Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Antonio de Trueba · Capítulo 22 de 32

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Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Capítulo II

N'esse mesmo dia em que, por sentença do tribunal de Valmaseda, foi enforcado um grande criminoso, no caminho de Colisa, salvou Cosme da morte muitos viandantes, que, sem o seu auxilio, seriam devorados pelas féras, ou se teriam despenhado nos precipicios d'aquelles temerosos desvios, então mais temerosos do que nunca, por causa da espessura do nevoeiro.

Recolheu-se á sua morada, agradecendo a Deus o haver-lhe dado forças para soccorrer os seus irmãos, e, apenas chegou, feriu-lhe o ouvido o toque da oração, que soou, lento e solemne, na longinqua torre da egreja de Valmaseda.—O anjo porém não lhe appareceu n'aquella noite!

O santo ermitão encheu-se de terror, com a lembrança de que teria offendido a Deus, visto que o anjo se furtava aos seus olhos; mas por mais que pesou as palavras, que proferira, as suas obras e pensamentos de todo o dia, não lhe foi possivel atinar com o agastamento do Senhor.

Aquella noite passsou-a toda em continua oração; chorou, macerou o corpo, pediu a Deus perdão e misericordia para as suas faltas, e logo que raiou a aurora, como a montanha se conservasse coberta de d'espessa névoa, saíu em auxilio dos caminhantes.

De repente achou-se na encrusilhada, e ao vêr diante de si a forca, da qual pendia ainda o cadaver do criminoso, justiçado no dia antecedente, recuou cheio de repugnancia e movido d'espanto; e levantando a vista acima do cadaver, que estava preso da corda, viu o anjo poisado no madeiro da forca.

O anjo, longe de lhe sorrir então amorosamente, como de costume, olhava-o com semblante severo e carregado.

Cosme parou; e com quanto ignorasse qual fosse a sua culpa, lançou-se de joelhos, sobresaltado e cheio de terror, ergueu as mãos para o anjo, e implorou perdão e misericordia.

—Cosme! disse-lhe então o anjo, incorreste no desagrado do Senhor e precisas fazer grande penitencia para recuperar a sua protecção. Hontem, em vez de confortar e consolar o desgraçado, que está pendente d'esta forca, escarneceste-o, e olhaste com indifferença para a sua tribulação. Desprende o seu cadaver da forca, sepulta-o em sagrado, e lançando em seguida esse madeiro aos hombros, leva-o pelo mundo, e seja elle o unico travesseiro, em que descances a cabeça.

—E poderei eu ainda um dia obter o perdão da minha culpa? exclamou Cosme lavado em pranto de arrependimento.

—Sim, lhe tornou o anjo. Quando d'esse madeiro brotar um ramo verde, é que o Senhor te perdoou.

Dito isto, subiu o anjo ao ceu, cercado de musicas mysteriosas e de brilhantes resplendores.

Cosme acercou-se animosamente do cadaver suspenso da forca, desprendeu-o e deu-lhe sepultura; pegando em seguida no madeiro, cujos extremos se apoiavam nos primeiros galhos de duas arvores fronteiras, foi com elle aos hombros pelo mundo, segundo as indicações, que o anjo lhe havia dado.