Brizola

Clóvis Brigagão · Capítulo 20 de 30

Páginas do PDF

Brizola

Reorganizando o PTB

 

Dada a partida oficial para a reconstrução dos partidos políticos, após a guilhotina

lançada sobre o corpo do bipartidarismo autoritário, começa a batalha. Primeiro,

organizar nacionalmente o PTB. Era tarefa burocrática gigantesca em um país de

dimensões continentais como o Brasil. Era como se estivéssemos a organizar uma

autarquia político-partidária. No meio disso tudo, a liderança de Brizola estava

dividida, entre ex-trabalhistas históricos, getulistas, janguistas e brizolistas, e os

novos trabalhistas saídos da armadura do MDB e da Arena, socialistas, comunistas

(ligados ao grupo de Luís Carlos Prestes) e a facção de Ivete Vargas, que disputava

com o grupo de Brizola o registro definitivo da sigla PTB.

Ainda restavam os que chegavam do exílio, da Europa (Portugal e França

majoritariamente), do México, da Argentina e do Uruguai, além de países

africanos de língua portuguesa. Que valor tinha esse PTB para que se despendesse

tanta energia, que gerasse tanta disputa? E, apesar de tantas críticas ao seu

passado, ali estava o partido, naquele momento da virada política brasileira,

novamente em ação.

Um dos seus mais íntimos colaboradores era o saudoso e respeitado coronel

Dagoberto Rodrigues, exilado no Uruguai, ex-diretor geral do então estratégico

Correios e Telégrafos no governo Goulart. Registramos aqui um episódio pitoresco.

Em março de 1960 o presidente JK dera, ao então jovem oficial-engenheiro do

Exército, pleno poder para implantar a rede de telecomunicações de Brasília, ainda

em construção. Dagoberto começou então a buscar equipamentos, principalmente

com os suecos.

O embaixador dos EUA fez chegar a JK o desapontamento americano com a

decisão do Brasil de instalar um sistema “de campanha” das Forças Armadas para

funcionar na visita que o presidente Eisenhower faria a Brasilia. Eles queriam que a poderosa e americana ITT (encampada por Brizola em seu governo no Rio Grande

do Sul) instalasse as linhas de telefonia e telex da nova capital. JK não cedeu. A ITT

então enviou ao Brasil seu melhor negociador para entendimentos com o jovem

oficial Dagoberto Rodrigues: Henry Kissinger, que viria a ser o homem forte do

governo Nixon, anos mais tarde. Kissinger, sem conhecer o caráter de Dagoberto,

partiu para uma proposta direta de aliciamento para se fazer o negócio.

Diante da imperturbável resistência de Dagoberto, o negociador Kissinger

apelou para o “jeitinho” e perguntou-lhe quanto (how much) – e repetiu algumas

vezes “quanto” – teria de pagar “por fora”. Dagoberto ouviu e, em inglês disse-lhe:

— 134 Please, can you repeat?

E o negociador da ITT, Henry Kissinger, repetiu lentamente, com um sorriso

amarelo:

— How much?

Dagoberto levantou-se e, em português, disse-lhe:

— Levante-se e ponha-se daqui para fora.

Dagoberto, às vésperas de tomar posse como diretor da Imprensa Oficial do

estado do Rio de Janeiro, no governo Brizola, sofreu um ataque fulminante do

coração e morreu!135

Brizola havia chegado ao Brasil em setembro de 1979 e desde o início de 1980

carregava a responsabilidade de organizar seu partido pelo país afora. Cumprir

toda a restritiva legislação para o registro partidário era tarefa gigantesca.

Assinatura de várias fichas (eram três fichas para cada afiliado), cadastramento,

composição das listas de nomes para a Comissão Nacional, as Comissões Estaduais

e Municipais, os Diretórios, os suplentes… Aquilo tudo representava pesada

quantidade de papel, documentação, tudo a ser registrado nos tribunais eleitorais.

Brigagão, que até então nunca tivera qualquer experiência dessa natureza

legal,136 colaborava com o carregar daquele piano, movendo-se por todo o país, em

busca de velhos e novos adeptos, nas capitais e cidades do interior. Assinaturas e

mais assinaturas nas indefectíveis, mas indispensáveis, fichas, organizar aquilo,

voltar ao Rio, entregar à Direção Nacional e, novamente, render-se às viagens pelo

norte, nordeste, leste, oeste, sul… Afinal, a conhecer mais seu próprio país. Atormentava-se com o tamanho e o volume daquelas inscrições, Comissões,

Diretórios para o registro do PTB, com data marcada…

Quem teve papel central na reorganização inicial do PTB em todo o Brasil foi o

ex-deputado Doutel de Andrade, último líder do PTB na Câmara dos Deputados

(1964) e que ocupou o segundo lugar mais importante na hierarquia do PTB e,

posteriormente, do PDT.

O processo de articulação do PTB foi repleto de cenários, uns assimiláveis outros

descartáveis, mas para Brizola o conflito fundamental estava em Brasília, não

tanto no governo Figueiredo, mas no meio dos senadores do MDB. Se ele tivesse

conquistado, não todos os senadores, mas boa parte deles, seu caminho teria sido

outro, ampliando o movimento social, garantindo-lhe a liderança e hegemonia do

processo de democratização até as eleições presidenciais, diretas, em que seria

imbatível.

Segundo Cibilis Viana, “a primeira viagem de visitas que Brizola fez foi aos

principias jornais paulistas e a personalidades; entre outros, dom Paulo Evaristo

Arns, Franco Montoro, Euzébio Rocha e Lula. Esse primeiro encontro com Lula não

foi nada amistoso. Na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, Lula

aguardava Brizola sentado em sua mesa de trabalho. Brizola falou sobre as

tradições trabalhistas, sobre Getúlio. Lula o interrompeu, dizendo: ‘Getúlio ferrou o

trabalhador.’ A partir daí, o ambiente tornou-se constrangedor. Brizola o

contradisse e a conversa terminou ali mesmo. Brizola se retirou, sem que Lula

tivesse a gentileza de o acompanhar até a saída; permaneceu sentado em sua

mesa.”

Foto: Carlos Contursi

 

Tentativa de entendimento. Sindicato dos Metalúgicos, em Osasco (SP). Brizola fumando, Lula cofiando seu bigode, os olhares para horizontes distantes...

 

Cibilis Viana comenta ainda que em seguida “Brizola encontrou-se com Franco

Montoro, na fazenda de Paulo de Tarso, no interior de São Paulo, onde acertaram a

entrada deles no PTB. Entusiasmado com os entendimentos, Montoro comentou

comigo: ‘Vamos unir no Brasil as duas internacionais, a democrata cristã e a

socialista.’ Dias depois, Montoro recuou da iniciativa, ao que sabemos, por ter

obtido de Ulisses [sic] Guimarães o compromisso de fazê-lo candidato a governador

de São Paulo, caso se mantivesse no PMDB. Brizola procurou Tancredo Neves, que

concordava em participar do projeto de reconstrução do PTB, mas desejava fazê-lo

em companhia de Chagas Freitas, fato que impossibilitou a continuidade dos

entendimentos.

“Em outra oportunidade, Brizola foi recebido em Santo André, numa grande

Assembleia [sic] de trabalhadores. O Presidente do Sindicato local era um antigo

trabalhista, Deputado Federal Benedito Monteiro. Brizola, que fez um discurso

inflamado, impregnado de nacionalismo, foi ovacionado”.137 Os sindicalistas

fizeram questão de dizer a Brizola que não trouxesse para dentro do PTB o Jânio

Quadros: ele provocaria a saída dos sindicalistas!

Uma articulação nada desprezível foi justamente a que Brizola entabulou com o

ex-presidente Jânio Quadros, que amargava o ostracismo, mas ainda tinha uma

extraordinária comunicação popular e estava de volta à vida política de São Paulo.

Por iniciativa do próprio governo Figueiredo e pela velha amizade que Golbery

mantinha com o ex-presidente, seu nome foi incluído nas pesquisas de opinião de

empresas de pesquisas eleitorais.

Brizola foi, então, convidado por Jânio para um almoço em sua residência, no

Guarujá. Com o astuto Jânio, Brizola teria de fazer todo um malabarismo para

examinar o quadro partidário e até mesmo convencê-lo para que examinasse a

proposta do PTB.138

A conversa durante o almoço foi um encantamento – bastante surrealista –

entre dois políticos matreiros e experimentados. Brizola buscou um discurso que,

aparentemente objetivo, navegava por parábolas e figuras de retórica, a fim de

conquistar a figura paradoxal de Jânio. No início, Jânio ouvia; parecia que estava

em outro lugar, distante. Brizola já gastara boa parte de seus argumentos para que

o ex-presidente escolhesse seu caminho e entrasse no PTB. Jânio recompôs-se,

ajeitou seus óculos e tratou de dirigir a conversa em seus termos, vagos, difusos,

com seu linguajar característico, que perambulava por filigranas que resvalavam

para um tom de comédia.

Depois do almoço passou-se para a varanda. Jânio começou dizendo:

— Governador, depois que o senhor se livrou da companhia daquela senhora

[referia-se a Ivete Vargas], me declaro disposto a ingressar em seu partido, como

soldado. Amanhã vou a Araraquara [SP] falar aos estudantes e irei transmitir sua

palavra aos jovens.

Constrangido, Brizola falou sobre o partido, ressaltou que o ingresso em uma

organização partidária era um ato de consciência, e que iria deixar ao ex-presidente o programa dos estatutos do partido para que ele pudesse refletir sobre

a proposta trabalhista, a fim de que pudesse assumir uma decisão definitiva.

A conversa se desenrolava com elogios mútuos, grandes expectativas sobre a

convergência partidária, mas nada era conclusivo. E assim Brizola ficou sem Jânio,

e este, mais tarde, conquistaria a Prefeitura de São Paulo à sua moda.

Outra história – e essa muito importante – que não vingou foi com o MDB.

Contemos os fatos da reunião histórica entre Brizola e os senadores do MDB

(praticamente o comando do MDB), em Brasília.

Logo no início de 1980, Brizola partiu do Rio, em companhia de Moreira Franco,

para enfrentar e tentar convencer os caciques principais do MDB a examinarem as

possibilidades de marchar com ele para o PTB. Ele chegou a expor aos seus

principais companheiros da Comissão Executiva Nacional seu objetivo:

convergência e fusão do seu PTB com o MDB. Foi uma reunião – tanto para ele

quanto para os do MDB – decisiva no sentido de uma composição política de

conciliação das elites ou de desentendimento entre elas. Durante a viagem,

Moreira Franco procurou, mansamente, aconselhar Brizola a ouvir, a ter muita

cautela com os senadores – apontava os possíveis prós e os contras. Brizola ouvia

daquele seu jeito de segurar a cara com uma das mãos, as largas sobrancelhas se

enrugando junto à testa, ficava absorto, pensativo, mas não dizia nada.

A reunião contou com os principais senadores – com a ausência de Ulysses

Guimarães e do mais importante político do MDB, Tancredo Neves, ligado a

Getúlio e a Jango e que estivera com Brizola em Nova York. Mas estava presente

uma expressiva bancada de senadores, como Franco Montoro (SP), Amaral Peixoto

(RJ) e Pedro Simon (RS). Além de Paulo Brossard (RS), o menestrel de Alagoas

Teotônio Vilela, Marcos Freire, de Pernambuco, morto prematuramente em

acidente de avião. A avalanche das eleições de 1974 fizera o único partido de

oposição engordar, e os senadores se transformaram em verdadeiros caciques do

partido. E nenhum era biônico!139

Nessa reunião Brizola avançou o sinal e falou muito, em vez de ouvir os políticos

do MDB. Com sua capacidade de argumentação, combinada a seu charme e poder

de convencimento, e tocando seu realejo, ele certamente criaria um ambiente de simpatia, com a possibilidade de adesão do grupo – ou de provocar a cizânia – e, no

final, arrebanhar aqueles senadores para seu projeto do PTB.

A reação foi grande, e a principal partiu do senador Franco Montoro: não era

pelo Brizola – embora ele também tenha sido atacado –, mas pela mudança da

sigla MDB (ele frisou: movimento democrático brasileiro), contra a hipótese de um

PTB, que pela tradição do trabalhismo-getulismo tivera como fonte o período da

ditadura varguista. Não cabia, pois, juntar democracia com autoritarismo.

Teotônio o seguiu e depois outros e, no final, o senador Amaral Peixoto, que

defendera a tese da incorporação do MDB ao PTB, ficou irritado com Montoro,

como na velha rixa entre a UDN e o PSD (de Juscelino, e que fizera o pacto com o PTB

de Jango).

Montoro pronunciou seu discurso, naquele seu estilo embaraçado e, às vezes,

desconectado da realidade, mas pisou fundo no calo: era um absurdo o MDB, como

o próprio nome indicava, trocar de sigla e tornar-se o PTB, partido fundado pelo

ditador Vargas. Amaral reagiu e disse que, diante de tais circunstâncias, não

poderia continuar no MDB, pois manteve e mantinha laços de lealdade ao Dr.

Getúlio. Em seguida, levantou-se, saiu da reunião e nunca mais voltou. Sua briga

era com Chagas Freitas, no Rio de Janeiro, e não quis combatê-lo ao lado de Brizola.

Por isso foi buscar outro rumo… o PDS.

Brizola ficou sabendo naquele momento que teria de tocar seu próprio caminho:

não poderia realizar um projeto político de refundação do PTB com o patrimônio

adquirido pelo MDB nos últimos 15 anos de oposição consentida ao regime militar.

Deveria partir para sua campanha solitária, cercado de seus fiéis seguidores:

organizar nacionalmente o PTB, a partir do Rio de Janeiro e com o que ele

conseguira manter no Rio Grande do Sul e alguns outros pontos do Brasil.

O ministro Golbery procurou saber mais sobre aquela reunião; não se sabe se

Montoro estaria nesse jogo político ou mesmo se mantinha relações com Golbery, e

aí dois movimentos foram formados: o primeiro foi o que estimulou Tancredo

Neves a criar o Partido Popular (PP) e o segundo foi dar o PTB ao grupo da Ivete

Vargas. Com essa manobra, Brizola ficou só com seu grupo, que, em vez de crescer,

parecia ter se encolhido.

Notas

 

134. “Por favor, você pode repetir?”

135. Conforme relato por e-mail de Gilberto Araújo, em 5/7/2007, sobre o coronel Dagoberto Rodrigues, com

quem ele e Clóvis Brigagão trabalharam nos Correios e Telégrafos até o Golpe de 1964.

136. Fez parte da diminuta, mas tempestuosa, POLOP (Política Operária), de natureza trotskista e

luxemburguista, mas ali não havia fichas, ao contrário, nem legalidade e burocracia a cumprir… e, claro, era a

história clandestina da luta política contra a ditadura.

137. Cf. Cibilis Viana, “Cibilis Viana relembra momentos marcantes de Brizola”. Disponível no site do PDT:

<www.pdt.org.br/index.php/pdt/lideres/verdades-e-mentiras-sobre-o-subdesenvolvimento/meu-amigo-

leonel-brizola/cibilis-viana>, Rio de Janeiro, 2/6/2011; acesso em 6/10/2014.

138. Brigagão esteve presente e procurou sintetizar a longa conversa entre Jânio Quadros e Brizola, em

princípio de longa camaradagem.

139. Senadores nomeados pela ditadura não eram eleitos.