Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Antonio de Trueba · Capítulo 26 de 32

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Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Capítulo III

Seguia o filho de Senéca com o seu burro á arreata ao longo dos carvalhaes, que assombram as margens do rio, que corre pelo valle profundo, que separa Somorrostro de Galdámes e Sopuerta, quando, ao chegar a um pequeno areal muito suave, fez o burro esta reflexão:

—Ai! que bella cama para eu descansar um pouco!... e então, se eu podesse soltar esta maldita carga, que me vae amolando as costellas!

E de repente, antes que o pequeno olhasse para traz, estirou-se ao comprido no meio do chão.

—Ai! minha mãe!... exclamou o rapazinho aterrado;—porque convém saber que em Hespanha, e com especialidade na Biscaya, não só aos pequenos como tambem aos grandes, o primeiro auxilio que lhes occorre invocar nas maiores afflicções, é sempre o de sua mãe, ainda mesmo que já a tenham no ceu.

E pegando n'uma vergasta começou a zurzir o burro sem dôr nem piedade; porém o animal, por mais esforços que fazia para se levantar, não o podia conseguir.

Estava já o pequeno quasi a chorar, quando se lembrou do conselho, que o pae lhe havia dado, e, em vez de dar largas ao pranto, começou a gritar:

—Necessidade! Necessidade! faz-me o favor de vir aqui ajudar-me a erguer este burro?!

O pequeno bem olhava para todos os lados, a vêr se apparecia a Necessidade, mas não via ninguem. Já cansado de chamar e de esperar pela Necessidade, desatou o arrocho, que prendia o sacco ao apparelho do burro, e alliviou-o da carga; em seguida deu-lhe uma vergastada e o animal ergueu-se d'um salto. Então o pequeno tomou o burro pelo cabresto, levou-o para junto d'uma ribanceira, e rolando o sacco até lá, pôde, a muito custo, collocal-o em cima do animal; apertou-o bem com o arrocho, montou-se sobre a carga, atirou uma pancada ao burro, e proseguiu no seu caminho, mais alegre que umas paschoas.

Passada uma hora chegava o rapaz ao moínho, cantando e fazendo trotar o seu ginete.

—Olá, pequeno, disse-lhe o pae, apenas o avistou, como te foi pela tua viagem?

—Muito mal, meu pae.

—Então o que te aconteceu, homem?

—Deitou-se o burro no caminho, e, por mais pancadas que lhe dei, não foi capaz de se levantar.

—E então o que fizeste?

—Desprendi a carga, levei o burro para o pé d'uma ribanceira, fui rolando o sacco até lá...

—Bem, bem, já percebo. Quer isso dizer que chamaste pela Necessidade, não é assim?

—Chamei, chamei; fartei-me até de chamar; mas não appareceu...

—Rapaz, disse Senéca, vê como tu te enganas;—quem te levantou e carregou o burro não foi senão a Necessidade.

Tinha razão Senéca, e tambem eu a tenho para dizer aqui que a necessidade presta tanto auxilio e tamanhos beneficios ao homem, que não sei como ainda lhe não deram a cruz de beneficencia.