Contos escolhidos de Antonio de Trueba
Capítulo II
Como era natural, apenas o rei morreu, levantou-se a questão da escolha d'uma regencia, que devia tomar as rédeas do governo, durante a menoridade de sua excelsa filha, e então é que foram ellas!
Sobre se a regencia devia ser de tres, ou d'um unico estadista, e se este deveria ser Pedro ou Paulo, levantou-se tamanha tempestade, que ia tudo pelos ares. Por ultimo optaram pela regencia una, e por então terminou a contenda; porém os partidos politicos, para os quaes vêr os seus contrarios no poleiro e vêr o diabo é tudo uma e a mesma coisa, começaram novamente a tecer os pausinhos. Era o regente um soldado destemido e honrado d'uma vez; porém como homem d'estado não passava d'um simplorio, que entendia tanto de governo como eu entendo de lagares d'azeite; os seus inimigos, aproveitando-se da inepcia com que elle dirigia a politica, não descançaram em quanto lhe não deram um pontapé, e o expulsaram do palacio.
Nomeou-se novo regente. Este então era um passaro que cantava na mão, porém ao mesmo tempo, tão medroso, que apenas ouvia um tiro, era capaz de se metter cem braças pela terra abaixo; d'ahi resultava que cada dia havia um pronunciamento.
Por effeito de um d'esses pronunciamentos, caíu o regente, e organisou-se então uma regencia composta de tres magnates.
Até ali era um só a crear nichos para empregar os seus amigalhotes, um só a querer enriquecer á custa da nação, um só a monopolisar os favores da joven princeza, e um só a governar mal; multipliquem agora esse um por tres, e imaginem a poeira, que se levantou com a tal regencia trina!
Conheceu finalmente a princeza que estava em edade de casar-se, e correu voz, por todas as nações, de que ella punha a sua mão a concurso e a daria ao principe, que mais lhe agradasse.
Os primeiros, que acudiram ao reclame, foram os judeus, os quaes trajavam rica e vistosamente, e tinham o cuidado de fazer tinir bem o dinheiro diante da princeza, suppondo talvez, que o vil metal teria para ella tantos attractivos como para elles; e, emquanto os que iam á mostra faziam sua côrte á princeza, andavam os rabinos pelos cêrros pedindo a Deus, que désse a algum dos da sua casta aquella boa pequena, que tão bello partido era.
Chegaram em seguida os mahometanos, e era muito para se vêr, tantos moiros montados em cavallos, mais ligeiros que o vento, escaramuçando e jogando canas, a vêr se, assim, engodavam a princeza.
Afinal appareceram os christãos, que, com suas justas e torneios, e o seu porte cheio de garbo e gentileza, sabiam encantar o coração das donzellas.
—Então, em qual das tres religiões escolhe V. M. marido? perguntou o presidente do conselho de ministros á rainha.
—Homem, nem sei o que te diga, respondeu a rainha. Bem se diz que quem tem que escolher tem que fazer. Se queres que te falle verdade, gosto de todos.
—Vamos, mas V. M. precisa decidir-se por um.
—Asseguro-te que sinto realmente devéras não poder decidir-me, sequer ao menos, por tres. Olha, que entre os christãos ha alguns rapazes bem guapos!... mas entre os judeus e os moiros... não te digo nada!...
—Em summa, disse o presidente do conselho, isto não é sangria desatada; deixe-os V. M. penar, uns e outros, por espaço d'alguns mezes, e depois, então, poderá V. M. escolher, com perfeito conhecimento de causa; isto de escolha de marido é, para as raparigas, operação muito delicada...
O presidente do conselho teve a honra de que S. M. seguisse o seu parecer, e christãos, mahometanos e judeus, continuarem a fazer as suas zumbaias á real moça, cuja mão ambicionavam.
Chegou noticia a Roma do que se passava nas Indias, e o Padre Santo ordenou que se fizessem preces, para que Deus inspirasse a rainha afim de que casasse com um christão, coisa que redundaria em gloria e augmento da christandade.
Havia n'aquelle tempo em Roma um Preste ou sacerdote, ainda moço, conhecido pelo nome de Preste João, o qual era a admiração de toda a gente, em rasão do seu saber e virtudes, zelo religioso e galhardia.
O Preste João apresentou-se ao Padre Santo, e disse-lhe:
—Santissimo Padre, o que se está passando nas Indias é, quanto a mim, coisa mais seria, do que parece, á primeira vista. Aquillo é um paiz desgraçado, onde ninguem crê em Deus, nem em Santa Maria; onde todos são impios e atheus. Se a rainha se casa com algum pêrro judio, estamos bem aviados; vae tudo para o diabo. Se porém a rainha dér a mão de esposa a um christão, corto a cabeça, se todos os indios, dentro em poucos annos, não forem tão christãos como nós. Posto isto, vou pedir uma graça a Vossa Santidade.
—Se fôr coisa que eu possa conceder-te...
—Que V. S. me deixe ir ás Indias, para ver se faço entrar aquella gente no bom caminho.
—Estás servido, filho; pódes partir quando quizeres.
—Pois, n'esse caso, vou immediatamente tirar passaporte.
—Toma cuidado, filho; vê lá que esses infieis te não preguem alguma peça... particularmente os judeus...
—Isso não me mette medo, que por muito que saibam, sempre hei de saber mais do que elles.
—Pois vae na graça de Deus, e leva comtigo a minha benção paternal.
—Graças, Santissimo Padre!
Foi dito e feito; o Preste João, acompanhado d'um luzidissimo séquito de sacerdotes, em cujo numero se contavam os melhores cantores de Roma, e munido de riquissimos paramentos e decorações d'egreja, inclusive um orgão, que era o melhor que, até então, se tinha visto n'aquelle genero, tomou o caminho das Indias.
Felizmente os inglezes não eram, n'aquella época, tão philantropicos, como o são agora, do contrario não teriam deixado de lhe armar alguma ratoeira, na idêa em que estão, de que, para civilisar os cypaios, são mais eloquentes os seus canhões, carregados de metralha, do que os hyssopes dos missionarios catholicos, ensopados em agua benta.