Contos escolhidos de Antonio de Trueba
Capítulo VIII
Do seio d'aquella nuvem de tristeza que o cercava, luziu para o pobre Angelo um raio de esperança. Pelas conversas que ouviu, de D. Lucas e dos seus companheiros, veiu no conhecimento de que os caixeiros do banqueiro tinham licença de saír nos dias santificados e para logo concebeu a esperança de gosar tambem d'esse prazer, libertando-se da tristeza e da oppressão de toda a semana, n'aquelle dia de folga e de liberdade.
De quantas necessidades experimentava era por certo a maior a de respirar por algum tempo livremente, vendo o céo e o sol, as arvores e os campos.
Manoel era o unico que dirigia a palavra a Angelo sem aquella aspereza e zombaria com que sempre lhe fallavam D. Lucas e Marianno. Por isso, depois de dois dias de hesitação, abalançou-se o menino a perguntar-lhe se tambem lhe dariam, a elle, licença para saír ao domingo para o campo..
—De certo, isso nem se pergunta, respondeu Manoel.
Esta resposta, que a outro qualquer pareceria em extremo laconica, fez verter lagrimas de agradecimento e de alegria a Angelo; de agradecimento porque encerrava em si um thesouro d'indulgencia, comparada com as que todos os dias recebia n'aquella casa, e de alegria por lhe vir confirmar as fagueiras esperanças que nutrira.
As palavras de D. Lucas já não pareciam á innocente creança sêccas e desabridas, nem tão pouco se lhe afiguravam crueis os motejos de Marianno e de Toribio; já não julgava insupportavel o trabalho a que o submettiam desde pela manhã até altas horas da noite, e até o quarto em que dormia, humido e frio, triste e isolado, lhe parecia confortavel e alegre desde que n'elle sonhava com os prazeres do domingo, embalado nas risonhas esperanças de disfructar, ao menos um dia na semana, gosos similhantes áquelles, que diariamente o deleitavam nos campos do seu paiz natal.
—Se os bosques e os prados da minha terra são tão formosos, pensava elle, como não hão de ser encantadores os d'aqui, se até por elles passeiam os reis e a sua côrte? E quando as caçadas, lá nos meus sitios, são tão divertidas, o que não acontecerá em Madrid, onde tudo deve participar da grandeza da capital?
E os aprestes de caça de D. Lucas! Como são ricos! a espingarda e o polvarinho marchetados de prata, e as polainas e os correões bordados a sêda! Muito me hei de divertir! Parece-me que já estou a atravessar espessos bosques de carvalhos e castanheiros seculares, a passar regatos cristallinos, e torrentes espumosas, e a vêr, a meu salvo, do alto d'uma fraga, do cimo d'uma collina ou da copa d'uma arvore, o javalí e o veado perseguidos pelos cães. Por fim, ao caír da tarde, quando tivermos reunido uma boa porção de formosas rezes, iremos descançar debaixo das ramadas ou das nogueiras que fazem sombra aos casaes, onde não deixarão de nos offerecer excellente leite e fructa saborosa. E quando entrarmos na cidade! Com que orgulho, com que alegria não atravessaremos nós essas ruas, com grandes enfiadas de perdizes ás costas, e trazendo á arreata uns poucos de burros carregados de javalís e lebres!
Chegou finalmente o domingo tão desejado. O céo appareceu limpido e puro; despontou o sol mais formoso que nunca, e um vento forte, que soprára toda a noite, tinha seccado completamente o solo. Tudo contribuia para aformosear e revestir de galas o dia destinado a compensar Angelo dos desgostos e maus tratos que soffrera até ali.
Na véspera á noite tinha dito D. Lucas aos caixeiros, em presença dos donos da casa, que eram fieis observadores dos preceitos religiosos:
—Amanhã levantar cedo para ouvir missa antes de partir para o campo.
Os caixeiros, e bem assim D. Lucas, levantaram-se effectivamente muito cedo, mas não foi para ouvir missa.
Bem se importava D. Lucas com a missa, quando se tratava de caça que era o seu divertimento favorito!
O sobrinho de Quijano marcou tarefa a cada um dos rapazes. Angelo foi encarregado de fazer varetas de junco, Manoel de encher de polvora os polvarinhos e de chumbo as bolsas dos correões, e Marianno de fazer provisão de fulminantes.
Soou finalmente a hora da partida; D. Lucas, Manoel e Marianno calçaram botins muito grossos, afivelaram vistosas polainas bordadas a seda de differentes côres, lançaram ás costas grandes saccos de caça e armaram-se não só de espingardas de dois canos, como tambem de facas de matto; por ultimo tiveram o cuidado de metter para os bolsos um bom punhado de balas.
Angelo olhava para aquelles preparativos com indizivel satisfação, e dizia com os seus botões:
—Estas polainas, estes enormes saccos de caça, estas facas de matto e estas balas indicam que vamos correr montes espessos e escabrosos, que a caça deve ser abundante e que de certo nos temos de haver com javalís ferozes, e talvez até com ursos e lobos.
O que porém dava que entender a Angelo era vêr que D. Lucas se dispunha a levar comsigo os dois cãesitos de casa do banqueiro, que não podiam ter forças para arrostar com os perigos e fadigas d'uma caçada como a que elle phantasiava na sua infantil imaginação.
Saíram a final, e tomaram pela rua abaixo; «muito barata ha de estar ámanhã a caça!» diziam algumas pessoas ao verem-n'os passar.
E Angelo, que não comprehendia a ironia que se continha n'estas palavras, cada vez se confirmava mais na ideia que tinha formado da caçada.