Contos escolhidos de Antonio de Trueba
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Contos escolhidos de D. Antonio de
Trueba
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Title: Contos escolhidos de D. Antonio de Trueba
Author: Antonio de Trueba
Commentator: Inácio de Vilhena Barbosa
Translator: F. de Castro Monteiro
Release date: May 25, 2008 [eBook #25593] Most recently updated: January 3, 2021
Language: Portuguese
Credits: Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS ESCOLHIDOS DE D. ANTONIO DE TRUEBA ***
PRIMORES DA LITTERATURA HESPANHOLA
CONTOS ESCOLHIDOS
DE
D. ANTONIO DE TRUEBA
TRADUZIDOS LIVREMENTE
POR
F. DE CASTRO MONTEIRO
com uma introducção
POR
I. DE VILHENA BARBOSA
PORTO
Imprensa Portuguesa—Editora
1872
PRIMORES DA LITTERATURA HESPANHOLA
CONTOS ESCOLHIDOS
DE
D. ANTONIO DE TRUEBA
PRIMORES DA LITTERATURA HESPANHOLA
CONTOS ESCOLHIDOS
DE
D. ANTONIO DE TRUEBA
TRADUZIDOS LIVREMENTE
POR
F. DE CASTRO MONTEIRO
com uma introducção
POR
I. DE VILHENA BARBOSA
PORTO
Imprensa Portuguesa—Editora
1872
AO SEU PREZADO AMIGO
I. DE VILHENA BARBOSA
SOCIO CORRESPONDENTE DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS
Como testemunho de gratidão
Offerece
O traductor.
Meu querido Vilhena Barbosa.1
A grata recordação das lições que de ti recebi, quando no meu espirito começava a desenvolver-se o gosto pelo estudo da litteratura; os salutares conselhos, que me dispensaste, nos primeiros annos da minha adolescencia, apontando-me a escolha dos auctores, que deveriam formar o meu estylo, e robustecer as minhas tendencias litterarias; aquellas nossas conversas, de tamanho interesse para mim, em que as luzes do teu illustrado entendimento tentavam dissipar as trevas da minha ignorancia, conversas que, pouco a pouco, e no decurso d'alguns annos de convivencia intima, iam subindo d'alcance, á medida que, pelo estudo, eu me habilitava a comprehender-te e a discutir comtigo, seriam já, de per si, sobejo motivo para que eu te dedicasse este livrinho, se não houvesse ainda razões de entranhadissimo affecto, razões todas do coração, e completamente alheias á cultura das letras, que a isso me obrigam, com força de irresistivel encanto.
A minha vida está, desde os mais verdes annos, ligada, por laços indissoluveis, a essa dedicação illimitada que sempre me votaste.
Era eu bem creança, e já tu me franqueavas os arcanos da tua vasta erudição. Não sei que confiança era a tua na mediocridade da minha esphera intellectual. Eram horas esquecidas d'instructiva palestra, em que a historia patria, a philosophia da historia, as sciencias naturaes, e a litteratura constituiam um thema variado, que me deleitava e instruia, animando-me a procurar nos livros cabedal de conhecimentos com que podesse corresponder ao teu paternal intento de me tornar util a mim e á sociedade.
Oh! que saudosos tempos, de feliz memoria, são esses para mim!
Quando nos separavamos, continuavas tu, de longe, a indicar-me os bons modelos, e a apontar-me um futuro, que a tua céga amisade antevia para mim, mas que, erat scriptum, eu não deveria attingir.
Nunca me abandonaste; e, se foi baldado o teu intento, ao menos da constancia do teu affecto tiro eu motivo de muito orgulho, e isso basta para me consolar.
Nos primeiros mezes de 1860, época de terrivel amargura para o meu coração, revelou-se a tua amisade por mim pela prova mais grandiosa, que póde aquilatar os sentimentos d'alma.
Em dezembro, tinha eu vindo de Coimbra ao Porto, a férias. Entrava em casa com aquelle alvoroço, que tu por vezes presenciaste, e que sempre me dominava, ao acercar-me de meus paes e de minha irmã. Minha mãe chorava de alegria, cingindo-me n'um amoroso e prolongado abraço, e eu correspondia ao seu carinho com todo o affecto, que me inundava o coração. Sabes como eu a amava. Por mais d'uma vez te achaste ao nosso lado, no momento de nos separarmos.
Eram os transportes de duas almas enamoradas, em presença da amarga e tyrannica necessidade da ausencia.
Assim tambem, quando as ferias se avisinhavam, contavamos ambos as horas e até os instantes, que faltavam para a nossa approximação, com frenetica impaciencia.
N'essas emoções encontradas, por entre riso e lagrimas, se deslisaram os primeiros annos da minha mocidade.
Punge-me recordar esse tempo de tão acerba saudade; enlucta-se-me a alma, quando se me retrata na mente a imagem de minha piedosa mãe; e a ti sei eu que hade offender-te a notavel modestia, que é um dos ornamentos do teu nobre caracter, este publico testemunho, que te offereço, da minha gratidão.
Mas ainda que o coração se me despedace ao escrever estas linhas, e a despeito da contrariadade, que possa levantar no teu espirito, proseguirei no meu intento.
Tem paciencia, e ouve o que talvez a tua consciencia nunca te mostrasse em relevo, por causa d'esse sentimento elevadissimo, que esconde aos olhos do homem a nobreza das suas proprias acções.
Poucos dias depois da minha chegada ao Porto, adoeceu minha mãe; e com tal violencia se apresentou a molestia, que foram infructiferos todos os esforços, que a medicina fez para a salvar.
A 22 de Janeiro voou aquella alma angelica, a abrigar-se no seio de Deus.
Passarei um véo por sobre o abysmo de insondavel martyrio, em que esse angustiosissimo lance me sepultou!
Decorrido um mez, lembrou-me meu pae a necessidade de voltar para Coimbra.
Acordei então do lethargo em que caíra, depois do fatal acontecimento; comprehendi quanto havia de justo e paternal n'aquella indicação, e parti.
Quando me encerrei no meu quarto escolastico, e que meditei na transformação, que, em tão breve lapso de tempo, se operára na minha vida moral, senti-me succumbir; arrastei-me para junto da janella, que olhava para o Mondego, e alongando a vista por aquelle formoso quadro, tão poetico e tão melancolico, deixei-me dominar completamente pela vehemencia da saudade, que me opprimia, e assim permaneci por espaço de muitas horas.
Nos dias que se seguiram, foi sempre calando, mais e mais, no meu coração, aquella profunda tristeza, que nada podia dissipar.
Os meus companheiros de casa, moços distinctissimos, os quaes ainda hoje amo como irmãos, envidavam todos os seus recursos para me fazer saír d'aquelle estado de depressão de espirito, que me senhoreava; mas nada podiam conseguir.
Por espaço de muitos dias, quando chegava o correio, erguia-me de subito, machinalmente, para correr ao seu encontro; mas logo, lembrando-me que já não existia aquella santa, que diariamente me confortava e fortalecia o espirito, com o balsamo salutar do seu carinhoso affecto, caía novamente na minha tristeza habitual.
Tão dolorosa e renitente enfermidade moral, não podia deixar de transmittir-se ao corpo.
Adoeci.
Os progressos da doença foram rapidos e assustadores!
Eu delirava, e no meu delirio, evocava o nome de minha mãe.
A sciencia deu á molestia um nome; mas o meu coração dava-lhe outro.
Os médicos chamavam-lhe pneumonia... mas eu chamava-lhe Saudade!
Todos os meus companheiros, á porfia, se esforçavam por me provar a sua amisade. D'elles porém havia um, a quem todos respeitavamos, que logo se collocou á cabeceira do meu leito, servindo-me regularmente de enfermeiro.
Não referirei aqui o seu nome por lhe não ferir a modestia, que a tem, em tão subido gráo como tu, e a qual eu não ouso devassar. Recordo-me d'elle com muita saudade e muito reconhecimento.
E nunca mais nos encontramos!
Uma noite acordei e vi um vulto ajoelhado junto do meu leito; sobresaltou-me, porque me parecia um padre! Era elle, vestido de batina, e que resava no seu livro de orações!
Ergueu-se rapidamente e disfarçou para me não assustar.
Eu dissimulei; fingi que o não vira, e nunca lhe fallei d'esta scena edificante, que ha de sempre permanecer gravada no meu coração.
Este livro deve chegar um dia ás mãos d'esse nobre mancebo, de quem o destino me separou; que elle se recorde de mim com saudade, ao lêr estas palavras, e veja n'ellas a expressão do muito reconhecimento, que tambem lhe consagro.
A molestia aggravara-se, e ao terceiro dia, apresentava-se temerosa!
Eu sentia-me isolado, á mingua do conforto da familia; mas prohibira expressamente, que avisassem meu extremoso pae da gravidade da minha situação.
Este, ignorando a verdade, e presa de muitos trabalhos domesticos, não foi ter commigo a Coimbra; mas escreveu-te para Lisboa, avisando-te de que eu me achava enfermo.
No dia em que recebeste a sua carta, dirigiste-te a um dos meus companheiros de casa, e este fallou-te com franqueza.
Isto soube-o eu mais tarde.
Vinte e quatro horas depois de teres lido a resposta, a que alludo, dispertava eu d'um somno angustioso, e vi-te ao meu lado.
Quiz erguer-me e lançar-me nos teus braços, mas não pude.
Fizeste por me serenar o espirito, sobreexcitado pela tua presença alli, e começaste a dispensar-me os thesouros do teu acrisolado affecto.
A molestia teve-me baloiçado entre a vida e a morte; e por fim, graças á bondade do Altissimo, que me julgou talvez novo para deixar o mundo, e que me proporcionou os desvelos do teu carinho, começou a declinar.
Foi longa a convalescença.
Quando, no decurso d'ella, eu me conservava ainda de cama, tu, sentado á minha cabeceira, lias alto para me distrahir, ou divagavas sobre aquelles assumptos, que sabias me eram mais gratos.
Ministravas-me cuidadosamente os remedios e as comidas, temperadas pela tua propria mão, e informavas diariamente a minha familia das progressivas melhoras, que eu experimentava.
Afinal, ergui-me da cama, e, poucos dias depois, comecei a dar alguns passeios, pelo teu braço.
Ficava a minha casa proxima ao Jardim botanico, e era para ahi que sempre nos dirigiamos.
Estavamos então entrados na primavera, essa estação encantadora, em que o coração se retempera no ar embalsamado que nos rodeia; essa gioventù del anno, como lhe chama o poeta, em que toda a natureza nos sorri, com ineffavel magia.
Eu sentia-me renascer; parecia-me participar da qualidade dos arbustos e das plantas, que nos cercavam; corria-me nas veias uma nova seiva, e impressionava-me em extremo o grandioso espectaculo, que se offerecia a meus olhos.
Depois de darmos algumas voltas por aquellas frondosas avenidas, sentavamo-nos n'um banco do jardim, e um ao outro communicavamos as impressões, que recebiamos d'aquelle panorama encantador das «saudosas margens do Mondego», que d'alli se observa em todo o esplendor da sua belleza.
Depois, quando o sol, declinando, nos aconselhava a regressar a casa, levantavamo-nos e deixavamos vagarosamente aquella mansão deliciosa.
Os extremos da tua amisade tinham-me furtado talvez a uma prematura morte, mas não lograram desanuviar-me o coração da magoa, que o suffocava.
Deixava-me por vezes dominar de profunda tristeza, e assim me conservava por largas horas, alheiado completamente do mundo exterior, e só entregue a amargas cogitações.
Um dia entraste no meu quarto, e disseste-me que era preciso saír de Coimbra; que tinhas conversado largamente com o medico, e que este fôra de parecer de que a distracção era o unico remedio que podia completar o meu restabelecimento.
Sobresaltou-me a lembrança de que teria de me separar logo de ti.
Era uma injustiça que fazia á devoção do teu affecto; mas confesso-te que não suppunha que tu levasses a tua generosa dedicação por mim, até entrares commigo na casa paterna.
Sabia que a ausencia de Lisboa era em extremo prejudicial aos teus interesses, e por isso imaginava que tu darias por terminada a tua caridosa missão, com a minha partida para o Porto.
Quanto me enganava!
Eu estava ainda muito falto de forças e mal podia entender nos aprestos da viagem; tu porém a tudo proveste com paternal cuidado.
Afinal, por uma aprazivel manhã, saímos de Coimbra.
Alugaramos uma carruagem, a melhor que se pôde encontrar, e por essa bella estrada, que o mau fado da nossa administração publica, devia, poucos annos depois, tornar quasi deserta, admirando o formosissimo paiz que ella atravessa, formosissimo pela luxuriante vegetação que o cobre, e pela extensão dos seus variadissimos panoramas, seguimos agradavelmente até á primeira paragem, onde deviamos pernoitar.
Se bem me recordo era a estalagem d'Albergaria, esse covil immundo, da qual ainda hoje me não lembro, que não sinta logo pelo corpo, um certo pruído, que me excita horrorosamente os nervos.
No dia immediato continuamos a nossa jornada, mas não com tanta felicidade como na vespera.
Levantára-se muito vento, e parece-me que te estou vendo, meu bom Ignacio, receioso de que o frio prejudicasse o regular andamento da minha convalescença, repartindo-me em mil cuidados, para me pôr a salvo d'uma recaída!
E agora me lembra um episodio d'essa saudosa jornada, que tem relação com o que levo dito, e que é mais um attestado do conforto e da commodidade das taes locandas da antiga estrada coimbrã.
Quando chegamos a S. João da Madeira, saímos da carruagem, e entramos na hospedaria, para jantar.
Depois que démos as nossas ordens, na cosinha, subimos para a sala, onde deviamos esperar que nos servissem; mas era tal a ventania, que entrava pelos buracos dos vidros, e pelas fendas do telhado, que, não querendo voltar logo para a carruagem, de que já estavamos fartos, tomamos o partido de nos sentarmos a um canto, e abrir os chapéos de sol, a vêr se d'este modo podiamos afrontar a intemperie.
Pouco tempo porém estivemos n'essa posição caricata; afinal entendemos que o mais acertado era jantarmos dentro da carruagem, e assim o fizemos.