Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Antonio de Trueba · Capítulo 32 de 32

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Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Capítulo IV

Ficou a rainha quasi resolvida a casar com um christão; porém, receiosa de que houvessem murmurações e commentarios que lhe fossem desagradaveis, lembrando-se de que alguem poderia dizer que ella obrára levianamente, determinou-se a tentar uma outra prova. Consistia essa prova em fazer com que os apostolos das tres religiões celebrassem, na sua presença, uma das cerimonias mais importantes dos ritos que professavam.

Christãos, musulmanos e judeus, todos, com muito gosto, acceitaram a proposta de S. M., que logo fixou o dia para as cerimonias, que deviam verificar-se no mesmo salão, onde se tinha discutido qual era das tres religiões aquella a que mais devia a mulher.

Os primeiros que saíram a terreiro foram os mahometanos, os quaes annunciaram que iam executar a Zala.

Tinha a rainha grande curiosidade de presenciar esta cerimonia, que julgava ser magnifica, e que muito a divertiria; quando porém viu que a tal Zala consistia tão sómente em cruzarem aquelles ratões as mãos no peito, e fazerem reverencias e mais reverencias, ficou mais fria que o proprio gêlo.

—Muito engraçados são os taes moirinhos! disse S. M., com riso disfructador; e ordenou, em seguida, que saíssem a campo os judeus, a vêr que tal se portavam.

O grande rabino, com o seu barrete enterrado até ás orelhas, como usam os seus correligionarios, sacou d'um livro, e immediatamente appareceram todos os judeus com os seus ripanços nas mãos. Ora, os taes livros seriam muito edificantes, mas tinham tanta côdea, que só com uma tenaz se lhes poderia pegar. O rabino principiou a entoar um psalmo, e todos os judeus o acompanharam; cantavam porém tão desentoadamente, e davam tão insoffriveis bérros, que a pobre da rainha não teve outro remedio senão tapar os ouvidos, e mandar a toda a pressa que cessasse tamanha algaravia.

Cessou com effeito, e os christãos dispuzeram-se, por ultimo, a celebrar o santo sacrificio da missa, para o que o Preste João tinha tudo perfeitamente ordenado.

Collocaram no salão um magnifico altar, accenderam uma grande quantidade de tochas, que faziam bellissima vista; puzeram o orgão n'um sitio, que tinha excellentes condições acusticas, tossiram e aguçaram o pigarro os cantores que haviam de officiar a missa, e que, como em principio dissemos, eram os melhores de Roma; e, em seguida, subiu o Preste João ao altar, magnificamente revestido, bem como os dois acólitos, que o acompanhavam. A missa foi solemnissima, e tanto os celebrantes, como os cantores e o organista fizeram prodigios, que deixaram de bôcca aberta a rainha e a sua côrte.

Os mahometanos e os judeus olharam uns para os outros, e disseram por entre os dentes:

—Derrotaram-nos em tudo e por tudo estes perros christãos!

E na verdade não se enganaram, porque a rainha chamou, pouco depois, o Preste João, e disse-lhe:

—Decididamente caso com um christão.

—Louvado seja o Senhor! exclamou o Preste João, cheio de santa alegia. Agora só falta que V. M. escolha o christão, que deve ter a ventura de occupar o thalamo de tão formosa princeza.

—Já está escolhido, disse a rainha das Indias, fazendo-se córada como uma romã.

—E quem é esse feliz mortal?

—Tu.

—Eu!... V. M. não está em seu juiso!

—Então! faz-te agora de manto de seda!...

—Não, senhora; porém não sabe V. M. que eu sou padre, e que os padres catholicos não podem casar?...

—Que me dizes, homem?

—Digo-lhe isto, real senhora!

—Pois, amigo; partiste-me o coração!

—Então, porque?

—Porque estou apaixonada por ti, e se não casar comtigo, não caso com ninguem.

—Mas, senhora, entre os meus correligionarios ha moços mais bem parecidos do que eu.

—Asseguro-te que nenhum me póde agradar tanto como tu.

—Sinto isso bem; mas eu é que não posso casar.

—Visto isso, não terei outro remedio, senão dar a mão d'esposa a algum d'esses moiros... que... diga-se a verdade, entre elles ha rapazes bem tirados das canellas, e o que me não agrada n'elles é apenas a religião, que professam...

Quando o Preste João ouviu estas palavras, tremeu dos pés á cabeça, pensando, e com razão, que, pelo facto de a rainha casar com um mahometano, todas as Indias, povoadas de milhões e milhões de habitantes, abraçariam a seita detestavel de Mafoma, ao passo que, se casasse com um christão, toda aquella gente seguiria a religião de Christo.

—Senhora, disse elle, por fim, á rainha, póde ser que consigamos harmonisar tudo. O Papa, que é o Vigario de Christo na terra, é o unico que póde auctorisar-me a casar com V. M. Vou já escrever-lhe, pelo correio d'hoje, pedindo-lhe a competente licença.

—Oh! que feliz idêa! exclamou a rainha; e riam-se-lhe os olhos, de contente. Bem digo eu que és um rapaz de muitos recursos!

O Preste João poz logo mãos á obra; escreveu ao Papa, contando-lhe, muito pelo miudo, o que se passava, e, na volta do correio, recebeu de Sua Santidade a dispensa para casar com a rainha das Indias.

Celebraram-se, pouco tempo depois, as vôdas, com grandes festas e muito regosijo (bem entendido, depois da rainha se ter feito christã) e, passados annos, recebiam o baptismo todos esses milhões de milhões de indios, que os inglezes, nos nossos dias, se fartaram de metralhar, sem dó, nem piedade.

Eis-ahi a historia do Preste João das Indias. Outros a contarão com mais graça do que eu, porém com melhor intenção por certo que ninguem a conta.

FIM.

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