Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Antonio de Trueba · Capítulo 3 de 32

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Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Capítulo I

As letras e as artes têm muitos pontos de affinidade. Ambas filhas predilectas da civilisação; caminhando a par na via dos progressos humanitarios; auxiliando-se e concorrendo mutuamente para o seu commum desenvolvimento e esplendor; cabendo-lhes egual quinhão de gloria nos aperfeiçoamentos, grandeza e prosperidade de qualquer nação; tem identico valor e significação para se aquilatar por ellas a cultura de um povo; e, finalmente, ambas são um como espelho em que a humanidade se retrata, tal qual é, segundo as epochas da sua historia.

Nas artes é, principalmente, a architectura, pelas intimas relações que tem com a sociedade, a que resume em si, com maior exactidão, as idêas, as crenças, as aspirações, as necessidades, em fim, a vida moral e physica dos povos.

Nas letras o romance, a meu vêr, como nas artes a architectura, é qual lamina em que se espelham, com fidelidade, os pensamentos, a indole e os costumes da sociedade para a qual foram escriptos.

Na traça mesquinha ou grandiosa de um monumento; nas suas fórmas acanhadas ou esveltas; na ornamentação pesada e mal disposta, ou ligeira e graciosamente distribuida; na esculptura dos ornatos grosseiros e sem significação ideal, ou delicados e expressivamente symbolicos, escreveu o architecto, sem attentar em tal, uma pagina da historia dos seus contemporaneos, eloquentissima na sua mudez, e cheia de verdade, porque a mão do seu auctor era dirigida, não por paixões ou respeitos humanos, mas unicamente pelo amor da arte. E julgando o artista que a movia em cega obediencia aos preceitos da mesma arte, a sua dextra seguia tambem os impulsos da sua imaginação, que não podia eximir-se á despotica influencia das idêas e costumes dominantes; e além d'isso, no desempenho da sua missão, tinha de satisfazer as exigencias e necessidades publicas, que são sempre determinadas pelo movimento intellectual e pela successiva modificação dos costumes.

O romancista quer que o seu livro corra mundo, e seja lido com prazer. Para alcançar este desideratum, procura deleitar, e para este fim tem de vasar a sua obra nos moldes do gosto publico; isto é, tem de a accommodar ás idêas e costumes em voga n'essa epocha. E ainda que consideremos o escriptor, pegando da penna, sem que o mova o interesse pecuniario, forçosamente ha de escrever sob a mesma poderosa influencia das idêas e costumes publicos.