mesma ocasião, o senador Franco Montoro (MDB-SP) divulgou a carta

que havia recebido de Brizola. Nela, o líder trabalhista destacou dois motivos. Em

primeiro lugar, realçou o relacionamento cordial e franco, identificando em

Montoro ideias e ação com o trabalhismo brasileiro. Segundo, reportou a

declaração pública subscrita pela maioria dos senadores do MDB e da qual

Montoro era um dos principais articuladores. Brizola disse que havia sintonia

entre eles na defesa da democratização do país, na defesa dos interesses nacionais

e dos direitos do povo, especialmente da grande maioria marginalizada, como

essência das preocupações.

Brizola encorajou e propôs a Montoro e aos senadores um diálogo amplo e

reflexão conjunta sobre as alternativas viáveis de construção do futuro

democrático do Brasil, caminho indispensável para que o povo brasileiro

conseguisse equacionar e resolver seus problemas e decidir soberanamente seus

destinos. Desse encontro esperava alcançar resultados convergentes e positivos.58

Enquanto isso a novela política prosseguia. Ivete considerava irrelevante o

parecer do procurador-geral eleitoral, Firmino Ferreira Paz, que opinara pelo

arquivamento do pedido de registro provisório do PTB por ela encabeçado.

Declarando-se sufocada pelo noticiário, acusou Brizola de manter um dispositivo

para fornecer noticiário à imprensa, como a nota publicada por O Globo, de 14 de

dezembro de 1979. Na nota, o deputado Joel Ferreira, presidente do MDB da

Amazônia, e o ex-governador do Amazonas, Gilberto Mestrinho, da Comissão

Provisória do PTB-Ivete, estariam mudando para o partido de Brizola.59

Mesmo rompidos, Ivete conversou por telefone com Brizola. Ela disse que

pretendia acionar uma comissão encarregada para a formação do PTB. Saiu

pedindo a seus membros que reunissem assinaturas suficientes para efeito de

registro de um novo partido político no Brasil. A ideia era registrar o PTB na Justiça

Eleitoral até novembro de 1979 para que aqueles que fossem disputar as eleições

municipais de 1980 tivessem tempo necessário de filiação partidária, como exigia a

Lei. Segundo Ivete, Brizola estava convencido do sucesso do trabalho de recriação do PTB. Ela informou que, por sugestão dele, escolhera a dedo a comissão nacional

para organizar o novo partido, embora reconhecesse que, legalmente, nenhuma

comissão pudesse ser criada.

A Comissão foi então formada por dez ex-integrantes do PTB. Apenas um não

fora cassado, o Sr. Lutero Vargas. Os outros nove eram: Doutel de Andrade (SC),

Gilberto Mestrinho (AM), Chagas Rodrigues (PI), Oswaldo Lima Filho (PE), João

Herculino (MG), Dante Pelacani (ex-presidente da Confederação Nacional dos

Trabalhos da Indústria, CNTI), José Gomes Talarico (RJ), Ivete Vargas (SP) e um

nome do Rio Grande do Sul que seria indicado por Brizola. Pelacani teria a função

de articular com Luis Inácio Lula da Silva a fusão entre o PTB e o Partido dos

Trabalhadores que Lula criaria logo a seguir.

Brizola teria ainda sugerido que Ivete fosse a representante de São Paulo e

Doutel de Andrade o do Sul, e que ambos reunissem outros trabalhistas para

estudar a reformulação do PTB. “Pensei numa Comissão Ampla, representando

todo o país.” Não tinha sentido ele desautorizar a formação da Comissão e menos

ainda a divulgação de que ele iria ingressar no MDB, desmentida, logo a seguir, por

Doutel de Andrade. A Comissão teria o objetivo de manter contatos com o Poder

Judiciário em busca de orientação sobre como proceder para registrar o partido até

novembro de 1979, a fim de participar das eleições municipais de 1980.

Na Câmara o agito se propagava. O deputado Getúlio Dias (MDB-RS) avisou que

Brizola estaria voltando em abril de 1979, com ou sem habeas corpus, criando fato

político. Sua volta significaria articular antigas forças trabalhistas em torno do

novo PTB. Mário Covas, ex-líder do MDB na Câmara, opinou que a ida de Ulysses

Guimarães à Europa para ouvir Arraes e Brizola seria decorrência lógica do

trabalho que vinha realizando em torno de manter o MDB unido, e que Brizola

deveria ingressar no MDB e criar ali uma tendência trabalhista.

Brizola, de Lisboa, replicou: não autorizara nem Doutel, nem Ivete, a formar

qualquer Comissão. Garantiu que se filiaria ao MDB logo que a situação política no

Brasil lhe permitisse voltar.

São jogos de cena e de bastidores na incansável luta por liderança e,

principalmente, por poder, no caminho do Brasil rumo à democracia. Quanto à

posição em relação ao MDB, Brizola atacou “a companheira” Ivete:

— Ela emitiu seu ponto de vista pessoal. O meu ponto de vista é outro. Não há

conflitos entre a unidade e a continuidade do MDB e a nossa presença nele, e o

ressurgimento do PTB. Nós, trabalhistas, estamos dentro do MDB como uma

corrente evoluindo para o posterior renascimento autônomo do partido.

Comentando acusações que teriam sido pronunciadas pelo deputado Magnus

Guimarães contra o ex-deputado Jarbas Vasconcelos (MDB-PE) de, em conluio com

Miguel Arraes e com Luís Carlos Prestes, tramar um impedimento à sua volta ao

Brasil, Brizola disse que estaria conversando com Arraes na Europa e que o

parlamentar não era seu porta-voz autorizado.

Em Lisboa, em junho de 1979, Brizola reuniu-se com Almino Afonso e com o ex-

deputado Neiva Moreira, exilado no México. Brizola e Neiva afirmaram que o

entendimento entre os três era total. Já para Almino houve divergência: ele e

Brizola concordavam quanto à necessidade de fortalecer as oposições, com a

participação de correntes progressistas dispostas a buscar uma sociedade

socialista, mas Brizola denominara essa corrente de PTB, enquanto Almino:

— Eu, porém, prefiro não me ater a nomes, por enquanto. Nomes e siglas só se

devem definir, creio, após uma Assembleia Constituinte.

Almino afirmou não ter qualquer notícia sobre a viagem programada por

Ulysses Guimarães para encontrar-se com Brizola e Arraes na Europa. Já o senador

amazonense do MDB, Evandro Carreira, teceu críticas a esta viagem:

— Não se justifica que o presidente do partido ande desesperado com um

possível esfacelamento do MDB, pois a criação de novas agremiações não

representa prejuízo para a Oposição.60

Cabe aqui um breve, porém precioso parêntese. Um dos mais interessantes

diagnósticos sobre a conjuntura política daquele momento partiu da figura,

política e humana, de Doutel de Andrade, ex-líder do PTB na Câmara no governo

Goulart e, de volta, o principal articulador no Brasil da reorganização do PTB junto

com Brizola. Viu-se, de pronto, constrangido diante do clima que apontava para

tensões emocionais entre lideranças políticas e “que, certamente, iriam prejudicar

a unidade da Oposição, sem deixar de predicar pela reorganização de novos

partidos”.

Doutel, municiado de eloquente retórica política, com suas peripécias verbais

impagáveis, argumentos e malabarismos de linguagem, sempre surpreendia seus

interlocutores. Dava um toque original à esfera da atividade política. Geralmente

irônico, atirava finíssimas e calibradas farpas para todos os lados, mantinha uma

incrível memória sobre acontecimentos da vida brasileira. Assim, elevou sua

prédica e deu o tom:

— Tudo consistirá no exercício simultâneo e equilibrado dessas duas linhas de

atuação. Não data de agora a ideia de recomposição do movimento trabalhista

brasileiro. […] Estão em curso tratativas e medidas tanto a nível prático quanto a

nível teórico, com vistas à consecução daquele objetivo. Segundo alguns, o governo

estaria interessado na formação do PTB para dividir o MDB. Mas o PTB coloca-se

muito acima dos interesses do regime de exceção vigente no País. No que me diz

respeito, pessoalmente, não serei manipulado por quem quer que seja. Entendo

que nas atuais circunstâncias da vida brasileira a reorganização do trabalhismo

não deve e não pode provocar fraturas no MDB.

“Por isso mesmo, nós, trabalhistas, temos tido cuidados e cautelas nesse

sentido. Temos suficiente experiência e maturidade para saber a hora exata em

que o PTB deve ressurgir como força […] na forma de um instrumento a mais de

luta pela restauração das instituições democráticas brasileiras.

Perguntado pela hora exata, respondeu com aquela sua forma politicamente

abrangente, universal:

— Entendo que o momento está a reclamar o aprofundamento das nossas

diligências, dos nossos estudos e das nossas reflexões, entre as quais se colocam

aquela de ordem legal mais diretamente ligada à constituição de partidos.

“O assunto da espera pela regulamentação do artigo constitucional sobre

reorganização aponta para a legitimidade e autonomia. Esse assunto não é

relevante para nós, na medida em que não nos colocamos a reboque do governo,

esperando que ele conceda ou deixe de conceder espaço legal à reorganização da

vida partidária nacional. Sejam quais forem os óbices à nossa frente, estamos

decididos a enfrentá-los, independentemente do que possam pensar os donos do

poder no Brasil.61

Fechado o parêntese, sigamos em frente… Toda essa movimentação no Brasil

em torno do ressurgimento do PTB iria desaguar no Encontro de Lisboa, reunindo o

arco de trabalhistas históricos, novos quadros que saíam do MDB e o pessoal que se

reunia no exílio ao redor de Brizola.

Notas

 

 

40. O Globo, 18/8/1978.

41. O então prefeito de Niterói manteve contatos seguidos com Brizola, através de Clóvis Brigagão, e naquela

fase inicial ajudou a organizar o PTB em Niterói, oferecendo a Secretaria de Educação do município ao ex-

deputado Álvaro Fernandes, antigo líder do PTB na Assembleia Legislativa. Entrevista de Moreira Franco, Rio

de Janeiro, 21/8/2005.

42. Doutel nos contou uma história sobre a “venda” da sigla do PTB em São Paulo. Jango pediu-lhe que

comparecesse à Convenção e impedisse essa transação. Quando chegou lá, Doutel pediu a palavra, em nome

de Jango e da Direção Nacional do PTB, para que a Convenção fosse cancelada. Além disso, ele pediu, ao pé do

ouvido, que Ivete desmaiasse a fim de causar o impedimento da Convenção. Ela “desmaiou” e assim ficou

suspensa a transferência do controle do PTB paulista para outras mãos sujas.

43. A Comissão Trilateral foi iniciativa dos líderes norte-americanos, europeus e japoneses. A Trilateral, como

ficou conhecida, oferecia ao mundo a perspectiva do Ocidente desenvolvido, em torno da ideia da democracia,

do mercado livre e do anticomunismo, numa versão light da política internacional à época da Guerra Fria.

44. O Globo, 31/10/1978.

45. Jornal do Brasil, 21/1/1979.

46. Tivemos acesso aos documentos originais cedidos por Matheus Schmidt, com o mapa do lugar, a lista dos

participantes e o Documento de Conclusão.

47. Brizola transmitiu sua mensagem diretamente de Paris, onde se encontrava articulando a reorganização

do trabalhismo.

48. Jornal do Brasil, 21/2/1979.

49. A presidência do Encontro ficou com Doutel de Andrade e a secretaria com Trajano Ribeiro.

50. Entrevista com Dr. Adalberto Ribeiro, Rio de Janeiro, 19/4/2008, e nota de esclarecimento enviada em

19/5/2008 por e-mail.

51. Operação Entebbe foi a que Israel preparou para invadir o aeroporto da capital de Uganda e que resultou na

queda de Idi Amin Dada.

52. Sepúlveda Pertence era então secretário-geral da OAB, sobrecarregado com o projeto da anistia e em

campanha para a presidência da OAB.

53. Ver Jornal do Brasil, 13/4/1979. Pode-se aqui levantar a seguinte hipótese: No final do exílio, entre julho e

setembro de 1979, em Nova York, Brizola e o então secretário-geral do MDB, deputado Thales Ramalho (e

conselheiro do governo Figueiredo) mantiveram seguidas conversas privadas sobre o processo de anistia e a

reorganizacão partidária. Durante bom tempo, após a anistia, Thales Ramalho, extinto o bipartidarismo,

chegou a aproximar-se do PTB de Brizola, mas acabou indo, inicialmente, para o PP de Tancredo e, com o fim do

PP, voltou-se para o PMDB. Ver capítulo “Em Nova York: o teatro da transição autoritária à democracia” para

mais detalhes sobre esse episódio.

54. Certa vez, Golbery, indagado por um deputado que pretendia entrar para o PTB (de Brizola ou de Ivete),

recebeu a seguinte resposta: “Em qualquer um, vão terminar todos juntos”, cf. coluna de Carlos Castello

Branco, Jornal do Brasil, 13/4/1979.

55. O Globo, 14/12/1979.

56. Ibidem.

57. No Diário Oficial impresso constam 150 assinaturas de engenheiros, advogados, carpinteiros, pilotos,

ajudantes de caminhão, jornalistas e técnicos de computação entre outros. Da Comissão Executiva faziam

parte, além de Ivete Vargas, Lutero Vargas (filho de Getúlio Vargas, mas que depois vem a se compor com

Brizola), Gilberto Mestrinho (depois vai para o PMDB), Cândida Ivete Vargas, Julio Rocha Xavier, Álvaro

Fernandes e Jonas Bahiense. No entanto, o registro ainda não havia sido sacralizado no TSE.

58. Jornal do Brasil, 22/11/1979.

59. O Globo, 14/12/1979.

60. O Globo, 20/2/1979.

61. Jornal do Brasil, 22/11/1979.