Contos escolhidos de Antonio de Trueba
Capítulo VI
Angelo, com a solidão do seu aposento, deu-se por compensado da parte da ceia de que a maldade de D. Lucas o privára. Alí podia sequer chorar desafogadamente, podia rogar a Deus que o restituisse ás suas montanhas, invocar o nome de seus paes, e execrar até os seus algozes, sem que uma gargalhada de despreso, um dito humilhante ou uma pancada fossem perturbal-o nas suas cogitações.
Ai! muito chorou a pobre creança, n'aquella noite!
—Como é triste viver em Madrid! pensava elle. E dizerem na minha terra que—de Madrid só para o céo!—As pessoas que dizem isso de certo nunca estiveram aqui! As ruas e as praças estão convertidas em lodaçaes immundos; a gente anda toda aos encontrões; as carruagens e os cavallos atropellam e cobrem de lama os transeuntes; as goteiras alagam os individuos que seguem pelos passeios; e o vento que sopra das portas faz rebentar o sangue nas mãos e na cara!
É bem differente d'isto o meu querido paiz, os campos amenos da Biscaya!
Lá alveja a neve lisa e pura por sobre a relva e as penhas, nas arvores e nos telhados, e quando o sol ou a chuva a derretem não é em lodo que se converte, mas sim em cristallinos arroios; lá não se apinhôa, confunde e atropella a gente, o gado e os carros, que a todos Deus concedeu campo e largueza por onde se espalhem á vontade; e se tambem ali sopra o ar frio do inverno, é ar que dá saude em vez de tiral-a.
Ai! quão differente teria corrido para mim o dia, se o passasse na minha aldeia! Se lá estivesse, andaria no campo a patinhar no gelo; teria feito grandes bólas de neve no alto da montanha, para as vêr despenhar-se no valle; em seguida voltaria a casa, e depois de ter almoçado junto do lume, subiria á trapeira para apanhar os passaros, que ali vão abrigar-se do mau tempo e procurar o sustento que não encontram nos campos cobertos de neve; e á noite, em quanto minha mãe estivesse preparando a ceia, contar-me-hia meu avô as suas façanhas da guerra da independencia. No fim da ceia iria para a cama acompanhado por minha mãe, que depois de me cobrir e agasalhar cuidadosamente, se despediria de mim, como de costume, com um dôce beijo. Ai! que differença! assim não estaria, como agora estou, acordado e a chorar, mas dormiria tranquillo e socegado até que, com outro beijo, fosse despertar-me pela manhã!
Entregue a tão saudosos pensamentos passou Angelo em claro quasi toda a noite. Já se ouviam na rua os pregões dos vendilhões e fornecedores da cidade, o barulho dos carros e os passos dos transeuntes, quando, vencido pela vigilia, e tomado do cansaço do corpo e do espirito, caíu n'um benefico somno.
Adormeceu profundamente; rosaram-se-lhe as faces, e a posição em que ficára e a sua respiração serena e plácida, revelavam uma dulcissima tranquillidade d'espirito; entreabria-lhe os labios aprasivel sorriso, e, de vez em quando, soltava d'elles os nomes de pae, mãe, e outros como estes saudosos e gratos ao coração da desventurada creança.
Agora sonhava que se achava na aldeia, cercado da sua familia ou brincando com os seus companheiros de infancia; depois, que trepava ao cimo das arvores em busca d'um ninho de rôla, ou de pombo torcaz; derribava ás pedradas as maçãs e as nozes; corria ao bosque a fazer assobios da casca do castanheiro, ou ao ribeiro para construir moinhos de junco; logo subia ao alto da montanha, coroada por uma ermida, em roda da qual andava o tambor chamando para a romaria. Por ultimo sonhava que era noute de S. João, que todo o valle estava illuminado pelas fogueiras accesas nos oiteiros, e o inundavam d'alegria o repique dos sinos, os morteiros, as cantigas e os gritos de jubilo, que acompanham sempre aquella festa classica e essencialmente infantil!
Embalado n'estes sonhos deliciosos, que lhe representavam todos os encantos do seu paiz natal, sonhos que melhor do que ninguem póde adivinhar o auctor d'este livro, porque tambem chorou e sonhou como Angelo, não ouviu o pobre menino as sete horas que bateram compassadas no relogio do escriptorio.