Contos escolhidos de Antonio de Trueba
A Portaria do Ceu
FIM DA NECESSIDADE.
A PORTARIA DO CEU
I
O tio Paciencia era um pobre sapateiro remendão, o qual ganhava honradamente o pão de cada dia, mette que mette a sovella e puxa que puxa o fio, em um portal de Madrid, e devia o apellido por que era conhecido á resignação com que sempre tinha soffrido os muitos trabalhos, que o Senhor lhe havia dado.
Ao tempo da constituição de 1820, era já rapaz dos seus quinze ou dezeseis annos, mas tinha a innocencia de uma creança de oito, e como ouvisse a cada passo dizer que todos os homens eram eguaes, perguntou ao mestre se aquillo seria verdade.
—Não acredites n'essas cousas, lhe respondeu o mestre. Só no ceu é que os homens são eguaes.
Sentiu o rapaz que não acontecesse outro tanto na terra, mas consolou-se com a idêa de que o eram no ceu, e quando algum freguez da loja convidava o mestre para beber uma pinga na taberna proxima, dizia com os seus botões o pobre aprendiz:
—Pena é que não sejamos todos eguaes na terra, como succede no ceu, porque se assim fosse, por certo que o freguez me não differençaria do mestre, e, como elle, iria eu tambem agora á taberna beber a minha pinga; mas, acabou-se... paciencia... no ceu seremos todos eguaes.
Passados dois annos, coube-lhe a sorte do recrutamento; então mais do que nunca teve elle motivo para lamentar que os homens não fossem eguaes na terra como no ceu, por isso que na sua companhia havia soldados distinctos, e cabos, sargentos e officiaes, que provavam ser verdade aquillo que o mestre lhe tinha dito ácerca da egualdade humana; porém consolava-se ainda o pobre rapaz, pensando que no ceu se acabariam as distincções, e todos seriam eguaes.
Deixou de servir o rei, e aproveitando-se do pouco que sabia do officio de sapateiro, estabeleceu-se n'um portal, e alí passou o resto dos seus dias, conformando-se com as privações que soffria, na esperança de ir para o ceu e gosar então d'essa igualdade, que não encontrára na terra.
No andar nobre da casa, cujo portal occupava, vivia um marquez, que por certo muito o houvera magoado com o espectaculo da sua opulencia, se não fôra um excellente homem, e a não ser tamanha a sua paciencia, e sobre tudo tão arreigada no seu coração a esperança de lhe poder dizer um dia no ceu: «meu amiguinho, aqui todos nós somos eguaes.»
Não era porém só o marquez que lhe fazia sentir, que não fossem todos os homens eguaes na terra; até os seus amigos mais intimos queriam differençar-se d'elle. Estes amigos eram o tio Mamerto e o tio Macario, homens de tão boa conducta, que não podia o tio Paciencia viver sem a sua honrada companhia.
O tio Mamerto tinha uma paixão desenfreada pelos toiros, e passava por ser muito entendido em materia tauromachica.
Quando, no reinado de Fernando VII, se creou uma escóla para ensinar esta sciencia, esteve o bom do homem quasi a ser nomeado lente cathedratico da faculdade, e este precedente era o bastante para que elle se considerasse superior ao tio Paciencia, o qual, reconhecendo esta superioridade, se consolava pensando que, se o seu querido amigo e elle não eram eguaes na terra, o seriam por certo no ceu.
O tio Macario era muito feio, mas casou com uma mulher lindissima, porém levadinha da breca.
Ao cabo de vinte annos d'um viver amargurado, morreu-lhe o demonio da mulher, e o pobre homem ficou tão descançado que lhe parecia ter entrado no ceu; passados tempos, enamorou-se d'outra rapariga, que não ficava a dever nada á primeira, e casou segunda vez, apesar de todos os esforços que o seu amigo, o tio Paciencia, fez para lhe tirar isso da cabeça. Ora, como o tio Paciencia nunca tinha conseguido que as mulheres se agradassem d'elle, ao passo que do tio Macario se agradavam aos pares, julgava este ter certa superioridade sobre o primeiro, que, da sua parte, não deixava tambem de a reconhecer, e que devéras se teria affligido com isso, se não fôra a lembrança de que o seu bom amigo e elle seriam eguaes no ceu, já que na terra o não podiam ser.
O tio Mamerto era capaz de ir até ao fim do mundo para assistir a uma corrida de toiros; tanto assim, que até costumava dizer: «Parece-me que trocava de bom grado a gloria eterna por uma boa tourada», ao que o tio Paciencia replicava sempre, agastado: «Homem, não digas heresias, que não vá Deus castigar-te.»
Um dia em que os passaros caíam das arvores, assados pelo sol, havia em Getafe uma corrida de garraios; o tio Mamerto, foi vêl-os, á pata, segundo o seu costume, e, de volta a casa, acamou com uma febre, que o levou d'esta para melhor vida.
No mesmo dia estava muito mal, na cama, o tio Macario, por causa d'uma tremenda coça que a mulher lhe tinha dado, porquanto se a primeira mulher lh'as dava grandes, a segunda não lhe ficava atraz. A mulher, que nunca perdia a occasião de lhe communicar uma boa noticia, deu-se pressa em lhe participar, que o tio Mamerto tinha esticado a canella, e ouvindo isto, o pobre Macario, que já não estava para muitos sustos, esticou tambem a sua.
Como eu já disse, não podia o tio Paciencia viver sem os seus dois amigos, porque lhes queria muito. Estranhando que, em todo o dia, elles lhe não tivessem apparecido para palestrar um pouco e fumar um cigarro na sua companhia, quando á noitinha deixou o trabalho, foi procural-os, e soube então que ambos tinham morrido. Essa noticia causou-lhe um abalo enorme, e, n'aquella mesma noite, tomou atraz d'elles o caminho do outro mundo, com a grande consolação de que ia finalmente para onde todos os homens eram eguaes.
Toda a visinhança sentiu muito a morte do tio Paciencia, pois todos depositavam tamanha confiança na sua honradez e no seu caracter docil e serviçal, que, quando careciam de trocar algumas notas do banco d'Hespanha, encarregavam d'isso o tio Paciencia, que era capaz de morrer arrebentado, para dar conta da incumbencia.
Na manhã seguinte á morte dos tres amigos, o bruto do creado particular do marquez, quando entrou no quarto, teve a imprudencia de dizer a seu amo que o sapateiro do portal morrêra, ao saber que dois amigos seus tinham faltado quasi de repente. E como o marquez era um fidalgo muito apprehensivo, e corriam uns certos rumores de cholera em Madrid, assustou-se tanto com a saída de sendeiro do bruto do creado, que, poucas horas depois, era cadaver, com grande desgosto da pobreza do bairro. E por todas as partes se se ouvia dizer: «Estes homens, assim, nunca deviam morrer.»