Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Antonio de Trueba · Capítulo 4 de 32

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Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Capítulo II

Quando as cruzadas, minando pela base o feudalismo, crearam o espirito cavalleiroso, que, d'envolta com o sentimento religioso, foi adoçando pouco a pouco a fereza da edade media, e, ao mesmo tempo, abrindo a porta á illustração do seculo, surgiu o romance, como guarda avançada das letras; cruzada não menos santa, preparada no remanso do gabinete pelos primeiros chronistas, annunciada e apregoada pelos antigos trovadores.

O romance mostrou-se desde logo o retrato fiel da sociedade, em todas as phases da sua vida moral e physica.

Pois que n'essas eras se manifestavam e expandiam o sentimento religioso em guerras contra os infieis, e o do prazer em justas, torneios e caçadas, ou em saraus, onde os trovadores cantavam, ao som do alaúde, amores e guerras; pois que a justiça humana chamava amiudadas vezes os delinquentes ao campo dos combates judiciarios; pois que as moradas da nobreza eram castellos, cercados de fossos, e eriçados de ameias; as espadas, as lanças e as armaduras os melhores ornamentos das suas salas; a montearia, a diversão predilecta das illustres castellãs; o romance, reproduzindo todas estas feições sociaes, tomou a fórma de novellas de cavallaria. Amores e guerras constituiam, portanto, o assumpto obrigado d'essas composições. A honra, o valor, a coragem, a dedicação desinteressada, a fé e a esperança estreitamente unidas, todos estes dotes de um perfeito cavalleiro, todas estas idêas, que então occupavam os espiritos quasi exclusivamente, até dos que não possuiam tão nobres qualidades, sobresaíam e brilhavam com tanto fulgor nas paginas d'essas novellas, como as estrellas que scintillam no manto negro da noute.