Contos escolhidos de Antonio de Trueba
Capítulo XI
Alguns mezes haviam já decorrido depois do dia em que Angelo escapou, por milagre, de morrer ás mãos de D. Lucas.
Era por uma aprazivel manhã de primavera. A sala de jantar de D. João Quijano tinha uma janella, que olhava para o norte. Em quanto o banqueiro e sua mulher tomavam chocolate na sala, Angelo fôra para a varanda, e ali se conservava, com a vista immovel e fixa na direcção do seu paiz.
O pobre pequeno estava mais alto do que quando chegára das montanhas de Biscaya, porém tinha emagrecido consideravelmente. Cobria-lhe o rosto uma pallidez mortal, e nos seus bellos olhos, tão meigos e sympathicos, retratava-se-lhe a profundissima tristeza que lhe ia n'alma.
—O que fazes tu ahi, Angelo? perguntou carinhosamente D. Joanna.
O menino não respondeu.
—Oh! meu Deus! O que terá esta creança?! accrescentou a mulher do banqueiro, com verdadeira afflicção.
—Não sei o que elle tem, Joanna, mas ninguem me tira da cabeça que está doente desde que Lucas lhe bateu, apesar do medico dizer, passados quinze dias, que o considerava completamente restabelecido.
—Queira Deus que Lucas lhe não tornasse a pôr a mão.
—Não, filha; por isso fico eu. Mas vejo-o tão abatido e melancholico, que receio muito pela sua existencia.
—Ai! Nossa Senhora permitta que te enganes. Angelo se chama e foi elle na verdade um anjo que trouxe a paz e a harmonia á nossa casa; porque, desde que para aqui veiu esse menino, nós que sempre andavamos de rixa, estamos inteiramente mudados, e tenho fé em que elle ha de acabar por abrandar e adoçar por uma vez este meu maldito genio.
—Assim é, Joanninha, exclamou o banqueiro commovido; sempre esperei que quando tivesses um filho, se operaria em ti uma grande mudança. Não quiz Deus conceder-nos essa ventura, mas enviou-te em compensação essa criança, a quem queres hoje quasi tanto como se fôras sua mãe.
—Quem sabe se o que tem o pequeno é um desejo ardente de voltar para a sua aldeia... suspirava tanto por isso, a principio...
—Tambem me não parece que seja essa a causa do seu soffrimento. Desde que os paes lhe disseram n'uma carta, que era elle o unico amparo com que contavam para a velhice, e que, se voltasse para a terra, nada poderia fazer em beneficio d'elles, não cessa de dizer que está satisfeito em Madrid, e até quando alguma vez se encontra de bom humor, costuma repetir o proverbio «de Madrid só para o céo».
—Pois é preciso mandar chamar o medico, porque se não cuidarmos d'elle váe cada dia a peior. Angelo, accrescentou D. Joanna, chamando novamente pelo menino.
Este deixou como assustado a immobilidade em que estava, olhou novamente com ineffavel languidez para o norte, e entrou na sala.
—Que tens tu, meu filho? perguntou-lhe com ternura D. Joanna, correndo-lhe a mão pela cara.
—Não tenho nada, respondeu Angelo.
—O que fazias na varanda?
—Nada; estava a vêr o sol.
—Vamos, senta-te aqui, e toma chocolate comnosco.
—Não me appetece.
—Mas o que é isso? O que te falta? Não te quero eu como se fôra tua mãe?
O menino não respondeu; arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, e os de D. Joanna tambem.
—Olha, accrescentou esta, não vás outra vez para a varanda que te faz mal o sol; vae antes um bocado até ao escriptorio, não para trabalhar, mas para vêr se te distrahes com os teus companheiros.
Angelo saíu da sala, e desceu a escada.
Ás tres horas, subiram para jantar D. Lucas, e os dois caixeiros Manoel e Marianno.
—Onde ficou Angelo? perguntou D. Joanna.
—Não veiu cá para cima.
—Virgem santissima! Onde estará então a pobre creança?!
—Talvez se fosse deitar.
—D. Joanna correu pressurosa ao quarto de Angelo, e foi encontral-o na cama.
—O que quer isso dizer, filho? O que tens?.. Estás doente?
—Sim, minha senhora, respondeu Angelo com voz sumida.
—Então o que te dóe?
—Não me dóe nada, mas sinto-me doente.