Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Antonio de Trueba · Capítulo 15 de 32

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Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Capítulo VII

Manoel e Marianno (eram estes os nomes dos dois caixeiros do banqueiro) desceram as escadas, e vendo que Angelo se não tinha ainda levantado, dirigiram-se para o seu aposento.

—É melhor acordal-o, dizia Manoel, porque se chega D. Lucas e o encontra a dormir não deixa de lhe fazer a operação do costume.

—E que tem lá isso? replicou Marianno, para nós é até um divertimento. A pena que me resta é não haver aqui á mão um bom molho de ortigas.

—Não tenhas mau coração. Já não soffreu pouco hontem o pobre pequeno, principalmente com a historia da balança.

—E que tem que soffresse?! Tambem nós soffriamos quando eramos como elle.

—Pois por isso mesmo que a nós nos trataram mal é que eu entendo, que devemos tratar agora bem os que se acham em identicas circumstancias.

E dizendo isto, approximou-se da cama de Angelo, e principiou a abanal-o e a chamar por elle; mas o menino estava tão ferrado no somno, que continuava a dormir profundamente.

—Que é lá isso, perguntou D. Lucas, apparecendo á porta do quarto. Então esse estupido ainda está na cama?!

—Está, sim, senhor, respondeu Marianno.

D. Lucas proferiu uma praga e accrescentou, dirigindo-se a Marianno:

—Vaes vêr como esperta n'um instante. Traz-me lá de cima, da talha, uma bilha d'agua para se lhe applicar o remedio.

Marianno, que parecia feito á similhança de D. Lucas, obedeceu de prompto, e largou pelas escadas acima, esfregando as mãos de contente. No primeiro andar, e debruçado n'uma varanda de ferro que dava para o pateo interior da casa, coberto por um tolde, estava Toribio, escutando o que se passava em baixo, pois d'alli se ouvia tudo perfeitamente.

—Que temos, snr. D. Marianno, perguntou elle ao caixeiro.

—Vou buscar uma bilha d'agua para fazermos a operação.

—Ao rocim-chegado?

—Nem mais nem menos; vem d'ahi, se te queres rir.

—Isso já a mim me palpitava, que se lhe havia de fazer o remedio. Mas a agua não deve ser da talha; essa está pouco fria por causa da proximidade do fogão. Temos aqui um bom jarro d'ella, que, de proposito, deixei ficar de noite sobre o alpendre.

—És um rapaz de talento, Toribio! exclamou, rindo, Marianno, em quanto o bruto do creado pegava no jarro da agua.

—Deve estar excellente! accrescentou, vendo-a coberta d'uma espessa crusta de gelo, que foi quebrando com os nós dos dedos, á maneira que descia os degraus da escada.

Toribio não quiz privar-se do barbaro goso de assistir ao martyrio que ia soffrer a pobre creança, e correu, todo alvoroçado, atraz de Marianno.

Dom Lucas pegou no jarro, e afastando para o lado a roupa que cobria o menino até ao pescoço, despejou-lhe de golpe toda a agua por sobre o peito, com grande satisfação de Marianno e Toribio. Manoel, esse, coitado, estava compungido da sorte do rapazinho. Angelo soltou um grito e ergueu-se de subito, ao sentir no corpo a agua gelada.

—Isto é para vêr se acordas! disse D. Lucas, e completou a phrase com uma nova praga.

O menino não replicou, nem tratou sequer de desculpar-se. Atirou immediatamente comsigo da cama abaixo, e vestiu-se sem proferir uma palavra. Os seus olhos não derramavam lagrimas, mas derramava sangue o seu coração! Tinha á cabeceira da cama uma estampa, já enegrecida pelo tempo, representando Jesus crucificado. Ergueu os olhos para a divina imagem e exclamou no intimo de sua alma afflicta:

—Senhor, levae-me já para o céo ou para as minhas montanhas!