Brizola

Clóvis Brigagão · Capítulo 13 de 30

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Brizola

O curto-circuito da comunicação no Brasil

 

O emocionante congraçamento dos trabalhistas em Lisboa estava chegando ao

fim. No entanto, surgiu um inesperado entrevero político a partir da entrevista

coletiva à imprensa, marcada para o dia 18 de junho, segunda-feira, na sede do PS,

no Largo do Rato. Na discussão sobre o futuro programa do PTB, Brizola fizera duas

intervenções (gravadas em fitas) sobre as Forças Armadas.

Na primeira, em 15 de junho de 1979, afirmava que “nós devemos ver as Forças

Armadas como entidades permanentes e que têm as suas funções estabelecidas

pelo povo brasileiro em suas instituições” e que “a nossa autoridade moral e a do

povo brasileiro está em considerá-las em conjunto, em suas funções, em suas

atribuições e fazer com que o povo, a sociedade civil, possa influir e orientar de tal

modo que se estabeleça uma real formação democrática nas nossas Forças

Armadas, afastando-se de todas as formas da chamada linha do golpismo”.

A segunda intervenção, de 16 de junho de 1979: “O próprio problema das Forças

Armadas […] eu não me preocupo com elas. Parece mentira. Conosco têm sido as

Forças Armadas um pouco uma história de amor e de ódio, de ódio e de amor. Eu

tenho certeza que a nossa proposta vai ganhar terreno, terreno amplo, dentro das

Forças Armadas. Vamos abominar o golpismo. E vamos criar a nossa autoridade à

base dos princípios, vamos ficar com os princípios, porque o golpismo é mau

companheiro.”67

Aos fatos. Em entrevista coletiva à imprensa, conduzida pelo porta-voz do

Encontro de Lisboa, jornalista Flávio Tavares, a Agência Nacional de Notícias

Portuguesa (ANOP) distribuiu aos seus clientes, entre os quais agências

internacionais, como a United Press Information (UPI), noticiário relativo ao

Encontro dos Trabalhistas a partir de informações colhidas em conversas com

elementos do gabinete de imprensa daquele encontro.68 O correspondente da UPI em Lisboa, Sr. Sandy Sloop, redigiu na sessão de encerramento do Encontro de

Lisboa texto atribuindo a Brizola a seguinte declaração: “Uma vez restaurada a

democracia, os militares não representarão grande preocupação, pois uma

organização popular através de um partido prestigioso e forte os disciplinará.”

A bomba explodiu do outro lado do Atlântico. O então ministro do Exército de

Figueiredo, general Walter Pires, reagiu de imediato com pronunciamento: “Falece

autoridade para ditar normas disciplinadoras a nossas instituições militares, a um

evadido de 1964, que, às vésperas do Movimento de 31 de Março, pregou

ostensivamente a subversão e a indisciplina no seio das Forças Armadas,

incitando subordinados contra superiores.”

Seguiu-se nota do ministro da Marinha, almirante Maximiano da Fonseca, e

entrevista do ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos. Ambos repeliram a

declaração atribuída ao ex-governador Brizola. Na entrevista, o ministro Délio

Jardim afirmou que “nem as declarações infelizes do senhor Leonel Brizola nem a

nota do ministro do Exército iriam interferir no projeto de anistia do governo, nem

mesmo no que se refere à anistia para o senhor Brizola”.69

Observa-se nas palavras do ministro da Aeronáutica uma posição e um tom um

tanto diferentes das notas dos ministros do Exército e da Marinha, desvinculando-

se da nota do ministro Walter Pires. Outras reações pipocaram no cenário

nacional. No Congresso, em nome da liderança do MDB, houve manifestação de

apoio a Brizola, depois que o presidente do partido e líderes efetivos – Ulysses

Guimarães, Paulo Brossard e Freitas Nobre – negaram-se a comentar a nota do

general Walter Pires.70

Para o então ministro da Justiça, Petrônio Portela, a nota do ministro do Exército

foi concludente, incisiva e direta e, no caso de verdadeiras as críticas de Brizola, a

resposta não poderia ter sido outra; além disso, as notas dos ministros militares

não tinham nada a ver com o projeto de anistia, que teria o seu cronograma

respeitado, devendo ser encaminhado ao Congresso proximamente (como foi no

dia 27). O governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, reagiu à suposta frase

de Brizola, elogiando as notas militares e advertindo que o governo deveria avaliar,

antes de dar anistia, o desencadeamento de fatos que podem ocorrer após a

chegada do ex-governador Leonel Brizola.

O governador de Pernambuco, Marco Maciel, já com sua raposice incurável,

manifestou a opinião de que “o ministro do Exército deixou evidente a posição da

instituição que chefia contra ataques que em nada contribuem para o êxito do

projeto de aperfeiçoamento político-institucional”, enquanto o ministro da

Previdência Social, o gaúcho Jair Soares, disse que o ex-governador gaúcho, ao

criticar a oposição e os militares “está colaborando com a iniciativa do governo” e

“enquanto não sair o projeto da anistia, juridicamente, o Brizola não existe, daí

porque suas críticas às Forças Armadas não serão levadas em conta, caso o governo

decida anistiá-lo”.

O então presidente da Arena de São Paulo, Cláudio Lembo, estava convicto que,

apesar de algumas frases soltas no ar, sem nenhum embasamento, o país

continuaria aperfeiçoando a democracia. O presidente da Arena, José Sarney, que

mais tarde viria a ser presidente da República, reforçou a solidariedade às Forças

Armadas, afirmando que elas tinham o apoio do povo, do partido de sua bancada e

que as declarações do ex-governador Brizola “realmente foram de extrema

infelicidade, além de representarem agressão gratuita às Forças Armadas, que

estão totalmente afastadas da política, entregues aos seus afazeres

constitucionais sob a chefia do presidente da República” [ênfase nossa].

O imbróglio estava criado e, por pouco, o processo político de abertura e,

particularmente, o projeto político de Brizola, não foram prejudicados. Notificado

da irritação dos militares, Brizola imediatamente transmitiu declaração de quatro

linhas em que afirmava que a nota oficial do ministro do Exército “era

lamentavelmente baseada em um equívoco”. Em Lisboa, Brizola, acompanhado de

sua esposa Neusa, de Doutel de Andrade, presidente da Comissão Provisória de

Reorganização do PTB, e de Clóvis Brigagão, varou a madrugada em tensa e intensa

corrida para encontrar aquela frase que lhe fora atribuída, de como estava disposto

a “disciplinar” as Forças Armadas. Todas as fitas foram ouvidas e as duas

intervenções sobre as Forças Armadas, passadas e repassadas, para que se

resolvesse afinal todo o episódio e o equívoco, resultado da interpretação

produzida pela imprensa no final do encontro dos trabalhistas. Em carta dirigida a

Roberto Marinho, diretor e redator-chefe de O Globo, Brizola pediu a publicação de

um comunicado no qual esclarecia a improcedência das afirmações que lhe haviam sido atribuídas a respeito das Forças Armadas. Primeiro foram solicitados

esclarecimentos à UPI e à ANOP. O primeiro documento é a cópia em inglês da

resposta do correspondente da UPI em Lisboa, Sandy Sloop, acompanhada de

tradução, em que ele afirma ter se referido “erroneamente” sobre a reunião,

reconhecendo que Brizola “nunca fez as declarações” contidas no despacho, “nem

na conferência nem fora dela”.

Sandy Sloop atribuiu o erro a uma interpretação/tradução do texto transmitido

pela agência portuguesa A 71 NOP . O segundo documento é cópia da carta do

presidente do Conselho de Gerência da ANOP: reconhece, a bem da verdade, que a

“redação da notícia não é correta”, e apresenta desculpas formais: “Nunca o

governador Leonel Brizola nos fez tal comentário, nem mesmo particularmente,

durante a realização do encontro de trabalhistas em Lisboa. E nem tais

comentários surgiram no âmbito deste encontro.” 72 Seria o fim do suspense e da

“crise política” que poderia ter colocado em risco o processo da anistia para a qual o

Encontro de Lisboa e o próprio Brizola representavam apoio incondicional.

Apesar do mal-estar causado por esse curto-circuito na comunicação final do

Encontro com os círculos – particularmente militares – do governo Figueiredo,

ninguém dali fez qualquer comentário sobre a reunião dos trabalhistas. Mas na

área da oposição, do MDB, o Encontro criou certa agitação, com vozes acusando

Brizola de estar fazendo o jogo do governo para acabar com o bipartidarismo e de

com a criação de novos partidos, esvaziar e implodir o MDB. A maioria, reunida em

torno de seu presidente Ulysses Guimarães, desencadeou campanha para fazer

frente aos “desígnios desviacionistas” do governo para salvar a unidade do MDB.

Para o ministro Petrônio Portela, era pensamento do governo que o fim do

bipartidarismo seria a consequência lógica da anistia a ser declarada em breve,

como ocorreria dois meses mais tarde. Acreditava o governo que, com o fim do

bipartidarismo, surgiria uma maioria de apoio ao governo abrangendo até os

liberais. Ao contrário, privada de temas que uniam os que lutavam pela anistia, o

direito à greve, o direito de associação, o fim da censura, a oposição aglutinada em

torno do MDB iria procurar novos caminhos de modelos de sociedade, questões

econômicas e sociais, e a sua divisão seria inevitável.

O debate interno do MDB seria inelutável; Ulysses Guimarães já pressentia esse

ambiente de mudança e tinha o cuidado de não romper com o líder do trabalhismo

que no Encontro de Lisboa o criticara de querer monopolizar a oposição. Ali em

Lisboa estiveram 11 deputados federais e três deputados estaduais do MDB (sendo

um deputado federal da Arena) que passaram a apoiar – além de alguns dirigentes

sindicais – o projeto de reorganização do PTB. Durante o Encontro, Brizola

manifestou-se a respeito da posição dos comunistas e disse ser conveniente que

eles pudessem se expressar livremente, através de seu partido, já que se

“ocultavam” dentro do MDB, em razão da proibição da ditadura de ter sua vida

legal.

Para amenizar o clima de tensão provocado pelo curto-circuito entre Lisboa e

Brasília, registramos aqui três histórias pitorescas, bem ao estilo de Brizola.

No início de fevereiro de 1979, ocorreu um novíssimo fato político internacional

no Oriente Médio. O aiatolá Khomeini acabara de instalar no Irã a sua Revolução

Islâmica. Ao ler as notícias dos novos acontecimentos, Brizola, junto com seu fiel

escudeiro, Michel Sobrinho, escreveu, ali no Hotel Flórida, um telegrama de

congratulações para o aiatolá saudando a nova Revolução. Mas Brizola fez questão

de pedir a Michel para passar o telegrama bem longe do hotel, pois o professor

Pedro Celso Cavalcanti poderia ficar sabendo e o teria impedido de saudar o novo

regime, que iria acabar por violar direitos humanos e tornar-se uma ditadura

teocrática.

Para evitar que Pedro Celso soubesse da intenção de Brizola, Michel foi até a

longínqua estação ferroviária de Santa Apolônia – a mais de 10 quilômetros do

Hotel Flórida – e enviou o telegrama.

Passados alguns dias, chega ao Hotel Flórida a resposta endereçada a Brizola do

próprio Khomeini, com palavras de agradecimento e expressando solidariedade à

situação de exílio de Brizola, que passou um bom tempo lendo as palavras do

aiatolá e, então, virou-se para Michel e perguntou:

— Mas, Michel, como é que o Khomeini sabia que eu estava aqui no Hotel

Flórida? 73

Uma segunda anedota. Quase no final da estada em Lisboa, Brizola pediu a

Michel que ele alugasse um bom carro, pois queria levar Neusa a um restaurante nos Restauradores, onde os dois poderiam comer uma boa carne assada e celebrar

os bons tempos de Lisboa. Seria a despedida do casal de Lisboa. Michel alugou uma

Brasília e a estacionou bem diante da porta do Hotel Flórida, com o pisca-pisca

ligado, à espera do casal. Michel pensava que ele iria dirigir e levar o casal até o

restaurante.

Assim que Brizola chegou, insistiu que ele mesmo iria dirigir. Tomou a direção,

acionou o motor e saiu dirigindo a Brasília, com os pisca-piscas ligados, pelas

tortuosas e históricas ruas de Lisboa.

A terceira anedota, menos pitoresca que as anteriores, reflete uma situação

bastante embaraçosa. Vamos a ela.

Já quase no final dos tempos de Lisboa, Brizola e Neusa passaram algum tempo

morando no apartamento de Pedro Celso e Valentina, na Estrela. Moniz Bandeira

escrevia no Rio o livro Brizola e o Trabalhismo e aproveitou a viagem de Darcy

Ribeiro a Lisboa para entregar o primeiro texto para o exame de Brizola, mas o casal

estava em viagem e Darcy deixou o pacote na casa de Márcio Moreira Alves.

O médico paulista exilado, David Lerer, que passara um bom tempo em Angola

durante a guerra civil, voltou para Lisboa e foi morar na casa de Márcio. Márcio

abriu o pacote, leu o texto e mostrou a Lerer, que o deixou dentro de seu carro, um

Ford Fiesta. Certo dia, Lerer passou pela casa de Pedro para levar Brizola até o Largo

do Rato, onde estava a sede do Partido Socialista Português. Assim que se

acomodou dentro do carro, Brizola olhou para baixo e viu um pacote descansando

na rede para guardar objetos, observou mais de perto e verificou que era o texto do

livro, com a sigla MB (Moniz Bandeira). Pegou-o e indagou a Lerer:

— O que é isso, Lerer? Como esse texto do livro do Moniz veio parar aqui em seu

carro?

Lerer então contou que fora Márcio quem havia deixado ali uns dias antes para

que ele o lesse. Brizola ficou uma fera e pediu que voltassem e fossem direto para a

casa do Márcio, e no trajeto não parou de esbravejar contra o que achava uma

atitude descortês por ter aberto o pacote, lido o texto do livro e deixado no carro do

Lerer: queria pedir satisfação a Márcio.

Mas Márcio, da janela de sua morada, viu Brizola chegando com Lerer,

pressentiu o ar zangado do Brizola e não os atendeu. Tocaram a campainha muitas vezes e ninguém veio à porta. Voltaram para o Largo do Rato. Brizola disse a Lerer

que iria telefonar para Márcio e pedir-lhe explicações, fulo da vida.

Na manhã seguinte, ao ir à sala, viu que havia um bilhete por baixo da porta de

entrada a ele endereçado. Pegou o envelope, abriu-o e leu: era um bilhete do Márcio

se desculpando pela descortesia e elogiando o livro de Moniz Bandeira…

Notas

 

67. Transcrição das gravações do Encontro de Lisboa; ver Jornal do Brasil, “A nota do ex-governador”, 22/6/1979,

e O Globo, “O comunicado do ex-governador”, 22/6/1979.

68. Cf. ANOP em carta à Brizola, cf. Jornal do Brasil, 30/6/1979.

69. O Globo, “Forças Armadas repelem insolência de Leonel Brizola”, 21/6/79. Cf. O Globo, 22/6/1979.

70. Cf. Jornal do Brasil, 21/6/1979.

71. A nota recebida pela ANOP fora repassada pela assessoria de imprensa do Encontro de Lisboa.

72. No registro de Clóvis Brigagão, o único que acabou sendo punido foi o correspondente da UPI em Lisboa,

Sandy Sloop, que perdeu o cargo. Clóvis não se recorda se também o gerente ou outro funcionário da ANOP

sofreu algum tipo de penalidade funcional, mas acredita que não.

73. Anedota passada aos autores por Michel Jorge Sobrinho, Brasília, 1/11/2009.