Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Antonio de Trueba · Capítulo 31 de 32

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Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Capítulo III

Os judeus e os moiros souberam que o Preste João se dirigia para as Indias, e estavam atrapalhados da sua vida, porque havia muito tempo que a fama trombeteira lhes tinha levado noticia do saber, da virtude, do zelo religioso, e da extremada galhardia do Preste João.

Chegou este, a final, com o seu séquito, e a rainha ficou enamorada da graciosa dignidade, com que elle a saudou, a ponto de não poder ter mão em si, que não dissesse, baixinho, ao presidente do conselho:

—Olha que este christão não é nenhuma asneira!...

Vendo o Preste João a rainha mui bem disposta em seu favor, aproximou-se de S. M., e disse-lhe:

—Senhora, vejo que V. M. vacilla sobre se ha de casar-se com um christão, com um moiro, ou com um judeu. Creia V. M. que a religião de Christo é a unica verdadeira, grande e salvadora, e que as outras são umas religiõesitas de tres ao vintem, que nem com cem varas chegariam ao ceu, d'onde procede, e onde apoia sua augusta fronte o christianismo. E se V. M. se quer certificar de que isto que lhe digo é a pura verdade, não tem mais que ordenar, que nos reunamos, na sua presença, judeus, mahometanos, e christãos, a fim de discutirmos qual das tres religiões é a melhor, e, sobre tudo, qual é aquella, que mais favorece as mulheres, pois essa é a grande questão, nas circumstancias actuaes.

—Com muito gosto; não tenho a menor duvida em acceder aos teus desejos, respondeu a rainha. Amanhã apresentar-vos-heis todos diante de mim, e veremos, então, quem é que leva a melhor.

Com effeito, no dia seguinte, estava a rainha sentada no seu throno, e as tres religiões, representadas pelo Preste João, e pelos judeus e mahometanos mais sabios, dispostos a discutir na sua presença.

—Está aberta a sessão, disse a rainha. E como era o Preste João quem tinha provocado aquelle certame, devia considerar-se como o primeiro, e por esse motivo que pedira a palavra, a rainha accrescentou: «Tem a palavra o Preste João.»

Os judeus e os moiros começaram logo a murmurar, accusando de parcial a augusta presidente; esta porém fel-os entrar na ordem, a poder de muitas razões, e toques de campainha.

—Senhores, disse o Preste João, trata-se de orientar a S. M. acerca d'um assumpto mui grave, qual é a escolha do homem a quem, de preferencia, deve ligar o seu futuro. Ora, o que mais interessa a S. M., é saber o que mais lhe convém, se um marido christão, se mahometano, ou judeu; quanto a mim a questão está resolvida, para S. M., desde o momento em que esta augusta senhora, ou para melhor dizer, senhorita, souber qual é das tres religiões aquella, que mais protege e favorece os fracos em geral, e a mulher, em particular.

«Comecemos pela religião judaica.

«A mulher, no povo de Israel, era escrava submissa do homem, e não sua companheira. Quasi nas primeiras paginas, nos testemunha isso o velho Testamento, pois nos diz que Abrahão, marido de Sára, recebeu Agár por mulher, ainda em vida da primeira, e logo adiante nos conta que Esaú casou, ao mesmo tempo, com duas irmãs cananêas. O Decálogo, revelado mais tarde a Moysés, no alto do Sinai, dizia: «não desejarás a mulher do teu proximo»; mas não dizia: «terás uma unica mulher», e Salomão, que era o prototypo da sabedoria hebraica, teve milhares de concubinas. Pergunto eu agora a S. M. se está disposta a soffrer que o seu futuro marido lhe dê uma, ou mais substitutas?!

—Substitutas! a mim!... exclamou a rainha indignada. Tenho bom genio para isso! Mais facil seria enterrarem-me viva!

—Pois eu continúo....

Aqui interrompem os judeus o orador, descontentes do caminho que leva a sua causa; a rainha porém fal-os entrar na ordem, á custa de repetidos toques de campainha, e com ameaça de os fazer expulsar do salão.

O orador continúa:

—Ficarei por aqui a respeito de judeus, os quaes, em verdade, me causam dó, ainda que não seja senão por os vêr condemnados a esperar o Messias, até á consummação dos seculos; com isso já não estão mal castigados por haverem crucificado a Christo, porque lá diz o rifão: «quem espera, desespera». Passemos agora aos mahometanos. Quem era o tal Mafoma?

—O propheta de Deus! exclamam os mahometanos, pondo a mão no peito, e dobrando-se reverentemente.

—Qual propheta, nem qual cabaça!...

Aqui é que foram ellas! Dizer isto o Preste João, e arrancarem os moiraços dos chanfalhos, rugindo de cólera, foi tudo obra d'um momento; a rainha porém sacudiu a campainha, mandou entrar o piquete da guarda, e graças a esta energia da presidencia, accommodaram-se os perturbadores da ordem, e o orador pôde, a final, continuar:

—Mafoma era um sugeito que passava por sabio e grande, entre os seus compatriotas, pela razão muito simples de que na terra dos cégos, quem tem um olho é rei! Um dia, disse elle com os seus botões: Como hei de eu arranjar a dominar estes barbaças, que não tratam senão de se divertir com as moças?... como?... esperem lá... já sei. Engendro-lhes uma religião baseada no grosseiro sensualismo, e metto-lhes na cabeça, que ella me foi revelada por um anjo.» E dito e feito: arranjou o tal alcorão, segundo o qual, a mulher e o cavallo vem a ser, para o homem, uma e a mesma coisa, por isso que apenas servem para o divertir; e fez acreditar aos asnos dos seus compatriotas, que, no outro mundo, haviam de encontrar moças ás duzias, e obra desenganada.

—E é que as havemos de encontrar! gritam furiosos os mahometanos.

—Deixemos-nos de lerias!... que hão de vocês encontrar?! Só se forem alguns tições, que outra coisa não podem lá achar uns barbaros como vocês, que atravessam seculos e seculos, sem dar um passo na senda do progresso! Vamos porém agora a vêr o que é a mulher, segundo a religião estupida de Mafoma.

—Lancem-se essas palavras na acta! gritam, afogados em cólera, os mahometanos.

—Não é da minha real vontade! responde a rainha. Prosiga o orador no seu discurso, que eu cá estou para lhe manter o uso da palavra.

—Pois bem, eu continúo: É para cortar o coração, e fazer caír a alma aos pés, a maneira como a mulher é tratada pelos musulmanos. Não se contentam estes senhores com ter duas ou tres mulheres; possuem centos d'ellas, encerradas em carceres, a que dão o nome de serralhos, ou haréns. Atravessa a gente as cidades mais populosas da Turquia, e não encontra uma mulher siquer para um remedio; e isto porque esses barbaros até as privam do ar e do sol, as duas coisas mais preciosas, que a natureza concede á creatura. Horror! cem vezes horror!! Negarem á mulher, esse formoso ser, todo amor e ternura, a quem todos nós temos dado o dulcissimo nome de mãe, o ar e o sol, que não negam aos mais immundos irracionaes! Maldição sobre essa lei impia, sobre o falso propheta, que a dictou, e sobre o povo barbaro e fanatico, que a segue!

—Ah! perro christão!... gritam, a um tempo, todos os musulmanos, ao ouvir a energica apostrophe do Preste João; e, rugindo de raiva, mais furiosos ainda do que da primeira vez, lançam mão dos alfanges, com ameaça de acabar tragicamente com a discussão; a rainha porém, mandou entrar novamente o piquete da guarda, que os desarmou e os metteu na ordem, a poder de muita coronhada d'armas.

Apasiguada que foi aquella rusga, continuou o Preste João o seu discurso:

—Que differença entre o que a mulher deve á religião christã, e o que deve a qualquer das duas religiões, mahometana e hebraica! Maria, em cujas entranhas encarnou o Verbo Divino, senta-se, no ceu, ao lado do Filho de Deus, e juntamente com Jesus, lhe dão os homens o dulcissimo e santo nome de mãe. A religião christã glorifica a mulher, destinando-a a esmagar a cabeça da serpente do peccado, e Jesus proclama a egualdade de todas as creaturas humanas, e diz aos meninos que se acerquem d'elle, igualando, por tal forma, a mulher ao homem, e exaltando os fracos em cujo numero se conta a mulher. É pois a religião christã a unica que favorece a mulher; é aquella que a emancipa da escravidão e do opprobrio, a que a condemnam as religiões judaica e mahometana. Tenho dito; veremos agora se ha ahi alguem, que seja capaz de me contradizer.

—Teem a palavra os judeus, disse a augusta presidente.

—A religião de Moysés, replicou um rabino, já completamente desanimado, não carece de entrar em discussões, para provar a sua superioridade sobre todas as outras.

—Ficamos inteirados! disse a rainha, e accrescentou: Teem a palavra os doutores musulmanos.

—Nós cá, os verdadeiros crentes, exclamou um turco, não discutimos senão d'alfange em punho.

—Quer isso dizer, á bruta! exclamou a rainha indignada; e erguendo-se da cadeira, accrescentou: estando já a hora mui adiantada, e não havendo mais assumptos a tratar, está levantada a sessão.