Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Antonio de Trueba · Capítulo 12 de 32

Páginas do PDF

Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Capítulo IV

 

Pouco depois entraram na sala do jantar D. Lucas e os caixeiros e sentaram-se á mesa. Angelo porém conservou-se n'um canto, de cabeça baixa, receioso, e sem se atrever a levantar os olhos para D. Lucas.

—Chega-te para a mesa, selvagem, disse-lhe o sobrinho de Quijano. Parece-me que seria melhor ires outra vez guardar cabras lá para a tua terra.

Alegrou-se o menino e sentiu-se ao mesmo tempo ferido no coração, ao ouvir estas palavras; regosijou-o a lembrança de voltar para a sua aldeia e enluctou-se-lhe a alma com o novo insulto que acabava de lhe ser dirigido.

Approximou-se timidamente da mesa, mas não se chegou tanto, como devia, segundo a opinião de D. Lucas; este dando-lhe um murro nas costas exclamou:

—Chega-te mais, bruto! A culpa tem quem não deixa ficar estes animaes a pastar no campo, ou os não faz comer, quando muito, n'uma manjadoura em logar de mesa!

Todos os caixeiros do banqueiro desataram a rir em honra do chiste de D. Lucas.

O pobre Angelo derramava entretanto uma torrente de lagrimas, e comparava as caricias da sua familia com aquellas offensas barbaras e grosseiras.

—Então, comes ou não comes? perguntou D. Lucas.

—Não tenho vontade, respondeu Angelo.

—Tanto melhor; d'esse modo não corres perigo de agarrar alguma indigestão, e hão de abater essas bochechas de frade Bernardo.

Por unica resposta continuou Angelo a chorar e a suspirar pelos paes, pelos irmãos, pelos seus companheiros d'infancia e pelas queridas montanhas de Biscaya, onde até ali tinha vivido tão livre, tão estimado de todos e tão feliz!

E os caixeiros de Quijano a escarnecerem-n'o, a rirem-se d'elle, sem a mais leve sombra de compaixão, como se a pobre creança fosse um corpo sem alma, como se a considerassem sem coração para sentir!

É na verdade uma coisa que indigna e irrita as pessoas sensiveis, e que até revolta o animo, a falta d'humanidade com que são, de ordinario, tratados nos grandes centros, e particularmente em Madrid, os rapazes que para ali são mandados das aldeias!

Chega uma pobre creança, que nunca saíu do seio da sua familia, onde, se a não cercavam riquezas e commodidades, lhe sobravam carinhos e ternos cuidados; chega ordinariamente cheia de frio, extenuada de fadiga, muitas vezes até com fome, e sempre saudosa e triste, e em logar de a confortarem e de lhe proporcionarem carinhos, de que necessita então mais do que nunca, todos a escarnecem, todos zombam da sua innocencia e da sua humildade, das suas lagrimas e da sua linguagem.

Ai! não accuseis o auctor d'este livro de se entregar a falsas declamações; a justificação d'essas palavras conserva-a elle impressa na sua memoria propensa a recordar, e no intimo do seu coração sempre disposto a perdoar, para nunca mais saír d'ali.

Durante a primeira tarde, que passou em casa de D. João Quijano, foi Angelo victima da selvageria, que estou condemnando. Abusaram indignamente da sua natural simplicidade e prudencia, obrigando-o a praticar um certo numero de coisas, que repugna enumerar; por ultimo fizeram-n'o persuadir de que todas as pessoas que entravam pela primeira vez em Madrid, careciam de ser pesadas a fim de pagarem uns certos direitos proporcionaes ao peso que tivessem.

Puzeram-n'o em cima d'uma balança, e ali o conservaram por tanto tempo, que a pobre creança já tinha o corpo quasi desconjuntado; quando terminou aquella experiencia de martyrio, que faz lembrar os tormentos inventados por Diocleciano e Torquemada, teve elle de soffrer outro talvez mais doloroso ainda, qual o das mofas e zombarias dos seus verdugos, que desapiedadamente lhe retalhavam o coração!

E os caixeiros do banqueiro, homens barbados, que, como taes, estavam constituidos na obrigação de proteger o fraco e de consolar o triste; que eram chamados a desempenhar graves e sagrados deveres na sociedade, mostravam-se contentes com a sua obra, e imaginavam-se, talvez, cheios de talento e de graça por haverem illudido e martyrisado uma creança, que, pela primeira vez na sua vida, vertia lagrimas de desespero, longe de seus paes que a idolatravam, e das queridas montanhas da sua patria!

Tudo soffreu a pobre creatura em silencio; nem sequer lhe restou o linitivo de se queixar a D. João dos barbaros tratos de que foi victima; prohibiram-lh'o os seus verdugos com ameaças que lhe infundiram novo terror e novo desalento.