Brizola

Clóvis Brigagão · Capítulo 9 de 30

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Brizola

Em Lisboa: o congraçamento português

 

Foto: Editora Abril

 

Ao centro, Leonel Brizola, e, à esquerda, Miguel Arraes durante conferência de imprensa do Comitê Pró-Anistia Geral do Brasil (ver p. 54) em Lisboa, em 25/1/1978.

 

No dia de seu aniversário de 56 anos, em 22 de janeiro de 1978, Brizola e Neusa –

que, por ter nascido em 20 de janeiro, também comemorava o seu –

desembarcaram em Lisboa, com passaportes dados pelo então primeiro-ministro

Mário Soares.

O líder do PS acabara de formar o II Governo, através de acordo com o Centro

Democrático Social (CDS), partido de direita liderado por Freitas do Amaral. Soares

encontrava-se em sua casa de Sintra quando, por volta das três da manhã, tocou o

telefone.

Do outro lado da linha, de Londres, o jornalista brasileiro, ex-deputado federal

cassado pela ditadura, Hermano Alves, indagou a Mário Soares se ele já sabia da

expulsão de Brizola do Uruguai e contou-lhe a história. Brizola necessitava de

passaporte e, então, Hermano perguntou a Mário Soares se ele poderia fornecer-

lhe um.

— Imediatamente, obviamente — respondeu-lhe Mário Soares, ainda meio

sonolento.

Daí em diante, e durante toda a sua permanência na Europa até sua volta ao

Brasil, Mário Soares foi o principal amigo, apoiador e articulador da entrada do

trabalhismo brasileiro na cadeira “ainda vazia” da Internacional Socialista. Ele

relatou a Brigagão que, na manhã seguinte, ainda não havia lido os jornais quando

recebeu telefonema da Presidência da República:

— Era o general Ramalho Eanes, com voz um bocado estranha, dizendo que

havia acabado de saber pela imprensa que “o senhor concedeu um passaporte ao

Brizola”. Foi então que me lembrei da conversa da madrugada com o Hermano

Alves — recorda Mário Soares. — O general Eanes disse mais: “Eu sou o Presidente

da República, sou o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e sou, ainda por

cima, o Presidente da Revolução, e o senhor, o primeiro-ministro, não me diz uma

coisa dessas.” Respondi: “Eu não disse porque, primeiramente, não me lembrei; em

segundo lugar, fui apanhado de surpresa, de madrugada, mas o senhor não

precisa ficar irritado.” Ele me disse que estava irritado porque eu não havia falado

nada a ele. Quando retornei a Lisboa, ele estava mais calmo e percebeu que não

havia motivo para criar uma crise por causa disso. [Mário Soares chegou a pensar

em pedir demissão como primeiro-ministro…]

Quando conheceu Brizola, Soares simpatizou com ele à primeira vista. Levou-o

para um restaurante de frutos do mar, pois pensou que, como ele tinha vindo do

Uruguai, gostaria de prová-los. É ele quem conta:

— Durante o almoço, percebi que ele não estava muito entusiasmado com a

comida e perguntei se ele não gostava de frutos do mar. Ele me respondeu que sim,

mas que preferia comer um bom churrasco. Disse-lhe que seria difícil encontrar

algo assim em Portugal: nós temos porco, cabrito, mas churrasco de carne (como

no Brasil, na Argentina e no Uruguai) não era nossa especialidade. Ele me disse algo que nunca mais me esqueci: “Sabe, Dr. Mário, eu olho para esse mar que vocês

têm aqui, um mar bonito, imenso, e penso aqui comigo: quanta terra

desperdiçada.”25

Grato a essa hospitalidade do governo socialista de Mário Soares, Brizola

declarou ao chegar em Lisboa:

— Embora não desejasse, naquele momento, apontar caminhos ou iniciativas,

todos que se opunham há tantos anos à atual situação no nosso país continuavam

buscando a normalização da vida brasileira.26

Escusando-se de analisar as próximas eleições no Brasil (as de 1978), saiu-se

com a alegação de que 14 anos de exílio o impediam de estar completamente

atualizado sobre a situação política brasileira.

Em ambiente democrático como quem “se aproxima de casa”, Brizola

manifestou-se dizendo que, “embora o atual regime tivesse extinguido o PTB, ele

nunca deixou de existir porque faz parte da nossa realidade” e que tinha em mente

a reestruturação de um partido com raízes históricas que poderia ser um

denominador comum para todas as expressões jovens, mas essencialmente seria a

expressão das bases populares. Para ele, sua ida à Europa “adquiria significado

político bem vincado”: procurar ouvir os partidos europeus sobre o possível apoio à

reformulação do PTB, em caso de súbito regresso ao Brasil.

O primeiro sinal de emoção ocorreu na chegada de Brizola ao aeroporto de

Lisboa (Portela), na manhã de 22 de janeiro de 1978. Foi comovente o longo abraço

de Brizola e Arraes (radicado em Argel), que fora até lá especialmente para receber

o amigo e companheiro de exílio, de quem ficara separado por 14 anos, por causa

da ditadura brasileira.

O segundo momento de muita emoção foi o seu congraçamento com a

comunidade de exilados políticos em Lisboa, em jantar realizado num restaurante

típico lisboeta, na mesma noite de sua chegada, em comemoração a seu

aniversário e o de Neusa. Praticamente todos os exilados brasileiros que viviam em

Portugal (principalmente em Lisboa e no Porto) lá estavam, e a presença do líder

Miguel Arraes era símbolo marcante dessa comunhão.

Além do próprio Mário Soares, ali estavam vários amigos portugueses

prestando sua solidariedade – eles que foram exilados no Brasil –, com grande significado político para todos.

A terceira e destacada manifestação desse congraçamento foi a entrevista

coletiva dada na sede da Comissão Pró-Anistia Geral no Brasil em 25 de janeiro.27

A comissão em apoio à anistia no Brasil reunia vários agrupamentos políticos e

personalidades portuguesas. Faziam parte da comissão: frei Beto Domingues, o

diretor adjunto do Diário de Lisboa Fernando Piteira Santos, além de

personalidades públicas como Antonio Reis, Carlos Lage e Nuno Teotônio Pereira,

todos afinados no mesmo propósito.

Com o auditório lotado, tendo ao lado Miguel Arraes, Brizola respondeu às

perguntas dos jornalistas em tom calmo e conciliatório. Sua convicção era a de que

sua pessoa não seria obstáculo para qualquer normalização na vida política

brasileira e admitiu a hipótese de, se fosse o caso, “abandonar a vida pública”, para

que os setores mais direitistas não temessem sua presença.

— Entendemos que não será fácil para muitos brasileiros encarar com espírito

de generosidade essas tarefas. Mas estou convencido de que somos insuspeitos

quando dizemos que essa é a nossa posição, pois nós somos os perseguidos.

Lutamos por um “desarmamento” de espíritos. Novos ventos estão soprando na

América Latina […], muitos brasileiros têm feito contatos na Europa e voltam

reconfortados.28

Classificando-se como uma espécie de sobrevivente de um período muito

complexo das relações entre os EUA e a América Latina, afirmou que só seria

possível restaurar a vida brasileira num clima saudável, de verdadeira distinção.

Só assim haveria estabilidade.

— Enquanto houver desconfiança, máquinas de espionagem, envenenamento

de espíritos, brasileiros “bons e maus”, nada será possível.

Relembrou que o pai do então presidente João Batista Figueiredo [Euclides

Figueiredo] também estivera no exílio, e fora anistiado por Getúlio Vargas. Outros

governantes que hoje estão em postos de comando foram anistiados por JK:

— A tradição brasileira é a do exílio e da anistia. — E finalizou: — Minha

situação individual é bastante difícil, pois são inúmeros os processos políticos e

não se sabe bem quais os que estão em curso e os que já foram julgados à revelia:

tenho uma pena que ronda a 50 anos de prisão (nenhuma por corrupção) e existem pedidos para aplicação de outras sentenças que me dariam mais de 200

anos aproximadamente.

Desde o Golpe de 1964, seus autores vasculharam todas as contas

correspondentes a todos os cargos administrativos e legislativos exercidos por

Brizola (prefeito, deputado estadual no Rio Grande do Sul, secretário estadual de

Obras daquele estado, prefeito de Porto Alegre, deputado federal pelo Rio Grande

do Sul, governador deste estado e deputado federal pelo Rio de Janeiro) à procura

de irregularidades e nada foi encontrado.29

Sobre o futuro do PTB, Brizola afirmou que novos passos somente deveriam ser

dados quando houvesse franquias que possibilitassem uma ação livre e a

reorganização partidária. Em resposta à pergunta sobre seus objetivos na Europa,

respondeu que o PTB, em sua ação antes de 1964, era próximo, em muitos aspectos,

da social-democracia e dos socialistas europeus e admitiu possibilidades de

vínculos futuros. Por sua vez, Miguel Arraes deu grande importância a Portugal

como apoio à oposição brasileira:

— Aqui há uma grande experiência nesse sentido.

“A base de apoio aos antifascistas brasileiros é grande em muitos países. Mas é

em Portugal que ela é mais importante. Aqui podem ser divulgados documentos e

informações que, apesar do abrandamento da censura, ainda não são levados ao

conhecimento de certos segmentos, já que eram endereçados majoritariamente

para o público das instituições das três forças armadas e, é claro, pensava-se falar

ao povo.30

Recordemos. A Revolução dos Cravos dos capitães, de 25 de abril de 1974, além

das drásticas mudanças no regime que sustentava o último império europeu,

encerrou as guerras coloniais nas novas nações africanas independentes e fez

confluir para Portugal uma onda de exilados brasileiros espalhados pelos quatro

cantos do mundo. Foi a revolução mais pacífica que ocorreu na história recente.

Um caso expressa bem sua natureza. Durante a madrugada do dia 25 de abril, a

Guarda Nacional Republicana (GNR), de Lisboa, cercava o quartel da própria GNR,

onde ainda se encontravam autoridades remanescentes do regime fascista,

inclusive o então presidente-almirante Américo de Deus Rodrigues Tomás, o

primeiro-ministro Marcelo Caetano e alguns ministros de alta posição. Depois da Revolução dos Cravos, a maioria se exilou no Brasil. Mas, tensos, soldados da GNR

não deixavam ninguém passar para dentro do quartel. Menos ainda, saírem os

que estavam lá dentro! Era um empurra-empurra daqui e dali.

Um câmera de um canal de TV alemã forçou a barreira para dar seu furo de

reportagem e, aí, ouviu de um soldado português, calmo, mas resoluto:

— Ó pá, deixe-nos fazer a revolução em paz, pá!

As facilidades fraternas trazidas pela democratização, a língua e a

camaradagem das novas forças políticas portuguesas foram os ingredientes

encontrados pelos exilados brasileiros para se sentirem em casa, revigorando a

vida de traumas e dificuldades, mas também de realizações, que todo exílio

representa.31

Após os dois primeiros anos de grande e intensa mobilização de massas, dos

grupos dos capitães de Abril, do Partido Socialista, do Partido Comunista e de

outros tantos agrupamentos da esquerda portuguesa, os brasileiros, diante de

sinais de que a ditadura abrandava-se e seguia o caminho da lenta, segura e

gradual abertura, passaram a pensar na possibilidade de voltar ao Brasil.

Cerca de cem brasileiros davam aulas em várias universidades portuguesas,

trabalhavam e modernizavam serviços (imprensa, editoras, publicidade etc.) e,

ainda, outras atividades profissionais – muitos deles com a garantia da dupla

cidadania. Representavam o leque dos matizes ideológicos da esquerda exilada.

Muitos vinham da luta armada ao regime militar. Ali estava, agora mais presente,

o líder Miguel Arraes e também o jornalista Márcio Moreira Alves, ambos

associados ao MDB. Comunistas, os da luta armada, socialistas e democratas

radicais independentes buscavam repensar, criticamente, a trajetória de suas lutas

e, agora, as próximas alternativas.

Nesse ambiente democrático português, políticos brasileiros, principalmente de

oposição do MDB, passavam por Lisboa: senadores como Fernando Henrique

Cardoso, Marcos Freire, Severo Gomes, Paulo Brossard, assim como Almino Afonso

e outros tantos deputados ouviam e buscavam cativar o seu “novo eleitorado”.

Procuravam inteirar-se das tendências políticas portuguesas, reconhecer o terreno

dos exilados brasileiros e transmitir-lhes, com análises e informações, o que estava

se passando no saudoso Brasil.

Um pequeno grupo de brasileiros alinhava-se com o moderado Partido

Socialista de Mário Soares e algumas ideias começaram a surgir sobre a “cadeira

vazia” que pudesse ser ocupada pelo Brasil na Internacional Socialista.

Assim que desceram em Lisboa, Brizola e Neusa foram para o Hotel das Janelas

Verdes. Antigo mosteiro, hotel simples, porém bastante confortável, ficava ao lado

da antiga morada de Eça de Queiroz, incorporada também ao hotel. Em frente, o

mais tradicional dos museus de Portugal, o Museu das Janelas Verdes.

O alvoroço logo se estabeleceu: romarias de jornalistas, de velhos e novos

amigos, de seus familiares e de exilados de outros países visitavam os Brizola

continuamente. Grupos políticos começaram a se formar, uns pró, outros contra

Brizola, com a ideia de recriar o trabalhismo, fora do MDB e com uma cara

renovada. Reuniões eram cada vez mais frequentes, debates acalorados revelavam

que a presença do “Centauro dos Pampas” em solo português demarcava terreno.

Com seu discurso contagiante e irreverente, sua verve semântica gaúcha,

iniciava uma nova jornada, arrebanhando adeptos, tocando seu incansável,

insistente e paciente realejo. Embora usasse metáforas, dava a entender que era

vigiado por agentes do governo brasileiro. Adotou então o hábito de conversar com

seus interlocutores dando longas caminhadas.

Desde Nova York e agora em Lisboa, convidava seu interlocutor para um passeio

que, geralmente, durava um bom tempo, às vezes horas. Foi assim que procedeu

em suas pacientes e longas conversas com o líder Miguel Arraes, em Lisboa.

Tentava atraí-lo para a ideia de reorganizar o trabalhismo, de unir os que

estavam no exílio, incluindo os jovens que haviam, pela luta armada, combatido a

ditadura. Queria retomar o fio da história… Arraes não se alinhava com o mesmo

projeto, ainda mais com a visão de Brizola de buscar aliança com a Internacional

Socialista, da qual era crítico, pois a considerava negativamente revisionista.

Antes de decolar de Lisboa para Hamburgo, para o primeiro encontro com a

Internacional Socialista, Brizola dissera a Trajano Ribeiro:

— Arraes é homem de frente, não é um homem de partido e com ele não

podemos contar.

Exauridos por tantas discussões teóricas sobre os caminhos da revolução

brasileira, o pessoal da luta armada iria encontrar em Brizola, através do recurso da história oral, as raízes fincadas em solo brasileiro. Passou a conquistar os

exilados: sabia cativá-los persuasivamente contando-lhes a estória que eles não

sabiam.

O pessoal da luta armada teorizava muito e no início dessa aproximação o

preconceito e as visões simplistas foram consideráveis, mas, pouco a pouco,

acabaram sendo superados. A grande maioria já havia adquirido alguma

experiência na Europa e sabia como os partidos socialistas e sociais democratas

funcionavam.

Alguns já haviam estabelecido contatos com o Partido Socialista Português,

tornando-se amigos de Mário Soares e de seu filho, futuro prefeito de Lisboa, João

Soares. Nesse contexto, Brizola buscava aproximar-se do pessoal da luta armada e,

a partir de suas estórias, foi conquistando e cativando, “comendo pelas beiradas”,

mas ouvindo também os “novos barbudinhos”, abrindo diálogo, e, nesse

entendimento muito rico e muito maduro, as conversas avançavam. Daí floresceu

a convergência política.

O que fez com que o pessoal da luta armada aceitasse e passasse a gostar do

discurso de Brizola foi o fato de todo mundo, naquela altura, estar revendo suas

concepções… e as aproximações foram se firmando. Havia alguns que pensavam

em ir para o Partido dos Trabalhadores (PT), sendo fundado por Lula e seus

companheiros. Mas com relação à concepção de luta de classes, pelo menos

naquele momento, praticamente todo o pessoal em Lisboa (o Grupo de Lisboa) já

havia revisto as ideias leninistas – os fins justificam os meios – e seu legado do

centralismo democrático. Brizola se interessava cada vez mais por aqueles jovens.

Mário Osawa e Maria do Carmo contaram que, na volta deles ao Brasil, foram

visitar, em São Paulo, o pai de Mário, de origem japonesa, já bem mais velho. Na

conversa ele disse: “O Brizola fala para o coração da gente.”32 Carlos Fayal, da

antiga ALN e que se fixara em Estocolmo, sentia essa proximidade, através do

diálogo e do respeito à figura de Brizola. Afirmava que Brizola, por ter barrado, com

o Movimento da Legalidade de 1961, o golpe contra Jango – e lutar pelas reformas

de base – era o que os da luta armada esperavam de um líder no contexto da

abertura brasileira.33

A ilusão das “reformas na marra” havia passado e, agora, ele defendia a

reforma através dos mecanismos da democracia, como fim, e destacava o seu

compromisso com a renovação do trabalhismo brasileiro.34

Dois grupos se distinguiam entre o pessoal da luta armada: o originário da

Vanguarda Popular Revolucionária (VPR, do capitão Lamarca) e o da Aliança

Libertadora Nacional (ALN, de Carlos Marighella). No primeiro grupo do VPR: Maria

do Carmo Brito, Mário Osawa (Mário Japa), Almir Dutton – o médico que

coordenou a operação plástica de Carlos Lamarca em 1969 e morreu aos 71 anos no

Rio, em 27 de maio de 2005 –, Carlos Minc, Alfredo Sirkis, Maurício Paiva, Edmauro

Goetsert, capitão Altair Campos, Derly Carvalho (em Lisboa) e Fernando Perrone

(Paris). Da ALN, em Estocolmo, Suécia: Carlos de Lyra Fayal e Tania Fayal; em

Lisboa: Domingos Fernandes, Moema São Thiago, Georges Michel Sobrinho, Cícero

Vianna e Ronaldo Dutra Machado (falecido).35 Muito poucos, entre os brasileiros,

não participaram dessas conversas iniciais, mas até mesmo alguns do Partido

Comunista Brasileiro apareciam e, com frequência, debatiam suas ideias.

Vale a pena fazer aqui algumas observações. Aqueles que se aproximaram de

Brizola não tinham clareza sobre qual era a sua atual posição política. Depois do

genial lance de asilar-se nos EUA e, a seguir, em Portugal, com o apoio de Mário

Soares, perguntavam-se como andaria a cabeça e a coerência do “Caudilho”.

Continuava ele envolvido com a linguagem e com os métodos radicais, teria

passado por mudanças, adquirido nova posição que pudesse identificá-lo com o

socialismo democrático e com a social-democracia?

Aí começam as reuniões, a princípio informais, e, a seguir, com dia e hora

marcados, para discutir o que pensar e fazer diante da provável abertura da

ditadura, da possibilidade da anistia e da reorganização político-partidária do país.

Surgiram as primeiras trocas de opiniões entre muitos dos exilados brasileiros.

Parecia que ambos, Brizola e o Grupo de Lisboa, queriam encontrar uma filosofia

política que atualizasse as bases do trabalhismo brasileiro, agora em um mais

amplo contexto internacional.

A democracia foi, definitivamente, incorporada, não mais como tática ou

instrumento para criar a manipulação política autoritária. Não. Democracia como

fim em si mesma e ponto. Claro, com a visão profundamente enraizada na vida social brasileira, que é o primeiro fulcro. As relações políticas com a Internacional

Socialista deveriam ser estabelecidas.

Houve debate a respeito, tolerando-se críticas (e preconceitos) e a maioria foi

favorável a que Brizola sentasse na cadeira vazia da Internacional Socialista à

espera da representação brasileira. Foi um misto de senso de oportunidade e

garantia de participar de um foro político internacional, extremamente plural.

Mesmo sem grande força política, em termos do poder real, a IS exercia muita

influência, não só na Europa, mas em centenas de partidos políticos (membros,

observadores etc.): Ásia, Américas e África. Havia também aliados espalhados pela

Rússia, Oriente Médio e através de movimentos e associações civis (com agenda de

direitos humanitários, paz e segurança, trabalho, gênero, desenvolvimento

sustentável, energia renovável etc.).

Concretizava-se um diálogo rico, proveitoso, em torno da troca de ideias sobre o

retorno do trabalhismo à realidade brasileira após o período da ditadura. Sóbrio,

Pedro Celso Uchoa Cavalcanti, da geração que havia saído do Brasil em 1964 e

rompido com o Partido Comunista Brasileiro, passou a conversar mais com aquela

geração que tinha lutado com armas no Brasil nos anos 70. A convivência, até

mesmo casual, fez brotar a confiança entre as duas gerações que se autocriticavam

a respeito da herança stalinista, bem como os laços afetivos pessoais criados no

ambiente de tolerância da democracia portuguesa.

O professor Pedro Celso e sua mulher, a professora Valentina Rocha, eram

vizinhos, no bairro da Estrela, em Lisboa, do apartamento em que moravam, entre

outros, Carlos Minc, Alfredo Sirkis e Maurício Paiva. Passaram a encontrar-se e, a

partir daí, a desenvolver diálogo fraterno e tolerante em relação às suas posições

político-ideológicas anteriores, o de um comunista do PCB e os da luta armada.

Essa convivência foi muito importante para se criar um ambiente favorável à

convergência sobre a via democrática do socialismo, através do trabalhismo

brasileiro. Houve, de fato, uma coincidência feliz que serviu de ponte para a

indispensável convergência com o projeto de Brizola. Depois de encontros casuais,

Pedro Celso deixou-se cativar por Brizola:

— Professor, eu queria que o senhor escrevesse essas coisas que está me

dizendo…36

O desejo foi levado a sério e o próprio Pedro Celso preparou, em dez páginas,

suas reflexões sobre o futuro do PTB e o papel de Brizola no Brasil democrático,

agora contextualizado pelo panorama das forças políticas internacionais. O fato é

que Brizola apegou-se à pessoa e ao documento, aplicando as ideias aos seus novos

interesses e visões políticas. Passou a usar aquelas reflexões com fartura,

reconhecendo publicamente a autoria. Durante todo o período que restou da

permanência de Brizola em Lisboa (1978-79), ele conversava com Pedro Celso sobre

as viagens, os políticos que deveria procurar e que relação deveria assumir diante

da Internacional Socialista – assunto tratado com cautela no documento.

Durante toda a sua vida, Brizola sempre foi cultuador de intelectuais,

acadêmicos – seus professores, como gostava de chamá-los, privada e

publicamente. Como em todas as relações humanas, especialmente nas que

envolvem política e poder, há os dois lados da moeda. Por sua tradição e trajetória,

Brizola considerava-se, e o era, um empírico, e seus voos estratégicos sobre política

e governo nasciam de suas “experiências de campo”, iniciadas nos anos 40 e que

seguiram até sua morte, em 2004. Ele buscava a aproximação com os “professores”

para deles se sentir familiar e próximo ao conhecimento e pensamento da grande

Política.

Com esse saber ele podia fazer uso de ideias e alçar seus voos e planos mais

altos, mas a partir de suas experiências políticas dentro da história política do

Brasil. Ele se dedicava em tempo integral a absorver tudo que seus consultores de

filosofia política podiam lhe oferecer.

Ao mesmo tempo, mantinha uma relação às vezes ambígua e nem sempre

tranquila com eles. De memória: Paulo Schiling, seu mais próximo colaborador da

fase anterior ao Golpe de 1964; Franklin de Oliveira, intelectual refinado, que

escreveu o clássico Morte da memória nacional, publicado pela Civilização

Brasileira em 1967, trabalhou com Brizola antes de 1964, e com o Dr. Roberto

Marinho durante o regime militar, e depois de sua volta do exílio novamente

colaborou esporadicamente com Brizola; Moniz Bandeira, historiador, que durante

o período do novo exílio de Brizola manteve-se muito próximo a ele, articulando

muitos contatos com a Internacional Socialista e alguns colaboradores americanos

de Carter; Darcy Ribeiro, principalmente durante o período do primeiro e do segundo governos de Brizola no estado do Rio de Janeiro (1983-87 e 1991-1995);

Pedro Celso Uchoa Cavalcanti, em todo o período de Lisboa (1978-1979) e no período

do primeiro governo Brizola (1983-1987); Mangabeira Unger, nos contatos com

Brizola em Nova York e em Harvard, no período após a volta de Brizola do exílio,

em períodos intermitentes.

Para os “professores”, era como se a política viva viesse até eles, os cobrindo de

pensamentos, de sonhos e, quando possível, de realizações, que mesclavam dons

pessoais e intelectuais, além de cada uma de suas visões políticas. Todos foram

arrastados a essa corrente do poder e as razões dessa travessia são inúmeras. Mas

o gosto e a percepção de fazer história, de poder “contar” na hora das decisões – das

pequenas às grandes – são alimentos indisfarçáveis da noção de estar junto – ou os

antecipando – dos acontecimentos da vida e do poder político.

Compartilhar o poder é algo manifestamente glorioso, seja publicamente ou

pela influência e intimidade pessoal com o líder! Sem dúvida havia encantamento

e diálogos muito abertos, francos e pessoais com todos, numa reciprocidade de

capacidades nessa relação entre o “Príncipe da Política” e os intelectuais.

Notas

 

25. Em entrevista a Clóvis Brigagão, Fundação Mário Soares, Lisboa, 23 de outubro de 2004.

26. Diário de Lisboa, 23/1/1978, cópia arquivo Fundação Mário Soares.

27. Diário de Lisboa, Lisboa, 26/1/1978.

28. Ibidem.

29. No Rio Grande do Sul, onde Brizola foi de prefeito a governador, não há vestígios de sua passagem, como se

tivesse havido um expurgo completo de seu nome. Na Assembleia Legislativa não se encontra sinal dos

relatórios dos quatro anos de seu governo, embora o engenheiro Augusto de Castro, chefe de seu Gabinete de

Planejamento, garanta que entregou pessoalmente dois jogos desses relatórios, um à biblioteca e outro ao

deputado Pedro Simon. O Rio Grande semanal, 6-12/9/1979, p. 11.

30. Diário de Lisboa, Leonel Brizola no Comitê Pró-Anistia no Brasil, Lisboa, 26/1/1978. Miguel Arraes e Márcio

Moreira Alves (e, talvez, com outros colaboradores em Lisboa e em Paris), inclusive Clóvis Brigagão escreviam

e enviavam para militares um boletim – no qual se denunciavam torturas –, além de pequenos artigos sobre a

conjuntura econômica e social do Brasil.

31. Ver os dois volumes de Memórias do Exílio – Brasil 1964-19??. (volume I: De muitos caminhos; volume II:

Memórias das Mulheres do Exílio). O projeto Memórias do Exílio, um dos raros documentos-memórias sobre o

exílio: projeto coletivo, dirigido por Pedro Celso Uchoa Cavalcanti, Rubem César Fernandes e Jovelino Ramos,

sob o patrocínio de Paulo Freire, Abdias do Nascimento e Nelson Werneck Sodré e com a colaboração de Clóvis

Brigagão (que fazia as entrevistas e os textos) e de Marcos Arruda, exilado e que militou intensamente contra

a ditadura quando viveu em Washington. O volume II foi dirigido e editado por Albertina de O. Costa, Maria

Teresa Porciúncula Moraes, Norma Marzola e Valentina da Rocha Lima.

32. Entrevista com Maria do Carmo Britto e Mário Osawa (Mário Japa), Rio de Janeiro, em 2/11/2005.

33. Entrevista com Carlos Fayal, Rio de Janeiro, em 15/11/2005.

34. Mário Osawa, Maria do Carmo e Carlos Fayal, todos eles, durante a entrevista, se emocionaram ao

reconstituir aquela jornada de Lisboa e depois as pugnas, o retraimento e até mesmo a saída do PDT. Imagino

que hoje no PDT haja muito poucos do Encontro de Lisboa, e isso é uma lástima.

35. Todos iniciaram seu namoro com o PTB e alguns passaram a fazer parte dos quadros trabalhistas, tanto no

período da reorganização do PTB até sob a sigla do PDT, e depois foram saindo para outras formas de se fazer

política.

36. Em Nova York Pedro Celso foi casualmente, com sua mulher Valentina Rocha, entrevistar Neusa Brizola

para volume II do livro Memórias do Exílio: Memórias das Mulheres do Exílio. Foram apresentados a Brizola,

que se encontrava com seu fiel amigo e companheiro Cibilis Viana, que acabara de chegar do Brasil trazendo-

lhe notícias. Pedro Celso sentiu-se embaraçado diante daquela conversa entre os dois baluartes do

trabalhismo. Já em Lisboa, os dois casais foram passear por Sintra, onde se comia um excelente carneiro

ensopado. Durante a viagem, Pedro e Valentina viram Brizola, encantado e emocionado, mostrar a Neusa os carneiros nos campos cercanos a Sintra! Depoimento de Pedro Celso Uchoa Cavalcanti a Brigagão, Rio de Janeiro, 20/1/2006.