Contos escolhidos de Antonio de Trueba
Capítulo II
Não se tinha enganado D. João, suppondo que a pobre creança chegaria gelada.
Angelo (era assim que se chamava o novo caixeiro dos snrs. Quijano e Sobrinho) estava a tiritar com frio; tinha as mãos e a cara lividas e os seus olhos indicavam que, na noite antecedente, em vez de se terem fechado para o somno, se tinham aberto para o pranto. O pobre rapazinho parou á porta do escriptorio, com o chapéu na mão, de cabeça baixa, e mal pôde articular um cumprimento.
—Ora aqui o tem, disse Chomin, depois das saudações do estylo. Desde que saímos da aldeia, ainda não cessou de chorar com saudades das suas vaccas e das suas cabras.
—Pobre pequeno! exclamou D. João, afagando Angelo.
—Deixe lá, atalhou o almocreve, que o pão trigo de Madrid faz esquecer de prompto a brôa de Biscaya. Bem diz o provérbio que «de Madrid só para o céo».
D. João acercou-se de Angelo, e disse-lhe, correndo-lhe a mão pela cabeça:
—Vamos, homem, então, que tal achas Madrid? Parece-te melhor que a tua aldeia?
—Não, senhor, respondeu o pequeno com os olhos arrasados de lagrimas.
—Dizes bem, dizes! exclamou D. João, pondo-se a rir e fazendo uma nova caricia ao rapazinho. Devem ser assim os homens; a melhor terra é sempre aquella que nos viu nascer.
—Sim, sim, ria-se tio, disse D. Lucas, fazendo um gesto de enfado; ria-se da sandice d'esse bruto. Não ha duvida, o rapaz promette! Mas deixa estar que caíste em mãos de quem te sabe ensinar!
—Não se afflija, snr. D. Lucas; o rapazelho põe-se fino com um bom par de açoites todos os dias.
—Isso fica por minha conta, respondeu D. Lucas.
—Valha-me Deus; não sejam assim, replicou o banqueiro; que admira que o pequeno tenha saudades de seus paes, se nunca se separou d'elles? E accrescentou, dirigindo-se a Angelo: deves trazer vontade de comer?
—Não, senhor, respondeu o menino, lavado em lagrimas.
—Não chores, disse D. João; chega-te para o lume e aquece-te, emquanto não chamam para o jantar, e logo tomarás conta do teu serviço e verás como antes de um anno te tornas um verdadeiro negociante.
O pequeno approximou-se da chaminé com o chapéu na mão; mas como o cegavam as lagrimas, tropeçou n'uma cadeira e lançou por terra uns papeis que estavam sobre ella.
—Desastrado! não vês por onde andas? exclamou D. Lucas, agarrando-lhe n'um braço e sacudindo-o com violencia.
De repente effectuou-se no animo do menino uma reacção inesperada. Elle que, um momento antes, mal se atrevia a levantar os olhos, ou a pronunciar uma palavra, ergueu a fronte com altivez, e virando-se para D. Lucas, disse-lhe:
—Expulse-se-me de sua casa, mas não me maltrate. Aqui maltratam-me, emquanto na minha aldeia me choram. Como quer então o senhor que eu goste mais d'esta terra do que da minha?! E accrescentou, dirigindo-se ao almocreve:
—Já não quero aqui ficar; volto comsigo para a Biscaya.
Estas palavras, bem longe de commoverem D. Lucas e o almocreve, fizeram rir este e encolerisar aquelle, que murmurou, levantando o punho fechado sobre a cabeça da creança:
—Se fosses meu filho abria-te a cabeça com um murro!
D. João, porém, saíu em defeza do pobre rapaz, arredando d'elle com violencia seu sobrinho, e exclamando:
—Lucas, já te disse que não consinto que lhe ponhas a mão. Se o achas rude e acanhado, se está commovido e saudoso, recorda-te de como eras tambem, e do modo como te apresentaste quanto vieste para Madrid. E Vm. ce, snr. carroceiro, fique sabendo que não se tratam os racionaes como as mulas.
—Não faça caso, snr. D. João; isto em mim não passa de um gracejo, e senão elle que diga a maneira como eu o tratei pelo caminho.
—Carregando-me de lenços de contrabando! O que me valeu foi não me revistarem á entrada das portas; do contrario estaria a estas horas na cadeia!
—Não está mau modo de cuidar da innocente creança, que foi confiada á sua guarda! exclamou D. João, olhando com indignação para o almocreve. Retire-se já da minha presença, que me estão dando tentações de dar uma parte de si á policia.
—Ora, snr. D. João!... Então o senhor faz caso do que dizem creanças?
—Já lhe disse que se retire da minha presença.
—Está bem, snr. D. João; mas...
—Não ha aqui mas, nem meio mas. Tenho dito, ponha-se no andar da rua.
O carroceiro não se atreveu a replicar e retirou-se murmurando não sei que insolencia.
D. João arrastou uma cadeira para junto do fogão, e sentou-se ao lado de Angelo que tinha cessado de chorar. O pobre pequeno estava já um tanto mais satisfeito por ver que nem todos n'aquella casa o tratavam com aspereza, e que se havia ali quem o maltratasse, tambem tinha quem o defendesse e lhe proporcionasse consolações e affagos, que lhe faziam lembrar os que deixára no lar domestico.
D. Lucas despeitado por vêr que o tio tomava as dôres pelo recem-chegado, a ponto de o reprehender a elle pela sua falta de humanidade, tinha-se retirado para o escriptorio, e por conseguinte ficaram sós, Angelo e D. João.
Era este natural da aldeia do pequeno, e posto tivesse ido para a côrte de tenra edade, e absorvessem de ordinario todos os seus pensamentos e acções os assumptos commerciaes, nem por isso havia renegado o paiz natal, nem esquecido os seus parentes.
—Vamos, Angelo, disse elle ao rapazinho com modo carinhoso, dando-lhe uma palmada no hombro; conversemos um bocado ácerca da nossa aldeia; venham de lá algumas noticias frescas d'aquella boa gente. Então de quem te despediste tu antes de partir?
—Despedi-me de todos os meus parentes e vizinhos.
—Muito bem! N'esse caso havias de vêr meu irmão, não é verdade?
—Sim, senhor, recommendou-me que lhe désse muitas lembranças, e bem assim á senhora D. Joanna, e a D. Lucas... mas a este é que eu as não dou.
—Não sei porque não, filho.
—Porque me trata muito mal.
—Não faças caso, homem. Com que então deram-te lembranças para mim?
—Sim, senhor, e especialmente o snr. abbade.
—Deve estar muito velho, o bom do padre! coitado!
—Não, senhor; se o visse andar por aquelles montes ficava admirado. Ninguem dirá que tem mais de quarenta annos. Como não ha, lá na aldeia, quem não reze a Deus todos os dias para que lhe dê saude, não tem nem uma dôr de cabeça.
O colloquio de D. João e Angelo, interessantissimo para ambos elles, foi interrompido logo em começo pela entrada do asturiano, que tinha chamado ao menino rocim-chegado.
—Senhor, disse o creado, manda dizer a senhora que está a mesa na sôpa.
O banqueiro riu-se d'esta troca de palavras e encaminhou-se para o primeiro andar.