Brizola
O curto-circuito da comunicação no Brasil
O emocionante congraçamento dos trabalhistas em Lisboa estava chegando ao
fim. No entanto, surgiu um inesperado entrevero político a partir da entrevista
coletiva à imprensa, marcada para o dia 18 de junho, segunda-feira, na sede do PS,
no Largo do Rato. Na discussão sobre o futuro programa do PTB, Brizola fizera duas
intervenções (gravadas em fitas) sobre as Forças Armadas.
Na primeira, em 15 de junho de 1979, afirmava que “nós devemos ver as Forças
Armadas como entidades permanentes e que têm as suas funções estabelecidas
pelo povo brasileiro em suas instituições” e que “a nossa autoridade moral e a do
povo brasileiro está em considerá-las em conjunto, em suas funções, em suas
atribuições e fazer com que o povo, a sociedade civil, possa influir e orientar de tal
modo que se estabeleça uma real formação democrática nas nossas Forças
Armadas, afastando-se de todas as formas da chamada linha do golpismo”.
A segunda intervenção, de 16 de junho de 1979: “O próprio problema das Forças
Armadas […] eu não me preocupo com elas. Parece mentira. Conosco têm sido as
Forças Armadas um pouco uma história de amor e de ódio, de ódio e de amor. Eu
tenho certeza que a nossa proposta vai ganhar terreno, terreno amplo, dentro das
Forças Armadas. Vamos abominar o golpismo. E vamos criar a nossa autoridade à
base dos princípios, vamos ficar com os princípios, porque o golpismo é mau
companheiro.”67
Aos fatos. Em entrevista coletiva à imprensa, conduzida pelo porta-voz do
Encontro de Lisboa, jornalista Flávio Tavares, a Agência Nacional de Notícias
Portuguesa (ANOP) distribuiu aos seus clientes, entre os quais agências
internacionais, como a United Press Information (UPI), noticiário relativo ao
Encontro dos Trabalhistas a partir de informações colhidas em conversas com
elementos do gabinete de imprensa daquele encontro.68 O correspondente da UPI em Lisboa, Sr. Sandy Sloop, redigiu na sessão de encerramento do Encontro de
Lisboa texto atribuindo a Brizola a seguinte declaração: “Uma vez restaurada a
democracia, os militares não representarão grande preocupação, pois uma
organização popular através de um partido prestigioso e forte os disciplinará.”
A bomba explodiu do outro lado do Atlântico. O então ministro do Exército de
Figueiredo, general Walter Pires, reagiu de imediato com pronunciamento: “Falece
autoridade para ditar normas disciplinadoras a nossas instituições militares, a um
evadido de 1964, que, às vésperas do Movimento de 31 de Março, pregou
ostensivamente a subversão e a indisciplina no seio das Forças Armadas,
incitando subordinados contra superiores.”
Seguiu-se nota do ministro da Marinha, almirante Maximiano da Fonseca, e
entrevista do ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos. Ambos repeliram a
declaração atribuída ao ex-governador Brizola. Na entrevista, o ministro Délio
Jardim afirmou que “nem as declarações infelizes do senhor Leonel Brizola nem a
nota do ministro do Exército iriam interferir no projeto de anistia do governo, nem
mesmo no que se refere à anistia para o senhor Brizola”.69
Observa-se nas palavras do ministro da Aeronáutica uma posição e um tom um
tanto diferentes das notas dos ministros do Exército e da Marinha, desvinculando-
se da nota do ministro Walter Pires. Outras reações pipocaram no cenário
nacional. No Congresso, em nome da liderança do MDB, houve manifestação de
apoio a Brizola, depois que o presidente do partido e líderes efetivos – Ulysses
Guimarães, Paulo Brossard e Freitas Nobre – negaram-se a comentar a nota do
general Walter Pires.70
Para o então ministro da Justiça, Petrônio Portela, a nota do ministro do Exército
foi concludente, incisiva e direta e, no caso de verdadeiras as críticas de Brizola, a
resposta não poderia ter sido outra; além disso, as notas dos ministros militares
não tinham nada a ver com o projeto de anistia, que teria o seu cronograma
respeitado, devendo ser encaminhado ao Congresso proximamente (como foi no
dia 27). O governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, reagiu à suposta frase
de Brizola, elogiando as notas militares e advertindo que o governo deveria avaliar,
antes de dar anistia, o desencadeamento de fatos que podem ocorrer após a
chegada do ex-governador Leonel Brizola.
O governador de Pernambuco, Marco Maciel, já com sua raposice incurável,
manifestou a opinião de que “o ministro do Exército deixou evidente a posição da
instituição que chefia contra ataques que em nada contribuem para o êxito do
projeto de aperfeiçoamento político-institucional”, enquanto o ministro da
Previdência Social, o gaúcho Jair Soares, disse que o ex-governador gaúcho, ao
criticar a oposição e os militares “está colaborando com a iniciativa do governo” e
“enquanto não sair o projeto da anistia, juridicamente, o Brizola não existe, daí
porque suas críticas às Forças Armadas não serão levadas em conta, caso o governo
decida anistiá-lo”.
O então presidente da Arena de São Paulo, Cláudio Lembo, estava convicto que,
apesar de algumas frases soltas no ar, sem nenhum embasamento, o país
continuaria aperfeiçoando a democracia. O presidente da Arena, José Sarney, que
mais tarde viria a ser presidente da República, reforçou a solidariedade às Forças
Armadas, afirmando que elas tinham o apoio do povo, do partido de sua bancada e
que as declarações do ex-governador Brizola “realmente foram de extrema
infelicidade, além de representarem agressão gratuita às Forças Armadas, que
estão totalmente afastadas da política, entregues aos seus afazeres
constitucionais sob a chefia do presidente da República” [ênfase nossa].
O imbróglio estava criado e, por pouco, o processo político de abertura e,
particularmente, o projeto político de Brizola, não foram prejudicados. Notificado
da irritação dos militares, Brizola imediatamente transmitiu declaração de quatro
linhas em que afirmava que a nota oficial do ministro do Exército “era
lamentavelmente baseada em um equívoco”. Em Lisboa, Brizola, acompanhado de
sua esposa Neusa, de Doutel de Andrade, presidente da Comissão Provisória de
Reorganização do PTB, e de Clóvis Brigagão, varou a madrugada em tensa e intensa
corrida para encontrar aquela frase que lhe fora atribuída, de como estava disposto
a “disciplinar” as Forças Armadas. Todas as fitas foram ouvidas e as duas
intervenções sobre as Forças Armadas, passadas e repassadas, para que se
resolvesse afinal todo o episódio e o equívoco, resultado da interpretação
produzida pela imprensa no final do encontro dos trabalhistas. Em carta dirigida a
Roberto Marinho, diretor e redator-chefe de O Globo, Brizola pediu a publicação de
um comunicado no qual esclarecia a improcedência das afirmações que lhe haviam sido atribuídas a respeito das Forças Armadas. Primeiro foram solicitados
esclarecimentos à UPI e à ANOP. O primeiro documento é a cópia em inglês da
resposta do correspondente da UPI em Lisboa, Sandy Sloop, acompanhada de
tradução, em que ele afirma ter se referido “erroneamente” sobre a reunião,
reconhecendo que Brizola “nunca fez as declarações” contidas no despacho, “nem
na conferência nem fora dela”.
Sandy Sloop atribuiu o erro a uma interpretação/tradução do texto transmitido
pela agência portuguesa A 71 NOP . O segundo documento é cópia da carta do
presidente do Conselho de Gerência da ANOP: reconhece, a bem da verdade, que a
“redação da notícia não é correta”, e apresenta desculpas formais: “Nunca o
governador Leonel Brizola nos fez tal comentário, nem mesmo particularmente,
durante a realização do encontro de trabalhistas em Lisboa. E nem tais
comentários surgiram no âmbito deste encontro.” 72 Seria o fim do suspense e da
“crise política” que poderia ter colocado em risco o processo da anistia para a qual o
Encontro de Lisboa e o próprio Brizola representavam apoio incondicional.
Apesar do mal-estar causado por esse curto-circuito na comunicação final do
Encontro com os círculos – particularmente militares – do governo Figueiredo,
ninguém dali fez qualquer comentário sobre a reunião dos trabalhistas. Mas na
área da oposição, do MDB, o Encontro criou certa agitação, com vozes acusando
Brizola de estar fazendo o jogo do governo para acabar com o bipartidarismo e de
com a criação de novos partidos, esvaziar e implodir o MDB. A maioria, reunida em
torno de seu presidente Ulysses Guimarães, desencadeou campanha para fazer
frente aos “desígnios desviacionistas” do governo para salvar a unidade do MDB.
Para o ministro Petrônio Portela, era pensamento do governo que o fim do
bipartidarismo seria a consequência lógica da anistia a ser declarada em breve,
como ocorreria dois meses mais tarde. Acreditava o governo que, com o fim do
bipartidarismo, surgiria uma maioria de apoio ao governo abrangendo até os
liberais. Ao contrário, privada de temas que uniam os que lutavam pela anistia, o
direito à greve, o direito de associação, o fim da censura, a oposição aglutinada em
torno do MDB iria procurar novos caminhos de modelos de sociedade, questões
econômicas e sociais, e a sua divisão seria inevitável.
O debate interno do MDB seria inelutável; Ulysses Guimarães já pressentia esse
ambiente de mudança e tinha o cuidado de não romper com o líder do trabalhismo
que no Encontro de Lisboa o criticara de querer monopolizar a oposição. Ali em
Lisboa estiveram 11 deputados federais e três deputados estaduais do MDB (sendo
um deputado federal da Arena) que passaram a apoiar – além de alguns dirigentes
sindicais – o projeto de reorganização do PTB. Durante o Encontro, Brizola
manifestou-se a respeito da posição dos comunistas e disse ser conveniente que
eles pudessem se expressar livremente, através de seu partido, já que se
“ocultavam” dentro do MDB, em razão da proibição da ditadura de ter sua vida
legal.
Para amenizar o clima de tensão provocado pelo curto-circuito entre Lisboa e
Brasília, registramos aqui três histórias pitorescas, bem ao estilo de Brizola.
No início de fevereiro de 1979, ocorreu um novíssimo fato político internacional
no Oriente Médio. O aiatolá Khomeini acabara de instalar no Irã a sua Revolução
Islâmica. Ao ler as notícias dos novos acontecimentos, Brizola, junto com seu fiel
escudeiro, Michel Sobrinho, escreveu, ali no Hotel Flórida, um telegrama de
congratulações para o aiatolá saudando a nova Revolução. Mas Brizola fez questão
de pedir a Michel para passar o telegrama bem longe do hotel, pois o professor
Pedro Celso Cavalcanti poderia ficar sabendo e o teria impedido de saudar o novo
regime, que iria acabar por violar direitos humanos e tornar-se uma ditadura
teocrática.
Para evitar que Pedro Celso soubesse da intenção de Brizola, Michel foi até a
longínqua estação ferroviária de Santa Apolônia – a mais de 10 quilômetros do
Hotel Flórida – e enviou o telegrama.
Passados alguns dias, chega ao Hotel Flórida a resposta endereçada a Brizola do
próprio Khomeini, com palavras de agradecimento e expressando solidariedade à
situação de exílio de Brizola, que passou um bom tempo lendo as palavras do
aiatolá e, então, virou-se para Michel e perguntou:
— Mas, Michel, como é que o Khomeini sabia que eu estava aqui no Hotel
Flórida? 73
Uma segunda anedota. Quase no final da estada em Lisboa, Brizola pediu a
Michel que ele alugasse um bom carro, pois queria levar Neusa a um restaurante nos Restauradores, onde os dois poderiam comer uma boa carne assada e celebrar
os bons tempos de Lisboa. Seria a despedida do casal de Lisboa. Michel alugou uma
Brasília e a estacionou bem diante da porta do Hotel Flórida, com o pisca-pisca
ligado, à espera do casal. Michel pensava que ele iria dirigir e levar o casal até o
restaurante.
Assim que Brizola chegou, insistiu que ele mesmo iria dirigir. Tomou a direção,
acionou o motor e saiu dirigindo a Brasília, com os pisca-piscas ligados, pelas
tortuosas e históricas ruas de Lisboa.
A terceira anedota, menos pitoresca que as anteriores, reflete uma situação
bastante embaraçosa. Vamos a ela.
Já quase no final dos tempos de Lisboa, Brizola e Neusa passaram algum tempo
morando no apartamento de Pedro Celso e Valentina, na Estrela. Moniz Bandeira
escrevia no Rio o livro Brizola e o Trabalhismo e aproveitou a viagem de Darcy
Ribeiro a Lisboa para entregar o primeiro texto para o exame de Brizola, mas o casal
estava em viagem e Darcy deixou o pacote na casa de Márcio Moreira Alves.
O médico paulista exilado, David Lerer, que passara um bom tempo em Angola
durante a guerra civil, voltou para Lisboa e foi morar na casa de Márcio. Márcio
abriu o pacote, leu o texto e mostrou a Lerer, que o deixou dentro de seu carro, um
Ford Fiesta. Certo dia, Lerer passou pela casa de Pedro para levar Brizola até o Largo
do Rato, onde estava a sede do Partido Socialista Português. Assim que se
acomodou dentro do carro, Brizola olhou para baixo e viu um pacote descansando
na rede para guardar objetos, observou mais de perto e verificou que era o texto do
livro, com a sigla MB (Moniz Bandeira). Pegou-o e indagou a Lerer:
— O que é isso, Lerer? Como esse texto do livro do Moniz veio parar aqui em seu
carro?
Lerer então contou que fora Márcio quem havia deixado ali uns dias antes para
que ele o lesse. Brizola ficou uma fera e pediu que voltassem e fossem direto para a
casa do Márcio, e no trajeto não parou de esbravejar contra o que achava uma
atitude descortês por ter aberto o pacote, lido o texto do livro e deixado no carro do
Lerer: queria pedir satisfação a Márcio.
Mas Márcio, da janela de sua morada, viu Brizola chegando com Lerer,
pressentiu o ar zangado do Brizola e não os atendeu. Tocaram a campainha muitas vezes e ninguém veio à porta. Voltaram para o Largo do Rato. Brizola disse a Lerer
que iria telefonar para Márcio e pedir-lhe explicações, fulo da vida.
Na manhã seguinte, ao ir à sala, viu que havia um bilhete por baixo da porta de
entrada a ele endereçado. Pegou o envelope, abriu-o e leu: era um bilhete do Márcio
se desculpando pela descortesia e elogiando o livro de Moniz Bandeira…
Notas
67. Transcrição das gravações do Encontro de Lisboa; ver Jornal do Brasil, “A nota do ex-governador”, 22/6/1979,
e O Globo, “O comunicado do ex-governador”, 22/6/1979.
68. Cf. ANOP em carta à Brizola, cf. Jornal do Brasil, 30/6/1979.
69. O Globo, “Forças Armadas repelem insolência de Leonel Brizola”, 21/6/79. Cf. O Globo, 22/6/1979.
70. Cf. Jornal do Brasil, 21/6/1979.
71. A nota recebida pela ANOP fora repassada pela assessoria de imprensa do Encontro de Lisboa.
72. No registro de Clóvis Brigagão, o único que acabou sendo punido foi o correspondente da UPI em Lisboa,
Sandy Sloop, que perdeu o cargo. Clóvis não se recorda se também o gerente ou outro funcionário da ANOP
sofreu algum tipo de penalidade funcional, mas acredita que não.
73. Anedota passada aos autores por Michel Jorge Sobrinho, Brasília, 1/11/2009.