Contos escolhidos de Antonio de Trueba
Capítulo IX
Quando avistaram a porta de Toledo, ficou Angelo a pular de contente; mais alguns passos apenas e estavam no campo, onde ia recrear a vista na contemplação d'uma perspectiva encantadora; era esse o juizo que formava, e que tinha como certo.
Se tanto o deleitavam as ridentes paisagens do seu paiz, com mais razão entendia a pobre creança que o haviam de captivar as dos arredores de Madrid, a capital da Hespanha onde tudo devia ser magnifico e admiravel.
Lá, na frente, pensava elle, hão de avistar-se talvez grandes montanhas cobertas de frondoso arvoredo; a um lado elevar-se-ha uma verde colina coroada pelas ruinas d'um castello mysterioso e sombrio; do lado opposto erguer-se-hão ás nuvens penhas alcantiladas, por entre as quaes se despenharão com rouco bramido impetuosas torrentes, e pelas faldas dos montes ha de estender-se por certo uma veiga deliciosa, semeada de casinhas brancas, e regada por um rio caudaloso, em cujas ribas estarão collocados, destacando no horisonte, inumeros moínhos, completando a paisagem com os seus tectos elegantes e pittorescos...
É este o espectaculo grandioso, que vae, n'um momento, offerecer-se aos meus olhos!
E vendo que estavam quasi a chegar á porta, desceu Angelo a vista com o proposito firme de a não levantar, em quanto não sentisse debaixo dos pés a herva do campo, para assim poder abranger a um tempo e de repente, o formoso panorama, que se lhe desenhava na mente.
A areia e a brisa subtil do Guadarrama, e não esse tapete de mimosa relva, que sonhára, lhe fizeram conhecer que já se achava fóra de Madrid.
Ergueu de subito os olhos e abarcou ancioso com a vista a paisagem, que tinha diante de si.
Ai! que differença entre o panorama, que se lhe apresentava e aquelle que phantasiára na sua pueril imaginação!
Em frente limitavam o horisonte os cêrros escalvados e agrestes de Santo Izidro, coroados não de arvores formosas e de castellos mysteriosos, mas sim de telhados denegridos pelo fumo e de lugubres cemiterios, circumdados de muros de terra. Do lado esquerdo uma planicie estéril e monótona, da qual os accidentes mais bellos são o cêrro dos Anjos e o cêrro Negro. Á direita as vendas ou retiros miseraveis e as aridas encostas, que dominam a ponte de Segovia; e em baixo, na planicie, o triste Manzanares, arrastando-se penosamente por entre muladares e lavadouros!...
Um cruel desalento e uma profunda melancholia se apoderaram para logo de Angelo; comtudo não perdeu de todo a esperança de deparar com o paraiso dos seus sonhos.
—Quem sabe? pensava elle, talvez que ao transpor aquellas imminencias se descubra uma paisagem menos arida e triste do que esta que d'aqui se observa. E seguindo os seus companheiros, atravessou o Manzanares pela ponte de Santo Izidro. De repente D. Lucas parou, recommendando, por signaes, aos outros que não fizessem bulha. Todos obedeceram, e elle então adiantou-se, nas pontas dos pés, agachando-se cautelosamente, e com os perros da espingarda levantados.
Angelo suppoz que D. Lucas teria avistado alguma lebre, ou pelo menos um bando de perdizes. Por fim o grande caçador de Madrid disparou a arma, e exclamou cheio de alegria:
—Lá caíu, lá caíu! Áquelle já ninguem lhe vale!
E desappareceu por entre os choupos da margem do rio. Alguns momentos depois tornou a apparecer, mostrando triumphante um passaro ribeirinho que acabava de matar!
As illusões de Angelo soffreram um novo golpe. Que caçada era aquella em que os caçadores se alvoroçavam tanto com a morte d'um passarito? Para que serviam então tantas balas, tantas facas de matto e tantos saccos e correões de caça?!
Os caçadores treparam aos cêrros de Santo Izidro, e Angelo dirigiu a vista para o novo horisonte. Alli, como na porta de Toledo, não via para todos os lados para onde olhava, senão áridas serranias, collinas escalvadas, umas poucas d'arvores rachiticas, e alguns silvados e espinhaes, contornando o regato de Luche.
D. Lucas não desanimava como Angelo. Atravessando campos semeados, atraz d'um pardal ou d'uma cotovia, foi-se affastando, poupo e pouco, seguido pelos seus companheiros. Angelo já se sentia fatigado, e outro tanto acontecia aos dois improvisados cães de caça. Sentou-se por fim n'uma pedra, e os cãesitos, vencidos egualmente de cançaço, deitaram-se n'um rego do campo; D. Lucas, porém, vendo isto, deu um empurrão á pobre creança, e affagando os cães, obrigou-a a carregar com elles.—«Tu que não pódes leva-me ás costas.»
Como D. Lucas seguisse a margem do ribeiro de Luche, saltou-lhe um coelho de entre os pés. D. Lucas disparou-lhe um tiro a corta-matto, porém o coelho proseguiu no seu caminho sem ter soffrido o mais leve incommodo.
O caçador soltou uma praga e affirmou aos seus companheiros, que o coelho ia ferido, e que se não tinha morrido logo ali, a culpa não era sua, mas sim da polvora, que não prestava para nada. E o pobre Angelo que já não podia com o corpo, e menos ainda com a alma, continuava a seguil-os, carregado com os cães.
Com estas e outras proezas foi passando o tempo, e os caçadores tomaram por ultimo o caminho de Madrid, levando nos correões meia duzia de passaritos.
De vez em quando Angelo ficava para traz, e o sobrinho do banqueiro ajudava-o então a andar, proferindo uma praga, ou dando-lhe um pontapé.
Junto á porta de Toledo, encontraram um caçador, que levava quatro coelhos.
—Olá, tio Lobo! disse D. Lucas; pelo que vejo não lhe correu mal, hein?
—Assim, assim, snr. D. Lucas; e o senhor, que tal?
—Ora deixe-me, homem, estou desesperado com esta maldita polvora.
—Então que tem? está humida, talvez?
—Nada, humida não está; mas não sei o que tem, que não presta para nada; dei hoje mais de vinte tiros, e vi fugir todas as peças de caça feridas.
—Pois a mim é que isso não acontece; a caça que me fugir preguem-m'a na testa. Tenho uma polvora de contrabando, que não quero que haja melhor.
—Homem, vende-me vocemecê uns poucos d'arrateis?
—Com muito gosto, snr. D. Lucas; qualquer dia d'estes lá lh'os levo a casa.
—Muito bem. Vamos agora a vêr esses bicharôcos.
—Póde vêr á vontade, que são quatro peças de caça aceiadas.
—Isso vejo eu. Provavelmente são para vender na praça?...
—Está bem de ver, nem a gente vive d'outra coisa.
—Pois, n'esse caso, fico eu com os coelhos.
—Estão ás suas ordens, snr. D. Lucas.
—E quanto lhe hei de dar por elles?
—Dá-me aquillo que o senhor quizer.
—Está bom, ahi tem um duro, serve?
—Muito obrigado, snr. D. Lucas. O que eu desejo é que os senhores os comam com saúde. Até outra vez, se Deus quizer.
—Adeus, tio Lobo.
O verdadeiro caçador tomou a dianteira aos caixeiros de Quijano. D. Lucas tratou logo de enfeitar o seu correão com os quatro coelhos, e pouco depois entrava em Madrid, tão inchado que não cabia na rua de Toledo, e causando inveja áquelles que ainda pela manhã tinham zombado d'elle.